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| O cubano Sandoval no flugelhorn |
O que me faz lembrar dessa quase remota passagem por Miami – ao contrário de grande parte de brasileiros inteligentes e letrados, “levemente de esquerda”, como diria Antônio Prata, gosto muito da cidade – é por conta de um disco que ouço agora: A Time for Love, de Arturo Sandoval.
É quase praxe que instrumentistas acabem gravando um disco com orquestra. Desde Charlie Parker, Clifford Brown e tantos outros, como Branford Marsalis, Roy Hargrove, Steve Kuhn, fizeram o seu disco “with Strings”. O de Sandoval é mais um. São diferentes de discos de big bands porque não há um “revezamento” de solistas. São como concertos na acepção da música erudita: há a orquestra e um solista. É incrível como o trumpete funciona nesse formato, mais até que o saxofone.
Alguns são híbridos – temas de jazz misturados a temas eruditos –, alguns puramente eruditos, como Creation, de Branford Marsalis, e outros, como os de Parker e de Brown, apenas com standards. O de Sandoval alterna clássicos do jazz com peças de Fauré e Ravel, dois “campeões” desse formato, junto com Debussy. Essas gravações dependem bastante de bons arranjadores. No de Sandoval, o responsável é o argentino Jorge Calandrelli. De formação clássica, é um mestre. Arranjou para discos de Barbra Streisand, Luis Miguel, Ricky Martin, Barry Manilow, Celine Dion e Andrea Bocelli, além da notável colaboração na série dedicada à música latina com Ettore Stratta. Não é questão de torcer o nariz para alguns dos citados; significa apenas que é muito solicitado devido à sua excelência como arranjador de cordas.
É conhecida a contribuição de Dizzie Gillespie para a divulgação da música latina, principalmente, a cubana. Seu interesse pelos ritmos afro-cubanos data dos fins dos anos de 1940 quando conheceu a banda de Mario Bauza e a arregimentou o percussionista Chano Pozo à sua banda. Compôs a hoje clássica Manteca e também Tin Tin Deo.
A primeira vez que tomei conhecimento de Arturo Sandoval foi no documentário A Night in Havana: Dizzy Gillespie, realizado por John Holland, em 1989. Fora exibido, se não me engano, em uma das Mostras Internacionais de Cinema, organizada por Leon Cakoff. Dá para desconfiar, pelo título, do que se trata. A lembrança mais forte foi a participação de um trumpetista agilíssimo e articulado tocando com a “fera”. Outro instrumentista que participou do documentário foi Gonzalo Rubalcaba. Conhecia alguns discos do Irakere lançados pela gravadora americana Columbia, mas lembrava-me apenas de Chucho Valdés, seu líder, e o saxofonista e clarinetista Paquito D’Rivera; de Sandoval, não.
O documentário abriu as portas para Arturo. Adquiriu cidadania americana em 1990 e foi morar em Miami. Paquito saiu de Cuba bem antes: pediu asilo político em 1981, durante excursão que fazia na Espanha.
A característica mais marcante em Sandoval é a agilidade e clareza na emissão das notas agudas. Nossos ouvidos se acostumaram demais ao estilo cool de Miles Davis e seus seguidores, mas o trumpete, inicialmente, era instrumento de banda de rua, até pela potência do som. O trumpete tocado nas oitavas superiores sempre foi bem característico da música caribenha. Em A Time for Love, Sandoval é cool, contido, e uma demonstração de sua enorme versatilidade. Realizou um disco daqueles em que se pode ouvir com alguém não especialmente apreciador do jazz. Composto de standards consagrados como Speak Low, I Loves You Porgy, Everytime We Say Goodbye, Smile, All the Way, Smoke Gets in Your Eyes, Windmills of Your Mind (belíssimo), clássicos de Johnny Mandel como Emily e A Time for Love, uma composição de Astor Piazzolla – Oblivion –, cantada por Monica Mancini, e Estate, além de Après un rêve e Pavane, de Fauré, e Pavane pour une enfante défunte, de Ravel (veja mais Ravel no jazz em: http://bit.ly/qrFxH4), é um daqueles discos em que a qualidade se mantém num nível superior. É um daqueles discos que todos devem ter em CD ou em mp3 no seu iPod. É um daquelas joias que fazem companhia em quaisquer circunstâncias, na alegria, na tristeza e nos mais intimistas.
Sandoval toca A Time for Love.
Toca e canta Estate.
Monica Mancini canta no disco de Sandoval.
Assista a uma performance de Sandoval com seu mestre e mentor Dizzy Gillespie.

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