Na semana passada foram lançados I Stiil Do, de Eric Clapton, e Fallen Angel, de Bob Dylan. São duas estrelas que estão na estrada desde a década de 1960, o que significa que estão há muito tempo. São remanescentes de uma década rica em revoluções musicais e de costumes. Clapton quase submergiu devido ao consumo de drogas mais pesadas, ao contrário de Dylan que, de mais grave aconteceu, adepto contumaz da marijuana, foi o acidente de motocicleta que o obrigou a se afastar do business da música por um tempo. A quarentena foi boa: Dylan voltou eletrificado, para a tristeza de seus fãs mais puristas.
No dia 24 deste mês, Bob Dylan comemorou o aniversário de 75 anos e continua na estrada. Faz em média cem apresentações por um ano, número significativo para alguém que já pode ser chamado de ancião. E para o recente Fallen Angel, está programada uma turnê com a também veterana Mavis Staples abrindo os shows. O negócio é que Bob, para o bem ou para o mal, gosta de ser original: nunca interpreta seus sucessos como são conhecidos em disco. O finado jornalista do Jornal da Tarde, Edmar Pereira, dizia, que, com um pouco de sorte, reconhecia-se o que o bardo americano cantava na hora do refrão. Aqueles que gostam de um bom espetáculo não sentem o mínimo prazer de verem Dylan em um palco. É ele e uma pequena banda, sem projeções em laser ou iluminações extravagantes.
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| EC pela mãos do mestre Peter Blake |
Clapton nunca fez um álbum ruim. Consegue manter uma média boa, ou melhor, são sempre, no mínimo, bons. I Still Do é o retrato disso e por isso é um título revelador. Aqui, não quer mostrar que já foi considerado Deus, o melhor guitarrista do mundo etc. Simplesmente, mostra que não tem que ficar se mostrando, o que é sinal de bom equilíbrio mental. O que pode ser um pouco decepcionante é a constatação de que nunca é genial como foi nos tempos em que era um “drug and alcohol Addict”.
Ouça o álbum na íntegra. Há sempre a possibilidade de, por conta de direitos autorias, de esse “youtube” ficar indisponível.
Um dos destaques é Stones in My Passway, de Robert Johnson. Esta é a versão do álbum que foi dedicado exclusivamente ao bluesman.
Outra a destacar é Cypress Grove, de Skip James. Essa versão é a de uma apresentação ao vivo.
A face Sinatra de Dylan
Em seu penúltimo álbum – Shadows in the Night –, Bob Dylan resolveu encarar o repertório de standards. Completando 75 anos, quase coincidindo com o aniversário, lançou Fallen Angels, centrado novamente nos standards do cancioneiro americano. É de se esperar que não dê uma de Rod Stewart e passe a gravar álbuns assim um atrás do outro.
Erradamente, alguns fazem referência a Frank Sinatra quando Dylan recorre ao repertório Tin Pan Alley. Nesse álbum, o número mais associado ao “ol’ blue eyes” é All the Way. As restantes, como Polka Dots and Moonbeams, Skylark, All or Nothing at All ou It Had to Be You e Come Rain or Come Shine, e até Young at Heart foram cantadas por Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e por uma infinidade de outros intérpretes, e com muito mais competência. A diferença é que Dylan não é Sinatra, nem Fitzgerald e nem pretende sê-lo, é o que imagino. Como cantor, sempre foi sofrível. É um grande, isso sim, bom intérprete de si mesmo. Em Come Rain or Come Shine e Neverthless desafina bem. O mesmo acontece em Skylark, por exemplo, brilhantemente interpretada no passado por Willie Nelson, outro country-folk singer que aventurou-se pelos standards na década de 1970.
Em Shadows in the Night, o fator novidade funcionou. A busca pelo passado era um bom pretexto. Fallen Angels é uma continuação piorada. Em bom artigo, Fernando Navarro dá uma luz em “O belo outono de Bob Dylan” sobre as referências relativas à velhice. Talvez, cantar o repertório Tin Pan Alley tenha alguma relação com isso. Faz sentido, de repente, Dylan abordar esse repertório.
Ouça a faixa promocional All the Way.
Ouça Melancholy Mood outra disponível.

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