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| O cantor José James |
JJ conviveu pouco com o pai músico (saxofonista), natural do Panamá. É aquele velho enredo: família pobre, pai vai embora, mãe cria filho. Teve, nas palavras dele, uma adolescência “fraturada”.
Segunda parte do enredo: foi mudando de cidade em cidade; nasceu em Duluth, Minnesota, morou em Seattle e em Minneapolis. José cresceu – tem hoje 34 anos – curtindo Nirvana, Digable Planets e Ice Cube, como muitos adolescentes de sua geração. O jazz ficou hibernando e viu despertado o interesse conhecendo músicos como Douglas Ewart, um dos expoentes da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), movimento vanguardista que teve entre seus membros Roscoe Mitchell, Anthony Braxton e Henry Threadgill.
A vida o transportou para Londres. Foi tentar a sorte participando de um concurso de canto. Não ganhou, mas uma fita demo despertou o interesse de DJ Gilles Peterson, da rádio BBC 1. Gravou dois discos: The Dreamer e Blackmagic. Passou a apresentar-se em clubes e salas da Europa e do Japão.
Blackmagic (2010) representa já uma amostra do que se ouve em No Beginning No End, o mais novo e primeiro álbum pela Blue Note. Lembra um pouco a música de Ed Motta. Vai por uma levada meio soul, rhythm’n’blues, sonoridades sofisticadas como as de Steely Dan, algo entre o pop e a sofisticação dos arranjos de jazz.
É uma música que encaixa bem no que os selos de jazz procuram hoje: se não for jazz, um híbrido. Há tempos a Blue Note explora sonoridades além do mainstream. Isso vem desde fins dos anos 1950 com Grant Green, Herbie Hancock, Big John Patton e Jimmy Smith. A gravadora que abrigou Bud Powell, Thelonious Monk e Miles Davis, principalmente, nos anos 1960, adaptou-se à força das manifestações pós-Elvis e depois, a dos “invasores” britânicos.
No mesmo ano em que lançou Blackmagic, assinou um contrato com a Impulse para um disco. Com o pianista belga Jef Neve gravou For All We Know. É uma coleção de consagrados standards. Não repercutiu muito. Em 2010, a tão tradicional gravadora que teve seu apogeu com o produtor Bob Thiele e o engenheiro de som Rudy van Gelder, lançando discos de John Coltrane, Charles Mingus, Archie Shepp, Oliver Nelson e McCoy Tyner deixara de ser o que era. Seu último suspiro como selo lançador foi quando contratou a canadense Diana Krall. Hoje é um selo da Verve (Universal Music Group) e só relança o catálogo antigo.
Apesar das reservas da crítica, For All We Know é um belo disco. Não traz grandes novidades, como centenas de álbuns com standards. Até Rod Stewart entrou nessa e está lá pelo enésimo disco desse tipo. É um belo showcase da bela voz que tem, meio “cool”, sem grandes arroubos. É emoção contida para ser apreciada aos poucos.
James não faz feio nos standards. Ouça Embraceable You.
No Beginning No End foi apresentado pronto à Blue Note. Esta resolveu lançar. Era uma boa oportunidade para James ficar mais conhecido em sua terra natal. É um disco com uma certa sofisticação instrumental. Conta com parcerias importantes como a do pianista Robert Glasper e do baixista e produtor Pino Palladino. Tanto um como o outro transita por um tipo de experimentação que extrapola um gênero específico. Palladino participou de inúmeras gravações em estúdio. Glasper, além do trabalho em trio, montou a Robert Glasper Experiment.
Black Radio (2012), de Glasper é uma boa referência para o que é o som de James em No Beginning No End. Ambos nasceram em 1978. Cresceram ouvindo os sons das ruas como o hiphop, funky, rock, soul music, blues, soul music e, inclusive, jazz. O que fazem é uma síntese dessas informações auditivas. E não é mera coincidência que Glasper tenha gravado Smells Like Teen Spirit em Black Radio. O Nirvana era uma das bandas que James ouvia na adolescência.
Ouça It’s All Over Your Body, a primeira faixa do mais recente CD.
Veja It’s All Over Your Body em AllSaints Basement Sessions.
Uma mais calma: Come to My Door.
O YouTube é uma caixa de surpresas. Encontrei uma apresentação de Do You Feel, que está em No Beginning No End. É uma boa amostra das influências do jazz. A do estúdio é uma e nesta apresentação, por ser ao vivo, há espaço para a improvisação dos músicos.
É possível ouvir-se o disco inteiro nesse “youtube”. O site deixou de ser apenas um veículo de imagens. Com frequência estão disponíveis CDs inteiros de muitos intérpretes.

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