quarta-feira, 30 de março de 2011

Uma certa “urgência” na voz de Jeff Buckley

Estou com uma resoluta mania de ouvir repetidamente alguns discos. Em uma entrevista de três décadas atrás, certo diretor teatral dissera que sabia quando estava mal: punha-se a ouvir a mesma música o dia inteiro. Em minha atávica dificuldade de autoconhecimento, prefiro culpar à preguiça o fato de ficar apertando a tecla do “play” do controle remoto. Alguns dizem não conseguir ler enquanto ouvem música. Crendo estar perdendo tempo, se desse, faria uma terceira coisa ao mesmo tempo. Exemplo: fumar charuto, ler e ouvir música; ou, fumar charuto, beber um vinho, deixar a TV sintonizada em um “globo news da vida”, a repetir indefinidamente as mesmas reportagens, sem som, lendo um livro, um jornal, ou até um folheto de supermercado – é a compulsão de ler até bula de remédio com letras em corpo 4 –, e fazer o que, dentro de uma, repito, “dificuldade em saber quem sou”, imagino ser meu maior prazer: ouvir música. Houve uma teoria, era criança ainda, que se dizia que, mesmo dormindo, estávamos aprendendo alguma coisa. Surgiram então coisas como cursos gravados em fita cassete (era o CD da época) para serem ouvidos enquanto se dormia. Não sei se funcionava, mas já ouvi muitos discos – LPs – dormindo. Explico: o tempo médio de um lado do disco era de uns vinte minutos. Quando queria dar uma cochilada rápida, funcionava como despertador: punha um disco dos Rolling Stones, por exemplo, o Exile on Main Street – tinha verdadeira paixão por ele –, colocava-o numa altura razoável. Para quem não sabe como funciona um aparelho tocador de LPs, comumente conhecido como “pickup”, quando terminava o lado do disco, a agulha ficava passando “ad infinitum” pelo mesmo sulco. Alguns aparelhos possuíam um dispositivo automático que alçava o braço do pickup trazendo-o de volta, e o disco parava de rodar. Quando terminava, milagrosamente, despertava-me do breve cochilo.

A capa do disco póstumo
Tenho ouvido com frequência o disco póstumo de Jeff Buckley, Sketches for My Sweetheart Drunken (1998). O guitarrista/cantor não estava muito feliz com o resultado. Antes que pudesse concluí-lo morreu afogado de um jeito estranho (leia em http://bit.ly/gNNLlO). Em algumas interpretações de Jeff, nota-se, na falta de palavra mais adequada, certa “urgência” na entonação da voz e na base instrumental que parece não ser a definitiva. Posso estar sendo levado a imaginar isso por um fato posterior: a sua morte misteriosa e sua breve carreira. Existe alguma semelhança com a morte prematura do pai Tim Buckley que, às vezes, parecia um carro desgovernado prestes a cair no precipício.

Não é uma demonstração do que foi dito, mas Everybody Here Wants You me levou a pensar nisso. Ouça.

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