quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Muito cedo, John, muito cedo

John Abercrombie: um bigode de causar inveja a Pedro de Lara
Meu amigo Matias escreveu no Facebook que ninguém noticiou a morte de John Abercrombie. Nem uma notinha, daquelas de cinco linhas. Para quem não o conhece, basta de dizer que gravou mais de duas dezenas de discos pela gravadora ECM, além de ter participado de outros, como Kenny Wheeler – outro falecido há três anos, sem merecer uma linha nos jornais brasileiros –, Jack DeJohnette, John Surman, Ralph Towner, Dave Holland, Michael Brecker, Mark Feldman e tantos outros. Em outros selos, lançou bons CDs com Marc Copland (pianista dos dois últimos de Abercrombie), Andy LaVerne, Lonnie Smith Randy Brecker e Billy Cobham.

Devido às poucas informações, nem sabia que estava doente, e estava há um bom tempo – segundo nota do site da ECM, “long illness”.. Morreu do coração no dia 22 de agosto. Tinha 72 anos. Novo, considerando-se as médias atuais. “Up and Coming” foi o primeiro álbum da ECM a ser lançado neste ano e passa a ser o último dele em vida. É uma despedida em alto estilo. Certamente sairão outros depois da morte. Manfred Eicher deve ter muitas gravações guardadas na gaveta.

O quarteto é formado pelo guitarrista, Marc Copland, pianista parceiro de vários outros projetos, o contrabaixista Drew Gress e o baterista Joey Baron. É uma banda à beira da perfeição. É a mesma formação do penúltimo, “39 Steps” (ECM, 2013). Tocam  juntos há tempos. “Better by Far”, o mais recente de Copland como líder, conta com Drew e Gress, e o trompetista Ralph Alessi.

Com o passar do tempo, a guitarra com efeitos que resultavam em um som meio fluido, que parecia desmanchar-se no ar, foi ficando mais seca, destacando mais ainda a riqueza harmônica e melódica imprimida nos temas e improvisos. Foi ficando cada vez mais Jim Hall, digamos, um dos mestres do “less is more”.

Abercrombie chegou a um grau de harmonia com Marc Copland que lembra a lendária reunião de Jim Hall com Bill Evans. Uma boa amostra dessa combinação é “Speak to Me” (Pirouet, 2011). São quarenta anos de amizade musical.

Ouça os dois.




Copland tem uma veia lírica bem acentuada, perfeito para o estilo do guitarrista. O resultado é uma música cheia de sutilezas harmônicas, quase minimalista, em que se valorizam as nuances sonoras.

Em “Up and Coming” brilham igualmente Marc e John. Quatro composições são do primeiro (“Joy”, “Flipside”, “Sundayschool”, “Up and Coming” e “Jumbles”), duas do segundo (“Tears” e “Silvercircle”). A única que não é de nenhum dos dois é “Nardis”, de Miles Davis.


Ouça “Up and Coming” na íntegra.



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