quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As duas vidas de Charles Lloyd

Charles Lloyd, sempre de óculos
Charles Lloyd é de 1938, portanto tem 72 anos. De 1989 para cá, contratado pela gravadora alemã ECM, de Fish out of Water até o último, Mirror, são 15 álbuns gravados como frontman. É bastante. Esquisito para um músico tão prolífico ter ficado tanto tempo desaparecido. Ligado aos movimentos místicos orientais, dizem que nesse tempo ficou dando aulas de meditação transcendental.

Mais esquisito é porque seu disco gravado na Atlantic – Forest Flower (1966) – vendeu mais de um milhão, cifra excepcional no jazz, principalmente, na década de 1960, quando houve a explosão do rock (Beatles, The Rolling Stones, Jimi Hendrix, etc.). Nesse disco é acompanhado por um time de “iniciantes” de primeira: Keith Jarrett, Cecil McBee no baixo, e Jack DeJohnette na bateria. De volta à cena, levado à ECM por Jarrett, gravou esparsamente, sempre em registros ao vivo – Montreux ’82 (Elektra Musician), e A Night in Copenhagen (Blue Note, 1982). Nesse meio-tempo, andou gravando com a banda folk-rock californiana Beach Boys, Roger McGuinn, The Doors e Canned Heat.

Nos 15 CDs gravados pela ECM, quase todos são irrepreensíveis. Um plantel de músicos de primeira e de estilos únicos tem sido seus sidemen. Nos dois últimos – Rabo de Nube (2008) e Mirror (2010) – o quarteto é formado pelo baixista Reuben Rogers, o baterista Eric Harland, e pelo brilhante Jason Moran. O pianista faz diferença; é um dos cinco melhores em atividade. Como acompanhante no quarteto de Lloyd “pega menos pesado” do que em suas aventuras como líder. Em perfeita harmonia com o saxofonista, produz sons melódicos e belos. É que, no fundo, Lloyd não mudou muito. É adepto da música modal, seu negócio não é tocar “sheets of sound”, e, na falta de melhor expressão, produz um som espiritualizado. Lembra um pouco o John Coltrane dos anos 1960.

Mirror (ECM), só importado
Rabo de Nube, produto de um registro ao vivo na Basileia, foi colocado nas nuvens pela crítica, obtendo alguns prêmios de melhor disco do ano. Uma das músicas – Migration of Spirit – é maravilhosa, daquelas de paralisar o tempo.

É bem possível que ocorra o mesmo com o mais recente Mirror. É um disco tão bom quanto o anterior. É reflexivo e, dessa vez, tem vários standards: I Fall in Love Too Easily, Go Down Moses, Monk’s Mood, e Ruby, My Dear. Tem mais uma, para relembrar de seus “tempos flower power”: Carolina No, dos Beach Boys. A curiosidade é que Lloyd nunca lembrou tanto John Coltrane. Sem deméritos, há horas em que suas linhas de improviso são puro Coltrane. Como diria o grande Emerson Fittipaldi, “eu recomendo”.

Ouça a bela La Llorona.

Nenhum comentário:

Postar um comentário