quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bela e boa Hedvig Mollestad

Duas coisas são essenciais para prestarmos mais atenção em Hedvig Mollestad. Uma é a que nesses tempos de empoderamento – essa expressão pode cair em desuso rapidamente, assim como são as modas – das mulheres, uma guitarrista em um mundo em que os homens são maioria, é um bom dado. O talento é a segunda coisa.

Onde elas são maioria, no jazz, principalmente, é no mundo das cantoras. Exemplos: Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Anita O’Day. Mesmo nos tempos atuais, para cada Kurt Elling ou Michael Bublé, há uma infinidade de mulheres de talento: Diana Krall, Dianne Reeves, Madeleine Peyroux, Dee Bridgewater, Cécile McLorin Salvant, Becca Stevens, Cyrille Aymée, Luciana Souza, dentre outras. Há também um crescente número de boas instrumentistas: Anat Cohen, Ingrid Jensen, Akua Dixon, Nicole Mitchell e Melissa Aldana.

Hedvig Mollestad e sua Gibson
Faz tempo que a Escandinávia “produz” bons músicos, e é tradicionalmente um bom “importador”. O trompetista Don Cherry morou por muito tempo na Suécia, Stan Getz casou com uma sueca e morou nesse período em Copenhagen.

A capital da Dinamarca abriga um dos mais tradicionais clubes de jazz, o Jazzhaus Montmartre, mais conhecido como Café Montmartre, e, por isso, confundido por alguns desavisados que escrevem sobre música, que o situam em Paris. Além dos dois citados, a Escandinávia foi a morada do pianista cubano Bebo Valdés. O inglês John Surman, bem conhecido pelos fãs dos álbuns lançados pela ECM, mora em Oslo, assim como o vibrafonista americano Rob Waring. Cito os dois porque gravaram, com o brasileiro Nelson Ayres, o belíssimo “Invisible Threads”, neste ano.

A gélida Noruega é o país natal de uma série grande de bons músicos, a começar por Jan Garbarek, um dos primeiros a ficar conhecido, depois de participar do trio europeu de Keith Jarrett. Da mesma geração, ou próxima dela, temos ainda Ketil Björnstadt, Arild Andersen, Jon Christensen, Karin Krog, Jon Balke, Nils Petter Molvær, Sidsel Endresen e Terje Rypdal. E a lista continua com alguns mais novos: Bugge Wesseltoft, Marius Nest, Arve Henriksen, Mathias Eick, Arve Henriksen, Christian Wallumrød, Eivind Aarset, Tord Gustavsen, Thomas Ströner e Helge Lien. A lista é longa. Por coincidência, a maioria absoluta tem seus discos lançados ou pela ECM ou pela ACT Music.

Movido pela estatística e pela curiosidade, resolvi arriscar em Hedvig Mollestad. Ela vai na linha meio roqueira de Terje Rypdal. Cabe melhor na classificação de música instrumental, nem tanto jazz, na acepção mais tradicional. Na maioria dos discos até agora lançados, é acompanhada pela baixista Ellen Brekken e pelo baterista Ivar Loe Bjørnstad. A formação tem seu charme por ser composta de duas mulheres e um homem.

Lançou há pouco “Smells Funny”. A veia roqueira se revela logo na primeira faixa. Ouça “Beastie, Beastie”.




Infelizmente, as outras faixas ainda não estão disponíveis no Spotify. Mas você pode ouvir quatro faixas de “Black Stabat Mater”. Ouça.




O título nos remete ao Black Sabbath. Com o “black”, perverte-se o “Stabat Mater”, que serviu de fonte a várias composições musicais de autores como Haydn, Pergolesi, Liszt, Rossini e outros mais. Portanto, não é mera coincidência que Mollestad tenha tocado a famosíssima “Sabbath Bloody Sabbath”. Os vocais são de Gabrielle. Veja.




No YouTube há várias apresentações de Mollestad. Veja uma de 2014.

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