terça-feira, 10 de maio de 2016

Várias Américas

Toda vez que penso em Paul Simon, lembro-me de uma cena ocorrida no show em que reuniu-se com Art Gafunkel para rememorar o clássico Simon & Garfunkel, no Central Park, em 19 de setembro de 1981. A apresentação foi longamente preparada para arrecadar fundos para a conservação do parque. Simon cantava The Late Great Johnny Ace, quando um espectador subiu no palco e correu em sua direção. Foi pego pela segurança e Paul continuou cantando. A imagem que ficou registrada foi a sua expressão de espanto.

Por coincidência, a letra versava sobre Johnny Ace, morto em 1954, com um tiro, aparentemente, brincando de roleta russa. A letra, em primeira pessoa, dizia que não era um grande fã de Ace, mas lembrou-se de que era o primeiro astro da música a morrer de forma violenta de que teve notícia. Em 1964, estava morando em Londres, era o ano dos Beatles, o ano dos Rolling Stones, e fazia um ano que John Kennedy tinha sido assassinado. Na terceira estrofe, andando pelas ruas enfeitadas para o Natal, um transeunte perguntou se sabia que John Lennon tinha acabado de morrer. Os dois foram a um bar e ficaram até fechar.

Um tempo depois, perguntado sobre o incidente, no programa de David Letterman, Simon disse que não ficou com medo. Mas, até hoje, quando reassisto ao show gravado em DVD, sinto que se sentiu vulnerável.

Em um momento contrastante ao que acontecera com Paul, Art não se conteve frente a energia de 500 mil pessoas presentes no reencontro da antológica dupla, disse: “I’m in the mood!”. Na celebração de uma América rica e civilizada, estava exposto o seu lado negro, por meio de um maluco que poderia sair atirando em alguém.

A América de Simon
Descobri o que significava “hitchhike” em America, canção composta por Paul Simon, lançada em Bookends (CBS, 1968). Nela, Paul narra a história de namorados que viajam de carona em busca da “América”. Um verso ficou registrado na memória: “Ela disse que o homem de terno de gabardine era um espião/ Eu disse, cuidado, a gravata borboleta deve ser uma câmera”. America era uma celebração. A câmera camuflada era um comentário despretensioso sobre a Guerra Fria. Os Estados Unidos viviam uma fase de prosperidade, mas entrariam em duas guerras depois de 1945, a da Coreia e a do Vietnam. Contraditoriamente, país em que as transformações sociais aconteciam com vigor quanto aos direitos civis, ao mesmo tempo, passava a viver sob o medo da violência, a de assassinatos perpetrados por indivíduos que agiam solitariamente. Na década de 1960, quando a música foi composta, um presidente era assassinado, um governador racista sofria um atentado que o deixaria paraplégico, um candidato à presidência era assassinado. Esses atos isolados não transpareciam na América de Paul Simon. Nem a guerra fria era levada tão a sério.


Ouça America com Simon & Garfunkel.




Dica do amigo Marcio Uehara (Magoo). Grande interpretação de David Bowie.




Outra grande interpretação é a do grupo Yes. Poderosa. Veja.




Veja Sting cantando America. Ele e Paul Simon fizeram uma excursão juntos em 2014.

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