quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quem é Tessa Souter?

Há uma superpopulação de cantoras nesse mundo. Muito mais que cantores. Convenhamos, muitas cantoras boas. Tanto no Brasil como no mundo. Diante da tanta concorrência, poucas aparecem e são reconhecidas. Algumas, nem sendo ótimas, por circunstâncias, marketing falho, falta de sorte, ficam conhecidas.

Lembro que, anos atrás, em 1998, no prestigiadíssimo Thelonious Monk Institute of Jazz Vocal Competition, que acontece em Washington DC, venceu Teri Thornton. Nas colocações subsequentes ficaram Roberta Gambarini, Jane Monheit e Thierney Sutton, que mais tarde ficaram conhecidas. Teri bateu uma concorrência forte.

E, adivinhe quantos anos tinha Teri quando venceu o concurso? 62 anos. Muito tarde para ser descoberta, não? Não, não era uma novata nessa idade; tinha gravado uns três álbuns no começo dos anos 1960, um deles, pela Riverside, gravadora que acolheu nomes de prestígio como Sonny Rollins, Miles Davis e Red Garland; não era pouco. Ficou esses anos todos “escondida”. Depois de vencer o concurso, gravou I’ll Be Easy to Find, pelo prestigiado Verve Records, maior gravadora especializada em jazz, junto com a Blue Note. Título irônico, não? Quis o destino que, novamente, sua carreira não deslanchasse; dessa vez porque, em 2000, vítima de um câncer na bexiga, sucumbiu.

Pois então, dura é a carreira de intérpretes que, por várias razões, não são reconhecidas. O mundo é um universo de injustiças, diriam os pessimistas. Sim, é possível. Thornton era boa cantora, deveras. Uma pena, ora dirão. Nunca é tarde, porém, para se redimir, como no caso de Alberta Hunter que, com quase 90 anos, foi reconhecida e pôde aproveitar um pouco da notoriedade, apresentando-se, inclusive, no Brasil. A enfermeira aposentada era uma tremenda intérprete.

Teri Souter canta no Dizzy’s Club Coca-Cola, Nova York
Tessa Souter lançou, no ano passado, Obsession, pela Motema Records. É uma pequena gravadora, mas tem no seu plantel as boas pianistas Geri Allen e Lynne Arriale. É seu terceiro disco. Nasceu em 1956. Com mais de 50, lança seu terceiro disco? E antes disso? Aqui vai um pouco de vida pessoal.

Tessa cresceu achando que seu pai era de origem hispânica e que estava morto – foi o que sua mãe lhe contara. Com quinze anos, ficou grávida e saiu de casa. Ficou casada dos 16 aos 18, separou-se e, quando o menino tinha 11, casou-se novamente. Aos 28, curiosa de saber quem era o pai, descobriu-o na lista telefônica de Londres e soube que estava vivo e era originário de Trinidade e Tobago.

Herdou dotes para a música da mãe e do pai que, descobrira, era um bom cantor. Virou jornalista e colaborou no London Times, Independent, Guardian, Elle, Vogue e algumas outras publicações internacionais. Escreveu um livro – Anything I Can Do… You Can Do Better: How to Unlock Creative Dreams and Change Your Life. Título longo, não? Consistia de entrevistas com celebridades e outras personalidades, e contava um pouco das suas adversidades. Foi publicado pela Random House em 2006.

Com o filho em idade de se tornar independente, resolveu morar nos EUA. Foi para San Francisco. Em 1996 mudou-se para Nova York, conseguiu uma bolsa de estudos na Manhattan School of Music. Frequentou seis meses e abandonou para ser aluna de um dos melhores cantores americanos – Mark Murphy.

Em 2005, debutou com Listen Love, por um pequeno selo. Chamou atenção a boa escolha de repertório: The Peacocks (belíssimo clássico de Jimmie Rowles), Caravan (D.Ellington, Juan Tizol), Daydream (D. Ellington, Billy Strayhorn), Insensatez (Antonio Carlos Jobim), Fragile (Sting), e composições “estranhas” ao repertório vocal: Willow (Pat Martino) e The Creator Has a Master Plan (Pharoah Sanders). Em artigo do tradicional jornal All About Jazz – é um dos guias de programação dos nova-iorquinos – “o estilo de cantar de Souter é natural e orgânico… sua voz rica e profunda combina sua habilidade de observar o desenho de uma música e as palavras parecem vir da sua alma”.

Nights of Key Largo (2009) foi seu segundo disco, pelo selo japonês Venus, e era acompanhada por Kenny Werner, Billy Drummond, Jay Leonhardt, Joel Frahm e Romero Lubambo. Mereceu disco de ouro pelo Swing Journal, prestigiada publicação japonesa especializada em jazz. Lançou, em 2010, Obsession pelo selo americano Motema. Tessa está construindo uma carreira consistente e tem merecido a atenção da crítica e do público que gosta de música.

Tessa Souter é uma cantora diferenciada. Tem personalidade e não se contenta com o repertório consagrado dos standards como muitas novas cantoras que se lançam no mercado americano. Obsession, música-título é uma composição do brasileiro Dori Caymmi. Além dessa, canta duas de Milton Nascimento – Empty Faces (Vera Cruz) e Make This City Ours Tonight (Canção do Sal) –, standards modernos – Eleanor Rigby (Lennon & McCartney), River Man (Nick Drake), e White Room Cream/Jack Bruce) –, composições próprias – Usha’s Wedding e Now and Then –, os clássicos Afro Blue e Footprints, Love Theme from Spartacus, e músicas menos executadas como Crystal Rain (Sunshower), de Kenny Barron, e Nara’s Song (Little Sunflower), de Freddie Hubbard. Native Dancer, disco de Milton Nascimento com Wayne Shorter e Herbie Hancock, segundo Tessa, foi sua “introdução ao jazz”. Está explicada a razão da inserção de duas músicas do mineiro em Obsession.

Além do repertório peculiar, canta com uma banda em que Victor Prieto toca acordeão e Jason Ennis, violão. O “jeito” brasileiro de Jason é o diferencial que define a concepção sonora de Obsession.

Só o tempo e o que fará nos próximos discos poderão dizer se Tessa entrará para o primeiro time das cantoras, mas pode-se dizer que ela faz um caminho original. Não será a Billie Holiday do futuro, mas quem será? Vale conferir.

Ouça Eleanor Rigby.



A faceta jazzística de Souter cantando All or Nothing at All.



Tessa canta The Island (Começar de Novo), de Ivan Lins.

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