Estou com uma resoluta mania de ouvir repetidamente alguns discos. Em uma entrevista de três décadas atrás, certo diretor teatral dissera que sabia quando estava mal: punha-se a ouvir a mesma música o dia inteiro. Em minha atávica dificuldade de autoconhecimento, prefiro culpar à preguiça o fato de ficar apertando a tecla do “play” do controle remoto. Alguns dizem não conseguir ler enquanto ouvem música. Crendo estar perdendo tempo, se desse, faria uma terceira coisa ao mesmo tempo. Exemplo: fumar charuto, ler e ouvir música; ou, fumar charuto, beber um vinho, deixar a TV sintonizada em um “globo news da vida”, a repetir indefinidamente as mesmas reportagens, sem som, lendo um livro, um jornal, ou até um folheto de supermercado – é a compulsão de ler até bula de remédio com letras em corpo 4 –, e fazer o que, dentro de uma, repito, “dificuldade em saber quem sou”, imagino ser meu maior prazer: ouvir música. Houve uma teoria, era criança ainda, que se dizia que, mesmo dormindo, estávamos aprendendo alguma coisa. Surgiram então coisas como cursos gravados em fita cassete (era o CD da época) para serem ouvidos enquanto se dormia. Não sei se funcionava, mas já ouvi muitos discos – LPs – dormindo. Explico: o tempo médio de um lado do disco era de uns vinte minutos. Quando queria dar uma cochilada rápida, funcionava como despertador: punha um disco dos Rolling Stones, por exemplo, o Exile on Main Street – tinha verdadeira paixão por ele –, colocava-o numa altura razoável. Para quem não sabe como funciona um aparelho tocador de LPs, comumente conhecido como “pickup”, quando terminava o lado do disco, a agulha ficava passando “ad infinitum” pelo mesmo sulco. Alguns aparelhos possuíam um dispositivo automático que alçava o braço do pickup trazendo-o de volta, e o disco parava de rodar. Quando terminava, milagrosamente, despertava-me do breve cochilo.
A capa do disco póstumo
Tenho ouvido com frequência o disco póstumo de Jeff Buckley, Sketches for My Sweetheart Drunken (1998). O guitarrista/cantor não estava muito feliz com o resultado. Antes que pudesse concluí-lo morreu afogado de um jeito estranho (leia em http://bit.ly/gNNLlO). Em algumas interpretações de Jeff, nota-se, na falta de palavra mais adequada, certa “urgência” na entonação da voz e na base instrumental que parece não ser a definitiva. Posso estar sendo levado a imaginar isso por um fato posterior: a sua morte misteriosa e sua breve carreira. Existe alguma semelhança com a morte prematura do pai Tim Buckley que, às vezes, parecia um carro desgovernado prestes a cair no precipício.
Não é uma demonstração do que foi dito, mas Everybody Here Wants You me levou a pensar nisso. Ouça.
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