Estou tentando, até agora, descobrir a razão de Christmas, o álbum natalino de Michael Bublé, ter vendido quatro milhões de cópias no mundo todo em pouco mais um mês após o lançamento. Inexplicável.
Fiquei mal impressionado ao vê-lo em um DVD, se não me engano, o da apresentação no Madison Square Garden, em vários momentos, falando de dinheiro – coisas do tipo “preciso faturar um, comprem meus discos”. Com seu charme pré-fabricado, cara de menino desprotegido, um tipo que, se não um Clark Gable, bem apessoado, amealhou um sem-número de fãs de todas as idades. A mistura do pop com pitadas de jazz e arranjos orquestrais batidos têm causado efeito sobre adolescentes até. Acho que suas fãs – no feminino, pois acho que é a maioria – resolveram atender aos seus apelos para deixá-lo um pouco mais rico e ajudaram o Natal de Bublé; essa é a única explicação para tanto disco vendido.
É um tanto parecido com o caso de Jamie Cullum, mas este é muito mais talentoso, canta, toca bem piano (e até sobe nele), que também foi “lançado” com um bom background mercadológico. Mas Jamie é mais jazz, apesar de flertar bem com o pop (e rock) de Jimi Hendrix e Cia.; a diferença é que não tem a “fachada” de Bublé, e é um “moleque” serelepe cheio de energia e, acho, não passa pela sua cabeça nem na de seus assessores de marketing, aparecer de terninho com a gravata levemente afrouxada para denotar um tipo de “elegância distraída”.
Bublé, um pouco como Harry Connick Jr., aventurou-se por um caminho híbrido, aproveitando-se dos atributos físicos, trabalhando como ator também. Isso não é fenômeno recente. Desde quando o cinema ganhou som, atores e atrizes cantam e atuam. Bons intérpretes acabaram tendo participações no cinema e não fizeram feio como atores; lembro do maior deles: Frank Sinatra. No caso do canadense, imagino que seus marqueteiros devem ter pensado em vendê-lo como um novo Sinatra. Em beleza, certamente é superior ao “baixinho”, filho de italianos; como cantor, nunca chegará aos pés.
O cantor já tinha se aproveitado do “velhinho” para levantar um dinheirinho. Em 2003, em início de carreira ainda, lançou um EP (os chamados “extended play”, que acondicionam menos músicas) chamado Let It Snow.
Christmas corresponde a um tempo em que Bublé nem precisava pedir ajuda ao Papai Noel: est´å pra lá de rico e famoso. É um disco de Natal que atira para os lados e, considerando-se um dólar por disco, está quatro milhões de dólares mais rico. Tem participação de Shania Twain em White Christmas, do grupo The Puppini Sisters, em Jingle Bells, e, como não poderia faltar – para encher mais ainda o cofrinho dele –, um Mis Deseos / Feliz Navidad, cantada em espanhol com a mexicana Thalia.
E, como existe gosto pra tudo – até de se ficar curtindo músicas natalinas como se estivéssemos no Hemisfério Norte –, veja Michael Bublé cantando Santa Claus Is Coming to Town.
O Black Keys, depois de emplacar o CD Brothers como o segundo melhor de 2010 na revista Rolling Stone, lançou, recentemente, El Camino. Os americanos sempre adoraram um título em espanhol, antes até, de se tornarem um país mezzo-americano, mezzo-latino: é, no entanto, o que a história lhes destina. A famosa frase do poeta e ensaísta Octavio Paz, ao se referir ao seu país natal, o México – “Tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos” –, fatalista em relação à proximidade geográfica, pode servir como um comentário das mudanças que a história impõe: os EUA são, cada vez mais, latino.
Em contrapartida, podemos observar a força das raízes musicais americanas. O jazz e o blues são linguagens genuinamente fincadas e desenvolvidas nesse país. Mesmo que o álbum mais recente do Black Keys se chame El Camino, é, essencialmente americano. As primeiras notas da guitarra sinalizam a força desse gênero que muda e muda mas mantém uma identidade.
Essa banda que completa dez anos de existência, na verdade, uma dupla – Dan Auerbach e Patrick Carney – é de uma cidade de nome peculiar, situada no estado de Ohio: Akron. Por mais “domada” que possa ficar – conta com a produção de Danger Mouse, um dos braços da excelente Gnarls Barkley – continua sendo o que se convencionou chamar de “banda de garagem”. O som deles continua “sujo” e visceral. A guitarra de Auerbach tem uma pegada, que, às vezes lembra o som punk da banda inglesa Clash, produzindo riffs poderosos e melódicos ao mesmo tempo. São sons que, junto à bateria de Carney, formam um tecido rítmico contagiante, que é puro rock, por mais que flertem o pop. Se não tão impactante quanto o anterior Brothers, a cada audição “cresce nos ouvidos. Cada vez que coloco no meu iPod para ouvir, gosto mais. Por enquanto, a minha preferida é Sisters, não sei se proposital, contraponto para o “brothers”: é a irmã do irmão?
Ouça Sisters.
Vou passar, quando possível e “achável”, os links para download, a partir de agora. Ressalto que os uploads são de terceiros.
Todo mundo já fez seu “Christmas album”. Bem, nem todo o mundo. Você fez o seu? Eu não fiz o meu, portanto, esse “todo o mundo” é bem relativo. Mas, desde que existem discos, desde os velhos 78 (eram discos pesadíssimos prensados em celuloides que giravam numa velocidade alucinante sobre o prato de um pickup: era um festival de chiados e algum som), eram lançados na época de natal. O negócio do tal de Santa Claus é coisa séria no Hemisfério Norte. Até nós, colonizados do lado sul nos cansamos de assistir aos filmes americanos exibidos nos dias 24 e 25 de dezembro. E, mesmo aqueles mais distraídos, devem ter ouvido uma canção de natal cantada pela voz macia de Bing Crosby.
Na época do Natal, desde o cantor mais brega ao mais sofisticado, pode nos brindar com seu disco relacionado à efeméride, com resultados muito desiguais. Até no Brasil, alguns se aventuram em soltar seu disquinho comemorativo: puro colonialismo; não combina muito com os verões quentes.
Em uma rápida pesquisa no site da Amazon, descobrimos que Michael Bublé está lançando o seu, agora em 2011, chamado simplesmente Christmas; capa discreta: ele nem está vestido de Papai Noel ou coisa que o valha. Vemos também que a dupla moderninha She & Him lança o seu A Very She & Him Christmas. Para quem não sabe, a “she” é a dublê de atriz e cantora Zooey Deschanel e o “him” é M. Ward. Na primeira página, temos ainda James Taylor (JT at Christmas, 2006), e Andrea Bocelli (My Christmas, 2009), Se continuarmos a explorar, veremos que muita gente fez seu disco de natal; por essa razão é “todo o mundo”. (Leia “Diana Krall embrulhada para o Natal em http://bit.ly/u0HQZC).
O disco de Natal de Tony Bennett
Nesse “todo o mundo” não poderia faltar o de Tony Bennett, quase nonagenário e ativíssimo, que, depois da morte de Frank Sinatra, herdou o título de melhor cantor do mundo (mesmo que tenhamos de admitir que essas classificações de “melhor do mundo” são capciosas). Seu The Classic Christmas Album, recentemente lançado, não é uma coleção de canções inéditas; é uma compilação. Cinco delas são de Snowfall: The Tony Bennett Christmas Album, de 1968, com arranjos do competente arranjador Robert Farnon. Mais cinco são de A Swinging Christmas, de 2008, com arranjos do não menos talentoso arranjador Bill Holman. Outras são com seu mais tradicional acompanhante, o pianista Ralph Sharon, em quatro delas é acompanhado pela London Symphony Orchestra, e há uma em que faz dueto com Placido Domingo.
Mesmo considerando que esses “Christmas Albuns” não combinam bem com o espírito natalino brasileiro, é impossível não reconhecer a classe e elegância de Tony Bennett.
Em homenagem ao amigo Carlos Conde, que era apaixonado por Mel Tormé, ouça a clássica The Christmas Song, arranjada por Robert Farnon (Clique em “skip this add” para fugir da publicidade inicial).
Ouça na interpretação de seu compositor. A música foi composta em 1944.
Antes de entrar na banda de Joe Zawinul e Wayne Shorter – o Weather Report –, em 1976, Jaco Pastorius já era conhecido dos colegas músicos. Dizem que Pastorius, em uma apresentação do Weather Report, em Miami – o baixista nasceu em Fort Lauderdale, Flórida –, abordou Zawinul e lhe falou de que havia gostado, mas esperava mais, que estava faltando “alguma coisa”; e se apresentou como o melhor baixista do mundo. Na insistência, fez com que chegasse até Zawinul uma fita demo. O resto é história. Mais tarde, com os acontecimentos posteriores, ficou público que Pastorius era bipolar, e como acontece com usuários de drogas, cocaína principalmente, era megalomaníaco e um tanto “sem noção”. Teve fim inglório: levou uma surra de um leão de chácara em uma boate da Flórida e morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral. Tinha 36 anos. Louco como andava, a carreira também tinha desandado (sobre isso, leia em http://bit.ly/vczRcR). O responsável por sua morte, Luc Havan, ficou quatro meses preso; foi solto por bom comportamento. Pelo menos, ao contrário de muitos usuários de cocaína que cheiram para se sentirem poderosos, “criativos” e “inteligentes”, Jaco era gênio e não precisava disso para ser “melhor”.
Pastorius entrou no meio das gravações do disco Black Market. Bastou. Suas composições e intervenções no baixo o consagraram. Fazia o diabo com seu Fender Jazz Bass sem trastes. A primeira vez que o ouvi em disco foi no disco Ira Sullivan (Horizon, 1976). Ira Sullivan – toca trumpete, flugelhorn, saxofone e flauta –, apesar de pouco conhecido, é um tremendo músico. A aversão por viagens foi empecilho: baseou-se na Flórida e pouco saiu de lá desde então (creio que, atualmente, está aposentado, pois faz muito tempo que não ouço falar dele). O fato de tocar com frequência nos clubes locais deve tê-lo feito “trombar” com o, ainda jovem, Pastorius. Em 1974, estava fazendo parte do quinteto de Ira. No disco lançado pela subsidiária da A&M Records, o baixista participa de apenas uma faixa: Portrait of Sal La Rosa. Foi o suficiente para perceber que se estava diante de um músico diferenciado.
Em 1974, foi lançado um disco pela Improvising Arists em que, sem título, apenas trazia os nomes de seus participantes: Paul Bley, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Bruce Ditmas. Era, essencialmente, um disco do pianista Paul Bley; todas as composições eram, ou dele, ou de Carla Bley que, por um tempo foi sua mulher.
O grande disco anterior a 1976 é Bright Size Life (ECM, 1975), primeiro disco solo de Pat Metheny. Esse é um clássico, em vários sentidos. Pat começou muito cedo. Antes de completar 20 anos estava na banda do vibrafonista Gary Burton como segundo guitarrista (o primeiro era Mick Goodrick). Era tão bom que chamou atenção do chefão da ECM, Manfred Eicher. Em Bright Size Life teve como sidemen Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses. Nem parecia disco de estreante de tão bom que era. Metheny nasceu pronto, assim como Pastorius. Por meio desse disco ocorreu meu segundo contato com o som do baixista.
A primeira e única vez que vi Pastorius tocando aconteceu num longínquo ano em um festival de jazz no Ginásio do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, em 1980. O som era péssimo e o público carioca queria só diversão, ouvir era o de menos. Para se ter uma ideia, McCoy Tyner se apresentou, e o som era tão ruim que ninguém deu a mínima para o grande mestre do piano; foi deprimente. Outra atração foi Pat Metheny e sua banda. Lembro que os “avant-garde” Art Ensemble of Chicago eram outro destaque; na última hora, cancelaram: decepção. A apresentação mais impactante mesmo foi a do Weather Report. Ao lado dos mestres Wayne Shorter e Joe Zawinul, Jaco Pastorius foi uma atração à parte. Com uma fita prendendo-lhe os longos cabelos, parecia um índio. Passaram algo como um talco no chão para facilitar-lhe os movimentos. Estava ligado em uma tomada de 220 volts; não parava quieto e mexia com os dedos da mão direita a toda hora, dando a impressão de que estavam doloridos pela força com que dedilhava as cordas. O ponto alto foi um longo solo em que tocava um trecho de Portrait of Jenny. Inesquecível. Quem viveu isso não esquecerá nunca.
Para quem não sabe ou não se lembra, Debbie Harry era a voz de Blondie. A loura platinada – oxigendada? – era a banda, se pudermos dizer isso. Antes de brilhar nos palcos, desnudou-lhe o belo corpo e beleza na revista de Hugh Heffner. Com a Blondie emplacou alguns sucesssos infalíveis. Quem frequentou casas noturnas em fins dos anos 1970 e parte dos anos 80 deve se lembra de Heart of Glass, Union City Blue e Call Me, que se tornou conhecidíssima por ser tema do filme American Gigolo, que tornou Richard Gere estrela hollywoodiana.
O Blondie se apresentava com frequência no lendário Studio 54. Com o fim temporário da banda – de hoje em dia todo mundo volta, faz algumas apresentações e, depois, tornam a se desfazer – Debbie levou em frente a carreira de atriz, na TV e no cimema, como em Hairspray, de John Waters, e em New York Stories, e, mais recentemente, interpretou a mãe de Ann (Sarah Polley) no belíssimo filme Minha Vida Sem Mim (My Life Without Me, 2003), dirigido pela espanhola Isabel Coixet.
Tudo, depois que acontece, se torna possível. É como inventar a roda. Antes de sua existência, seria difícil imaginar que alguém a pudesse numa coisa como essa. Depois de inventada, todo mundo pensa: “que coisa mais banal. Por que, antes nunca alguém tinha pensado?” Na música, é assim também. Por que ninguém tinha pensado que a bela River Man, do inglês Nick Drake, pudesse virar um belo tema de jazz? Bem, antes do pianista Brad Mehldau fazê-lo, talvez ninguém tivesse pensado nela . Na esteira, veio uma bela interpretação do cantor de voz de barítono, Andy Bey.
O Bad Plus em ação
Bad Plus. Estranho e belo nome para uma banda, não? Pois são tão pouco ortodoxos, que adoram transformar temas da música pop (Blondie, Nirvana, Roger Waters, Yes, David Bowie, Tears for Fears, Queen, e outros de quem não me lembrarei agora) em jazz. Se são tão modernos e contemporâneos adoram uma guitarra estridente ou um Fender Rhodes. Errado. Formam um “caretíssimo” trio de jazz de três caras de Mineápolis, Minnesota: o pianista Ethan Iverson, o baixista Reid Anderson, e o baterista David King. Gravaram pelo selo Columbia e, atualmente, têm seus discos lançados pela Heads Up. Vale a pena conhecê-los.
Dois dos filmes recentes vistos na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo utilizaram Ne me quitte pas em algum momento: O Ruído do Gelo, de Bertrand Blier, e Toast, de S. J. Clarkson. No primeiro, é a tradicional interpretação de Nina Simone, e, no segundo, uma outra, relativamente antiga, da inglesa Dusty Springfield, essa na versão em inglês – If You Go Away.
São filmes com histórias bem diferentes. No filme de Blier, o Ne me quitte pas cantado pela americana, pode até ser levado por um lado irônico. O escritor Charles Faulque e a criada enganam o “câncer” e partem para uma viagem de barco, [maiores detalhes, leia em http://bit.ly/vcFI2Q]. É a cena final, e a ironia é se o comentário do “não me deixe” é relacionado à futura vida do casal ou se é o lamento do “câncer” suplicando por um “não me deixe”.
Toast é do mesmo roteirista de Billy Elliot (2000), Lee Hall. Baseado na história de Nigel Slater, conhecido jornalista, apresentador de “Simple Suppers”, na BBC, e autor de vários livros de culinária, ainda inédito no Brasil, tem todos os ingredientes – já que falamos de gastronomia – para que seja exibido em circuito comercial. As únicas oportunidades de vê-lo, até agora, foram em sessões da 34ª Mostra de Cinema de São Paulo.
O roteiro gira em torno de sua infância e adolescência. A mãe de Nigel é péssima cozinheira que, na elaboração dos pratos usa quase que exclusivamente produtos industrializados. Deve ser verdade: o filme é baseado em livro autobiográfico; ou “meia-verdade”, se considerarmos os protestos das meias-irmãs de Slater, que ficaram revoltadas ao verem sua mãe, protagonizada por Helena Bonham Carter (cada vez mais especializada em fazer papéis histriônicos), trajando sempre um roupão surrado, com meias com costura (antes do advento de fibras sintéticas, as meias possuíam uma costura longitudinal) e sempre com um cigarro pendurado na boca, até quando cozinhava. Elas alegam que Dorothy não era uma “arrumadeira” e sim, amiga de família que se prestou a “ajudar” o pai Tony Slater (Ken Scott), recém enviuvado. O pai Tony acabou casando com “Miss Potter”.
Mentira ou não, considerando-se que cinema é, antes de tudo “ficção”, a história do modo que é contada no filme, é muito divertida. O jovem Nigel “vê” despertar seu interesse pela cozinha devido à habilidade dela, principalmente pelo delicioso merengue de limão, que, avaramente, não deixava que Nigel descubrisse a receita.
O discreto charme de Dusty
Dusty Springfield. O destaque na trilha sonora são duas canções da inglesa Dusty Springfield. Em 1964, lançou A Girl Called Dusty e chamou a atenção da crítica. Em 1969, lançaria seu melhor disco: Dusty in Memphis. Devido a sua paixão pela soul music americana, principalmente, pelas gravações lançadas pela Motown Records, a londrina gravou esse disco com músicos americanos pelo selo Atlantic Records, impulsionada por seu proprietário Ahmet Ertegun, que a via como a alternativa “branca” a Aretha Franklin. Dusty in Memphis virou clássico, mas na época do lançamento, não fez o sucesso que Ertegun previa.
Em Toast, que eu me lembre, as canções que fazem parte são The Look of Love, do americano Burt Bacharach, e a outra é If You Go Away, a versão em inglês do clássico Ne me quitte pas, de Jacques Brel (leia sobre essa canção em: http://bit.ly/tkC6WI). Encaixam perfeitamente, principalmente essa última. É essa a que você vai ouvir.
A gravadora aproveita a época de Natal e lança Winehouse
Por ocasião da morte de Amy Winehouse terminei por não comentar nesse blogue. Mas, agora com o lançamento do CD póstumo, tem-se mais assunto do que supostas causas da morte de Amy ou de seus abusos com as drogas e o álcool.
Como Amy não lançou mais nada desde Back to Black, no fim de 2006, havia grande expectativa em torno da possibilidade de ela lançar um novo disco, apesar da gangorra que se tornou a sua vida, sendo mais notícia de jornais sensacionalistas do que de veículos especializados em música. Reconheça-se o gosto sádico das pessoas de ficarem assistindo à derrocada de seus ídolos como compensação pela vida ordinária que muitos levam.
Diante do sem-número de escândalos e vida exposta, Amy tornou-se célebre, mais pela frequência com que apareceu em tabloides e revistas de fofocas. Apesar disso, e reconhecida como garota promissora por dois bons discos gravados, seus fãs, certamente, tinham a expectativa de que, mais uma vez, os surpreenderia com seu talento natural. A morte a acolheu mais carinhosamente do que a vida. Depois de sua morte, falava-se das gravações que fizera com produção de Mark Ronson e de Salaam Remi. Finalmente, temos acesso a essses registros. Se não têm a qualidade que se esperava – era essa a expectativa depois de Back to Black, não era? – há coisas interessantes.
Depois que morreu, surgiu a notícia de que havia gravado com o quase nonagenário Tony Bennett. Finalmente, a conhecemos, pois é uma das faixas de Lioness: Hidden Treasures, lançado em 5 deste mês. Foi a primeira que ouvi. Não sou tão fã, como era Carlos Conde, de Body and Soul; isso é impossível. Se houvesse algum CD com essa música cantada por Bruno e Marrone, certamente, Conde teria comprado. Ele possuía todos os Body and Soul de que tinha notícia. É um dos grandes standards do cancioneiro americano, um clássico. Fui direto nela. Bennett é um caso de amor à primeira vista.
Tornaram-se moda esses discos em que cantores consagrados fazem duetos com intérpretes dos mais variados gêneros. Não sei bem se foi Frank Sinatra quem iniciou essa moda, mas todos devem conhecer os dois discos que ele gravou nos anos 1990, dividindo sua voz cansada com as de cantores consagrados como o próprio Bennett ou Liza Minelli, e outros nem tanto, como a de Gloria Stefan ou a de Julio Iglesias.
Body and Soul com Tony Bennett e Amy Winehouse decepciona. A voz da inglesa parece a de uma Natalie Cole piorada. Ficou devendo nessa. Mas o resto do CD não chega a decepcionar e, muito menos, pode ser considerado ruim. O charme do repertório de Winehouse sempre foi, mesmo em composições inéditas, a de um certo “revivalismo” do som dos anos 1950 e 60. Backing vocals a la Golden Boys, intervenções de naipes de sopro, com marcações bem definidas da bateria, do sax barítono e por “riffs” econômicos da guitarra, fazem parte do “fundo sonoro” para a voz (muito) especial de Winehouse. Por conta desse gosto “revivalista” (veja, ela não foi a única a fazer isso: virou uma fórmula quase infalível e, de certa forma, é consequência da facilidade propiciada pela internet de conhecer o que era feito em outros tempos na música popular), não é muito difícil gostar de qualquer coisa que Amy tenha feito nessa direção, mesmo não estando em momentos mais inspirados.
Depois de ouvir Lioness, umas três vezes; minha capacidade de julgamento se desvanece e, sem muito refletir, me encanto com a faixa de abertura, uma releitura meio ska, meio reggae, com um invariável naipe de metais, de Our Day Will Come. A quarta faixa é uma composição de Carole King e Gerry Goffin, clássico originalmente gravado pelo grupo The Shireless. A “cozinha” dos Dap-Kings, o arranjo das cordas e o vocal ocasional apenas somam a essa bela interpretação da inglesa. A “peteca” não cai em Like Smoke. A intervenção “rapper” de Nas combina perfeitamente com a instrumentação retrô. Muito boa. Outro destaque é a versão “bossa eletrônica” da nossa Garota de Ipanema. Bem interessante. Mas, do que eu gostei mesmo é de A Song for You, clássico de Leon Russell. Caiu no gosto até de cantores mais associados ao jazz, como Carme McRae e Shirley Horn. É uma daquelas em que é difícil estragar.
Para comparação, ouça a mais conhecida, a de Donny Hathaway.
No mês de outubro, recebemos a visita de Eric Clapton. Foi a segunda apresentação do britânico, dez anos depois da primeira. A de São Paulo ocorreu no feriado de Nossa Senhora Aparecida. Em uma noite agradável, Clapton apresentou sucessos, alguns antiquíssimos.
Mr. Slowhand, como o ator Jack Nicholson, foi criado pelo marido e avó, imaginando-os sendo seus pais, quando, na verdade, era filho da irmã mais velha, que o teve quando tinha 16 anos.
Com 18 anos, estava tocando com o lendário Yardbirds, por onde, logo depois, passariam dois outros guitarristas que se tornariam lendários: Jeff Beck e Jimmy Page. Logo depois, foi tocar na banda John Mayall and The Heartbreakers. Alcançou sucesso meteoricamente. Juntou-se ao baixista e cantor Jack Bruce e ao baterista Ginger Baker e formaram o grande “power trio” de todos os tempos, o Cream. Era ego demais por centímetro quadrado. Durou pouco.
Os jovens pichavam nos muros: “Clapton is God”. Mas outro “deus” despontava no cenário inglês: um negro americano chamado Jimi Hendrix “perdido” na metrópole. Dizem que (não li a autobiografia recém-lançada de Clapton) a morte precoce de Hendrix o abalou profundamente.
Até hoje, Clapton canta músicas que compôs na época do Cream. São hits antiquíssimos, coisa de mais de quarenta anos. Parte da plateia do Estádio do Morumbi nem tinha nascido. Isso parece ser um fenômeno mais recente: muitos astros não sobreviveram – caso de Elvis Presley, por exemplo, aos seus sucessos. Hoje, astros sessentões – ou quase setentões – ainda pulam como macacos nos palcos e despertam o interesse de uma juventude de vinte e poucos anos. É muito interessante ver um adolescente cantando animadamente, e de cor, uma canção que tem mais que o dobro de sua idade, como no caso dos shows de Paul McCartney.
Outro astro que, em outros tempos, seria chamado de “dinossauro do rock” – ninguém, hoje, ousaria classificar Mick Jagger assim – desembarcou no mês passado: Ringo Starr. A impressão é que o baterista é mais “respeitado” agora do que quando era componente dos Beatles. “Chegou” depois, substituindo Pete Best. É um peso. Por muitos era considerado quase um apêndice; próximo das personalidades fortes e presentes da dupla compositora Lennon & McCartney (assim assinavam apesar de a maioria das músicas ser de apenas de um deles, com “a little help” do outro), George Harrison, guitarrista tímido e habilidoso e “segundo” compositor do quarteto, “sobrou” pouco para Ringo. Compôs algumas canções: Don’t Pass by Me e Octopus’s Garden. Agora, era um cara engraçado. Lembro de uma entrevista com os Beatles para alguma estação britânica em que se ouve a voz de John Lennon, de Paul, de George (menos) e nada da fala de Ringo. O locutor diz: “Ringo, diga alguma coisa.” Ele: “au!, au!, au!”
Sem aviso, acho que até para ele, e bem mais tarde, começaram a dizer: “Não, Ringo era um bom baterista”, “a bateria de Ringo era essencial para a qualidade da música dos Beatles” e, por aí vai. Sua personalidade um tanto histriônica, de certo modo, o deixou em evidência, depois do fim dos Beatles (é autor de, praticamente, um sucesso solo: It Don’t Come Easy), meio como uma celebridade, e nem tanto como músico. Quem “resolveu” colocá-lo no céu foram os membros da banda britânica Oasis, a ponto de o filho de Ringo, Zak Starkey ter-se tornado membro como baterista.
Pois, não é que lembraram dele para se apresentar no Brasil? A preços exorbitantes. Não conheço ninguém que foi vê-lo. Bem, não deixa de haver alguma magia em assistir a uma apresentação de Ringo Starr, imagino
Harrison e Clapton nos backing vocals na “ONU”, em Water
Só o amigo Rui Moreira Leite para achar um elo entre as apresentações tão próximas de Eric Clapton e Ringo Starr. Rui foi “buscá-lo” em um filme, que nem deve ter sido exibido no Brasil, chamado Water. Não assisti, portanto não posso dizer muita coisa dele. Pelo que li na internet, faz aquele gênero “comédia maluca” e foi dirigido por Dick Clement e estrelado por Michael Caine e Valerie Perrine. Water é uma produção da HandMade Films – mais um “elo” –, de George Harrison.
O Rui, que viu o filme (tem no YouTube, dividido em sete partes), disse que tem uma cena impagável satirizando a ex-primeira-ministra Margareth Thatcher. Todo esse papo furado serve para mostrar os dois juntos – Ringo e Clapton –, além de George Harrison, tocando juntos na banda de apoio de uma dupla de “revolucionários” (imagino) “cantando” na sede da ONU para uma plateia de representantes mundiais.
Espero que ninguém tenha se cansado de tanto ler sobre Stacey Kent nesse blogue. Sou fã incondicional desde o seu primeiro disco. Apesar da crítica – ou os polls – não costumar colocá-la entre as “dez mais”, merece estar entre as três melhores da atualidade, não apenas pela voz ou afinação, e mais pela inteligência e sabedoria em escolher o repertório. Não é aquele repertório de standards com uma ou outra canção “diferente”. Devido à facilidade que tem com línguas (é formada em literatura comparada; leia em http://bit.ly/tARGoA), canta – naturalmente – em inglês (é americana, apesar de residir na Inglaterra), em francês, e em português quase perfeito. Essa versatilidade lhe possibilita transitar por preciosidades musicais cantadas em suas línguas originais.
A imagem da capa do CD ao vivo
Agora, no mês de outubro, foi lançado o seu primeiro álbum “ao vivo”. É o registro da apresentação do La Cigale, Paris, em maio. Kent é acompanhada por Jim Tomlinson, marido, arranjador, produtor e saxofonista (sobre sua importância no som de Kent, leia em http://bit.ly/u4X7Mu). Chama-se Dreamer - In Concert.
Músicas do cancioneiro americano, como de costume, estão presentes: It Might As Well Be Spring, The Best Is Yet to Come, If I Were a Bell, e They Can’t Take That Away from Me. Não poderiam faltar canções francesas: Ces petits riens e Jardin d’hiver. A primeira é de Serge Gainsbourg, a segunda é do “Serge Gainsbourg da atualidade”, Bemjamin Biolay (é casado com Chiara Mastroianni), em parceria com Keren Ann. A terceira cantada em francês é, na realidade, brasileira – Samba Saravah, música de Baden Powell, chamada aqui de Canção da Benção –, tornada conhecida pela interpretação de Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme dirigido por Claude Lelouch. As brasileiras mesmo são Corcovado, Waters of March e Dreamer. Essas interpretações são bem conhecidas pelos seus costumeiros ouvintes. A novidade mesmo, é uma música chamada O Comboio. Alguém conhece? Não sei se estou certo, mas deve ser a sua primeira incursão na língua portuguesa como compositora. A letra é do poeta português Antonio Ladeira. É o que você vai ouvir.
Eu e Zelia Duncan temos algo em comum: fomos furtados em Buenos Aires na semana do feriado do dia da proclamação da República. Ela teve sua bolsa surrupiada por uma senhora grávida dentro de uma doceria, e eu, a carteira com três cartões de crédito, cerca de 700 pesos e, dor maior, minha carteira de identidade tirada (nunca perdi) quando tinha 13 anos, no metrô entre as estações Uruguay e Callao. Ainda bem que, no hotel, ficaram o passaporte e um cartão de crédito.
Nem fiquei tão chateado com a perda dos cartões e dinheiro, se bem que sempre nos sentiremos vilipendiados. A percepção de que alguém lhe surrupia o que foi conquistado à custa de trabalho é horrível mesmo.
Em relação ao furto, que nunca tinha acontecido comigo nas dezenas de viagens para fora do País, até hoje, primeiro, pensei que “há sempre uma primeira vez”, a segunda, é uma breve reflexão sobre o destino. O que me fez estar naquela hora, naquele vagão?
Antes de sair do hotel me perguntei por que estava andando há dias com quatro cartões. Tirei um deles e deixei-o sobre a mesa. Nunca gostei de usar o metrô de Buenos Aires. Nas cinco vezes que fora à cidade sempre preferi andar a pé ou me locomover com táxis, bem mais baratos que os brasileiros; desta vez, por sugestão de quem viajava comigo, resolvi usar o metrô. Quando o trem chegou na estação, em vez de pegar o vagão mais próximo, preferi pegar o posterior, que parecia menos cheio. Percebi algo estranho ao me sentir “ammassado” por dois marmanjões de mais ou menos 1,80 m de altura. Quando o trem parou na estação de Callao, pus as mãos nos bolsos, por desconfiança mesmo. Automaticamente agarrei no braço de um dos que imaginei pudesse ser o ladrão e lhe disse algo do tipo “você me roubou” – em português –, nervoso que fiquei. Ele abriu os braços dando a entender que não fizera nada e saiu tranquilamente. Saímos também, um tanto atônitos, para ver o que faríamos. Um senhor que saiu junto nos disse que percebera que eram três ou quatro homens os ladrões. Tudo bem, posso estar errado, mas fiquei com uma impressão difusa quanto a esse senhor, imaginando-o cúmplice. Por que saiu do trem e, em vez de sair para a rua, ficou por lá, aparentemente, pelo próximo? O último “acaso” foi a de que na noite anterior tinha sacado alguns pesos no caixa eletrônico. Se não tivesse feito, o prejuízo teria sido de pouco mais de 200 pesos.
A conclusão a que cheguei foi a de que as coisas acontecem tão circunstancialmente que, quando têm de acontecer, acontecem. O amigo Adilson Rocha brincou referindo-se ao tango Por Una Cabeza. No clássico de Carlos Gardel, o apostador de corridas de cavalo perde “por uma cabeça”. Fui roubado por um vagão: se tivesse tomado o que estava mais próximo, não teria sido furtado.
Vedder, o líder do Pearl Jam
Pearl Jam em Buenos Aires. Em razão de os ingressos custarem bem menos na Argentina, e também de os assentos serem numerados (estou velho para ficar em pé na pista; a última “experiência” foi no show de Paul McCartney, neste ano, na ala vip e, mesmo assim, achei cansativo), preferi juntar show com passeios, sempre aprazíveis na cidade portenha. A parte civilizada é a de que os “assentadores” o levam até o lugar comprado, serviço que não deve existir nos estádios brasileiros. A parte ruim foi a de que o show se deu no estádio de La Plata, uns 60 quilômetros distante da capital. Aí entra a “aventura”: pegamos um ônibus na estação Retiro, que nos deixou, uma hora e meia depois, no ponto mais próximo do estádio. Depois de caminharmos bem uns três quilômetros, por uma via coalhada de vendedores com suas churrasqueiras fumegantes de morcillas e pedaços de carne, refrigerantes e cervejas, e acidentadas, ora de terra, ora de calçadas quebradas e trechos ermos, chegamos ao estádio com o show iniciado. Os “assentadores” nos levaram até nossos lugares, respeitosamente, vagos. Há alguma coisa de mais civilizado na Argentina! Nem vou discutir onde podem não ser mas, aparentemente, há sensação de maior civilidade e menos violência que no Brasil (veja, não estou esquecendo que fui furtado).
A apresentação da banda foi ótima. O espetáculo mesmo, foi o da plateia, acompanhando e cantando junto. Considerando-se que o Pearl Jam existe desde 1990 e a média de idade do público era entre os 20 e os 30 anos, é surpreendente. Eddie Vedder disse, no estádio de La Plata, que foi na Argentina que encontrou os seus mais ardorosos fãs. Será que disse a mesma coisa em São Paulo? Não é “a minha banda”, conheço bem os primeiros discos, bem menos os mais recentes, mas gosto muito da trilha sonora de Na Natureza Selvagem (Into the Wild), filme de Sean Penn, porém, esse é um disco solo de Vedder. O, agora, senhor dos “blue sad eyes” tem uma voz muito especial. Cativa e é um tanto melancólica. A sensação é que a “suprema felicidade” é apenas a de seus fãs.
Pearl Jam toca Mother, de Roger Waters.
Mi Buenos Aires Querido. Se essa minha breve estada em terras argentinas não foi das mais felizes, nem por isso, será a última. Gosto da cidade e da terra que gerou tantos gênios como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar (é belga de nascimento), Astor Piazzolla (apesar de nascido em Mar del Plata, passou boa parte da infância e adolescência em Nova York, no Little Italy), e Daniel Barenboim (judeu de origem asquenaze, nasceu em Buenos Aires, com menos de 10 anos deixou o país, apesar de continuar ligado às raízes portenhas).
Daniel Barenboim gravou um disco excepcional com o genial bandonionista Rodolfo Mederos em 1996 pela gravadora Telarc. Fazem parte das escolhidas, El Dia Que Me Quieras, de Gardel, e várias de Astor Piazzolla em interpretações emocionantes.
Para quem não conhece o Mi Buenos Aires Querido, de Daniel Barenboim, desfrute-o, e os que a conhecem, idem.
Fico sabendo da morte de Paul Motian pelo blogue da Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo, ocorrido em 22 de novembro. Tinha 80 anos e, segundo a nota, sofria de um problema na medula óssea. Lúcia diz que uma vez cometeu “o mau passo de pedir a ele uma declaração sobre mais uma temporada no Vanguard”.
Assisti a uma dessas apresentações que, costumeiramente, fazia com o saxofonista Joe Lovano e com o guitarrista Bill Frisell. Era uma formação interessante. Lançaram alguns CDs pela ECM. Sem o contrabaixo, a “alma” rítmica era a bateria; O som de Frisell é uma história específica: parece som havaiano — se é que isso existe —, sem deméritos, lembra aquelas mulheres dançando vestidas com sarongues coloridos. “Atirou” para todos os lados: tocou com músicos mais ligados ao avantgarde, como Don Byron, brasileiros, fazendo som “mexicano”, como Vinícius Cantuária, e em muitos — e coloque-se muito — dos álbuns que lançou, seu jazz pende para a música folk e country americanas. O saxofonista Joe Lovano, dos três, é o cara “mais jazz”. Passou a chamar atenção quando já não era mais um garotinho, porém, a partir daí, “desembestou”: grava um disco atrás do outro e há anos está entre os melhores tenoristas, com justiça.
Uma observação: é tão bom assistir às apresentações no Village Vanguard! É um lugar pequeno, em dois níveis, que dão para o palco montado em uma das pontas da sala. Enquanto se espera para entrar, vemos os músicos chegando, pedindo “com licença” para passar no meio dos que estão na fila. Estávamos lá e, de repente, passa um senhor franzino, de óculos e com um gorro, numa noite quente de fins de agosto: era Paul Motian.
A primeira participação de que tenho notícia de Motian é na do lendário trio de Bill Evans; o terceiro era ninguém menos que Scott LaFaro, morto bem jovem. Dias antes de morrer, em 1961, num acidente automobilístico, havia gravado Sunday at The Village Vanguard e Waltz for Debby. Foi o suficiente para entrar na história como um dos maiores baixistas de todos os tempos. Chales Mingus o odiava: é o suficiente, não? Pura inveja.
A outra formação excepcional da qual Motian participou foi a da banda de Keith Jarrett. Como solista, além de gravar alguns pela ECM, fez outros pela também alemã Winter & Winter (caracteriza-se pelas embalagens diferenciadas), JMT (que deve ter sido, não tenho certeza, o embrião da Winter & Winter, pois era comandada por Stefan Winter), e pela italiana Soul Note. Nunca parou.
Paul Motian (pronuncia-se “moriân”, e não “môchian”, como costumeiramente se falava, pois era de origem armênia) não é um baterista por excelência, desses como Elvin Jones, Max Roach ou Art Blakey. Sua “potência” não está no ritmo; está mais numa certa polirritmia que é só dele. Os discos que assinou como líder sempre se caracterizaram pela diversidade. Uma das formações mais interessantes foi a que tinha dois guitarristas. O “mau passo” a que Guimarães se refere foi quando perguntou-lhe, por telefone, sobre a temporada no Village em que estava “tocando com Lovano e Frisell”. Silêncio glacial do outro lado da linha. ‘Você quer dizer, eles estão tocando comigo’ corrigiu o baterista.” Lucia disse que foi a entrevista mais curta que jamais fizera.
Relevando um pouco a possível arrogância de Motian, façamos uma homenagem a esse instrumentista ímpar, que tocou até morrer.
Paul Motian e sua banda Bebop Elctric Band tocam “Brilliant Corners”, de Thelonious Monk, no Festival Chivas Festival, em São Paulo, 2003.
Como a água de um rio, que nunca percorre o mesmo caminho por mais de uma vez, as notas do piano de Keith Jarrett foram se aventurando por terrenos inexplorados naquele dia em Colônia, Alemanha. Quando foi lançado em dois LPs, Köln Concert, fez um sucesso como nunca um disco de jazz fizera, talvez com exceção de Forest Flower (1966), de Charles Lloyd, músico com quem tocara por certo tempo no início da carreira, atingindo a marca de um milhão de discos vendidos.
Quando fez essa apresentação, em 24 de janeiro de 1975, Jarrett já era um talento reconhecido: tinha feito parte da banda do “flower power” Charles Lloyd, participara da formação elétrica de Miles Davis, e gravara discos pelos selos Atlantic e Impulse com sidemen poderosos (Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian).
Depois de Köln Concert faria outros discos em que, sentado ao piano, no qual os sons se encadeavam em ondas de improváveis improvisos. Várias performances posteriores, sempre ao vivo, foram disponibilizadas em discos pela ECM Records: Bremen-Lausanne, The Sun Bear Concerts (Osaka, Tóquio, Kioto, Nagoya e Sapporo, em 1976), Paris Concert (1988), Vienna Concert (1991), La Scala (1995), Paris/London – Testament (2009) [leia em http://bit.ly/rZjOMg], e agora, nos brinda com a lindíssima apresentação realizada, no Rio de Janeiro, em seu tour por terras brasileiras, no ano passado.
É uma “fórmula” de mais de 35 anos. Haveria, naturalmente, um desgaste ou diluição nesse eterno “repetir-se a si mesmo”. Não é o que acontece, porém. A exemplo das dezenas – e um quase milhar de apresentações – de discos gravados com o baixista Gary Peacock e o baterista Jack DeJohnette, num dos formatos mais tradicionais – o trio –, quase que exclusivamente compostos de standards conhecidos do público apreciador de jazz, mesmo assim, apresentam algo de original.
Capa do último álbum de Keith Jarrett
Os solos de Jarrett eram longos. Valorizava ou, intimamente procurava, demonstrar sua capacidade improvisativa em longos solos nos quais os momentos de “respiro” eram os de mudança de rota – ora agitado, ora rítmico; em outras, poético ou melancólico. Os últimos – Testament e Rio – demonstram que tem optado por pequenos fluxos improvisativos, como pequenas peças que se juntam de acordo com o seu estado de espírito. Mesmo que o público – ou a sinergia com ele – seja um dado importante, no fundo, os improvisos são “viagens internas”.
Rio se divide em quinze partes. A primeira, quebrada em síncopes marcadas pela mão esquerda, é um solo de pouco mais de seis minutos que causa certa estranheza do público que acaba de entrar em “contato” com Jarrett. A Parte II é em tom menor e representa algo mais “musical”, prenúncio de que os improvisos possam se inclinar por essa vertente. É reflexiva, tateante e explorativa como se estivesse a procurar uma linha. A apresentação segue um tanto morna, sem deméritos; morna porque o que esperamos de Jarrett é sempre o máximo, por conta das expectativas em que nele depositamos. Seria o caso de se perguntar qual é a amplitude da capacidade de um instrumentista como ele em ser sempre inovador. Não é difícil, portanto, percebermos cacoetes – cacoetes como um sotaque, como um modo constituinte de cada ser – que estavam presentes em solos de discos tão antigos como Fort Yahuh (1973), ou El Juicio (Atlantic, 1971).
A Part VII, que corresponde à primeira do segundo CD, é de linha melódica simples e próxima de códigos que associamos naturalmente aos valores do belo. A próxima parte (a oitava) é quase uma ruptura desse estado que tendemos a desejar que se mantenha, mas os primeiros acordes de sabor impressionista e toques orientalizantes da nona nos jogam em terrenos etéreos e, parcialmente, ao penúltimo. As “partes” não se interligam necessariamente, mas percebe-se que os solos nesse segundo CD parecem mais bem construídos, menos tateantes, e os ouvintes, mais comprometidos com o clima da apresentação, respondem mais calorosamente por meio de aplausos. As partes XII e XIII são emocionantes, principalmente a última. É difícil dizer se Rio é melhor (ou pior) que o solo anterior – Paris/London –, mas para nós, brasileiros, com uma ponta de orgulho patriótico, nos sentiremos orgulhosos por ter esse disco gravado no Rio de Janeiro.
Bertrand Blier continua em forma. Faz parte de uma geração nascida no período do fim da Segunda Guerra, posterior, portanto, a François Truffaut, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Na faixa de idade de Blier estão nomes como os de Bertrand Tavernier (Un coup de torchon, ’Round Midnight), Régis Wargnier (Indochina), Patrice Leconte (O Marido da Cabeleireira, Um Homem Esquisito), e Jean-Jacques Annaud (O Urso, O Nome da Rosa). Desses, Blier é o mais irreverente e, quem sabe, o mais interessante.
O belo trio de Corações Loucos
Corações Loucos (Les valseuses, 1974) é um clássico. É libertário, meio amalucado e “fez a cabeça” de muita gente que estava na universidade nessa época; entre os estudantes da USP era “cult”, até porque era inteligente, divertido e um pouco diferente dos filmes exibidos nos cineclubes, politizados e densos como Terra em Transe (Glauber Rocha), O Encouraçado Potemkim (Sergei Eisenstein) ou A Chinesa (Jean-Luc Godard); desse último, como outros do mesmo autor, devemos reconhecer que, apesar de politizados ao extremo, eram irreverentes e bem humorados, ao contrário dos mais recentes, sérios demais (se comparados aos dos feitos na década de 1960) e um tanto preconceituosos, principalmente, em relação aos judeus: seu antissionismo beira ao antissemitismo.
Em Corações Loucos, Gerard Depardieu e Patrick Dewaere são dois desocupados que saem por aí e nesse qualquer lugar conhecem uma loira com cara de vadia, protagonizada por Miou-Miou. Fazem pequenos assaltos, vão para uma pequena cidade de praia, quase deserta por ser fora de temporada, invadem casas e se divertem e muito. Formam um trio cheio de charme; riem, fazem muito sexo entre eles (há uma cena engraçada em que Dewaere está tristonho e Depardieu o consola – adivinhe o que aconteceu?) e não se sentem compromissados com nada. Les Valseuses consagrou os três. O único que não seguiu adiante foi o (aparentemente) atormentado e o mais belo deles: Patrick Dewaere se matou com um tiro na cabeça quando tinha apenas 35 anos.
Blier é autor de filmes com nomes instigantes: Meu Marido de Batom (Tenue de soirée), A Filha de Minha Mulher (Beu-père), e Bela Demais para Você (Trop belle pour toi, 1988). Em Bela Demais, Gerard Depardieu é casado com a belíssima Carole Bouquet, mas acaba se apaixonando pela secretária gordinha Colette (Josiane Balasko).
Quase quarenta anos depois de Corações Loucos, dirige o mais recente O Ruído do Gelo (Les bruit des glaçons, 2010). Inusitado esse Blier, como de costume. Charles Faulque (Jean Dujardim) é um escritor premiado com o Pulitzer que se retira na antiga propriedade da família em Languedoc-Roussillon (é uma das regiões demarcadas da França como produtoras de vinho) depois de ter se separado da mulher. Vivem ele e Louise (Anne Alvaro), a criada. Passa os dias carregando um balde de gelo, o vinho e uma taça. Bebe desde que acorda, consumindo cerca de seis garrafas por dia. [Nota: tem um merchandising lascado da região vinícola de Languedoc-Roussillon.]
O “Câncer” (Albert Dupontel) de Charles (Jean Dujardim)
Essa situação, aparentemente exdrúxula, é factível. Sei do caso de um amigo de família que passava os dias bebendo cerveja. Num certo momento, largou tudo – o trabalho inclusive – e foi morar sozinho em um sítio que possuía a 10 km da cidade. Passava os dias cuidando da casa e da piscina e recebendo visitas diárias do amigo fiel, cujo apelido era Cuequinha, e de outros eventuais; era ótimo na cozinha e um dos seus prazeres era recebê-los.
Entrou no folclore dos amigos. Era um homenzarrão de quase 1,90 m de altura, mais de 100 quilos, peito e costas peludas; estava sempre sem camisa, e costumava usar calça social – que deveria ser sobra de costumes que, eventualmente, usava – e um par de sandálias de couro. Não largava da garrafa de cerveja. Andava com um pedaço de pano no ombro, a garrafa em uma das mãos e, na outra, o copo. Quando se sentava à mesa, estendia o pano e punha a garrafa e o copo sobre ele. Era um cara boa praça; morreu com pouco mais de 60 anos. Um fato engraçado foi quando sua mulher V. veio a São Paulo. Ela queria ir a algumas lojas de decoração. Lá pela terceira loja em que entrou, minha mãe perguntou, curiosa de saber, o que estava procurando. Disse que queria um objeto que servisse de aparador de garafas de cerveja e porta-copos para deixá-lo no banheiro; bebia até enquanto tomava banho.
Charles, em seu retiro, recebe uma visita inusitada: quem bate à porta é sujeito que se autodenomina “o [seu] Câncer” (Albert Dupontel). Recebe-o a contragosto, mas passado um tempo, passam a conviver mais pacificamente: conversam à beira da piscina, trocam ideias, o “Câncer” lhe dá uma “força” diante da beleza estonteante da namoradinha, uma ninfeta russa. Mas o “Câncer” é o que se pode chamar de “grudento”. até à hora de deitar, lá está.
A criada Louisa é uma solteirona que nutre um inconfessado amor pelo patrão. É discreta, no entanto. Certo dia, surge uma mulher de cara muito feia, cara de malvada, em sua vida. É o “Câncer de Louisa” (Myriam Boyer). Fica a persegui-la, a importuná-la dizendo que está em seu seio.
Bom, resumindo a história insólita, em algumas palavras, Louisa consuma o que era apenas um desejo. O que nem passava pela cabeça de Charles, “funciona”. Ambos resolvem armar um assalto à casa, ludibriam os dois “Cânceres” e fogem deles. Pela última cena, depreende-se que estão livres. Estão os dois, felizes, prontos a realizarem uma viagem de iate (ao som de Ne me quitte pas, cantada por Nina Simone), eles e o balde de gelo, dessa vez com duas taças.
No fim dos anos 1980, falava-se muito de um cara chamado Adamski. Num cenário pleno de rótulos como dance/ acidhouse/ electropop/ technopop, esse bretão circulava pelos clubes ingleses com seus instrumentos eletrônicos debaixo dos braços, aparecia com frequência na MTV, enfim, era “o” falado. Em 1990, lançou um disco do qual uma das faixas dele se chamava Killer, cantada por um certo Seal. De hoje em dia, nem se fala mais de Adamski. Seal explodiu.
Quando Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel (esse é seu nome de batismo) ficou conhecido, passou-se a falar que era filho de um brasileiro com uma inglesa de origem africana. A verdade, dita por ele próprio, é que o avô por parte de pai era brasileiro. Bom, independentemente de que tenha sangue brasileiro, Seal impressiona; pelo tipo físico – é um homenzarrão, careca, de olhar profundo, um tanto triste e sério, tem o rosto marcado por um tipo raro de lúpus que deve ter contraído ainda jovem – e, principalmente, por uma voz (muito) especial, meio-rouca, que carrega certa melancolia.
Num primeiro olhar, seria improvável se imaginar que alguma música de Seal pudesse virar tema para intérpretes ligados ao jazz. Depois de saber que duas pianistas gravaram Kiss from a Rose – música que foi tema de um dos Batman –, constatamos que belas melodias sempre serão temas ricos à exploração e improvisação instrumental.
Rachel Z (esq.), e Julia Hülsmann (dir.)
Coincidentemente, os dois registros são de mulheres. Segundo, são de duas intérpretes que não estão ligadas ao mainstream do jazz. A gravação mais antiga que conheço é a de Rachel Z, de 2004. A marca dessa pianista tem sido a de procurar novos temas do universo pop e explorá-los jazzisticamente. Além de Seal, gravou Peter Gabriel, Sade, George Harrison, Johnny Cash e Sting.
A alemã Julia Hülsmann gravou alguns discos pela Act e, atualmente grava pela ECM. Como Rachel Z, tem procurado explorar temas no pop, como as de Nick Drake, Sting e Randy Newman. Enveredando por um viés mais intelectualizado, musicou poemas de Emily Dickinson e e.e. cummings. Julia é uma intérprete a quem devemos prestar atenção.
Como prefiro manter a constância de escrever duas vezes por semana, observações sobre alguns filmes que vi na Mostra de Cinema de São Paulo ficarão defasadas, mas entendo que, apesar disso, podem ser lidas fora do contexto do imediato.
Os amigos Andrej e Gregor
Uma Viagem. Um dos bons filmes exibidos, na minha opinião é Uma Viagem (Izlet, 2011). Andrej (Luka Cimpric), Gregor (Jure Henigman) e Ziva (Nina Rakovec) são amigos desde a adolescência. Antes da partida de Gregor para o Afeganistão em missão militar, os três saem sem destino no carro de Ziva.
Andrej tem Gregor como seu melhor amigo, um pouco, em razão de ter sido aquele que o “salvou” de uma situação, na qual foi posto pelado no meio dos colegas de escola. Ziva é a sua melhor amiga. A relação de Gregor com ela é mais ambígua, pois se sente atraído sexualmente, enquanto isso não acontece com Andrej, pois este é gay.
A qualidade desse filme dirigido pelo esloveno Nejc Gazvoda reside nas tensões que vão se desvelando. Os caminhos da “viagem” são “sem rumo” e percorrem atalhos inesperados e, por vezes, dolorosos. Ziva é uma moça cheia de energia, diverte-se muito com Andrej, provoca o desejo de Gregor numa espécie de jogo de aproximação e repulsão; e, no decorrer da história, perceberemos que ela o deseja também e que existe um “obstáculo” para que isso aconteça de fato. Outro momento de tensão é quando Ziva revela a farsa de seu “salvador”. Percebemos que, como o que ocorre entre os dois, muitas das nossas maiores convicções e sentimentos podem, muito bem, estar baseadas em premissas que podem não ser reais.
Depois de tudo, apesar de algumas verdades doloridas, a amizade entre eles continua. É um alento, até para os mais pessimistas.
O trailer de Uma Viagem.
Um Mundo Misterioso. O argentino Las Acacias foi agraciado com o Camera d’Or em Cannes e recebeu boas críticas na Folha de S. Paulo e em O Estado de S. Paulo. Luiz Zanin Oricchio diz que “Las Acacias é mais um exemplo de como o cinema argentino – ou pelo menos a parte dele mais visível para nós – é capaz de tirar o máximo do mínimo.” (OESP, 31/10/2011).
É certo que o olhar de alguns cineastas europeus nos mostrou um universo bem diferente do cinema cheio de histórias, “aconteceres” e ações. Através desse olhar, vemos a vida acontecer ou sendo revelada por gestos, frases e atos insinuados, em um processo no qual o espectador, de certa maneira, “preenche” os vazios e assim se constrói a história. Las Acacias (leia em http://bit.ly/vPkTEN) é uma mistura disso com os “road movies” de Wenders. Até por isso, o primeiro filme que me veio à lembrança foi No Decurso do Tempo (Im Lauf der Zeit, 1976), dirigido pelo alemão. Rüdiger Vogler é um técnico de projetores de cinema. Com seu caminhão viaja pelas cidades do interior consertando-os. Em um filme de cerca de três horas, somos espectadores de histórias que vão se passando “no decorrer do tempo”. Há uma cena reveladora que pode delatar – maldosamente – a minha percepção sobre esses filmes: Walter – é o nome dele – está com o caminhão estacionado num lugar ermo; faz a higiene (bem pouca) pessoal no caminhão, vai até um “matinho”, abaixa o macacão (pelo jeito, não usa cueca) para fazer cocô, literalmente; ficamos a observar o cocô saindo dele. Ainda bem que o filme é em preto e branco.
Nesse “nada acontecer” e acontecendo, como nos filmes americanos, o “nada acontecer” pode ser, literalmente, isso mesmo. Em outro filme elogiado por Oricchio – Um Mundo Misterioso –, Ana (Cecilia Rainero) pede um tempo para Boris (Esteban Bigliardi). Começa com um “quanto tempo” é esse tempo? Boris vai morar num hotel 2 estrelas, compra um carro velho, vai a festa, levado por um amigo, deixa de viajar porque está sem documentos, e depois, acaba indo para Colônia do Sacramento – do outro lado do rio da Prata, no Uruguai – atrás da mulher que lhe dera “bola” na festa; não a encontra e acaba passando o ano com o mecânico que está consertando o seu carro. Por fim, volta ao antigo apartamento em que morava com Ana e percebe que ela não tinha trocado as chaves, como tinha afirmado que ia fazer. Resumo: acontece um monte de coisas e nada de muito misterioso se realiza. O segredo da fechadura que não foi trocada faz pensar que tudo continua na mesma. Vai, a vida acontece, com um pouco de mistério, ou quase nada, mas acontece, mas ficar sentado quase duas horas no escuro e ficar a observar que os “mistérios” não são tão misteriosos, ah, é melhor ficar em casa lendo um bom livro e ouvindo boa música. De tanto falar mal, acabei esquecendo de citar o nome do diretor. Gravem: seu nome é Rodrigo Moreno.
Têm acontecido problemas com as projeções digitais e alguns filmes não chegaram a tempo de serem exibidos nos dias programados para a Mostra de Cinema de São Paulo. Quanto ao digital, os equipamentos que temos estão defasados tecnologicamente, o que acarreta incompatibilidades de sistema.
Problemas digitais. A equipe da Mostra pediu às produtoras que os filmes enviados fossem, preferencialmente, em película 35mm. As projeções digitais, no Brasil, têm recebido críticas contundentes: “chapam” as imagens; não sei se é em razão de estarem defasadas. É a velha querela entre o analógico e o digital. O que é melhor? É simples saudosismo? Pode ser. O advento dos CDs, nos anos 1980, trouxe questão semelhante: apesar dos chiados decorrentes de riscos e da eletrostática, o som dos LPs era mais “redondo”. Entre audiófilos se falava muito em fadiga auditiva: não sei se era psicológico, mas cansava; o som dos CDs parecia metálico demais. Passou o tempo e muitos nem sabem mais o que é um LP e, muito menos, devem ter tido a experiência de ouvi-los. Deixamos de reclamar dos CDs, é verdade, por uma razão muito simples: que praticidade! E, agora que até os CDs estão fadados ao desaparecimento, quer coisa mais prática do que ouvir música nos iPods “inventados” por Steve Jobs?. Por questões práticas, os velhos bolachões – assim eram chamados os LPs – deram lugar aos CDs e, agora, pelos mesmos motivos, o mp3 e o streaming via internet decretam uma nova era.
O argumento mais forte – reverberando a famosa frase de Joseph Goebbels, quando diz que “quando vocês me falam em cultura, saco do meu cheque” – é financeiro. Muitos devem desconhecer o custo de uma cópia de um filme película em 35mm: a diferença é algo entre “8 e “80”. Diante de uma coisa dessas, não tem argumento. Tudo bem que no digital perdemos uma grande “qualidade” da imagem analógica: a profundidade de foco. É como no som analógico: provoca em nós uma sensação de maior “espacialidade”.
A incompatibidade dos sistemas europeu e o americano com o nosso tem resultado em várias coisas. Não sei a razão, mas assisti a mais de uma projeção digital em tons cor-de-rosa. Irritante. O problema fica sério quando nem sequer roda ou quando o áudio some. Foi o que aconteceu na primeira sessão de Habemus Papam.
Moretti monta um campeonato entre os cardeais
Habemus Papam. O último filme de Nani Moretti estava programado para ser exibido no dia 23 de outubro. A cópia não chegou a tempo. O amigo Wagner Tronolone tinha ido buscar alguns ingressos e viu em uma folha de papel o seguinte aviso: “sessão de Habemus Papum cancelada”. O comentário dele foi em relação ao erro na grafia “papum”: “pá pum”, “habemus pá pum” (é como soa), e não “papa” ou “papam”..
A cópia acabou chegando e pôde ser exibida no dia 25. Aconteceu um problema com o áudio. O público reclamou, com razão.
A linhagem de grandes diretores italianos é respeitável. Depois do fim da Segunda Grande Guerra, a Itália revelou Vittorio de Sicca, Roberto Rosselini, Federico Fellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Ettore Scola, Dino Risi, Gillo Pontecorvo, Mario Monicelli e Valerio Zurlini. Com tantos talentos e bons produtores (Dino di Laurentis e Carlo Ponti), construíram sólida tradição na cinematografia mundial. Apesar de não tão geniais, gerações intermediárias e mais recentes continuam a realizar filmes muito bons.
Um dos mais representativos é Nani Moretti. Faz, ao contrário do – desculpem – “mala”, Roberto Begnini, filmes de humor fino. É o caso do recente Habemus Papam.
Em rápidas palavras, é a história do cardeal Melville (Michel Picoli), que é eleito papa pelo conclave dos cardeais. Este tem um ataque de pânico e se recusa a ir até a sacada para ser aclamado pelo público. O assessor do Vaticano tem a ideia de trazer um psicanalista para conversar com o cardeal Melville. Sem resultado, resolve recorrer à ex-mulher do psicanalista, profissional da mesma área e muito respeitada também.
Arma um esquema para levá-lo até seu consultório, sem que o conclave dos cardeais perceba e, muito menos, a imprensa e o público que continuam à espera de sua primeira aparição como Papa. Faz a sessão com ela e consegue falar de suas dúvidas, medos e sobre o peso da responsabilidade da qual se sente incompetente de possuí-la. Ao sair, numa distração da segurança e da comitiva, foge.
Para que o cardinalato, confinado no Vaticano, não note o sumiço, o assessor arma uma encenação com um membro da guarda suíça. Combina que ele deve ficar nos aposentos destinados ao Papa e faça de conta que está lá: basta que, de quando em quando, mexa nas cortinas e que se movimente para que percebam a sua presença.
O guarda passa os dias comendo e vendo televisão. Enfastiado, fuçando nos objetos do aposento, descobre uns discos. Coloca na vitrola – ou será um tocador de CDs? – um de Mercedes Sosa (leia “Eu vi Mercedes Sosa” em http://bit.ly/vNaUHE). O som atravessa obstáculos, naturalmente: não apenas o “papa” ouve a argentina cantando Todo Cambia; os cardeais, que estão no prédio em frente, também.
Las Acacias. Numa mostra com tantos filmes é natural que aconteçam algumas decepções. Uma delas foi com Las Acacias, de Pablo Giorgelli. Como os argentinos têm feito cinema de alta qualidade, imaginei que este fosse mais um. Ganhou o Camera d’Or, do Festival de Cannes, o que era boa referência. Talvez não estivesse num bom dia para ver alguma coisa, depois de um almoço com direito a alguns pequenos abusos.
É a história de um caminhoneiro que ganha um trocado a mais atravessando, ilegalmente, pessoas do Paraguai para a Argentina. A “clandestina” da vez é uma jovem e o bebê de colo. O filme se passa quase todo na cabine do caminhão. Decorrido um tempo, resolvi assistir ao filme de olhos fechados – é ruim, hein? –, prestando atenção apenas no diálogo, assim mesmo, de poucas trocas de palavras. É aquela moda de fazer filmes estradeiros, “secos”, minimalistas; e para concluir, uma mensagem: até num homem duro bate um coração.
Veja o trailer de Las Acacias:
Blowfish. Essa palavra é a tradução em inglês para o nosso conhecido baiacu. Não sabia que existem vários tipos, e que vivem bem em aquários e se adaptam em água doce ou salgada. Vivendo e aprendendo… e vendo filmes e mais filmes. Na minha sessão, o diretor Chi Yuarn Lee ficou para conversar com o público após o término dela. Essa produção de Taiwan, portanto àparte dos chineses continentais, conta a história de uma atendente de lojas de departamento que resolve abandonar o namorado, depois de flagrá-lo com outra no dia em que trocara a folga com uma amiga de trabalho. Pela internet vende o belo baiacu que o namorado tinha pescado e resolve entregá-lo pessoalmente. O comprador é um professor de beisebol de cara tristonha – sua bela mulher (estilo putinha) o deixara por um motorista de caminhão.
Entre eles inicia-se uma relação estranha. Ela se oferece a ele, que recusa seu beijo e a possui por trás (pelo jeito, é o modo como consegue “encarar” as mulheres depois de ter sido abandonado). A moça, não apenas aceita a relação de subserviência, como a assume vestindo-se com as roupas da outra e continua a ser possuída por trás, sem “olho no olho”. Paulatinamente, a relação se modifica. Bom, não vou contar o filme todo. É interessante, esquecível, porém. Não deixa de ser uma boa história de amor; e pensar que tudo começa por causa de um baiacu.
No letreiro, depois do final do filme, ficamos sabendo que nesse ano foram iniciadas as escavações em Fujiwara-kyô, na região na qual é o local de origem da nação japonesa. Digo “nesse ano”, pois fica subentendido que é 2011, mas pela Wikipedia, a descoberta do sítio arqueológico de Fujiwara-kyô, que fica em Asuka, na região de Nara, foi em 2006. As cenas iniciais mostram escavadeiras e esteiras rolantes. A narração em off fala de uma lenda sobre três deuses que vivem em três montes: Minamashi, Kagu e Unebi. Dois deles, homens, lutam pelo amor de uma mulher. Esse é o plot de Hanezu no Tsuki, de Naomi Kawase, mas norteá-lo por esse dado, seria reduzí-lo a um simples triângulo amoroso. É mais que isso.
As três personagens são uma mulher casada com alguém que tem um trabalho regular, e a “terceira ponta” é um escultor, o que quer dizer que pode ser considerado um “outsider” dentro da estrutura social nipônica.
O escultor gosta de pássaros. Deixa que eles façam o ninho na luminária de seu quarto. Num certo momento, comenta que as andorinhas possuem um parceiro apenas e assim se mantêm até a morte. Isso não acontece apenas com essa espécie. Os “casamentos” entre os pássaros são duradouros, mas numa pesquisa revelou-se que a maioria dos filhos gerados pelas fêmeas não são fecundados por seus machos. Resumo da ópera: “pulam a cerca” direto, mas estão sempre juntos, sem culpa. A exceção, segundo a mesma pesquisa é o picanço, um pássaro que vive em Portugal; são essencialmente monogâmicos. Pássaros são a expressão da liberdade: voam. Têm seu porto seguro no parceiro, mas livres como são, relacionam-se sexualmente com outros.
O comentário sobre essa pesquisa tem uma relação com a infidelidade da personagem feminina. Apesar de casada, carrega no ventre o fruto de sua relação com o artista. Numa visita que faz à sua mãe é revelado que a avó fora apaixonada por um homem com quem acabara não casando. De certo modo, ela “realiza” o que a avó deixara de fazer: unir-se àquele que ama. Não há uma disputa como a que se conta na lenda das três montanhas. O verdadeiro dilema se encontra na personagem feminina, e os homens sofrem as consequências da sua “dúvida”. Revela a gravidez ao amante e depois diz que abortou. Quando o marido volta da viagem de negócios, diz-lhe que está apaixonada por um outro. A liberdade dos pássaros não é a liberdade dos homens, pois estes estão presos a convenções morais. Em nome delas sua avó não se casa por quem nutre amor.
Dois tempos da tragédia.
Quando conta ao amante que abortara, esse, num ataque de fúria se fere. Depois que ela se vai, vemos a bandagem envolvendo a mão direita, seu instrumento principal de trabalho.
Depois de revelada a traição, ela encontra o marido morto na banheira tingida de sangue. As três montanhas são banhadas pela luz escarlate do crepúsculo.
No olhar de Naomi Kawase, em relação ao filme exibido na 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, A Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori, 2007), é perceptível, antes de mais nada, um olhar feminino, contemplativo em que os fenômenos da natureza entram em processo simbiótico com os dramas humanos. Nesse filme, vive num asilo um senhor que sofre de demência senil. Passa o tempo escrevendo cartas para sua mulher falecida como uma forma de eternizá-la em sua memória. Segundo a crença budista, o 33º aniversário de morte é o ano em que sua alma vai para as terras de Buda. A enfermeira Machiko (Machiko Ono), que cuida de Shigeki (Shigeki Uda), sofre pela perda do filho pequeno. Cria-se uma ligação forte entre os dois, como um preenchimento das lacunas deixadas por essas perdas.
Hanezu no Tsuki, apesar de, no meu ponto de vista, não ser tão bom quanto A Floresta dos Lamentos, é um filme a ser visto. Algumas “associações” empobrecem a narrativa, como a de que os pássaros vivem soltos na casa do escultor, enquanto, na do casal, o pássaro vive na gaiola; ou quando, ao saber da gravidez da amante, pega uma escada e, com um caco de espelho, observa os filhotes no ninho construído pelo casal na luminária. E, se comparado com a conjunção entre fenômenos da natureza – água, vento, chuva – com a humana – vida, mitos, religiosidade, perdas, morte – em A Floresta dos Lamentos é de um riqueza e de uma beleza sem iguais. Em Hanezu, Naomi não conseguiu se superar.