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| A bela Amália Rodrigues |
Segundo o tal historiador, com a mudança da Corte para o Brasil, expulsa pelas tropas de Napoleão Bonaparte, os papéis, praticamente se invertem: Portugal vira uma “colônia”, governada a partir do Rio de Janeiro. Com a volta de D. João VI para a terrinha, alguns valores da cultura brasileira se agregam à portuguesa. Afinal, junto com o rei, voltaram ou foram para lá, 4 mil pessoas. Foi um pedaço do Brasil.
O que o historiador diz, no entanto, imagino não ser uma unanimidade. Em textos sobre as possíveis origens do fado, aventa-se que pode ter surgido sob influência dos mouros, o que muitos consideram improvável, e, dizem até que sua origem pode ser escandinava. A maioria concorda de que pode ter nascido das modinhas, gênero popular nos séculos 18 e 19, influenciados ritmos de origem africana, mais especificamente, de Angola. Essa teoria é bem mais assemelhada à do historiador. Muito da música brasileira foi influenciada pela modinha trazida pelos nossos colonizadores.
A música trazida da África é a raiz de gêneros diferentes que floresceram no continente americano, como o samba e o blues. Não deve ter sido diferente com o fado, na Península Ibérica, por meio da cultura dos países colonizados. Como aconteceu no Brasil, nos países da América Central e Estados Unidos, esses gêneros se desenvolveram no meio das camadas mais pobres. O fado era a música de marginais, marinheiros, e eram cantadas em becos, vielas, bares, prostíbulos e casas de meia porta, assim chamadas as habitações simples, muito comuns em que elas eram divididas ao meio.
Altos e baixos
O fado é essencialmente urbano. Ao contrário do blues, assim como o samba e o tango, desenvolveu-se nas áreas urbanas. Suas temáticas estavam ligadas ao ambiente em que habitavam, narrando agruras e acontecimentos do cotidiano. Havia antes um componente social muito forte nas letras de fado. Por serem cantados em tabernas e bordéis localizados em regiões em que grassava a violência e as orgias, era condenado pela Igreja. Até por isso, as letras eram críticas à Igreja, ao nacionalismo e ao militarismo. Algumas eram francamente de cunho marxista e pregavam a revolução.
Sob a égide de militares, as três palavras de ordem foram substituídas por três de cunho mais suave e hedonista: guitarras, mulheres e vinhos. Os fados de temática social passaram a ser censurados depois que António Salazar se tornou o homem forte de Portugal. Era permitido falar de temas mais amenos, como amor, ciúme, paixão, nostalgia e saudade. As letras poderiam conter violência, como brigas, assassinatos, mortes, mas relacionados aos motivos citados.
O gênero chega ao apogeu com Amália Rodrigues. Ela estreou em 1939 e foi o maior nome da música portuguesa de todos os tempos, e responsável pela popularização do gênero pelo mundo. Uma conjunção de fatores favoreceram para que ficasse tão famosa, respeitada pelos mais pobres e pelos mais intelectualizados.
Nasceu pobre. O pai foi tentar arrumar trabalho em Lisboa e, não conseguindo, voltou para a sua cidade e deixou-a com os avós. Sem condições também, não conseguiu mantê-la na escola. Com doze anos, foi trabalhar de bordadeira. Com quinze anos, vendia frutas no Cais da Rocha. Um participante da tradicional Marcha Popular de Alcântara, parte das festividades de Santo António de Lisboa e convenceu-a inscrever-se em um programa de calouros. O resto é história, diz o lugar comum.
Nascer pobre é destino. Ser burro não é privilégio dos pobres. Amália era uma mulher inteligente. Cercou-se de bons músicos. Musicou clássicosde Luís de Camões, Alexandre O’Neill e outros importantes poetas portugueses. Elevou o fado a outro patamar.
Um fator que ajudou muito para a sua difusão do gênero e da fama de Amália, foi a criação da RTP – Rádio e Televisão de Portugal. O país inteiro a ouvia. Três “F”s simbolizavam a glória do país sob o regime salazarista: fado, futebol, Fátima (Nossa Senhora de Fátima).
A fama de Amália foi fenomenal. Fez enorme sucesso fora de Portugal. Apresentou-se nos melhores teatros americanos. Chegou, inclusive a gravar discos com clássicos como “Summertime”, “All the Things You Are”, “Blue Moon” e “The Man I Love”.
Veja Amália a cantar “Estranha Forma de Vida”.
“Nem às Paredes Confesso” é um clássico rodrigueano.
Com a queda do regime, em 1974, o fado sofreu outro revés. Por ter ficado muito associado ao salazarismo, a nova geração que emergia com a Revolução dos Cravos desprezou o gênero. Sobrou até para Amália, próximo ao ocaso da ditadura. Diziam que era próxima da elite salazarista. Redimiu-se ao cantar o hino da Revolução dos Cravos. Soube-se que a cantora tinha dado dinheiro clandestinamente para o Partido Comunista.
Parecia o fim. Passada a tempestade pós-revolucionária, contudo, o fado voltou a ser valorizado. Os portugueses, sob os efeitos da globalização, perceberam o gênero como uma forma de afirmação da identidade nacional. Uma nova geração de fadistas estava nascendo, depois da Revolução dos Cravos.
Hoje
A intérprete mais famosa do fado, hoje, é Mariza. Para se ter uma ideia de como o gênero ressurgiu com força renovada, nasceu quatro meses antes da Revolução dos Cravos. A citação no primeiro parágrafo sobre ela não é totalmente gratuita. Tendo nascida em Lourenço Marques, Moçambique, de mãe negra e pai português, simbolicamente, representa a influência dos ritmos afros na origem do fado.
Mariza faz um sucesso enorme na Inglaterra. Veja-a a cantar “Barco Negro”, clássico antigo do fado.
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| Ana Moura, Camané e Carminho |
Quando fui a Portugal pela última vez, em Sintra, conversava com uma atendente de uma loja de bugigangas para turista. Era uma moça bonita e simpática. Perguntei-lhe sobre alguns nomes do fado. Queria saber de além dos que conhecia. Devo ter perguntado sobre intérpretes do sexo masculino. Ela disse-me que o melhor chamava-se Camané. Esclareceu-me que Camané era uma junção de “Carlos” com “Manuel”, ou “Mané”, Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos. Comprei um CD coletânea do rapaz. Voltando ao Brasil, descobri que dois de seus irmãos, mais novos que ele, são também músicos: Pedro Moutinho e Hélder Moutinho. Além deles, outro – bem conhecido por nós brasileiros, por ter gravado com Zé Renato, Roberta Sá e Ivan Lins – que deve ser citado é António Zambujo.
Apesar de associados ao fado, nem todos cantam exclusivamente esse tipo de música. Cristina Branco tem um repertório bem variado e é bem conhecida na França. Carminho, Ana Moura e António Zambujo possuem fortes ligações com a música brasileira. Ana Moura chegou até a apresentar-se com os Rolling Stones. Sinal de que os portugueses vivem em um mundo globalizado e estão abertos a outras influências.
Zambujo canta o clássico “Nem às Paredes Confesso”.
Carminho canta “As Pedras da Minha Rua”.
Ana Moura canta “Fado Loucura”.
Camané canta “Ai Margarida”.


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