E como farsa ou para corroborar nossos maus presentimentos, acontecem coisas. Imagino que deve ocorrer uma espécie de caos coletivo: a impressão é a de que todo mundo fica estressado e meio “desgovernado”. Se o período é de Festas, esse tempo deveria ser o de alegrias, congraçamentos e anseios por paz. Essa “obrigação” pela felicidade pode ter efeito contrário.
Mortes, quanto mais próximas do fim do ano e, se acontecem com pessoas ainda jovens, ficam tingidas de dramatismo maior. Não lembro mais daqueles que morreram no fim de 2010, mas, em 2011, foram registradas muitas; desde a de esportistas como Sócrates (muito jovem ainda), de pessoas ligadas ao teatro como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11); à música, como o saxofonista Sam Rivers (26) e o trombonista e pianista Bob Brookmeyer (16), ambos octogenários; a cantora Cesária Évora (17); o grande desenhista e cartunista Ronald Searle (30), com 92 anos; artistas plásticos como a expressionista abstrata Helen Frankenthaler (27) e o brasileiro Mário Gruber (30); estadistas como Vaclav Hável (também poeta, no dia 18); o ditador da Coreia do Norte Kim Jong-Il; e jornalistas e escritores como o ateísta Christopher Hitchens (15), a alemã Christa Wolf (1), e Daniel Piza, este, dois dias antes que findasse o ano.
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| Piza e seu Machado, lançado pela Imprensa Oficial |
Desses todos, o único que cheguei a conhecer pessoalmente foi o Piza. Fui autor do projeto gráfico de seu livro Machado de Assis – um gênio brasileiro. Imaginava-o arrogante ou qualquer coisa parecida em virtude de, tão jovem, ter coluna fixa em um grande jornal, possuir tanta informação. Pelo contrário; era simples, afável, até demais, e não tinha o mínimo daquela pose de “sabichão”. Uma vez, veio com uma mochila e imaginei que estivesse trazendo livros para escanearmos algumas imagens. Perguntei. Não. Eram apetrechos esportivos para o jogo de futebol, mais tarde.
Uma coisa que me surpreendeu foi a rapidez com que Piza escrevia. Quando fui chamado para elaborar o projeto gráfico, recebi dois capítulos iniciais. Ao mostrá-lo, pela primeira vez, perguntei pelos outros capítulos. Respondeu-me: “Estou escrevendo”. Em um mês, entregara tudo. Pela rapidez com que escrevera, a possibilidade de conterem erros era grande. Foi sugerido que as páginas entregues fossem revistas por dois revisores que conheciam muito bem sobre Machado e sua obra. Piza aceitou tranquilamente, sem crise, sem achaques de superstar. Aceitou também nossas sugestões de imagens, além das que pretendia inserir.
Casualmente, saindo um pouco do foco de Machado, conversamos sobre música e literatura. Disse, com a maior naturalidade, que tinha estudado com George Steiner, sem transparecer alguma superioridade ou sapiência. Lembro que, conversando sobre literatura latinoamericana, recomendou-me Juan José Saer.
Ficou marcado o fato de Piza ter “enforcado” Jesus, quando trabalhou na Folha de S. Paulo. Virou motivo de chacota entre seus pares; alguns passavam perto dele e colocavam a mão no pescoço e outros diziam “não se preocupe, seu pescoço não está na forca”. Por distração, sim, e por proximidade de datas, era factível confundir de Tiradentes com Jesus. E depois, até uma criança de três anos sabe que Cristo morreu na cruz, principalmente, num país tão católico como o nosso.
Quando o livro sobre Machado foi lançado, a revista Veja fez uma matéria sem assinatura descendo a lenha no escritor e não na obra. Golpe baixo. Houve também uma crítica bem negativa de Luis Augusto Fischer em Zero Hora, de Porto Alegre, e outra de Wilson Martins, de O Globo. Todas foram respondidas. A melhor resposta de Piza, bem pessoal, foi dirigida a Martins: alguém que considerava Josué Montello o maior escritor brasileiro e não gostava de João Cabral de Mello Neto não podia ser bom crítico.
O que era uma qualidade, ao mesmo tempo, era um defeito: escrevia muito rápido. E, deveras, Piza deixara passar muita coisa, que também passou pelos revisores editoriais. Tinha ficado surpreso ao ficar sabendo que não havia ninguém ajudando-o, um assistente ou alguém que fosse fazendo um pente-fino à medida que escrevia. Muitos desses erros foram corrigidos na segunda edição e o livro teve boa vendagem.
Os domingos, pelo menos os meus, agora em 2012, serão diferentes. Concordando ou discordando, pulando uma coisa ou outra, sua coluna em O Estado de S. Paulo era uma fonte de informação de qualidade. Não gostava de quando falava mal do governo petista, não por questão partidária. Pulava, assim como me recuso a ler qualquer coisa de Ferreira Gullar falando mal do governo, apesar de admirá-lo quando fala de artes plásticas e literatura. Do mesmo modo, acho um horror petistas falando mal do PSDB.
O que vai ficar marcado em mim, repito, é essa impressão que tive ao conhecê-lo e, acho, que está explicitado em uma entrevista concedida ao português João Pereira Coutinho, em janeiro de 2008. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos.
1. O conhecimento não é "virtude", no sentido de que não redime ninguém. Mas anima, dá prazer – e principalmente alternativa aos desprazeres. Não vejo valor inerente à ignorância. Vejo valor em não crer que haja sabedoria plena.
2. Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoiévski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou.
3. Muita gente pensa que arte é terapia, é confissão, é modo de ocupar os jovens com lazer em vez de deixá-los à mercê do crime. Não: artes e ideias são formas de intensificar a vida, de multiplicar nossas opções, de ir além da vidinha apoiada sobre as muletas emprego & família... Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!
Uma coisa que me surpreendeu foi a rapidez com que Piza escrevia. Quando fui chamado para elaborar o projeto gráfico, recebi dois capítulos iniciais. Ao mostrá-lo, pela primeira vez, perguntei pelos outros capítulos. Respondeu-me: “Estou escrevendo”. Em um mês, entregara tudo. Pela rapidez com que escrevera, a possibilidade de conterem erros era grande. Foi sugerido que as páginas entregues fossem revistas por dois revisores que conheciam muito bem sobre Machado e sua obra. Piza aceitou tranquilamente, sem crise, sem achaques de superstar. Aceitou também nossas sugestões de imagens, além das que pretendia inserir.
Casualmente, saindo um pouco do foco de Machado, conversamos sobre música e literatura. Disse, com a maior naturalidade, que tinha estudado com George Steiner, sem transparecer alguma superioridade ou sapiência. Lembro que, conversando sobre literatura latinoamericana, recomendou-me Juan José Saer.
Ficou marcado o fato de Piza ter “enforcado” Jesus, quando trabalhou na Folha de S. Paulo. Virou motivo de chacota entre seus pares; alguns passavam perto dele e colocavam a mão no pescoço e outros diziam “não se preocupe, seu pescoço não está na forca”. Por distração, sim, e por proximidade de datas, era factível confundir de Tiradentes com Jesus. E depois, até uma criança de três anos sabe que Cristo morreu na cruz, principalmente, num país tão católico como o nosso.
Quando o livro sobre Machado foi lançado, a revista Veja fez uma matéria sem assinatura descendo a lenha no escritor e não na obra. Golpe baixo. Houve também uma crítica bem negativa de Luis Augusto Fischer em Zero Hora, de Porto Alegre, e outra de Wilson Martins, de O Globo. Todas foram respondidas. A melhor resposta de Piza, bem pessoal, foi dirigida a Martins: alguém que considerava Josué Montello o maior escritor brasileiro e não gostava de João Cabral de Mello Neto não podia ser bom crítico.
O que era uma qualidade, ao mesmo tempo, era um defeito: escrevia muito rápido. E, deveras, Piza deixara passar muita coisa, que também passou pelos revisores editoriais. Tinha ficado surpreso ao ficar sabendo que não havia ninguém ajudando-o, um assistente ou alguém que fosse fazendo um pente-fino à medida que escrevia. Muitos desses erros foram corrigidos na segunda edição e o livro teve boa vendagem.
Os domingos, pelo menos os meus, agora em 2012, serão diferentes. Concordando ou discordando, pulando uma coisa ou outra, sua coluna em O Estado de S. Paulo era uma fonte de informação de qualidade. Não gostava de quando falava mal do governo petista, não por questão partidária. Pulava, assim como me recuso a ler qualquer coisa de Ferreira Gullar falando mal do governo, apesar de admirá-lo quando fala de artes plásticas e literatura. Do mesmo modo, acho um horror petistas falando mal do PSDB.
O que vai ficar marcado em mim, repito, é essa impressão que tive ao conhecê-lo e, acho, que está explicitado em uma entrevista concedida ao português João Pereira Coutinho, em janeiro de 2008. Tomo a liberdade de reproduzir alguns trechos.
1. O conhecimento não é "virtude", no sentido de que não redime ninguém. Mas anima, dá prazer – e principalmente alternativa aos desprazeres. Não vejo valor inerente à ignorância. Vejo valor em não crer que haja sabedoria plena.
2. Acho que é pretensão pura, mesmo. Vontade de ser celebrado em vida e post mortem. Vontade de estar na história. O problema desses escritores não é tentarem ser Mann ou Dostoiévski, é pensarem como Napoleão. Essa vaidade besta é que os impede de ter autocrítica e de ir pouco a pouco escrevendo uma obra gradual e verdadeira, que dá trabalho, muito trabalho... Monteiro Lobato tem uma imagem que adoro: diz que o estilo é como um subproduto das buscas do autor, como o cheiro que surge na fruta madura. Diz mais, diz que isso só acontece perto dos 40 anos na prosa. Pode conferir: todo grande prosador atingiu o auge depois dos 30-35. Por sinal, foi com a minha idade, 38 anos (que completarei em 28 de março), que Proust se enfiou naquele quarto de cortiça para escrever a 'Recherche'. Meu azar é não ser Proust. Minha sorte é saber que não sou.
3. Muita gente pensa que arte é terapia, é confissão, é modo de ocupar os jovens com lazer em vez de deixá-los à mercê do crime. Não: artes e ideias são formas de intensificar a vida, de multiplicar nossas opções, de ir além da vidinha apoiada sobre as muletas emprego & família... Quando olho para meus livros, CDs e DVDs, penso: quanta coisa boa para (re)viver!
Como uma pequena homenagem ao Piza, coloco Almost Blue, de um dos seus preferidos – Elvis Costello –, aqui cantado pelo mestre Chet Baker.

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