quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Edward Simon, bem longe de Maduro

A Venezuela não é pródiga em apenas produzir grandes dirigentes políticos como Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Há algo de especial nesse país. É a terra das mais belas misses. Tiveram não sei quantas beldades dentre as cinco melhor colocadas no prestigiado concurso de Miss Universo, outrora controlado pelo distinto magnata Donald Trump.

Mas é na música que a Venezuela mostra o seu diferencial em relação aos outros países da América Latina. Sem desconsiderar o Brasil varonil, que produziu Heitor Villas-Boas, Nelson Freire e revolucionou – e convulsionou – o mundo da música ocidental com a Bossa Nova. O país de Chávez tem o seu grande representante na música erudita o compositor Reynaldo Hahn, nascido em Caracas em 1847; naturalizou-se francês mais tarde. Eles possuem um dos mais revolucionários e eficazes órgãos de aprendizado musical, cujo temerário nome é “El Sistema”. Antes que o mais apressado leitor ache que foi criado pelos governos revolucionários bolivarianos, é bom que se esclareça que nasceu em 1975, ideia de José Antonio Abreu. Passou por vários governos e, reconheça-se que no período Chávez, o programa avançou bastante. Ele é dirigido à população mais carente e utiliza a música como uma via de desenvolvimento intelectual e inclusão social. Segundo a Wikipedia, atende a cerca de 350 mil jovens. É o tipo de coisa que deveria ser implantado no Brasil e em outros países que antigamente eram classificados como “Terceiro Mundo”.

Dos egressos de ‘El Sistema”, o maior nome é o de Gustavo Dudamel. É um dos maestros mais famosos da atualidade. Rege as melhores orquestra, é diretor musical da Los Angeles Philharmonic, sucedendo Esa-Pekka Salonen, seu diretor musical por cerca de dezesseis anos. Comanda também a Orquestra Sinfónica Símon Bolívar, formada por membros, em sua maioria, que cursaram o El Sistema. Dudamel é carismático, competente e vibrante, e, sinal de prestígio, grava pela Deutsche Grammophon, a mais tradicional da música erudita.

Outro nome conhecido é Gabriela Montero. Pianista, prestigiada por Martha Argerich, morando atualmente em Los Angeles, é ferrenha inimiga de Dudamel. Sua crítica é quanto ao silêncio dele em relação à atual crise do governo chavista. Mas isso são coisas da política.

Jazz na América Latina
Se na música erudita se destaca, natural que em outros gêneros menos superiores, como o jazz, a Venezuela tenha bons instrumentistas. Os pianistas Silvano Monasterios, Luis Perdomo e Edward Simon são bons exemplos.

Devido a proximidade com os Estados Unidos, por capilaridade, os primeiros músicos de países de língua hispânica a se destacar foram os da América Central e proximidades. Além de bananas, “exportaram” os ritmos “calientes”, que chegaram pelas mãos de Mauro Bauza e Machito. Cuba é o país campeão exportador, principalmente, pianistas. De memória, posso citar Bebo Valdés, Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba, Omar Sosa, Roberto Fonseca, Aruán Ortiz, Alfredo Rodriguez e Harold López-Nussa. Dos citados, os quatro últimos são da novíssima geração. Nos outros, temos Danilo Pérez (Panamá), Edsel Gomez (portorriquenho, que passou uma temporada no Brasil), Arturo O’Farrill (mexicano de nascimento, filho do cubano Chico O’Farrill) e Michel Camilo (República Dominicana).

Edward Simon “for export”
Todos têm em comum o fato de, para ficarem conhecidos, tiveram de ir para centros maiores. É o caso de Edward Simon. Jovem ainda mudou-se para os Estados Unidos e estudou piano na Philadelphia Performing Arts School e na Manhattan School of Music, com Harold Danko. Com 46 anos, é um músico respeitado e, antes de seus álbuns como líder, gravou com Paquito D’Rivera, Bobby Hutcherson, Bobby Watson, Terence Blanchard e Greg Osby. Seus dois últimos discos foram lançados pela prestigiada Sunnyside. Simon saiu da América Latina, mas o latinismo não saiu dele. O de 2013, chama-se “Venezuelan Suite”, o mais recente, “Latin America Songbook”. Aliás, a maioria de sua discografia é composta de títulos hispânicos.

“Venezuelan Suite” é composta de cinco movimentos, e é uma peça ambiciosa, com belos arranjos executados por Mark Turner (sax tenor), Marco Granados (flauta), John Ellis (clarineta baixo, mas primeiras quatro faixas), o colombiano Edmar Castañeda (harpa, primeira faixa), contrabaixo, bateria, Jorge Glem (quatro, instrumento venezuelano de quatro cordas, dimensões entre o o violão e o cavaquinho), Leonardo Granados (maracas), e Luis Quintero (percussão).

“Latin American Songbook” segue uma estrutura mais simples, em formato trio piano (ele), Joe Martin (contrabaixo) e Adam Cruz (bateria). A escolha das canções é o diferencial. É o melhor do melhor da música latino-americana, a começar por “Libertango”, de Astor Piazzolla. Fica melhor ainda com o clássico “Afonsina y el mar”, de Ariel Ramirez. As outras são “Capullito de Aleli” (Rafael Hernández), “Volver”, de Carlos Gardel, “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, “En la Orilla del Mundo”, de Martin Rojas, e o nosso “Chega de Saudade”, do mestre Jobim.

“Alfonsina y el Mar”, de Ariel Ramirez, é muito conhecida na voz de Mercedes Sosa, aqui no Brasil. É um daqueles clássicos sublimes. Veja Simon interpretando-a.




Veja Simon e seu trio em “Double Rainbow”, conhecida por nós como “Chovendo na Roseira”.

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