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| Ketil Bjørnstad e seu piano |
Poucos devem saber que Edvard Munch escrevia. Munch, às vezes, é classificado como um pintor proto-expressionista por seus trabalhos de carga dramática intensa. Até o mais analfabeto em artes plásticas conhece e admira O Grito. Um dos “Gritos”, já que foram realizadas quatro sob esse nome, em 2012, foi arrematada por 119,9 milhões de dólares, quantia nada desprezível para uma pintura. Como escritor, o pintor poderia ser considerado um pré-existencialista.
A vida de Munch é um reflexo de sua pintura. Perdeu a mãe com cinco anos, uma das irmãs morreu com 15, outra morreu logo após se casar, e uma terceira teve de ser internada por ser bipolar. O desejo de Munch era ser pintor e escritor. Ketil Bjørnstad, também norueguês, admirador de sua obra, compôs Sunrise usando seus escritos, em 2013, coincidindo com o 150º aniversário de seu nascimento.
Bjørnstad e Antonioni
A formação de Ketil Bjørnstad é de pianista clássico. Com 16 anos, estreou nos palcos executando o Terceiro Concerto para Piano e Orquestra, de Béla Bartók. Nascido em 1952, seus interesses musicais foram contaminados pelo jazz e o rock. Gravou com Terje Rypdal, Jon Christensen, Arild Andersen e o cellista americano David Darling, pelo selo alemão ECM.
Ouça a bela The Sea I, com o guitarrista Terje Rypdal, David Darling no violoncelo, e Jon Christensen na bateria.
Em 2010, Bjørnstad apresentou a obra La Notte no Molde International Jazz Festival, na Noruega. Ketil credita o cineasta Michelangelo Antonioni dentre os artistas que o influenciaram: “Ao mesmo tempo em que descobria o que o jazz poderia ser, ouvindo In a Silent Way, de Miles Davis, também assistia aos filmes de Godard, Bresson e Antonioni. Talvez tenha sido o ritmo lento dos filmes de Michelangelo Antonioni que me fizeram pensar em música… da mesma maneira que as artes visuais criam músicas em nossas mentes, e a música sugere pinturas e expressões visuais com a mesma intensidade, ambas são profundamente interdependentes.” Na gravação lançada pela ECM, é acompanhado pelo belo violoncello de Anja Lechner.
Ouça La notte: III, inspirada em filme do mesmo nome, de Antonioni.
Bjørnstad e John Donne
Em um ponto o percurso de Ketil e Munch convergem: as letras. Em paralelo à música, lançou seu primeiro livro de poemas – Alone – em 1972 e desde então, tem de cerca de trinta obras publicadas, incluindo poesia, romances e biografias.
A formação clássica e seu interesse pelo jazz e pelo rock desemboca em uma carreira muito interessante, pois nos últimos anos tem composto peças que o aproximam da música erudita. É a serpente que busca a própria cauda: é o movimento circular daquele que se inicia no erudito, passa por outros gêneros e volta para a origem e alimenta-se das experiências por que passou.
Seu interesse pela literatura, pelas artes plásticas e pelo cinema, e claro, pela música, resultam em gravações em que esses conceitos se fundem, como nos citados Sunrise e La notte. Esses motes inspiradores continuam no mais recente A Passion for John Donne (ECM, 2014). Pelo título, já se sabe quem é sua referência para seu mais recente trabalho, o que não é novidade, pois, em 1990, havia lançado The Shadow, musicando poemas do inglês.
Ouça Sweetest Love, do álbum The Shadow, de Ketil e a mezzo-soprano Randi Stene, de 1990.
O recente A Passion… deixa evidente os elos de Bjørnstad com seu aprendizado inicial da música dita clássica. Em suas composições, em razão de partir de textos e poemas, serve-se de uma estrutura que remete à música dos séculos XVI e XVII, evidentemente, sob o filtro de alguém que compõe no século XXI. Os resultados são, por vezes, de uma beleza que beira ao sublime, como em A Fever.
Ouça.
O fato pitoresco é a de que o dono da bela voz de tenor é, ao mesmo tempo, quem toca o saxofone e a flauta: Håkon Kornstad. Em A Fever, mostra como é bom nos dois. Belíssimo também é a atuação da Oslo Chamber Choir.
Ouça Since she whom I loved hath paid her last dept.
Por fim, ouça Interlude no.1. Bjørnstad é um artista completo.

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