A voz de contralto, tépida, sem arroubos e gritos, é única. Além de original, consolidou um estilo único, inimitável. Se começou interpretando standards como a maioria, enveredou-se em composições próprias e alheias do cancioneiro popular com The Weight (Robbie Robertson/The Band), Love Is Blindness (U2), Harvest Moon (Neil Young), Black Crow (Joni Mitchell) e tantas outras, explorando até o repertório country. O que a caracteriza não é apenas isso. Mesmo cantando standards como You Don’t Know What Love Is, é especial, muito em razão dos arranjos que sempre fogem do lugar comum.
Não poderia ser diferente, mesmo quando homenageia Billie Holiday. Mas alguma coisa ficou pelo caminho. Sim, aquele jeito soporífero de cantar de Wilson que, em vez de ser um defeito, é uma característica que a diferencia, se mantém, mas algo se perdeu. É uma hipótese que pode se originar de um certo cansaço por parte de seus ouvintes. Podemos enjoar até das melhores coisas. E, nesse cansaço, procuramos uma novidade. E, nesse momento, Cécile McLorin Salvant, com seu estilo jovial, pode se transformar em um novo alento ou uma variação.
A magia do som de Wilson estava em fundir o velho e o novo. A partir de Blue Light ’til Dawn (Blue Note, 1993) acontece uma transformação. Sua voz, entre o frio e o tépido, se junta a uma concepção sonora totalmente original. São paisagens sonoras, singulares, com arranjos econômicos em que se privilegia instrumentos de cordas pouco comuns como os banjos, resophonic guitars (são violões feitos com metal e madeira, e assim o som fica mais forte do que o do violão comum), muito usadas no bluegrass, pedal steel guitars, slide guitars, bazouki (uma espécie de bandolim com oito cordas, de origem grega) e mandocello (parece um bandolim, de origem italiana), utilizando mais percussões que a bateria.
Uma razão possível de que Cassandra tenha deixado de ser considerada a melhor vocalsta feminina é a de que seus dois últimos discos sejam relativamente fracos em comparação aos anteriores, também. Neste Coming Forth by Day, agora lançado, coicidindo com a efeméride dos 100 anos de nascimento de Lady Day, redime-se razoavelmete dos dois últimos “equívocos”, mas fica longe de álbuns como Blue Light ’till Dawn (Blue Note, 1993) e New Moon Daughter (Blue Note, 1995) em que, aliás tem uma das canções emblemáticas de Billie – Strange Fruit – repetida no mais recente disco.
Compare as duas. Ouça a de New Moon Daughter. Aqui, conta com Chris Whitley na resophonic guitar, Lonnie Plaxico no contrabaixo acústico, e Graham Haynes no cornet.
Ouça a do mais recente álbum.
A homenagem a Eleonora Fagan
A faixa que abre o tributo é Don’t Explain. Para quem quiser saber da “inspiração” da música, leia em http://bit.ly/1EWl1ms. Ouça. Aqui, a instrumentação lembra bem antigos arranjos, econômico e minimalista.
Outra indissociável à figura de Lady Day é Good Morning Heartache. O arranjo é um tanto grandiloquente. Não combina com Wilson. Nick Launay, produtor de Nick Cave, é o mesmo de Shadows in the Night, de Bob Dylan, e agora, do primeiro disco de Cassandra na sua nova gravadora. É uma mistura e tanto: arranjos orquestrais de Van Dyke Parks, dois membros de The Bad Seeds, Nick Zinner, dos Yeah Yeah Yeahs, T Bone Burnett, e o bom pianista (de jazz) Jon Cowherd. Quer saber? Questão de gosto, reafirmo. Tem vezes que não combina. Um dos números mais pavorosos de Coming Forth by Day é You Go to My Head. Parece orquestra de Percy Faith ou qualquer coisa do gênero. Em situação de quase empate, em termos de ruindade, é All of Me.
Ouça Good Morning Heartache.
Crazy He Calls Me é outra que é muito associada a Billie.
A orquestra funciona parcialmente bem em The Way You Look Tonight. Ouça.
Um dos artífices do som tão especial de Wilson é Kevin Breit, que a acompanha faz tempo tocando todos os tipos de instrumentos de cordas citados acima. É o único remanescente das melhores formações dos álbuns da cantora. As duas últimas faixas lembram um pouco o clima dos antigos. A penúltima, I’ll Be Seeing You, é uma das melhores. Bem climática, é espetacular.
Ouça.
Last Song (for Lester) é a homenagem de Cassandra Wilson ao grande parceiro dos melhores anos de Billie. Ela foi a única paixão feminina do homossexual Lester Young.
O melhor tributo a Holiday
José James acabou de lançar Yesterday I Had the Blues, em homenagem a Lady Day. Esse sim é um grande disco. Leia sobre ele e ouça algumas canções em http://bit.ly/1Are1GR
Outro lançamento relacionado a Billie é Because of Billie, de Molly Johnson, lançado ano passado. Não é ruim.
Um mais antigo é Eleonora Fagan (1915–1959): To Billie with Love from Dee Dee, de Dee Dee Bridgewater, de 2010. Não é todo mundo que gosta do estilo um tanto “excessivo” de Dee. Sou um deles, o que não quer dizer nada.

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