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| O belo trio de Corações Loucos |
Corações Loucos (Les valseuses, 1974) é um clássico. É libertário, meio amalucado e “fez a cabeça” de muita gente que estava na universidade nessa época; entre os estudantes da USP era “cult”, até porque era inteligente, divertido e um pouco diferente dos filmes exibidos nos cineclubes, politizados e densos como Terra em Transe (Glauber Rocha), O Encouraçado Potemkim (Sergei Eisenstein) ou A Chinesa (Jean-Luc Godard); desse último, como outros do mesmo autor, devemos reconhecer que, apesar de politizados ao extremo, eram irreverentes e bem humorados, ao contrário dos mais recentes, sérios demais (se comparados aos dos feitos na década de 1960) e um tanto preconceituosos, principalmente, em relação aos judeus: seu antissionismo beira ao antissemitismo.
Em Corações Loucos, Gerard Depardieu e Patrick Dewaere são dois desocupados que saem por aí e nesse qualquer lugar conhecem uma loira com cara de vadia, protagonizada por Miou-Miou. Fazem pequenos assaltos, vão para uma pequena cidade de praia, quase deserta por ser fora de temporada, invadem casas e se divertem e muito. Formam um trio cheio de charme; riem, fazem muito sexo entre eles (há uma cena engraçada em que Dewaere está tristonho e Depardieu o consola – adivinhe o que aconteceu?) e não se sentem compromissados com nada. Les Valseuses consagrou os três. O único que não seguiu adiante foi o (aparentemente) atormentado e o mais belo deles: Patrick Dewaere se matou com um tiro na cabeça quando tinha apenas 35 anos.
Blier é autor de filmes com nomes instigantes: Meu Marido de Batom (Tenue de soirée), A Filha de Minha Mulher (Beu-père), e Bela Demais para Você (Trop belle pour toi, 1988). Em Bela Demais, Gerard Depardieu é casado com a belíssima Carole Bouquet, mas acaba se apaixonando pela secretária gordinha Colette (Josiane Balasko).
Quase quarenta anos depois de Corações Loucos, dirige o mais recente O Ruído do Gelo (Les bruit des glaçons, 2010). Inusitado esse Blier, como de costume. Charles Faulque (Jean Dujardim) é um escritor premiado com o Pulitzer que se retira na antiga propriedade da família em Languedoc-Roussillon (é uma das regiões demarcadas da França como produtoras de vinho) depois de ter se separado da mulher. Vivem ele e Louise (Anne Alvaro), a criada. Passa os dias carregando um balde de gelo, o vinho e uma taça. Bebe desde que acorda, consumindo cerca de seis garrafas por dia. [Nota: tem um merchandising lascado da região vinícola de Languedoc-Roussillon.]
Em Corações Loucos, Gerard Depardieu e Patrick Dewaere são dois desocupados que saem por aí e nesse qualquer lugar conhecem uma loira com cara de vadia, protagonizada por Miou-Miou. Fazem pequenos assaltos, vão para uma pequena cidade de praia, quase deserta por ser fora de temporada, invadem casas e se divertem e muito. Formam um trio cheio de charme; riem, fazem muito sexo entre eles (há uma cena engraçada em que Dewaere está tristonho e Depardieu o consola – adivinhe o que aconteceu?) e não se sentem compromissados com nada. Les Valseuses consagrou os três. O único que não seguiu adiante foi o (aparentemente) atormentado e o mais belo deles: Patrick Dewaere se matou com um tiro na cabeça quando tinha apenas 35 anos.
Blier é autor de filmes com nomes instigantes: Meu Marido de Batom (Tenue de soirée), A Filha de Minha Mulher (Beu-père), e Bela Demais para Você (Trop belle pour toi, 1988). Em Bela Demais, Gerard Depardieu é casado com a belíssima Carole Bouquet, mas acaba se apaixonando pela secretária gordinha Colette (Josiane Balasko).
Quase quarenta anos depois de Corações Loucos, dirige o mais recente O Ruído do Gelo (Les bruit des glaçons, 2010). Inusitado esse Blier, como de costume. Charles Faulque (Jean Dujardim) é um escritor premiado com o Pulitzer que se retira na antiga propriedade da família em Languedoc-Roussillon (é uma das regiões demarcadas da França como produtoras de vinho) depois de ter se separado da mulher. Vivem ele e Louise (Anne Alvaro), a criada. Passa os dias carregando um balde de gelo, o vinho e uma taça. Bebe desde que acorda, consumindo cerca de seis garrafas por dia. [Nota: tem um merchandising lascado da região vinícola de Languedoc-Roussillon.]
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| O “Câncer” (Albert Dupontel) de Charles (Jean Dujardim) |
Essa situação, aparentemente exdrúxula, é factível. Sei do caso de um amigo de família que passava os dias bebendo cerveja. Num certo momento, largou tudo – o trabalho inclusive – e foi morar sozinho em um sítio que possuía a 10 km da cidade. Passava os dias cuidando da casa e da piscina e recebendo visitas diárias do amigo fiel, cujo apelido era Cuequinha, e de outros eventuais; era ótimo na cozinha e um dos seus prazeres era recebê-los.
Entrou no folclore dos amigos. Era um homenzarrão de quase 1,90 m de altura, mais de 100 quilos, peito e costas peludas; estava sempre sem camisa, e costumava usar calça social – que deveria ser sobra de costumes que, eventualmente, usava – e um par de sandálias de couro. Não largava da garrafa de cerveja. Andava com um pedaço de pano no ombro, a garrafa em uma das mãos e, na outra, o copo. Quando se sentava à mesa, estendia o pano e punha a garrafa e o copo sobre ele. Era um cara boa praça; morreu com pouco mais de 60 anos. Um fato engraçado foi quando sua mulher V. veio a São Paulo. Ela queria ir a algumas lojas de decoração. Lá pela terceira loja em que entrou, minha mãe perguntou, curiosa de saber, o que estava procurando. Disse que queria um objeto que servisse de aparador de garafas de cerveja e porta-copos para deixá-lo no banheiro; bebia até enquanto tomava banho.
Charles, em seu retiro, recebe uma visita inusitada: quem bate à porta é sujeito que se autodenomina “o [seu] Câncer” (Albert Dupontel). Recebe-o a contragosto, mas passado um tempo, passam a conviver mais pacificamente: conversam à beira da piscina, trocam ideias, o “Câncer” lhe dá uma “força” diante da beleza estonteante da namoradinha, uma ninfeta russa. Mas o “Câncer” é o que se pode chamar de “grudento”. até à hora de deitar, lá está.
A criada Louisa é uma solteirona que nutre um inconfessado amor pelo patrão. É discreta, no entanto. Certo dia, surge uma mulher de cara muito feia, cara de malvada, em sua vida. É o “Câncer de Louisa” (Myriam Boyer). Fica a persegui-la, a importuná-la dizendo que está em seu seio.
Bom, resumindo a história insólita, em algumas palavras, Louisa consuma o que era apenas um desejo. O que nem passava pela cabeça de Charles, “funciona”. Ambos resolvem armar um assalto à casa, ludibriam os dois “Cânceres” e fogem deles. Pela última cena, depreende-se que estão livres. Estão os dois, felizes, prontos a realizarem uma viagem de iate (ao som de Ne me quitte pas, cantada por Nina Simone), eles e o balde de gelo, dessa vez com duas taças.
Entrou no folclore dos amigos. Era um homenzarrão de quase 1,90 m de altura, mais de 100 quilos, peito e costas peludas; estava sempre sem camisa, e costumava usar calça social – que deveria ser sobra de costumes que, eventualmente, usava – e um par de sandálias de couro. Não largava da garrafa de cerveja. Andava com um pedaço de pano no ombro, a garrafa em uma das mãos e, na outra, o copo. Quando se sentava à mesa, estendia o pano e punha a garrafa e o copo sobre ele. Era um cara boa praça; morreu com pouco mais de 60 anos. Um fato engraçado foi quando sua mulher V. veio a São Paulo. Ela queria ir a algumas lojas de decoração. Lá pela terceira loja em que entrou, minha mãe perguntou, curiosa de saber, o que estava procurando. Disse que queria um objeto que servisse de aparador de garafas de cerveja e porta-copos para deixá-lo no banheiro; bebia até enquanto tomava banho.
Charles, em seu retiro, recebe uma visita inusitada: quem bate à porta é sujeito que se autodenomina “o [seu] Câncer” (Albert Dupontel). Recebe-o a contragosto, mas passado um tempo, passam a conviver mais pacificamente: conversam à beira da piscina, trocam ideias, o “Câncer” lhe dá uma “força” diante da beleza estonteante da namoradinha, uma ninfeta russa. Mas o “Câncer” é o que se pode chamar de “grudento”. até à hora de deitar, lá está.
A criada Louisa é uma solteirona que nutre um inconfessado amor pelo patrão. É discreta, no entanto. Certo dia, surge uma mulher de cara muito feia, cara de malvada, em sua vida. É o “Câncer de Louisa” (Myriam Boyer). Fica a persegui-la, a importuná-la dizendo que está em seu seio.
Bom, resumindo a história insólita, em algumas palavras, Louisa consuma o que era apenas um desejo. O que nem passava pela cabeça de Charles, “funciona”. Ambos resolvem armar um assalto à casa, ludibriam os dois “Cânceres” e fogem deles. Pela última cena, depreende-se que estão livres. Estão os dois, felizes, prontos a realizarem uma viagem de iate (ao som de Ne me quitte pas, cantada por Nina Simone), eles e o balde de gelo, dessa vez com duas taças.


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