sexta-feira, 3 de abril de 2015

José James faz tributo espetacular a Billie Holiday

Desde a invenção dos fonógrafos, por Thomas Edison, o mundo da música passa a sofrer transformações rápidas. Dos pesados discos de acetato em 78 rpm ao mp3, aconteceram muitas coisas num espaço de tempo pequeno. Do fim dos LPs, invenção do CD, à internet, a indústria da música foi tendo que se adaptar e se reinventar. Um gênero considerado antigo, o da música erudita, na década de 1960, tinha 20% do mercado fonográfico e diminuíram para 5% em uma década, segundo Alex Ross, em Escuta Só – do clássico ao pop (Cia. das Letras, 2011). Atualmente, tem 2%. Como a história se repete como farsa, o jazz, gênero entre o pop e o erudito, vê o mesmo acontecer. Para reagirem ao decréscimo de vendas, gravadoras tradicionais como a Verve e a Blue Note, buscam saídas.

O que estava ruim pode ficar pior, de acordo com a velha máxima: mais venda, menos qualidade. Nos lugares outrora ocupados por Norman Granz e Bruce Lundvall, hoje estão David Foster e Dan Was, respectivamente. Um bom exemplo do que isso representa é o mais recente Wallflower, de Diana Krall. O álbum recebeu várias críticas negativas devido a, segundo alguns, “mão podre” de Foster. São sinais dos tempos. Eu gostei do disco e continuo a achar Krall, tremenda cantora. Faz um pouco de falta aquela energia dos primeiros álbuns, reconheço. Deve-se considerar que Diana cresceu ouvindo Elton John, Eagles, Jim Croce e Bryan Adams. É o caso de José James também. Cresceu gostando de Nirvana, hip-hop e aprendeu a gostar de jazz. Apesar dos detratores dos saudosos da Diana dos primeiros tempos, ela, nada mais que gravando canções que ouvia – e gostava – na adolescência.

Billie Holiday – 100 anos
Quando James foi contratado pela Blue Note, No Beginning No End estava pronto. Não teve teve mão do atual A&R do selo, Don Was. Era um disco de James, com a maioria das canções de sua autoria, assim como no seguinte While You Were Sleeping, comentado no post passado (http://bit.ly/1NHLW4i). Aparentemente, o mais recente Yesterday I Had the Blues, é bem diferente e deve ter a mão de Don Was, creditado também como produtor. É seu disco com mais standards desde For All We Know (Impulse, 2010), mas este era um duo com o pianista Jef Nieve.

Em Yesterday I Had the Blues, o subtítulo é A Tribute to Billie Holiday. É provável que as gravações já estivessem sendo “preparadas”, pois há uma apresentação disponibilizada de JJ no AB - Ancienne Belgique de 2012, e as músicas são do repertório de Billie. Neste show, os músicos são os mesmos de sua banda regular: o tecladista Kris Bowers, o saxofonista Michael Campagna, o trompetista Takuya Kuroda, o baixista Solomon Bowers e o baterista Richard Spaven.

A apresentação é apenas um “esquenta”, uma preparação para o álbum a ser lançado agora no começo de abril coincidindo com o centenário de nascimento de Lady Day. É muito diferente do álbum lançado hoje. É bem inferior.

Veja-o na íntegra.




O grande diferencial deste gravado em estúdio são os músicos que o acompanha: Jason Moran, John Patitucci e Eric Harland, um line up primoroso. É um line up para ninguém botar defeito. O premiado e prestigiado Jason Moran faz a diferença. Suas intervenções discretas e, às vezes, mínima, são de uma sutileza impressionante. Eric Harland está em perfeita sintonia com Moran. Ambos tocam há tempos com Charles Lloyd (sobre ele, leia xxxx). John Patitucci completa o trio.

Um bom exemplo da perfeição da banda e de JJ é Body and Soul. Ouça.





É difícil destacar alguma faixa, de tão bom que é o álbum. James tem uma voz grave, máscula, sem arroubos, mas que, assim mesmo, transpira sentimentos de vulnerabilidade, ternura e dor, tão típicos dos temas mais conhecidos de Billie. Muitas são inesquecíveis na voz de Lady Day. São tantas que seria impossível incluí-las em um único CD. Não faltam as intrínsecamente ligadas a ela, como Strange Fruit, God Bless the Child, What a Mooonlight Can Do e Fine and Mellow. As restantes, além de Body and Soul, são I Thought About You, Lover Man e Tenderly.

Ouça esta última.





Yesterday I Had the Blues, desde já, é um dos grandes lançamentos do ano. E olhe que estamos apenas em abril. Ouça o CD na íntegra no Spotify.

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