terça-feira, 18 de outubro de 2016

A viagem de Amina Alaoui

Boa parte da Península Ibérica ficou sob o domínio dos mouros, do século VIII até a expulsão definitiva deles em Granada, no ano de 1492. Até hoje, mais na Espanha que em Portugal, percebem-se influências, não apenas na arquitetura, mas também na música. Uma curiosidade: a primeira academia de música na Península foi criada por um árabe, em Córdoba.

Resquícios do colonialismo, Ceuta e Melilha são dois enclaves espanhóis no norte da África. O país que os divisa é o Marrocos. É a terra natal de Amina Alaoui.

Dando uma fuçada no site da ECM para estar em dia com os lançamentos, vi um título que chamou-me a atenção: “Arco Iris” (ECM 2011). Foi assim que a conheci.

Como dizem, “a curiosidade matou o gato”. Lá estava eu ouvindo Amina. Foi um impacto, por várias razões: pela beleza da música, sua voz, e o fato de cantar em uma língua latina e os sons meio árabe, meio espanhol. Fiquei tão empolgado que telefonei para um amigo e passei o álbum na íntegra pelo dropbox para compartilhar o que senti ao ouvi-la. Para minha decepcão, ele não se empolgou. Frustrado, fiquei a pensar. O meu gosto pela música costumeiramente chamada de étnica não faz parte do código de muita gente. Por tender a gostar de tudo, perdi aquele refinamento musical que o amigo Carlos Guena tem de sobra. Admiro seu bom gosto pelo jazz e, principalmente, pela música erudita. Esse bom gosto o torna mais seletivo.

Algo sobre ela e o álbum

Cedo, Amina demonstrou talento para a música. Sua família, de boas posses, colocou-a em um conservatório. Mais tarde, foi estudar nas universidades de Granada e Madri. Continuou seu aprendizado em Paris. Aprofundou-se no estudo da música ibérica e a resultante, somando-se sua origem, deu em algo extremamente original.

O som de Alaoui é uma mistura heterodoxa de fado, de flamenco e música que, por falta de maior conhecimento (meu), imagino-a árabe. Amina canta nas três línguas, misturando-as, criando um efeito mágico. O tom de sua voz inclina-se ao dramático. É uma das razões da minha atração. Um tom trágico também, de algo que se perdeu e, sem saber exatamente o que é, ficamos a procurar, uma tragédia envolta em melancolia, aproximando-se do sublime.

Após a “descoberta”, fui atrás de outros títulos. Achei “Alcantara” (Auvidis Ethnic, 2008). Pelo site da ECM, descobri que participara nos vocais em “Siwan” (ECM, 2008), de Jon Balke. Deve ter sido a porta de entrada para que gravasse “Arco Iris”.

Como tudo passa, “esqueci” dela e fui ouvir outras coisas. Tempos depois, sem mais nem por que, deu-me vontade de ouvir “Fado Menor”, uma das faixas que mais me impressionara. Se não existe mais aquele encanto inicial, se menor, é suficiente para que eu queira ouvir o álbum novamente.

A canção que abre “Arco Iris” é “Hado”, tema tradicional da Andaluzia, com arranjo de Alaoui. Começa com uma vocalização de inspiração árabe que impressiona logo de cara. Logo entram sons que devem ser do oud, instrumento árabe que se assemelha ao alaúde, e também o violão. É uma brilhante introdução.

A grande qualidade da música de Alaoui é a de criar uma interconexão dos universos oriental e ocidental. Os arranjos são mesclas de instrumentos de várias origens, como o oud de Sofiane Negra, o violão flamenco do espanhol José Luis Montón, o violino de Saпfallah Ben Abderrazak, o bandolim do brasileiro radicado em Portugal Eduardo Miranda, o daf, tocado por Amina e as percussões de Idriss Agnel.


Ouça “Arco Iris” no Spotify: “Arco Íris” (Amina Alaoui)

 

Da discografia de Amina Alaoui, procure pelos citados anteriormente:
• “Alcantara” (Auvidis Ethnic, 2008)
• “Siwan”, de Jon Balke e Amina Alaoui (ECM, 2009)

Um comentário:

  1. Acabei de descobrir a preciosa Amina
    no Spotify.Querendo saber mais sobre ela cheguei ao seu blog.Adorei saber mais sobre ela e os vídeos que vc postou ... que maravilha ...obrigada!

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