terça-feira, 16 de dezembro de 2014

As vidas de Leon Fleisher

Se é bom ou não ter mãe judia, é uma questão de ponto de vista. A mãe de Leon Fleisher deu-lhe duas opções para ser quando crescesse: ser o primeiro presidente judeu dos Estados Unidos ou ser um grande concertista de piano. Não era pouco. Leon ficou com a segunda opção, pois foi o que a vida lhe permitiu.

Hoje, com mais de 80 anos, reconhece: a busca pela perfeição lhe trouxe “grande desespero, autopiedade, infelicidade aliada à imensuráveis êxitos.” Movido pela ambição da mãe e guiado por um talento natural, perseguiu seus objetivos com tenacidade e boas escolhas. Estudou piano desde os quatro anos e mais tarde Arthur Schnabel, aquele que por alguns é considerado o melhor intérprete de Beethoven de todos os tempos, foi seu professor. Estava com 16 anos quando apresentou-se pela primeira vez com a New York Philharmonic, sob regência do lendário Pierre Monteux. Foi uma estreia de ouro. Assinou contrato como artista exclusivo da Columbia. Seu gênio ficou evidenciado com as gravações dos cinco concertos para piano de Beethoven e os dois de Brahms realizadas com a Cleveland Orchestra, regida por um dos grandes maestros da história, o húngaro George Szell.

Ouça os cinco concertos para piano e orquestra com Leon Fleisher.




Um pequeno acidente. Sua mãe devia estar radiante. Mas tem sempre o imponderável. A carreira de grande concertista sofreu um revés. Por um desses golpes do destino, aconteceu um problema com sua mão direita. Pianistas são “ambidestros” por força da necessidade. Como concertista seus dias tinham chegado ao fim. Fosse pelo desejo materno, sobrara a opção de ser o primeiro presidente judeu.

“Eu estava me preparando para a mais importante turnê da minha vida, quando sofri um pequeno acidente doméstico. Cortei meu polegar numa peça de mobiliário barato de jardim e tive dar um par de pontos. Quando voltei a praticar novamente, não sentia direito o lado direito da minha mão direita. Meu quarto e quinto dedos pareciam querer virar para baixo. Pratiquei mais e mais, sem ouvir que meu corpo, por meio da dor, dizia para eu parar. As coisas foram piorando tanto que em menos de um ano aqueles dois dedos ficaram completamente curvados para baixo. Não podia mais tocar piano.”

Como bom filho de mãe judia, não ia desistir. Foi atrás do que fosse possível tocar apenas com a mão esquerda. Quem gosta de musica clássica conhece o Concerto para Mão Esquerda, de Maurice Ravel; e deve saber que fora composta por encomenda de Paul Wittgenstein, pianista austríaco que teve o braço direito amputado na Primeira Guerra Mundial. Wittgenstein encomendou obras no mesmo formato também para Richard Strauss, Korngold, Hindemith, Prokofiev e Britten.

O problema com a mão não trouxe percalços apenas à carreira. Acabou o casamento, pensou em suicídio, deixou a barba e o cabelo crescerem e comprou uma Vespa (hoje esse tipo de veículo é chamado de Scooter; naquela época, era conhecido como lambreta). Sua vida tinha perdido a direção. Reencontrou-se parcialmente como professor de música e como regente.

Fleisher tentou de tudo. Consultou-se com médicos, psiquiatras, acupunturistas, fez hipnose e tentou outros procedimentos alternativos. Nada feito. Em vez de resolvê-lo, teve outro problema regendo. O esforço de segurar a batuta e movimentar o braço causou-lhe uma neuropatia, que hoje chamam de L.E.R., conhecida como síndrome do túnel do carpo. Teve de fazer uma cirurgia para minorar o problema. Por uma dessas incongruências, após a operação, os dois dedos voltaram a ficar retos. Depois de 18 anos, e já com mais de 50, poderia voltar a tocar com as duas mãos. Programou uma serie de concertos para anunciar o seu “comeback”. Percebeu, no entanto, que sua capacidade de encarar qualquer peça do repertório clássico, como os concertos de Brahms, estava comprometida. Voltou a apresentar-se privilegiando o repertório para a mão esquerda.

Precisou mais de dez anos para que descobrisse que sofria de uma doença neurológica chamada distonia focal, mal comum em jogadores de golfe e sopradores de vidro. Se não tivesse sido acometido desses problemas, é provável que Leon hoje fosse incensado como Sviatoslav Richter, Emil Gilels, e seu mestre Arthur Schnabel. Mesmo não podendo usar a direita, continuou grande músico. Quando a gravadora Philips organizou a coleção Greatest Pianists of the 20th Century, Fleisher foi um dos escolhidos. Sinal da sua importância, mesmo depois de seu problema com a mão.

Quando ainda eram incipientes os experimentos com o botox, e antes que as madames passassem a usar para disfarçar rugas em volta da boca e dos olhos, descobriu-se que uma aplicação na mão a cada quatro meses, dirimia seu problema dos dedos.

Com 75 anos, em 2004, lançou pelo selo Vanguard Classics, o álbum, convenientemente, intitulado Two Hands. Foi um sucesso. É um disco de “encores”. É composta de peças curtas, em que incluem-se peças conhecidas como Jesus, Alegria dos Homens (Bach), Clair de lune (Debussy), Noturno no.2 (Chopin), dentre outras, e uma de maior fôlego, a Sonata em Si maior D.960, de Franz Schubert. Esta última é uma das peças essenciais do piano solo e prova de fogo para os virtuoses. E a interpretação de Fleisher está entre as melhores, à altura de Alfred Brendel, Radu Lupu, Sviatoslav Richter, Murray Perahia e András Schiff.

Veja Leon Fleisher executando o Noturno no. 2, de Chopin em www.youtube.com/watch?v=iBBVmlyHq48


Ouça Clair de lune, de Debussy.




Veja Fleisher executando um trecho da Sonata D.960, de Franz Schubert.




Leon toca Jesus Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach.




Ainda na ativa. Leon Fleisher nasceu em 23 de julho de 1928, o que quer dizer que, mais três anos e pouco estará com 90. Apesar das dificuldades, nunca abandonou a música. Ainda neste ano lançou All The ThingsYou Are. Executa várias peças para mão esquerda de autores americanos como Dina Koston e George Perle, além de Jerome Kern, autor da música título, e George Gershwin, com The Man I Love, brilhante, em uma adaptação de outro brilhante pianista americano, Earl Wild. Completam o CD lançado pela Bridge Records o Prelúdio no. 6 de Mompou, a Chacona da Partita para violino em ré menor, de Johann Sebastian Bach, transcrita por Johannes Brahms para a mão esquerda, e uma de sua autoria (L.H.). São números, na maioria, para a mão esquerda.

Para sair do terreno mais erudito, vamos ouvir The Man I Love.




Veja um trecho de um workshop com Leon Fleisher e Yo-Yo Ma do ano passado.

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