quinta-feira, 3 de março de 2016

O "range" de Pete McCann

Pete McCann nas gravações de Range
Dois instrumentistas moldaram – ou mudaram – a forma da guitarra no jazz, com o advento do chamado jazz-rock, ou jazz fusion, seja lá o rótulo que tornou conhecidos bandas como o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, e o Return to Forever, de Chick Corea. Um deles foi parte da primeira fase da eletrificação do jazz, participando da banda de Miles Davis que produziu o revolucionário, na época, Bitches Brew: John McLaughlin; o outro, Pat Metheny.

O inglês iniciava uma carreira promissora com o fenomenal Extrapolation (Polydor, 1969), com seus conterrâneos John Surman, Brian Odgers e Tony Oxley. Miles Davis queria um guitarrista. Tony Williams sugeriu McLaughlin, da sua banda Lifetime.

Depois de se desligar de Miles Davis, deixou as drogas e ligou-se ao guru indiano Sri Chimmoy. Lançou Where Fortune Smiles, My Goals Beyond e, com o neo convertido Carlos Santana, Surrender. Logo depois, montou outra banda, a Mahavishnu Orchestra.

Elementos do rhythm’n’blues e do rock passaram a ter influência em meados dos anos 1950 por meio das guitarras de Wes Montgomery e Grant Green. O último, tem vários álbuns pelo selo Blue Note que apontam para um estilo mais funk e menos bop. Ambos morreram cedo – antes de completarem 50 –, mas apontavam para um mudança no jazz.

Posteriores aos dois, McLaughlin incorpora mais efetivamente o rock ao jazz, influenciado por uma nova geração de guitarristas brilhantes, como Jimmy Hendrix, Eric Clapton e Jeff Beck. O modo mais agressivo de se tocar – ou mais barulhento, se preferirem –, com mais efeitos de pedal, se estabelecerá com McLaughlin, Pete Cosey, Reggie Lucas e Al DiMeola.

Um outro estilo

Mais novo que McLaughlin, Pat Metheny é outro que apresenta outro parâmetro às sonoridades da guitarra. Como John, absorveu valores da música que ouvia nos rádios quando adolescente. Em uma entrevista, depois de ter gravado American Garage, disse que uma de suas bandas preferidas era Steely Dan, de Donald Fagen e Walter Becker.

Precoce, conheceu Gary Burton quando foi estudar em Boston. Convidado pelo vibrafonista, participou d o belíssimo e abstrato Ring (ECM, 1974). O talento incomum de Pat levou-o a gravar Bright Size Life, convidado pelo dono e produtor da gravadora. Com Pastorius, novamente, e Bob Moses na bateria, fez uma estreia brilhante e incomum.

Sua primeira gravação foi com Paul Bley e Jaco Pastorius, seu conhecido dos tempos em que estudou na Flórida, em 1974, pela recém criada Improvising Artists, do pianista e sua mulher Carol Gross.

Logo depois, partiu para a carreira solo, firmando uma parceria com o tecladista Lyle Mays, gravando desde álbuns de ambiência roqueira, como American Garage e Offramp, jazzísticos como 80/81, com Dewey Redman, Charlie Haden e Michael Brecker, “atmosféricos”, como As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls, e em formato quarteto, como em Watercolors. Por meio dessa diversidade sonora, Metheny exerceu forte influência sobre guitarristas da mesma geração e posteriores.

Pete McCann
Como Ben Monder, comentado em posts passados, Pete McCann participou de quase uma centena de gravações e apresentações como sideman e pouco gravou como líder. Isso, não significa de maneira nenhuma que sejam músicos secundários.

Troy Collins, em All About Jazz, ao comentar sobre Range, CD mais recente, escreve que, apesar do virtusionismo impressionante de McCann, na cena do jazz em Nova York há mais de 25 anos, “misteriosamente, continua sem ter reconhecimento generalizado.” É provável que pesa o fato de ter lançado até hoje apenas cinco álbuns.

Como sideman, tocou com Lee Konitz, Kenny Wheeler e Dave Liebman, além de participar de álbuns e gravações de Patti Austin, Curtis Tigers, Mahavishnu Project, Brian Blade e Matt Wilson. Em Range, McCann lidera tocando guitarra, com John Gallagher (sax alto), Henry Hey (piano e Fender Rhodes), Matt Clooney (baixo) e Marl Ferber (bateria).

O estilo de Pete oscila entre a guitarra “líquida” de Pat Metheny e de Bill Frisell à mais “power” de John McLaughlin. Uma das qualidades do disco é justamente essa, a de transitar com versatilidade entre o mais reflexivo ao ataque mais roqueiro.

Veja McCann tocando Bridge Scandal, que faz parte de Range. É uma das melhores. Lembra aqui um pouco John McLaughlin.





Ouça Mustard. Grande tema!






Pete McCann
Range (Whirlwind, 2015)

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