quarta-feira, 16 de novembro de 2011

35ª Mostra: mais um belo Blier

Bertrand Blier continua em forma. Faz parte de uma geração nascida no período do fim da Segunda Guerra, posterior, portanto, a François Truffaut, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Na faixa de idade de Blier estão nomes como os de Bertrand Tavernier (Un coup de torchon, ’Round Midnight), Régis Wargnier (Indochina), Patrice Leconte (O Marido da Cabeleireira, Um Homem Esquisito), e Jean-Jacques Annaud (O Urso, O Nome da Rosa). Desses, Blier é o mais irreverente e, quem sabe, o mais interessante.

O belo trio de Corações Loucos
Corações Loucos (Les valseuses, 1974) é um clássico. É libertário, meio amalucado e “fez a cabeça” de muita gente que estava na universidade nessa época; entre os estudantes da USP era “cult”, até porque era inteligente, divertido e um pouco diferente dos filmes exibidos nos cineclubes, politizados e densos como Terra em Transe (Glauber Rocha), O Encouraçado Potemkim (Sergei Eisenstein) ou A Chinesa (Jean-Luc Godard); desse último, como outros do mesmo autor, devemos reconhecer que, apesar de politizados ao extremo, eram irreverentes e bem humorados, ao contrário dos mais recentes, sérios demais (se comparados aos dos feitos na década de 1960) e um tanto preconceituosos, principalmente, em relação aos judeus: seu antissionismo beira ao antissemitismo.

Em Corações Loucos, Gerard Depardieu e Patrick Dewaere são dois desocupados que saem por aí e nesse qualquer lugar conhecem uma loira com cara de vadia, protagonizada por Miou-Miou. Fazem pequenos assaltos, vão para uma pequena cidade de praia, quase deserta por ser fora de temporada, invadem casas e se divertem e muito. Formam um trio cheio de charme; riem, fazem muito sexo entre eles (há uma cena engraçada em que Dewaere está tristonho e Depardieu o consola – adivinhe o que aconteceu?) e não se sentem compromissados com nada. Les Valseuses consagrou os três. O único que não seguiu adiante foi o (aparentemente) atormentado e o mais belo deles: Patrick Dewaere se matou com um tiro na cabeça quando tinha apenas 35 anos.

Blier é autor de filmes com nomes instigantes: Meu Marido de Batom (Tenue de soirée), A Filha de Minha Mulher (Beu-père), e Bela Demais para Você (Trop belle pour toi, 1988). Em Bela Demais, Gerard Depardieu é casado com a belíssima Carole Bouquet, mas acaba se apaixonando pela secretária gordinha Colette (Josiane Balasko).

Quase quarenta anos depois de Corações Loucos, dirige o mais recente O Ruído do Gelo (Les bruit des glaçons, 2010). Inusitado esse Blier, como de costume. Charles Faulque (Jean Dujardim) é um escritor premiado com o Pulitzer que se retira na antiga propriedade da família em Languedoc-Roussillon (é uma das regiões demarcadas da França como produtoras de vinho) depois de ter se separado da mulher. Vivem ele e Louise (Anne Alvaro), a criada. Passa os dias carregando um balde de gelo, o vinho e uma taça. Bebe desde que acorda, consumindo cerca de seis garrafas por dia. [Nota: tem um merchandising lascado da região vinícola de Languedoc-Roussillon.]

O “Câncer” (Albert Dupontel) de Charles (Jean Dujardim)
Essa situação, aparentemente exdrúxula, é factível. Sei do caso de um amigo de família que passava os dias bebendo cerveja. Num certo momento, largou tudo – o trabalho inclusive – e foi morar sozinho em um sítio que possuía a 10 km da cidade. Passava os dias cuidando da casa e da piscina e recebendo visitas diárias do amigo fiel, cujo apelido era Cuequinha, e de outros eventuais; era ótimo na cozinha e um dos seus prazeres era recebê-los.

Entrou no folclore dos amigos. Era um homenzarrão de quase 1,90 m de altura, mais de 100 quilos, peito e costas peludas; estava sempre sem camisa, e costumava usar calça social – que deveria ser sobra de costumes que, eventualmente, usava – e um par de sandálias de couro. Não largava da garrafa de cerveja. Andava com um pedaço de pano no ombro, a garrafa em uma das mãos e, na outra, o copo. Quando se sentava à mesa, estendia o pano e punha a garrafa e o copo sobre ele. Era um cara boa praça; morreu com pouco mais de 60 anos. Um fato engraçado foi quando sua mulher V. veio a São Paulo. Ela queria ir a algumas lojas de decoração. Lá pela terceira loja em que entrou, minha mãe perguntou, curiosa de saber, o que estava procurando. Disse que queria um objeto que servisse de aparador de garafas de cerveja e porta-copos para deixá-lo no banheiro; bebia até enquanto tomava banho.

Charles, em seu retiro, recebe uma visita inusitada: quem bate à porta é sujeito que se autodenomina “o [seu] Câncer” (Albert Dupontel). Recebe-o a contragosto, mas passado um tempo, passam a conviver mais pacificamente: conversam à beira da piscina, trocam ideias, o “Câncer” lhe dá uma “força” diante da beleza estonteante da namoradinha, uma ninfeta russa. Mas o “Câncer” é o que se pode chamar de “grudento”. até à hora de deitar, lá está.

A criada Louisa é uma solteirona que nutre um inconfessado amor pelo patrão. É discreta, no entanto. Certo dia, surge uma mulher de cara muito feia, cara de malvada, em sua vida. É o “Câncer de Louisa” (Myriam Boyer). Fica a persegui-la, a importuná-la dizendo que está em seu seio.

Bom, resumindo a história insólita, em algumas palavras, Louisa consuma o que era apenas um desejo. O que nem passava pela cabeça de Charles, “funciona”. Ambos resolvem armar um assalto à casa, ludibriam os dois “Cânceres” e fogem deles. Pela última cena, depreende-se que estão livres. Estão os dois, felizes, prontos a realizarem uma viagem de iate (ao som de Ne me quitte pas, cantada por Nina Simone), eles e o balde de gelo, dessa vez com duas taças.

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