quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A doce Maria Mendes

Maria Mendes (ph: Eric van Nieuwland)
A mãe de uma amiga dos tempos da faculdade, por muitos anos, manteve uma pequena casa que vendia doces e servia almoços a preços razoáveis, na movimentada avenida Juscelino Kubitschek, esquina com a rua João Cachoeira, se não me falha a memória. Acho que não existe mais.

Cientes de suas habilidades na cozinha, combinamos, eu e mais alguns amigos, um dia, conhecermos a casa. Chamava-se Doce Maria. Depois do almoço, conversando com ela, justificou o nome citando um trecho da Bíblia. Não vou lembrar agora de que parte, católico que sou apenas no tempo em que ia às missas dominicais na infância, em Passos – MG.

Nem sei bem a razão dessa lembrança. Talvez seja por achar o nome “Maria” bonito e o “doce” confere ao nome uma qualidade. É um nome simples e, independente da simbologia cristã, é belo. Não sei se é por isso que fiz questão de visitar a última morada de Maria, mãe de Jesus, em Éfeso, na Turquia.

Sendo um país de tradição cristã, Portugal tem muitas Marias, compostas ou não com outros nomes, mas, simplesmente Maria é mais interessante. É sintético. Dentre elas, há a cantora Maria Mendes.

O maior problema com um nome tão comum é a dificuldade na pesquisa pela internet. Ao “buscá-lo”, descubro que existe outra cantora com o mesmo nome, portuguesa e fadista. Mas a Maria que me interessa conhecer é a de “Innocentia”, álbum lançado em 2015, e não é entusiasta do gênero, presumo.

Depois de achar sua página no Facebook, e ver que tem uma página própria – maria-mendes.com –, fico sabendo de mais algumas coisas. Estudou música na cidade do Porto, passou uma temporada em Roterdã para concluir a licenciatura, viajou para Nova York e para o Rio de Janeiro, antes de se lançar profissionalmente. Os países das duas cidades estão bem representadas no repertório de “Innocentia”. Estão presentes desde composições eruditas ou tradicionais de Heitor Villa-Lobos (“Bachianas Brasileiras”), Radamés Gnatalli (“Sonatina Coreográfica: Baião”), aos não tanto, como Antônio Carlos Jobim (“Água de Beber”) e Hermeto Paschoal (“Ovo”). Pelo lado anglo americano, seu confessado amor pelos musicais da Disney está presente com “When You Wish Upon the Stars”, de Lee Harline e Ned Washington, do filme “Pinocchio”. Outros temas de língua inglesa são “Smile”, de Charles Chaplin, em uma interpretação personalíssima e muito boa, “Fragile”, de Sting, que já é um standard, e “Handful of Soul”, de Jimmy Woode. ºAutumn Leaves” é a versão em inglês do standard “Les feuilles mortes”, de Joseph Kozma e letra original do poeta Jacques Prévert.

A banda que a acompanha é de primeira. Me parece que atualmente mora na Holanda. Os músicos são de lá: Karel Boehlee (ótimo pianista), Clemens van der Feen no contrabaixo e Jasper van Hulten na bateria. A convidada é muito especial: é Anat Cohen, que toca clarineta em quatro das doze faixas.

Maria Mendes, além de ótima intérprete, compõe também. São de sua autoria “Innocentia”, “Innocent Travels” (música de Pat Metheny) e “Inverso”, a melhor do álbum, na minha opinião.

Veja Maria Mendes a cantar “Inverso”, em uma apresentação na Holanda.



Maria canta “Bachianas Brasileiras no. 5”, de Villa-Lobos.



Maria mostra que tem balanço, em “Água de Beber”.



Assista ao vídeo oficial de “Innocent Travels”, dela e de Pat Metheny.




A melhor versão de “Fragile”, de Sting, que ouvi até agora, na minha opinião, é dela.

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