terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Duas vezes Ne me quitte pas

Dois dos filmes recentes vistos na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo utilizaram Ne me quitte pas em algum momento: O Ruído do Gelo, de Bertrand Blier, e Toast, de S. J. Clarkson. No primeiro, é a tradicional interpretação de Nina Simone, e, no segundo, uma outra, relativamente antiga, da inglesa Dusty Springfield, essa na versão em inglês – If You Go Away.

São filmes com histórias bem diferentes. No filme de Blier, o Ne me quitte pas cantado pela americana, pode até ser levado por um lado irônico. O escritor Charles Faulque e a criada enganam o “câncer” e partem para uma viagem de barco, [maiores detalhes, leia em http://bit.ly/vcFI2Q]. É a cena final, e a ironia é se o comentário do “não me deixe” é relacionado à futura vida do casal ou se é o lamento do “câncer” suplicando por um “não me deixe”.

Toast é do mesmo roteirista de Billy Elliot (2000), Lee Hall. Baseado na história de Nigel Slater, conhecido jornalista, apresentador de “Simple Suppers”, na BBC, e autor de vários livros de culinária, ainda inédito no Brasil, tem todos os ingredientes – já que falamos de gastronomia – para que seja exibido em circuito comercial. As únicas oportunidades de vê-lo, até agora, foram em sessões da 34ª Mostra de Cinema de São Paulo.

O roteiro gira em torno de sua infância e adolescência. A mãe de Nigel é péssima cozinheira que, na elaboração dos pratos usa quase que exclusivamente produtos industrializados. Deve ser verdade: o filme é baseado em livro autobiográfico; ou “meia-verdade”, se considerarmos os protestos das meias-irmãs de Slater, que ficaram revoltadas ao verem sua mãe, protagonizada por Helena Bonham Carter (cada vez mais especializada em fazer papéis histriônicos), trajando sempre um roupão surrado, com meias com costura (antes do advento de fibras sintéticas, as meias possuíam uma costura longitudinal) e sempre com um cigarro pendurado na boca, até quando cozinhava. Elas alegam que Dorothy não era uma “arrumadeira” e sim, amiga de família que se prestou a “ajudar” o pai Tony Slater (Ken Scott), recém enviuvado. O pai Tony acabou casando com “Miss Potter”.

Mentira ou não, considerando-se que cinema é, antes de tudo “ficção”, a história do modo que é contada no filme, é muito divertida. O jovem Nigel “vê” despertar seu interesse pela cozinha devido à habilidade dela, principalmente pelo delicioso merengue de limão, que, avaramente, não deixava que Nigel descubrisse a receita.

O discreto charme de Dusty
Dusty Springfield. O destaque na trilha sonora são duas canções da inglesa Dusty Springfield. Em 1964, lançou A Girl Called Dusty e chamou a atenção da crítica. Em 1969, lançaria seu melhor disco: Dusty in Memphis. Devido a sua paixão pela soul music americana, principalmente, pelas gravações lançadas pela Motown Records, a londrina gravou esse disco com músicos americanos pelo selo Atlantic Records, impulsionada por seu proprietário Ahmet Ertegun, que a via como a alternativa “branca” a Aretha Franklin. Dusty in Memphis virou clássico, mas na época do lançamento, não fez o sucesso que Ertegun previa.

Em Toast, que eu me lembre, as canções que fazem parte são The Look of Love, do americano Burt Bacharach, e a outra é If You Go Away, a versão em inglês do clássico Ne me quitte pas, de Jacques Brel (leia sobre essa canção em: http://bit.ly/tkC6WI). Encaixam perfeitamente, principalmente essa última. É essa a que você vai ouvir.


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