terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Charles Lloyd voltou americanizado

Após uma longa temporada como contratado da ECM (1989–2013), gravando um disco bom atrás do outro, desde o ano passado, Charles Lloyd está no selo americano Blue Note. I Long to See You, lançado agora em janeiro, já é o segundo. Lloyd estreou com Wild Man Dance. Este foi tirado de uma apresentação no Jazztop Festival, em Wroclav, Polônia. Para quem ouviu ou conhece os últimos álbuns do saxofonista e flautista, encontrarão uma conexão deste com Athens Concert, duplo que saiu em 2011. Nele não conta com a cantora Maria Farantouri, mas inclui dois músicos gregos: Sokratis Sinopoulos, na lyra, que havia participado do concerto de Atenas, e Miklos Lucacks num instrumento chamado cimbalon. Orestante é o básico de um quarteto, mas a presença dos gregos imprime um caráter mais “world music”.

Uma coisa em comum, apesar da diferença de idade, com Sonny Rollins, também saxofonista tenor, foi o interesse pela música e cultura oriental e pelo rock’n’roll. Rollins, que foi comparado a John Coltrane, teve uma carreira um tanto errática devido a uma certa irresponsabilidade com os compromissos firmados. Passou mais de uma temporada afastado do meio musical. Interessou-se pela ioga e meditação e visitou a Índia algumas vezes. Interessou-se pelo rhythm’n’blues, o rock e o funk. Incorporou guitarras elétricas e chegou a participar de gravações com os Rolling Stones.

Lloyd despontou um pouco mais tarde, no início dos 1960 e passou a gravar como líder em 1964, quando assinou contrato com a Columbia Records. No espírito da época, arregimentou a guitarra de Gabor Szabo e não seguia a tradição do bop. Teve entre seus liderados Keith Jarrett e Jack DeJohnette. Como Rollins, interessou-se por outras culturas e pelo rock. Foi para a costa oeste e embebeu-se da cultura hippie e passou uma temporada tocando com os Beach Boys.

Depois da Columbia, Lloyd foi para a Atlantic e por razões diferentes, passou uma década um tanto esquecido. Gravou pela Elektra e teve o ascendente Michel Petrucciani tocando com ele. A virada acontece quando lança Fish out of Water, em 1989, pela ECM. Não tinha mudado radicalmente. Vista hoje, a sua música dos anos iniciais apenas foi sendo depurada. Sob as mãos do produtor Manfred Eicher, parecia que toda a intensidade dramática e melódica do som do seu tenor e da flauta atingia uma maturidade produzindo sons que o aproximava da beleza intensa do John Coltrane da época de Meditations e A Love Supreme. E foi assim, num continuum de grandes discos. Os músicos podiam ser diferentes em cada um, mas essa atmosfera de espiritualidade hipnotizante é o grande elo entre eles.

Agora, quase octogenário, mudou de ares. No novo álbum, esse músico nascido nos Estados Unidos, está menos ECM e mais americanizado. Essa mudança, que pode até assustar um pouco, é bem evidente em I Long to See You. Não é à toa que a música de abertura seja Masters of War, de Bob Dylan. Simbolicamente, é como se ele voltasse aos anos 1960.

Ouça Masters of War.




Outro fator a se levar em consideração, é a de que Lloyd toca com dois guitarristas. Teve Calvin Newborn e Gabor Szabo, e durante os anos ECM, contou com a participação de John Abercrombie. No novo álbum, os dois são Bill Frisell e Greg Leisz. Suas participações dão o tom “americanizado”. Ambos não seguem a tradição de Django Reinhardt ou de Charlie Christian, Estão mais para Greg Allman, da lendária Allman Brothers. 

Bill sempre teve uma queda pelo country folk. Chegou a gravar um disco cujo título é Nashville. Não é o único em sua discografia que vai por essa levada. Com Greg, que toca “pedal steel-guitar”, instrumento típico do country-folk, isso fica patente. Mesmo com Lloyd como líder, em princípio, o que predomina é isso. Não é uma crítica. É uma constatação. Frisell e Leiz são os “marvels” de Lloyd, com com Reuben Rogers e Eric Harland, que já tocavam com o saxofonista nos discos da ECM. 

A segunda faixa é Of Course, Of Course. É boa, mas não tem o tom do que conhecemos dele.




Os propósitos mais comerciais da Blue Note estão evidentes com as participações especiais. Uma é de Willie Nelson em Last Night I Had the Strangest Dream, que faz par conceitualmente com Masters of War, outro número anti-bélico dos anos 1960. A outra participação é de Norah Jones em You Are So Beautiful, de Billy Preston, que virou carne de vaca após a morte de Lady Di. Com ela, fica bem mais interessante do que a com Joe Cocker. Uma constatação quando ouvimos os solos melancólicos de Charles Lloyd: tem um dos mais belos sons no sax tenor atualmente.

Confira.




La Llorona não é novidade no repertório de Lloyd. O tom melancólico da canção combina perfeitamente com as guitarras de Frisell e Leisz. Junto com outra tradicional, que é a conhecida Shenandoah, e Barche Lamsel, a última e mais longa, são os destaques.

Ouça La Llorona. Uma observação. O YouTube, geralmente, bloqueia arquivo de gravadoras mais conhecidas. O álbum tinha sido postado na íntegra, mas foi tirado. Corra e ouça antes que isso aconteça.

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