quinta-feira, 24 de março de 2016

Art Lande, muito além do jazz

Rubisa Patrol, de Art Lande, é um dos meus “desert island discs”. Saiu em 1976 pela mesma gravadora de Keith Jarrett e Pat Metheny, a ECM. Manfred Eicher não montara apenas uma gravadora. Era um conceito. Não era jazz americano, apesar de seu primeiro lançamento ter sido o do pianista americano Mal Waldron (sobre ele leia http://bit.ly/VJ6Etf). A bem da verdade, o ex-acompanhante de Billie Holiday, após uma crise nervosa e um hiato de seis anos (1963-1969) longe da cena musical, já estava morando na Europa, Alemanha primeiro e depois, Bruxelas, se não me engano. Tornara-se europeu por adoção, ou melhor, um cidadão do mundo. Por conta de ser casado com uma japonesa, até que arranhava um pouco nessa língua, o que foi presenciado com o meu amigo Takashi Fukushima quando veio ao Brasil.

Depois de “descobrir” Rubisa Patrol, procurei outros títulos do americano que, até então, não conhecia. Tenho todos os lançados pela ECM – Red Lanta (1973), Desert Marauders (1977), Skylight (1981), We Begin (1987) e Shift Wind (1980) –, mas nenhum deles estava à altura do disco de 1976.

Red Lanta, anagrama de seu nome, foi o primeiro álbum de Art Lande, em duo com Jan Garbarek. We Begin é um duo com Mark Isham, Skylight é com o vibrafonista Dave Samuels e o mutisopreos Paul McCandless, Shift Wind é em trio com Gary Peacock e Eliot Zigmund, e Desert Maurauders, com o Rubisa Patrol, mas com Kurt Wortman na bateria, em lugar de Glenn Cronkhite.

Rubisa Patrol, nome de sua banda também, era composta por Mark Isham (trumpete, flugelhorn, sax soprano), Bill Douglass (contrabaixo, flauta de bambu) e Glenn Cronkhite (bateria e percussão), além de Lande. 

É difícil classificar Rubisa Patrol como jazz. É música instrumental, é a sintaxe puramente musical entre melodias quase sempre invernais e introspectivas. 

De 1976 até 2015, vai um bom tempo, mas é possível ainda ouvir o disco com prazer. Não envelheceu porque não seguiu alguma tendência da época. As músicas são como paisagens que visitamos ao ouví-las, desde o seu início com Celestial Guests, tema tradicional chinês em solo de ti-zu, flauta feita de bambu, seguida de Many Chinas, de autoria de Isham. Em Jaimi’s Birthday Song, duo de Bill Douglass na flauta transversal e acompanhamento de Art ao piano, estamos em outro momento. É sublime e mágico, assim como Romany, composição de Cronkhite, com destaque para o flugel de Isham e solo de Lande, excepcionais. Logo depois, como um interregno, Bulgarian Folk Tune, dá uma pequena quebrada breve de um minuto, a única mais uptempo. Seguimos outros belos momentos com Corithian Melody, For Nancy, outro take de Jaimi’s Birthday Song, para terminar com a bela A Monk in His Simple Room. Esse título serve como comentário ao disco: Rubisa Patrol tem uma beleza monástica.

Michael G. Nastos da Allmusic conferiu-lhe 4½ estrelas escrevendo que, um dia, Rubisa Patrol será considerado como uma das gravações ECM clássicas de todos os tempos. Ele tem razão.

Ouça Romany.


Ouça A Monk in His Simple Room.

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