terça-feira, 14 de agosto de 2012

Jimmy Scott ou Um lugar chamado “Heaven”

O grande “Little” Jimmy Scott
Tanto tempo depois, ouvir Talking Heads continua sendo um prazer. Uma música, em especial, mereceu algumas interpretações memoráveis: Heaven. Mereceu uma gravação matadora no primeiro álbum do Simply Red, quando Mick Hucknall ainda não havia sucumbido à fama e às farras. Picture Book (1985) revelou um cantor de voz de registro agudo, muito especial. Coincidentemente, outro intérprete de voz de contralto gravou Heaven. Menos conhecido, chama-se Jimmy Scott. Este merece alguns parágrafos.

Scott nasceu com Síndrome de Kallmann, que é um mal que compromete o crescimento. Essas pessoas não completam o ciclo da puberdade. Cresceu pouco e manteve a voz de menino, algo parecido com que que ocorria com os castratti. Na Renascença, retirar o saco escrotal de meninos para que não atingissem a puberdade e mantivessem a voz aguda, era um procedimento usual no meio musical. Existem hoje, alguns cantores com esse registro especial, os chamados contraltos masculinos ou contratenores, mas não necessariamente, têm essa síndrome ou tiveram de passar por esse cruel procedimento. O cantor mais conhecido da atualidade é Philippe Jaroussky. Antes dele, o grande nome foi o inglês Alfred Deller. Para que se entenda melhor, os brasileiros Ney Matogrosso e Edson Cordeiro podem se encaixar nessa classificação.

Jimmy Scott foi descoberto e tornou-se cantor da banda de Lionel Hampton em 1948. Logo mais, partiria para a carreira solo gravando no selo Roost. Como muitos gênios musicais, foi frequentemente enganado quando o assunto era dinheiro. Foi passando de gravadora em gravadora, primeiro indo para a Savoy, e depois para a King Records e depois voltando para a anterior. Gravou discos que não estavam à altura de seu talento. A carreira entrou em declínio e passou a se apresentar em qualquer espelunca que o convidasse. Um dos maiores responsáveis por isso foi Herman Lubinsky, dono da gravadora Savoy, que o deixou “preso” sob contrato.

Um cantor que um dia foi elogiado por ninguém menos que Ray Charles (Jimmy já era “soul” quando as pessoas não costumavam usar essa palavra), ficou à deriva, esquecido. Quem, de certo modo, o resgatou foi Doc Pomus. Lou Reed fez um disco e um show em homenagem a Pomus após a morte deste e convidou Jimmy para fazer os backing vocals em Magic and Loss, em 1992. Há um registro desse show em vídeo.

Ouça Lou Reed e Jimmy Scott em Satellite of Love. A segunda voz é de Jimmy.




No mesmo ano Scott voltou a gravar um disco à altura de seu talento: All the Way. Foi uma volta gloriosa. Tendo Kenny Barron, Ron Carter, Grady Tate, John Pisano e David “Fathead” Newman, com arranjos orquestrais de Johnny Mandel, Dale Oehler e John Clayton, Scott canta standards consagrados como All the Way, Embraceable You, Everytime We Say Goodbye e I’ll Be Around, dentre outros, é obra-prima. Se você não tem esse disco, corra e compre no site da Amazon.

Como no caso de Alberta Hunter, Jimmy foi redescoberto. Gravou vários outros discos pela Sire Records, e depois, pela Milestone. Faz um tempo que não se tem notícia de algum novo disco. Mas Jimmy está vivo; nasceu em 1925, ano em que nasceu o meu pai.


A letra de Heaven
O bar, que se chama Heaven, ou o céu é um lugar onde nada acontece? Tire suas conclusões.

Everyone is trying to get to the bar/ The name of the bar, the bar is called Heaven/ The band in Heaven plays my favorite song/ They play it once again, they play it all night long// Heaven, Heaven is a place/ A place where nothing/ Nothing ever happens/ Heaven, Heaven is a place/ A place where nothing/ Nothing ever happens// There is a party, everyone is there/ Everyone will leave at exactly the same time/ Its hard to imagine that nothing at all/ Could be so exciting, could be so much fun.


Veja Heaven na interpretação de Byrne no show Stop Making Sense, dirigido por Jonathan Demme. Tina Weymouth é a baixista.




Veja Mick Hucknall cantando Heaven. Maravilhoso. O cara já foi bom!




Ouça com Jimmy Scott. Esta gravação está no disco do mesmo nome. É acompanhado por Jacky Terrasson. A gravação é de 1996.

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