Se o diretor – craque nas escolhas musicais para seus filmes – gosta de Norah Jones, por que não eu? Ela é sucesso de crítica e público, sem dúvida. A gravadora Blue Note vendeu-a como intérprete de jazz quando sua música ficaria mais bem classificada como country-folk, gênero que não é dos meus preferidos. Seu disco Come Away with Me explodiu nas paradas (vendeu até hoje mais de 20 milhões) e foi bem recebido pela crítica, mesmo de revistas mais voltadas ao jazz. Não achei que era para tanto. Deu-me impressão de um brilhante golpe de marketing: muitos, um tanto desinformados, acharam que o que Norah fazia era jazz. Esse dado – gato por lebre – despertou em mim certa birra. Mesmo assim, é inegável que faz uma música bem agradável. E, depois de ter revisto o filme, tem competência como atriz.
Duas ou três coisas sobre o filme:
1. Algumas cenas são belíssimas. O chinês é um esteta, como demonstrou em seus filmes “orientais”. Um recurso que costuma usar é o de dar uma leve desacelerada (como um breve slow motion) em algumas cenas. Outro recurso é o de filmar através de vidros que refletem ambientes fora dos que estão sendo captados. O cinema é “um olhar pela janela”. Somos espectadores que não têm como intervir nas cenas vistas. Dentro do filme, vidros ou janelas são “anteparos”; separa o de “fora” do de dentro”. É um duplo distanciamento e um “olhar” sem “olhar”, é um ver parcial do “através” e do que se reflete.
2. As cenas iniciais são as de uma metrópole – Nova York –, ou seja “vertical”. Quando Elisabeth (Norah Jones) resolve sair da cidade indo para o interior do país, o filme se “horizontaliza” na paisagem aberta. Arruma trabalhos como garçonete, trabalha de dia e de noite pois, ocupando-se, não pensa muito sobre ter sido trocada por outra.
A verticalidade está em Elisabeth, que, do rés do chão, vê as luzes acesas e nota a presença de uma mulher no apartamento de seu namorado. Verticalidade está relacionada à busca de Deus, e a horizontalidade é relação do homem com seus pares. A vertical é o céu e a horizontalidade, a terra. Quando resolve viajar por lugares não conhecidos procura essa relação com o humano, a compreensão do mundo pela observação, pelo dia a dia do trabalho rotineiro, com as pessoas que, randomicamente, vai conhecendo, que entram em sua vida, “batendo ou não na porta antes de entrar”. Um dos clientes é Arnie ((David Strathairn). Abandonado pela mulher, embeba-se, e é o último a sair. Confrontando-se com a realidade do outro (“relações horizontais”), percebe que seu sofrimento com a perda (“relação vertical”) não é exclusivo.
Arnie sai do bar e bate o carro. Sue Lynne (Rachel Weiz) sofre com a morte do ex-marido. Vivo, não prestava; morto faz falta. O sofrimento de Sue Lynne tem alguma semelhança com a de Elisabeth. Ambas as perdas são definitvas.
Duas ou três coisas sobre o filme:
1. Algumas cenas são belíssimas. O chinês é um esteta, como demonstrou em seus filmes “orientais”. Um recurso que costuma usar é o de dar uma leve desacelerada (como um breve slow motion) em algumas cenas. Outro recurso é o de filmar através de vidros que refletem ambientes fora dos que estão sendo captados. O cinema é “um olhar pela janela”. Somos espectadores que não têm como intervir nas cenas vistas. Dentro do filme, vidros ou janelas são “anteparos”; separa o de “fora” do de dentro”. É um duplo distanciamento e um “olhar” sem “olhar”, é um ver parcial do “através” e do que se reflete.
2. As cenas iniciais são as de uma metrópole – Nova York –, ou seja “vertical”. Quando Elisabeth (Norah Jones) resolve sair da cidade indo para o interior do país, o filme se “horizontaliza” na paisagem aberta. Arruma trabalhos como garçonete, trabalha de dia e de noite pois, ocupando-se, não pensa muito sobre ter sido trocada por outra.
A verticalidade está em Elisabeth, que, do rés do chão, vê as luzes acesas e nota a presença de uma mulher no apartamento de seu namorado. Verticalidade está relacionada à busca de Deus, e a horizontalidade é relação do homem com seus pares. A vertical é o céu e a horizontalidade, a terra. Quando resolve viajar por lugares não conhecidos procura essa relação com o humano, a compreensão do mundo pela observação, pelo dia a dia do trabalho rotineiro, com as pessoas que, randomicamente, vai conhecendo, que entram em sua vida, “batendo ou não na porta antes de entrar”. Um dos clientes é Arnie ((David Strathairn). Abandonado pela mulher, embeba-se, e é o último a sair. Confrontando-se com a realidade do outro (“relações horizontais”), percebe que seu sofrimento com a perda (“relação vertical”) não é exclusivo.
Arnie sai do bar e bate o carro. Sue Lynne (Rachel Weiz) sofre com a morte do ex-marido. Vivo, não prestava; morto faz falta. O sofrimento de Sue Lynne tem alguma semelhança com a de Elisabeth. Ambas as perdas são definitvas.
2. Jeremy (Jude Law) é dono de um bar em NY. Tem um pote de vidro em que os clientes deixam as chaves para que aqueles que dividem os apartamentos as peguem. Elisabeth chega no bar e procura por seu namorado. Pela sua descrição (pelo que come, mais exatamente), Jeremy o identifica. Ela diz que vai deixar as chaves, para que, acaso apareça, possa pegá-las. Naquele amontoado de chaves, algumas nunca foram resgatadas. Portanto, pode-se dizer que elas são “registros” de amores ou amizades desfeitas. Uma delas é a do próprio Jeremy, abandonado por sua namorada russa Katya (Cat Power).
Numa noite, ela aparece quando se prepara para fechar o bar. Katya diz: “Às vezes, mesmo quando se tem as chaves, essas portas não podem ser abertas, não é?”. Jeremy responde: “E mesmo que a porta seja aberta, a pessoa que procura talvez não esteja mais lá, Katya”. Despedem-se laconicamente com um beijo.
3. Ao ser perguntado da razão de ter optado por uma cantora sem experiência em atuar, Kar Wai esclarece que vários atores orientais com quem trabalhou em filmes anteriores são cantores ou sabem cantar. Justifica a escolha dizendo que músicos têm muita noção de ritmo, e isso ajuda. Acertou com Norah. Ela é bem convincente, a ponto de esquecermos de que é cantora. Outra que trabalha em My Blueberry Nights é Cat Power. Faz uma ponta de alguns minutos. É Katya, a ex-namorada de Jeremy.
As imagens: a do carro é Sue Lynne (Rachel Weisz), com Jeremy, é Katya (Cat Power); nas três em série, é Leslie (Natalie Portman), uma jogadora profissional de pôquer; e última, é Elisabeth (Norah Jones)
3. Ao ser perguntado da razão de ter optado por uma cantora sem experiência em atuar, Kar Wai esclarece que vários atores orientais com quem trabalhou em filmes anteriores são cantores ou sabem cantar. Justifica a escolha dizendo que músicos têm muita noção de ritmo, e isso ajuda. Acertou com Norah. Ela é bem convincente, a ponto de esquecermos de que é cantora. Outra que trabalha em My Blueberry Nights é Cat Power. Faz uma ponta de alguns minutos. É Katya, a ex-namorada de Jeremy.
As imagens: a do carro é Sue Lynne (Rachel Weisz), com Jeremy, é Katya (Cat Power); nas três em série, é Leslie (Natalie Portman), uma jogadora profissional de pôquer; e última, é Elisabeth (Norah Jones)

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