terça-feira, 17 de março de 2015

A aquarela do Brasil de Armênio Guedes [1918-2015]

Este texto é a replicação do que foi publicado em 25 de março de 2011. É uma homenagem ao amigo Armênio Guedes, falecido no dia 12, portanto há uma semana. Falo dele e reconto um fato que ele presenciou quando estava em Moscou.

Armênio Guedes passou boa parte de sua vida na clandestinidade; outra, fora do país. Por várias décadas, nem conta bancária possuiu. Quando Prestes saiu da cadeia, em 1945, virou seu secretário e cuidava de sua segurança, e por isso mesmo, moraram na mesma casa, no Rio de Janeiro, lá perto do Largo do Machado.

Ainda na Bahia, quando cursava a Faculdade de Direito, entrou para o Partido Comunista e foi militante ativo desde então. Em 1983, foi chamado pelo secretário-geral Giocondo Dias para explicar o processo de expulsão de outro membro do partido. Esse episódio foi a culminância de uma demanda de desgastes que se arrastava há tempos. Desligou-se definitivamente, mas até hoje mantém amizade com muitos de seus companheiros de partido.

Armênio passou a divergir daqueles que pensavam que deveria se seguir a cartilha stalinista, mesmo após a morte do ditador, e defendia a via democrática para fazer frente ao regime militar brasileiro. Mostrava-se contra as táticas guerrilheiras de derrubar o governo. Em 1970, quando o Brasil vivia a fase triunfalista de uma relativa estabilidade econômica, e a conquista do tricampeonato mundial de futebol, bem como parcela do País cantava Eu Te Amo Meu Brasil, composição de Dom e Ravel, junto com Os Incríveis e Elis Regina, o regime obscurantista de Garrastazu Médici torturava, caçava e matava seus adversários. Convém lembrar que Médici atingiu índice de aprovação (82%) equivalente ao do ex-presidente Lula.

Nesse ano, no Rio de Janeiro, foi abordado por um certo “Wilson”, que lhe propôs tornar-se agente da CIA; ciente, é provável, de algumas posições dele, como a discordância das táticas da ANL. Informou ao partido do ocorrido e, vendo que a situação estava ficando deveras absurda e perigosa, foi para o Chile, na época em que, pela primeira vez na América Latina, se instaurava um governo socialista por vias democráticas. Era o ano de 1971.

Pouco antes da crise que acabaria na morte do presidente Salvador Allende, em junho de 1973, foi para a União Soviética participar do “Congresso Mundial pela Paz”. A 11 de setembro, o exército comandado por Augusto Pinochet, pôs fim ao governo democrático de Allende. Guedes teve que ficar por lá. Não foi a primeira vez. Morou em Moscou, coincidentemente, quando morreu Stálin, em 1953. Logo ele que, a essa altura, discordava abertamente da linha ideológica de alguns próceres do partido.

Em Moscou, Armênio ficou hospedado no Rossiya, construído pelo governo soviético. Em 1967, quando foi inaugurado, era o maior hotel do mundo, capaz de acomodar 4 mil pessoas. Luxuoso, abrigava um teatro com 2,5 mil assentos, um clube e academia de ginástica. Tinha até uma orquestra tocando no restaurante durante as refeições. Foi lá que ouviu pela primeira vez russos tocando música brasileira. Eram duas as que faziam parte do repertório. Uma delas era Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, um dos hits – tocavam-na todos os dias –, a outra, mais raramente, era Garota de Ipanema. Asssim Armênio matava saudades do país em que nasceu.

Em 2006, muito longe dos anos do stalinismo, o hotel foi demolido para dar lugar a um complexo imobiliário projetado pelo arquiteto inglês Norman Foster.

O breve relato é pretexto para citar Aquarela do Brasil, talvez a canção mais “internacional” do Brasil. A essa hora, alguém deve estar tocando essa música no oud, no Egito, num shamisen no Japão, numa cítara na Índia, ou na balalaica, na Rússia. Para arrematar, estou disponibilizando uma interpretação com Chick Corea no piano e Béla Fleck no banjo.


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