quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Discografia selecionada de John Abercrombie

O cabelo rareou e o bigodão continuou
Quando estava na faculdade, muitos gostavam de música e, sendo USP, muitos podiam comprar discos importados ou viajar e adquiri-los fora. Não era o meu caso. Um deles, por outras razões – sua mãe era funcionária da Varig –, viajava uma vez por ano para visitá-la. O Robert era a pessoa que apresentou-me muitos discos da ECM. Acho que ele tinha todos, ou quase.

Quando estava na faculdade, estava no terceiro ano, acho, saiu uma primeira leva de alguns títulos da ECM, pela PolyGram. Comprei todos. Não lembro se foi na primeira ou na segunda leva, um deles era “Timeless”, de John Abercrombie, Jan Hammer e Jack DeJohnette. Conhecia Hammer pela participação na Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin, e DeJohnette, por “Bitches Brew”, de Miles Davis.

Minha geração formou o gosto por meio de muita música associada ao rótulo “rock progressivo”. Os mais velhos e mais puristas achavam aquele som cheio de moogs (o primeiro sintetizador a existir), mellotrons, uma aberração. À medida que expandíamos o nosso repertório musical, outros gêneros entravam em nossos horizontes. Para mim, foi o jazz, por meio, justamente, de bandas ou músicos que eram classificados na época como “jazz-rock”, gente, na maioria, oriunda das formações de “Bitches Brew”, de Miles Davis.

Anos ECM
“Timeless” nem era o melhor dos álbuns da ECM lançados no Brasil. Do pacote, os de Pat Metheny, Gary Burton, Miroslav Vitous e John Surman eram bens mais interessantes, porém, a canção título do disco de John Abercrombie era uma obra prima. E foi o que ficou registrado. Acho que pesou desfavoravelmente a bronca que, aos poucos, passei a ter de Hammer. A minha confirmação definitiva de que não gostava dele veio com “Jeff Beck with the Jan Hammer Group” (CBS, 1977). Ainda bem que resolveu fazer trilhas de cinema e séries de TV.

Ouça “Timeless”.




Em 1977, além de “Gateway 2”, o segundo em formato trio, com Dave Holland e Jack DeJohnette, saiu “Characters”, solo dele, tocando em overdubs violão, guitarra e bandolim elétrico. Estampou toda a sua maestria como instrumentista, compositor e improvisador. Se alguém quer conhecer a sua música – digo àqueles que nunca o ouviram – e querem ter um único disco dele, este é a escolha certa.

Ouça “Parable”, a primeira do álbum.




John gravou umas duas dezenas de álbuns para a ECM, com formações bem diferentes. Sua guitarra com aquela sonoridade etérea, meio abstrata, com o passar do tempo foi ficando mais seca, valorizando mais ainda o seu talento para harmonia, valorizando a sofisticação no desenvolvimento dos temas musicais. Abercrombie é um dos poucos que se pode reconhecer às primeiras notas. Seu estilo era inconfundível, tocando com quem fosse.

Algumas recomendações
Obviamente, não ouvi todos os discos do guitarrista. Faço uma lista bem pessoal do que ouvi.

• “Timeless” (ECM 1974) – Vale pela música título. Existe uma grande gravação dela de Ralph Towner, em “Solo Concert” (ECM 1979).

• “Sargasso Sea” (ECM 1976) – Álbum em duo com Ralph Towner. O violonista (nunca tocou guitarra) admirava Abercrombie. Este é melhor do que “Five Years Later” (ECM 1981)

• “Characters” (ECM 1977) – Sons de guitarras, violões e bandolins elétricos em overdubs. Primoroso.

• “Abercrombie Quartet” (ECM 1979) – Perfeita combinação do lirismo de John e o pianista Richard Beirach. Completam o quarteto George Mraz e Peter Donald.

• “Straight Flight” (Jazzamerica 1979) – Com o mesmo baixista e baterista, executa standards como “In You Own Sweet Way”, “Nardis”, “There Is No Greater Love”, dentre outros. John privilegia composições próprias ou de quem toca com ele, na ECM. Nos outros selos demonstra como é bom nos standards também. O destaque é a versão matadora de “My Foolish Heart”.

Ouça o álbum na íntegra.




• “November” (ECM 1992) – Um dos meus preferidos. Uma das razões é John Surman, um dos mais geniais no sax barítono, clarineta baixo e sax soprano. Os outros de “November” são Marc Johnson e Peter Erskine. Time de primeira.

Ouça a faixa título.




Ouça “J.S”, composição de Abercrombie e Surman no sax barítono. Genial.




• “Open Land” (ECM 1998) – Este álbum é uma boa amostra por conta dos músicos participantes. Estão no line-up o genial Kenny Wheeler, falecido em 2014, Joe Lovano (saxofone), Dan Wall (órgão), Mark Feldman (violino) e Adam Nussbaum (bateria). Boa amostra porque estão reunidos alguns que participaram de outras formações da banda de John.

• “The Third Quartet” (ECM 2007) – O tal terceiro quarteto não estava gravando pela primeira vez: John, Mark Feldman, Marc Johnson e Joey Baron.  Antes deste, foi lançado “Class Trip” (ECM 2003), com a mesma formação. Depois, em 2009, na mesma gravadora, saiu “Wit Till You See Her”, com Thomas Morgan no lugar de Johnson. O diferencial é o violino de Feldman, o melhor, talvez, da atualidade.

Ouça “Elvin”. Claro que não falta um solo de bateria, já que a referência deve ser Elvin Jones.

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