Konchalovsky, cujo nome real é Andron Sergeyevich Mikhalkov, é coautor do roteiro de Andrei Rublev, de Tarkovsky (começou bem), e vem de uma família russa de raízes aristocráticas muito antigas, enfim, se fosse brasileiro, seria considerado um “quatrocentão”, ou melhor, se já existe a expressão, “quinhentão”. Adotou o Konchalovsky da mãe. Seu irmão, que não trocou de nome, é outro cineasta de primeira grandeza: Nikita Mikhalkov, autor de Olhos Negros – maravilhoso filme com Marcello Mastroianni e Yelena Safonova, baseado em conto de Tchekov –, Urga (1992), O Barbeiro da Sibéria (1998) – que não vi e o amigo Victor Nozek diz ser obra-prima – e O Sol Enganador, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1994.
Revi outro dia Os Amores de Maria (a primeira foi na época do lançamento), e não envelheceu. Ivan (John Savage, em bela atuação) volta da guerra em 1946 para sua cidade natal e reencontra Maria, sua namorada de adolescência. Nutre um amor tão intenso por ela (com razão: Maria é Nastassja Kinski), que, depois de casar, não consegue consumar o ato, ou seja,“broxa”, para usar uma expressão politicamente incorreta, mas não é impotente. Com a mulher feia, amiga do pai, faz sexo, sem problemas. Grosseiramente, explica-se a não consumação pela imagem de pureza e adoração que tem por ela.
As observações aqui são apenas para registrar algumas das belas imagens desse filme.
1. Ivan e Maria no campo depois que ele volta da guerra, em 1946. Ambos fazem parte de uma comunidade de imigrantes de origem iugoslava. Quando volta, descobre que Maria tem um namorado. Há um baile ou uma festa e Ivan e Maria “fogem” de lá na Harley-Davidson que o pai tinha mantido guardada na garagem. Ele a leva até o lugar em que tinha marcado pouco antes de ir para a guerra. Maria não foi. Debaixo da cadeira solitária, no meio do campo, ainda está a caixinha com os brincos que tinha comprado para presenteá-la.

2. A melhor cena. O pai de Ivan (Robert Mitchum) leva uma cômoda que tinha feito para Maria. Encontra-a lavando o chão da cozinha. Mitchum senta no sofá e fica admirando a cena. Desejo e sexualidade em alta voltagem: os olhos cansados do velho ardem em desejos inconfessos. Pede que sente do seu lado. Maria diz que quer casar com Ivan. Ele pede um beijo, um único, antes de se tornar seu sogro.

3. Desolado com a situação, Ivan sai da cidade e vai trabalhar num matadouro. Maria arde de desejos e vê relacionando-se sexualmente com Clarence Butts (John Carradine), um sujeito bonito, charmoso, “cafa” – enfim, o que muita mulher deseja num homem –, nômade, metido a cantor, que baixa na cidade. Engravida na única vez em que deita com alguém. Além do desejo incontido, assim Maria (não há nome mais apropriado para a personagem) deixa de ser pura. Tornando-se “impura”, torna-se “humana” para Ivan. A cena é quando Maria, “prestes a parir”, vai atrás de Ivan e diz que seu lugar é ao lado dela.

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