terça-feira, 1 de março de 2016

A guitarra etérea de Ben Monder

Ben Monder e sua Ibanez
O curioso em ler fichas técnicas descobrirá o nome de Ben Monder no último álbum Blackstar, de David Bowie. Mas Ben não é exatamente do rock. O fato é que o inglês resolveu em sua obra derradeira ter músicos ligados ao jazz como acompanhantes.

Aquele que gosta de Maria Schneider e sua orquestra, verá que Monder é o seu guitarrista em vários álbuns. Tocou também em Gardens of Eden (ECM, 1999), disco em que Paul Motian junta três guitarristas: ele, Steve Cardenas e Jakob Bro.

Se você for fã do cantor cult Theo Bleckmann, sabe muito bem quem é Ben. O nome de ambos está na capa de No Boat, de 1997. Theo é daqueles que, por suas abordagens pouco comuns, é um tanto difícil de se gostar. A crítica, no entanto, o adora. Há coisas dele realmente chatas, mas sua releitura do álbum Hello Earth, de Kate Bush, é bem interessante, além do recente A Clear Midnight - Weill and America (ECM 2015), com a pianista Julia Hülsmann,

Ben Monder está mais associado a nomes que não fazem parte do mainstream do jazz, como Jim Black, John Hollenback, Gorka Benítez, Aaron Schragge, Frank Woeste, Jerome Sabbagh e Kristjan Randalu. Agora, com o lançamento de Amorphae, pela ECM, certamente, terá seu talento reconhecido por muito mais pessoas.

Monder não é guitarrista que faz o tipo “mais rápido do oeste”. Não tem a metade da velocidade de Steve Morse ou Al DiMeola. Ele prefere explorar as sonoridades de sua guitarra, sem pirotecnias. Mesmo em andamentos mais rápidos há uma fluidez que o diferencia dos loucos por velocidade com o pé no acelerador e o outro na embreagem ao mesmo tempo.

Participando como sideman em inúmeros discos, tem poucos como líder. Não passa de uma dezena. Depois de Oceania (Sunnyside, 2005) e At Night (Songlines, 2007), este, dividido novamente com Theo Bleckmann, só foi lançar um outro em 2013, com Hydra. Lá está Theo, de novo. Faz vocalizações muito interessantes.

Ouça Elysium. É a faixa de abertura. Apesar de frequentemente comparado a Bill Frisell, Pat Metheny e John Abercrombie, seu estilo é outro. Como Abercrombie, gosta de sonoridades líquidas, meditativas e bem climáticas. A canção é uma boa amostra disso.




Amorphae
Em vez de compará-lo a outros guitarristas, é interessante definir o seu estilo com o de Paul Motian. Há grandes semelhanças de conceito em suas músicas. A bateria de Paul privilegia os cromatismos sonoros e menos os ritmos esquizofrênicos. Privilegia o som por meio do silêncio.

Amorphae começou como um projeto de duo com a baterista Motian e a guitarra de Monder. O primeiro registro é de 2010, acredito que como consequência da sua participação em Gardens of Eden, de 2004. Com a morte dele, em 2011, ficaram apenas duas gravações em duo e um solo. Em 2013, Ben entrou no estúdio com o baterista avant garde Andrew Cyrille e Pete Rende nos sintetizadores, para completar o disco. O clima geral é de improviso, sempre com as sonoridades etéreas da guitarra em primeiro plano. Por vezes é um tanto glacial e quase sempre Ben é minimalista. Recebeu 4 estrelas e meia na Downbeat de janeiro de 2016. Merecido. Ben Monder é especial.

Ouça Oh, What a Beautiful Morning, em duo com Paul Motian, a melhor faixa, na minha opinião.





Ouça as faixas de Amorphae em http://www.prostudiomasters.com/search?q=ben+monder#quickview/album/5996


Ben Monder | Amorphae
ECM, 2015



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