quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A graça toda de Andrea Motis


 Com 24 anos apenas, Andrea Motis pode ser considerada uma veterana. Com sete, tocava trompete. Com dez, foi estudar na Escola Municipal de Música de San Andreu, dirigida por Joan Chamorro. Este músico, saxofonista, trompetista, flautista e contrabaixista, com seus alunos, criou a San Andreu Jazz Band e tem sido responsável pela revelação de uma nova geração de músicos na Catalunha e, por extensão, Espanha.

Andrea é a sua revelação maior. Além de tocar trompete e saxofone, é dona de uma voz bem afinada, charmosa por seu registro, meio juvenil. Depois de ter gravado na Espanha alguns álbuns com seu mentor Joan, lançou “Emotional Dance”, pelo selo Impulse, ligado ao grupo Verve, o que ajudou-a bem para ser mais conhecida fora de seu país. Nesse disco é acompanhada por Ignasi Terraza ao piano e Chamorro no contrabaixo, e conta com participações de músicos conhecidos como Warren Wolf ao vibrafone, Gil Goldstein no acordeão, Joel Frahm no sax tenor, Scott Robinson no sax barítono e o brasileiro Café da Silva na percussão.

“Emotional Dance” é composto de standards do cancioneiro americano, o que é uma boa forma de ser conhecida, pois funciona como um “teste”, um“exame de aprovação” para ser aceita no mundo do jazz. Mas Andrea é uma moça de personalidade e talento ímpar. Fora cantar e tocar trompete, compõe também. Nesse álbum estão incluídas “If You Give More Than You Can”, “I Didn’t Tell Them Why” e “Save the Orangutan”, de sua autoria.

Em março deste ano, Andrea Motis lançou um novo álbum. Chama-se “Do Outro Lado do Azul”. Quem está do outro lado do azul, se a referência é a Europa, naturalmente, é o continente americano, mais exatamente, o Brasil, o que nos atiça mais ainda a curiosidade. Das treze, oito são originais brasucas, com escolhas que fogem do óbvio.

Com exceção de “Antonico”, “Pra Que Discutir com Madame” e “Dança da Solidão”, consideradas clássicos do cancioneiro brasileiro, a grande qualidade de “Do Outro Lado do Azul” está na escolha de músicas como “Filho de Oxum”, do baiano Roque Ferreira, “Saudades da Guanabara”, de Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, “Samba de Um Minuto”, de Roberta Sá e Rodrigo Maranhão, e até uma composição de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit  — “Baião de Quatro Toques”.

Um dado surpreendente é Andrea cantar em português quase sem sotaque. É o que fica demonstrado logo no belo início, com “Antonico”, de Ismael Silva. As três seguintes — “Sombra de Lá”, “Brisa”, esta em parceria como brasileiro Sérgio Krakowski , e “Sense Pressa” — captam o espírito dos ritmos brasileiros, meio samba, meio bossa nova, são boas amostras do talento dela como autora.

Em todo o álbum, a brasilidade está no uso de instrumentos como o pandeiro, o bandolim, o cavaquinho e a clarineta. Em vários números Andrea canta em catalão, sem perder de vista a pegada brasileira, como em “Record de Nit”, de Joan Mar Sauqué, e em “Mediterráneo”, de Joan Manuel Serrat. Uma curiosidade, já que os músicos, em sua absoluta maioria” é de espanhóis — catalães, para ser mais exato — é o “ole” proferido no final da vibrante interpretação de “Saudades da Guanabara”, tão vibrante que até Beth Carvalho aprovaria. Essa energia presente em todo o álbum termina em grand finale ao incluir uma citação de “Aquarela do Brasil” em “Baião de Quatro Toques”, a canção que fecha o álbum.

Ouça o álbum.




Se não for possível entrar no Spotify pela janela acima, acesse por https://open.spotify.com/album/5RvZON3nk7EiYypuoFI4aQ?si=tJom_QHRQ3eqq1eSujGNdg

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