quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O que Miles Davis fazia na véspera de Natal de 1954

Thelonious Monk e Miles Davis
“Embora o jazz moderno esteja conosco apenas desde os anos 1940, os destaques atuais são evidentes e duvido que a história futura do jazz empalideça seu brilho. Uma grande performance de jazz está sempre dentro de uma tradição e uma coisa intemporal, independente da época em que foi executada. Alguns críticos de jazz dizem que pode ser uma coisa passageira e que devemos esperar séculos para ver se sobrevivem como um Bach ou Beethoven. Sem entrar no mérito de que discordo, diria que os próximos dois séculos tendem a se mover duas vezes mais rápido em termos de evolução cultural, assim como os dois séculos que os antecederam e o status de toda música, como a conhecemos, pode ser muito diferente do que é no presente. Tudo o que podemos fazer ao julgar os méritos relativos de uma performance de jazz é a nossa experiência nesse idioma. Os solos gravados de Lois Armstrong de trinta anos atrás são declarações puras e poderosas hoje, e pelas mesmas razões, o Miles de três anos atrás será significativo daqui a trinta anos, consequentemente.”

Ira Glitter foi profético ao escrever estas linhas. Até hoje, a música que Miles e outros como Thelonious Monk, Charlie Parker e Bud Powell continuam a soar modernas e contemporâneas. Na pródiga década de 1950, era comum ouvirmos músicos geniais juntos em um palco ou nos estúdios. Era Parker com Dizz

Quase Natal

No dia 24 de dezembro de 1954, Miles Davis, em vez de estar a fazer compras ou se preparando para se fantasiar de Papai Noel, estava em New Jersey, no lendário estúdio de Rudy van Gelder, gravando, e nada mais nada menos com músicos estelares como Thelonious Monk, Milt Jackson, Percy Heath e Kenny Clarke. Na seção, que pouco imagino se foi até a noite, foram registradas Bags Groove (Milt Jackson), Swing Spring (Miles Davis), Bemsha Swing (Thelonious Monk, Denzil Best), e The Man I Love (George e Ira Gershwin). As duas primeiras foram lançadas em Miles Davis All Star, volume 1 e as outras duas com mesmo título, no volume 2. Saíram em LPs de 10 polegadas, formato comum à época. Com o advento dos LPs de 12 polegadas, foram relançadas juntando outras sessões com outros músicos. Em CD, as duas do volume 1, incluindo um alternate take está em Bags Groove, e as restantes em Miles Davis and the Modern Jazz Giants. 

A sessão ocorrida na véspera do Natal pode ser considerada histórica, não apenas pelo encontro desses gigantes, mas porque também foi a única oportunidade em que Miles e Thelonious gravaram juntos. Conta-se que os dois não se entenderam em uma passagem se Miles deveria ser acompanhado apenas pela bateria e contrabaixo, com ou sem o piano. Dizem que o trompetista partiu para cima de Monk. Miles desmentiu. Seu argumento foi a de que Monk era muito maior que ele. De qualquer modo, a discussão deve ter acontecido e foi ríspida. Outra história que se conta é que Miles tinha operado a garganta e não poderia falar muito. Por causa da discussão, perdeu a voz.

Com ou sem violência física, as gravações estão aí mostrando esse encontro genial, e na véspera de Natal. É um belo presente para a humanidade.

Ouça o take 1 de Bags Groove.


Ouça o take 1 de My Man’s Gone Now.



Um feliz Natal e um grande ano novo. Volto no início de 2016.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Algum Jaco Pastorius menos conhecido

A banda Weather Report já era bem conhecida e adorada antes da entrada de Jaco Pastorius. Em sua primeira formação, contava com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Miroslav Vitous, Airto Moreira e participações de Do Um Romão. Vitous saiu e em seu lugar entrou o Alphonso Johnson. Apenas no sexto disco (Black Market, 1976), ainda com Johnson na maioria das faixas, Pastorius participa de duas e é autor de Barbary Coast. É em Heavy Weather (1977) que, efetivamente, torna-se membro da banda. Permanece nela por mais três álbuns de estúdio e é o baixista da turnê mundial que resultou no duplo 8:30. O Brasil fez parte dessa excursão. Tive a felicidade de vê-los no Rio de Janeiro.

Com Heavy Weather, a banda ficou realmente popular, muito por conta de Jaco. Era um baixista diferenciado com seu Fender fretless. Fez escola. O história do baixo elétrico pode ser dividida em antes e depois dele. Surgiu uma legião de imitadores. Suas apresentações eram marcantes. Uma camada de talco era jogada no chão para que ele fizesse a sua coreografia. Sua figura magra, com uma bandana prendendo os longos cabelos ou toucas multicoloraidas, chamava a atenção mesmo.

Como onde tem muito cacique a coisa desanda, Jaco saiu. Victor Bailey o sucedeu. Era bom baixista, mas foi alertado por Zawinul para que não ousasse ser um novo Pastorius. Sua passagem deve ter traumatizado um pouco Zawinul e Shorter, apesar da popularidade adquirida com a sua entrada.

Pastorius é natural da Florida. Bem conhecido no estado, ele toca em algumas faixas do álbum Ira Sullivan. O veterano multinstrumentista – tocava flauta, saxofone e trompete –, natural de Washington D.C., fugiu do frio e mudou-se no início dos anos 1960 para Miami. Era presença constante da cena local, sempre tocando em clubes e bares de jazz. Foi assim que Ira conheceu os iniciantes Pat Metheny e Pastorius.


Ouça Portrait of Sal LaRosa, do álbum Ira Sullivan (Horizon, 1976).




Pat Metheny, quando gravou seu primeiro álbum solo, pela ECM, chamou o seu conterrâneo. Bright Size Life tornou-se um clássico. Pat já estava pronto desde o começo. Participara da banda de Gary Burton e logo chamou a atenção de Manfred Eicher. O disco é uma obra perfeita. .

Ouça a música-título.




Outra boa participação dele é com Paul Bley, Pat Metheny e Bruce Ditmas no álbum registrado em 1974. É a sua primeira gravação profissional, e foi lançado anos depois pela Improvising Artists com o título Jaco, aproveitando da fama ascendente do baixista.

Ouça Vashkar, a faixa de abertura.





Boa particpação de Jaco, no início da carreira, é no álbum Trilogue, do trombonista Albert Mangelsdorff. Veja-os em Trio Song.





Veja a íntegra do show, de onde o disco se origina. É um inusitado power trio, tendo Mangelsdorff como líder. O trombonista arrasa, como sempre. Foreign Fun é um dos destaques. É a terceira faixa.





Pastorius era um gênio, mas tinha um gênio do capeta, e tocava o diabo. Depois de sair do Weather Report, continuou a se apresentar em pequenos clubes e sua carreira entrou em declínio em razão do temperamento instável. Acabou entrando em uma briga e foi morto na porta de um clube. Tinha 35 anos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Frank faz 100 anos

Frank Sinatra e Ava Gardner
Estávamos eu e minha amiga Vera G a almoçar em um restaurante japonês com um telão. O que tem a a ver um telão em um restaurante em um japonês? Bem, isso não vem ao caso. As imagens exibidas eram, se recordo, as da emissora Globo News. Comentei com a Vera: “Só aparece imagem do Frank Sinatra!”. O comentário ficou por isso. Não lembro se ficávamos acessando a internet a cada dois minutos em 1989. Fiquei sabendo, mais tarde, que Sinatra tinha morrido. A partir desse dia, se ficam a mostrar imagens de alguém a toda hora na televisão, já penso: “Morreu”.

Das inúmeras imagens que vi na noite deste dia, a mais marcante foi a de Frank Sinatra cortando o bolo de aniversário com ajuda de sua mulher Barbara Marx, Marx porque fora casada com Zeppo, um dos irmãos Marx. Frank estava por um fio. Morreu cinco meses depois. Se vivo, como pretendia, estaria completando 100 anos no dia 12 passado.

Histórias de amor

Na sua coluna de sábado, o jornalista Sergio Augusto escreve que, em uma dessas enquetes feitas na internet elegendo os melhores cantores do século 20, Sinatra ficou em 126º. Há controvérsias. Como bem salienta, na mesma coluna, “Duke Ellington, Stan Getz, Benny Goodman, Gerry Mulligan, Oscar Peterson, Lester Young – elegeram Sinatra seu ‘cantor favorito’.” E escreve ainda, que Miles Davis moldou “seu estilo de tocar pelos fraseados do cantor.”

Melhor ficar com que esses músicos achavam do que com a patuleia – desculpe o preconceito – que participou da enquete. Frank Sinatra é o maior cantor de todos os tempos e fim de papo. Seu fraseado era inigualável e foi o cantor que melhor tratou da língua, além de um controle estupendo da respiração, alongando ou encurtando as notas. Cada verso, cada palavra era entoada com clareza impressionante. Meu amigo Zeca Leal que, atualmente, está em sua companhia, dizia que aprendeu inglês ouvindo Sinatra.

Caso 1. Aliás, o Zeca é o primeiro de quem falo, dos que amavam Sinatra. Com seu habitual humor sempre cáustico que nem perdoava a si mesmo, gostava de dizer que foi o maior comprador de discos de Frank. Como bebia muito, em muitas ocasiões, ao pousar a agulha sobre o disco, em razão de seu estado, riscava-o. E como, para ele, nada podia macular a voz de Sinatra, saía para comprar outro igual. Quando não tinha condições de sair, pedia aos filhos que fossem procurar o disco.

Muitos devem saber como acabam histórias de alcoolismo. O Zeca gostava da noite e de um bom scotch. Era amigo de músicos, inclusive ajudava Dick Farney a fazer o imposto de renda. Mas numa hora deixou de ser divertido. A bebida acabou com o seu casamento. Quando nasceu seu primeiro neto, apareceu no hospital e jurou que iria parar de beber. E foi assim. Tinha 43 anos, com ajuda dos Alcóolicos Anônimos.

Algumas pessoas achavam que o “Zeca sóbrio” tinha perdido a graça. Logo que parou, uma namorada andou colocando vodca no seu suco de laranja da manhã. Ele percebeu. Terminou o namoro. Algumas doses de whisky o ajudavam em muito em deixar a timidez de lado. Percebeu que sem a bebida não conseguia se aproximar de uma mulher. Em vez de voltar a beber, procurou um terapeuta. Deu certo: arrumou uma namorada e viu que as pessoas se divertiam com suas histórias, como antigamente. Aprendi muita coisa de jazz e de Sinatra com ele. Até onde sua saúde permitiu, vinha a minha casa munido de várias fitas cassete para gravar coisas que gostava e que não possuía mais.

Caso 2. Outra boa história de amor por Frank Sinatra, esta de segunda mão, é a de Ronaldo Bôscoli, contada por Ruy Castro. O jornalista e compositor costumava dizer que gostava mais do Frank Sinatra do que de mulher, o que era mais uma frase de efeito, dado que era um mulherengo atávico, tendo entre suas conquistas Nara Leão, Maysa e Elis Regina.

Certo dia, quando chegava em seu apartamento, deparou-se com uma cena inusitada: centenas de LPs espalhados na avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Olhando o extrato de despesas de seu cartão de crédito, Elis, sua mulher na época, constatou uma despesa em um motel bem conhecido, e o gasto não fora com ela. Possessa, vingou-se jogando toda a coleção de LPs de Frank Sinatra pela janela.

Caso 3. Esta aconteceu com Frank e é do conhecimento de todos. Muitas mulheres passaram pela sua cama, mas nenhuma o fez sofrer tanto quanto Ava Gardner. O amor ou a sua perda sempre foram poderosos elixires para a criatividade. Em carreira ascendente, no início da década de 1950, Frank viu o que construíra até então desmoronar-se. Estando por baixo, conseguiu um papel de coadjuvante em A Um Passo da Eternidade. Conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Na nova fase, assinou contrato com a Capitol Records.

Na vida pessoal, o caos chamou-se Ava Gardner. Separou-se de Nancy para ficar com ela. O amor que lhe causou tantos sofrimentos, em conjunção com outras circunstâncias, resultou em seu segundo auge, na opinião de muitos, seu melhor momento na carreira. Com o advento dos LPs (abreviação de “long playing”), o tempo de duração de um disco aumentou tremendamente, e é a época do surgimento da alta fidelidade nas gravações. Era comum nos discos o selo “high-fidelity” impresso nas capas.

Juntando o sofrimento da relação tumultuada, o tempo maior dos LPs, Sinatra é o inventor do que pode ser chamado de “álbum conceitual”. Muito antes de Dark Side of the Moon e da ópera-rock Tommy, de The Who, ele lançou uma série de discos que continham uma ideia. 

Os álbuns In the Wee Small Hours of the Morning, Where Are You? e Only the Lonely e No One Cares são os melhores de Frank. Formam um conjunto de canções de dor de cotovelo, amores desfeitos e de abandono, com orquestrações sombrias, melancólicas com arranjos e orquestrações magistrais de Nelson Riddle, Gordon Jenkins. As capas são também ítens a destacar, com imagens tocantes de Sinatra, só, com um cigarro na mão na noite azulada (In the Wee Small Hours of the Morning), pensativo, com um cigarro novamente (Where Are You?), retratado como um palhaço (Only the Lonely), ou sozinho e pensativo, sentado com os braços apoiados no balcão de um bar, enquanto as pessoas se divertem as suas costas (No One Cares). Desses álbuns em que Sinatra se apresenta como um “loser”, todas obras primas, a crítica e os amantes de Frank consideram Only the Lonely como o seu álbum mais perfeito.

O sofrimento por amor, se é indelével, ao menos gerou grandes discos para Frank Sinatra.

De Only the Lonely, ouça Angel Eyes.



What’s New.



De In the Wee Small Hours of the Morning, Glad to Be Unhappy.



O grande clássico da dor de cotovelo está em Where Are You? (1957): I’m a Fool to Want You, com as cordas da orquestra de Gordon Jenkins.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Não canso de ouvir o último de Lizz Wright

Depois de um hiato de cinco anos, Lizz Wright retorna com Freedom & Surrender. Nesse período, comprou um terreno de 28 acres à beira das Great Smoky Mountains, um dos parques nacionais americanos mais conhecidos, no estado da Carolina do Norte, e está de gravadora nova. No meio do caminho não faltaram desilusões amorosas. O sofrimento sempre foi um bom caldo para a inspirações artísticas.

Em fevereiro deste ano, cerca de uma semana antes de entrar nos estúdios para gravar o novo álbum, Lizz estava na estrada e seu carro deslizou pela neve em uma curva e só parou em uma árvore. Até aparecer um vizinho que tirou-a do carro, passaram-se uns 20 minutos. Durante dois dias só ficava lembrando do carro deslizando vagarosamente pela neve. E percebeu que a sua vida também se movia lentamente.

O acidente serviu para que entrasse com outra disposição no estúdio. Tinha se reunido algumas vezes com Larry Klein, que seria seu produtor e com David Batteau, um de seus parceiros nas composições que entrariam no disco.

O time escolhido era composto por músicos que trabalham frequentemente com Klein: o guitarrista Dean Parks, o baterista Vinnie Colaiuta, os tecladistas Kenny Banks e Pete Kuzma, e o baixista Dan Lutz. Além deles, contribuiram para o disco Till Brönner (Till Brönner (outro parceiro costumeiro de Klein) e o tecladista Billy Childs.

Um dos talentos do ex-marido de Joni Mitchell, produtor de álbuns de Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Till Brönner e Luciana Souza, sua atual mulher, é o de fazer discos consistentes instrumentalmente, criando sons que combinam à perfeição as suas vozes. Não foi diferente com Freedom & Surrender.

Lizz Wright é gospel? Lizz Wright é jazz?


Em entrevista à Downbeat, lançada neste mês (com data de janeiro de 2016), Lizz diz não se considerar uma cantora de jazz. Não se sente confortável com essa classificação. Diz que suas influências abarcam uma série de gêneros como a música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues tradicional, folk e o pop contemporâneo. Se existisse uma classificação mais precisa, o gênero seria a música gospel, bem evidenciada em Fellowship. O problema para nós (ou meu, mais especificamente) é o preconceito em relação a esse gênero. Recuso-me de ouvir a música chamada gospel brasileira. Mas essa questão fica um tanto delicada quando se trata do gospel americano. Sabidamente, grande número de cantores e cantoras da América do Norte cresceu em ambientes religiosos. Lizz, no caso, é filha de pastor.

O álbum

Lizz, inicialmente pensou em um disco com canções de amor. No ano e meio em que foi gestado, as composições foram desenhando um outro rumo, refletindo o que vivenciou depois de Fellowship. O título é a representação dessas passagens. Sintomaticamente, começa com Freedom e termina com Surrender. E o recheio é de grande qualidade. A voz aveludada, sensual, combina perfeitamente com a instrumentação, cheia de nuances, notas elegantes de guitarra, backing vocals localizados, toques de Hammond, pianos elétricos Fender Rhodes e discretas percussões.

Um bom exemplo das delicadezas sonoras de Larry Klein, combinando a voz quente, comparada ao sabor de um bourbon envelhecido por um crítico é Lean In. Estão lá as guitarras de Parks, intervenções esparsas de órgão e backings discretos.




Dentre os covers, com direito até a To Love Somebody, dos Bee Gees, muito boa é River Man, clássico cult de Nick Drake, que conta com a participação de Till Brönner.




Mas, bom mesmo é The New Game. Ouça.




Infelizmente, não foi possível incorporar a apresentação de Lizz Wright, sensualíssima, com uma blusa preta bem decotada,, cantando The New Game no programa de Jools Holland. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=uqJevfXy0oY


Há um belo duo com Gregory Porter, o cantor do momento, em Right Where You Are. A ideia da composição, feita em parceria com J.D. Souther, veio enquanto corria em Venice Beach em uma de sua idas a Los Angeles para encontrar-se com Larry Klein. Assista no link https://www.youtube.com/watch?v=vokPCNFARwE


Outro destaque é Somewhere Down the Mystic. Começa bem climática, com violões e guitarras sobrepostas, backings vocals. O maior prazer de ouvir Freedom & Surrender é ir percebendo novas sutilezas sonoras a cada audição.



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Solveig Slettahjell, uma voz que vem da Noruega

Até hoje, não sei como se pronuncia o seu nome. Fico a pensar se o “S” inicial tem o som do “Z” em português, e fico a imaginar que o “veig” final é “vaig” ou “faig” ou “vig”. Se tento decifrar a pronúncia do primeiro nome – Solveig –, do sobrenome, nem ouso: Slettahjell. Mas, quando canta, torna-se universal, seja cantando em norueguês, sua língua natal, o que faz muito pouco, ou em inglês, que é o “esperanto musical”.

A Escandinávia possui forte tradição no jazz. Um dos clubes mais importantes na história do jazz foi (não sei se existe ainda) o Cafe Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca – e não na França, como escreveu certo crítico em certa feita. Bebo Valdés, Stan Getz, Don Cherry e Ben Webster residiram na Escandinávia. Resultou em uma cultura local influenciada pelo jazz, até na Finlândia, país que foi politicamente mais próximo à União Soviética e, por isso, menos permeável às “artes degeneradas”.

Um bom número de músicos, além dos citados acima, fizeram da Europa sua morada, para fugirem da perseguição da polícia, por conta do consumo de drogas, e pelo racismo. Músicos perdiam suas licenças para tocarem em clubes e assim não tinham como sobreviver.

Invasão viking
Em 1969, foi fundada a gravadora ECM, com o álbum Free at Last, do “expatriado” Mal Waldron. Ao juntar jazzistas americanos e americanos no estúdio, de certo modo, Manfred Eicher ajudou na criação de novas sonoridades. Não agradou os puristas, mas uma nova geração passou a gostar de música instrumental com o que, pejorativamente, ficou conhecido como “som ECM”. Foi assim que muitos conheceram Jan Garbarek, Bobo Stenson e Terje Rypdal, músicos que “vieram do frio”.

Rolou uma boa água e uma das boas gravadoras atuais que ajudam a conhecer nomes novos é a também alemã ACT Music. A invasão escandinava continua com muitos músicos de talento. Foi por meio de seu catálogo que cheguei em Solveig Slettahjell.

Seus primeiro álbum solo se chama Slow Motion Orchestra, que é de 2001. É um disco de standards, basicamente. Manteve uma banda com o nome de Solveig Slettahjell Slow Motion Quintet. Alguns foram distribuídos pela ACT. Lançando por outras posteriormente, no ano passado, participou de um álbum da série Jazz at the Berlin Philharmonic, com com Bugge Wesseltoft, Knut Reiersrud, e o trio In the Country.

Agora, em 2015, com os mesmos Knut Reiersrud e o In the Country, saiu Trail of Souls. As músicas escolhidas são todas em tons menores. É a sua especialidade. Significativamente, sua antiga banda se chamava Slow Motion. Solveig é “slow motion”, e é para se ouvir nessa velocidade. Sua voz lembra um pouco a de Annie Lennox, mais ou menos com a mesma voltagem dramática. As primeiras quatro faixas são excepcionais (Borrowed Time, Grandma’s Hand, Mercy Street e Sometimes I Feel Like a Motherless Child). Se são tão boas, isso não significa que o resto seja pior. O CD é todo bom. Se puder, compre. A guitarra de Knut Reiersrud, sempre discreta, dá um colorido muito original às interpretações da norueguesa.

Assista ao promocional, com Borrowed Time, a faixa de abertura.



A melhor mesmo é Grandma’s Hands, do grande Bill Withers. Ouça.



De seu primeiro solo, ouça Wild Is the Wind.



O grande destaque, no entanto, é sua bela interpretação de Beautiful Love, com Morten Qvenild, o mesmo pianista de trio In the Country.



Boa parte do repertório de Solveig é constituída de canções do pop. Uma das mais conhecidas é Wild Horses, de Mick Jagger e Keith Richards.



Take It With Me, de Tom Waits, é um número que faz parte de Jazz at the Berlin Philharmonic. Essa apresentação é mais antiga. É de 2007.



Dos clássicos moderno que todo mundo gosta, ouça Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Carlos Barbosa-Lima antes do desbunde

Barbosa-Lima, antes e depois
Devo ter dito antes, pois deve ser a terceira ou quarta vez que faço um post sobre Carlos Barbosa-Lima. A minha lembrança mais vívida que tenho desse violonista brasileiro é da única vez em que o vi tocando. Era o mais conhecido no Brasil, menino prodígio que apresentou-se pela primeira vez quando tinha 12 anos. Foi no auditório do MASP, muito mal acomodado naquelas cadeiras de madeira, belas, mas torturantes, projetadas por Lina Bo Bardi. O jornalista Telmo Martino, que tinha uma coluna no extinto Jornal da Tarde, adorava chamá-las de “cadeira garrote vil”. Para contextualizar, é bom que se diga que à época, dois longos governos ditatoriais estavam em um “balança mas não cai”, os de Portugal e Espanha. Eram os dois países mais atrasados da Europa, sem considerar os sob a influência soviética.

Na Espanha vigia uma modalidade de tortura (e de morte), o tal do garrote vil, inventado no século 19. Era uma cadeira em que o sujeito era preso com uma cinta e a cabeça com uma argola de ferro e um buraco por onde passava um parafuso na altura da nuca que prensava o pescoço da vítima até a morte. O garrote vil era a representação da barbaridade e do atraso da Espanha sob o Generalíssimo Franco. Era um dos ditadores mais odiados e temidos à época.

Bom, voltando à apresentação, aquele teatro era realmente inóspito; em uma noite fria, sem sistema de aquecimento, a coisa era séria, ainda mais para mim, que estava gripado, e naquele silêncio de um recital de violão, minha grande tortura, além de ficar sentado naquela cadeira, foi a de passar o tempo inteiro segurando a tosse, para não incomodar o resto da plateia.

Depois disso, nunca mais ouvi falar de Barbosa-Lima. No início dos anos 1980, vi um CD do violonista tocando Antônio Carlos Jobim e George Gershwin. Estava aí a razão de seu “desaparecimento”. Ainda pela mesma gravadora, a Concord, tempos depois, acabei comprando The Music of Americas. Além desses dois, havia encontrado o CD Impressions, de 1985, este sim, centrado nos clássicos Gabriel Fauré, Erik Satie, Claude Debussy, Ravel e Villa-Lobos e dois – Enrique Ubieta e Robert W. Scott – que, por desconhecimento, imagino não serem.

Em Plays the Music of Antônio Carlos Jobim e George Gershwin (1981), as nove primeiras do primeiro e oito do outro. A escolha é significativa, não apenas por serem os nomes mais conhecidos cá e lá, mas pelo fato de os dois estarem no limiar do que é popular e erudito. Barbosa-Lima e o repertório do violão estão nesse limiar.

Dos três citados, The Music of Americas é o melhor. As interpretações são mais vibrantes devido a escolha dos temas. Os destaques são Aquarela do Brasil, as duas de Garoto (Carioquinha e Mazurka nº 2) e as três de Alfredo Vianna, o fabuloso Pixinguinha (Um a Zero, Cochichando e Lamento).

Veja Barbosa-Lima tocando Cochichando.



Aquarela do Brasil.


Um a Zero, de Pixinguinha.


De pouco em pouco, a música de Barbosa-Lima abriu-se a outros gêneros musicais latino-americanos e, como se sabe, ritmos mais quentes como os da América Central, e passionais, como o bolero. Dançando de acordo com a música, o violonista passa a se vestir de modo menos sisudo e vai morar em Porto Rico. Presumo que se sente mais feliz hoje.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Canadá e suas cantoras

O Canadá é quê nem o Santos, digo, o Santos Futebol Clube, o time de futebol. Sob esse parâmetro um tanto improvável, Diana Krall é o Pelé do Canadá. Como é difícil surgir um novo Pelé (há controvérsias), não será fácil surgir alguém como Krall, mas ambos estão sempre a revelar novos nomes. Depois de Edson Arantes do Nascimento o grande da atualidade é Neymar da Silva Santos Júnior, ou, simplesmente, Neymar. Acho que ainda não surgiu um Neymar no Canadá, mas há nomes a considerar.

Krall é bela (há controvérsias) – desculpe uma certa misoginia ou considerar essa qualidade –, talentosa, intérprete de voz inigualável, sensual, quente, além de excepcional pianista. Tal como Nat King Cole, abriu mão de ser o gênio do piano e priorizar o seu lado cantor. Diana, hoje, mais cantora que pianista, até hoje, não assumiu exatamente esse papel. Nunca deixou de apresentar-se sentada usando o instrumento como “acessório”. Nat, ao contrário, assumiu o papel e, carismático, foi o primeiro negro a ter um programa de TV (durou pouco, apesar do sucesso, pois ninguém – leia-se brancos – teve coragem de patrocinar a atração).

Além de bons instrumentistas, como Oscar Peterson, Oliver Jones, Dave Young, Renee Rosnes, Gil Evans e Maynard Ferguson, o Canadá tem sido pródigo em revelar bons cantores como Paul Anka, Michael Bublé (há controvérsias se ele é bom), Sophie Milman (é russa naturalizada canadense), Holly Cole, Carol Welsman, Nikki Yanowsky (mais pop que jazz), Susie Arioli, Brigitte Zarie, Emilie-Claire Barlow, Elizabeth Shepherd (é a diferente) e Laila Biali. Nenhuma das citadas é um Neymar, no entanto, merecem atenção, caso de Carol Welsman. É bonita, no alto de seus 55 anos, uma loura de belo porte, uma potranca, como diria um amigo, toca piano e canta. Quando se apresentou em São Paulo, no Bourbon Street, nos impressionou, a mim e ao Carlos Conde, não apenas por essas qualidades, mas por um pequeno detalhe: apresentou-se descalça. Depois do show, fomos ao camarim e ganhamos autógrafos nas capinhas de CD que tínhamos levado.


Veja Carol com Djavan e Oscar Castro-Neves, cantando em português.




Do time das veteranas, outra bem conhecida é Holly Cole. Não é uma grande cantora, mas tem seu encanto. Veja-a cantando I Can See Clearly Now.




Das mais (um pouco mais) novas, Emilie-Claire Barlow é bem interessante. Seu Live in Tokyo (2014) é muito bom mesmo, bem vibrante. O último também é bem interessante. Clear Day é Barlow com a Metrople Orkest. Veja a apresentação do CD mais recente.




Ouça Like a Lover, de Dori Caymmi, com Emilie-Claire.




Nikki Yanofsky é menos interessante. Ela não se decidiu se quer ser uma cantora de jazz ou ser pop. Aqui ataca no jazz cantando o clássico You’ve Changed.




Susie Arioli não faz feio cantando Pennies from Heaven.





Laila Biali, com Krall, canta e toca pian, como Krall e Welsman.
Veja Biali cantando Show Me the Place, de seu conterrâneo Leonard Cohen.




Laila canta outro conterrâneo, dessa vez, Neil Young (Heart of Gold).




Não poderia faltar outra canadense. Laila canta Woodstock, de Joni Mitchell.




Sophie Milman preenche, com méritos, vários quesitos para ser uma estrela. COnfira em Água de Beber.




Outra: La vie en rose.




No clássico Like Someone in Love.




Quer saber um pouco mais de Milman? Leia em http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2012/05/sophie-milman-cantora-que-veio-do-frio.html

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O prestígio de Vinícius Cantuária lá e cá

Vinícius Cantuária e Bill Frisell, ao fundo.
O mesmo autor de uma canção “fofa“ como Só Você foi um dos fundadores da banda progressiva O Terço. É autor também da bela e “fofa” Lua e Estrela, que fez muito sucesso na voz de Caetano Veloso. Provavelmente, quando compôs essas duas canções, Vinícius Cantuária estava apaixonado por alguma bela loura.

Saindo d’O Terço, Cantuária foi participar de uma outra banda, de belo nome, A Outra Banda da Terra, assim nomeada por Caetano Veloso, como baterista também. Em um show dessa época, comecinho dos anos 1980, o baiano estava em uma fase pós-revolucionária, menos experimental, mais hedonista e compondo muito bem. A banda apresentava-se vestida de branco, com um coro de belas moças que mais embelezavam o palco que qualquer outra coisa. Qualquer banda que se prezasse tinha que ter backing vocals. Lua e Estrela era um dos temas que faziam parte do show.

É de 1984 o maior sucesso de Cantuária. Só Você era uma canção daquelas “grudentas”. Virou hit nas vozes de Fabio Jr. e Fagner. Quando poderia tornar-se um sucesso de vendas, sumiu. E foi para longe. Quando tiveram notícias dele, estava morando nos Estados Unidos.

No Brasil, Cantuária é um quase desconhecido. Pouco saiu dele aqui. Na América, também, não deve ser um astro, mas desde 1986, ano em que mudou-se para lá, tem conseguido lançar álbuns em gravadoras prestigiadas no mundo do jazz, como a tradicional Verve e a Grammavision. E não para de lançar. Desde 2008, seus discos saem pela Naïve, gravadora francesa independente bem conhecida pelos bons títulos de música erudita e também de jazz.

Outro sinal de que que Cantuária é respeitado são os músicos que têm tocado com ele. Um deles é o guitarrista Bill Frisell. Ambos assinam Lágrimas Mexicanas, bem recebido pela crítica. [leia sobre ele em http://bit.ly/1I7w9io]. A colaboração do americano não se restringe a esse somente. Ele participa de Índio de Apartamento (2012). Índio ainda conta com participações de Ryuichi Sakamoto, Norah Jones e o bom cantor Jesse Harris.

Seu álbum mais recente é Vinícius canta Antônio Carlos Jobim. O título é dúbio, pois logo associamos a um dos parceiros de Tom, este de sobrenome Moraes, letrista de seis das treze músicas do CD. Aqui também conta com colaborações preciosas como as de Melody Gardot (sobre ela, veja links no fim do post),  dos mesmos Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell, e a participação nos vocais em Caminhos Cruzados da brasileira Joyce Moreno.

Vinícius deixou de ser baterista quando partiu para a carreira solo e optou pelo violão. Nunca foi exatamente um roqueiro, apesar de ter sido d’O Terço. Suas composições tendem mesmo à bossa nova e ao samba-canção. Nunca foi grande cantor e nunca será. É até um enigma ser tão prestigiado. Mas de uma coisa, tanto cá como lá, pode-se dizer. Sua música é agradável e seu modo de cantar é quase sempre melancólico, o que pode ser um atrativo para alguns.


Ouça Insensatez, com participação de Melody Gardot.



Ouça trechos de todas as canções do disco.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A peça que o destino aplicou em Eva Cassidy

Quando, finalmente, o mundo poderia saber quem era Eva Cassidy, o destino pregou-lhe um peça. Foi ao médico por causa de uma dor persistente no quadril. Constataram um melanoma nas costas. Isso foi nos primeiros meses de 1996. Morreu em novembro.

Conhecida apenas localmente, na região de Washington D.C. tocando em bares e clubes, juntou um dinheiro para a gravação de duas apresentações programadas para os primeiros dias de janeiro de 1996. Bill Straw, dono da Blix Street Records, lançou Live at Blues Alley, com treze canções pinçadas dos shows. Das escolhidas, incluíam-se standards do jazz como Cheek to Cheek, Stormy Monday, Fine and Mellow, Blue Skies, Autumn Leaves, Honeysuckle Rose e What a Wonderful World; além delas, números do cancioneiro popular como Bridge Over Troubled Water, de Paul Simon, Take Me to the River, de Al Green, Fields of Gold, de Sting, e People Get Ready, de Curtis Mayfield. Em princípio, considere-se que era uma salada mista. De fato. Era a demonstração do ecletismo de Eva. Não era jazz, pop, rhythm’n’blues, blues, gospel, country ou rock; era uma fusão de gêneros muito bem engendrada por ela e uma banda, apresentando uma síntese da música americana. Não importa que Sting seja inglês ou Joseph Kozma, franco-húngaro. Vai no bojo dos argumentos.

Quase 30 anos depois da sua morte, a mesma Blix Street Records lança um álbum duplo com 33 músicas, 20 a mais que o original de 1996 do memorável show no Blues Alley. Algumas das canções tinham sido lançadas em coletâneas organizadas depois de seu falecimento, mas vale pelo conjunto do que foi tocado no clube.

Das 30 a mais, destacam-se temas conhecidos nas vozes de Aretha Franklin (Chain of Fools), Son of a Preacher Man (Dusty Springfield), Fever (Peggy Lee), Time After Time (Cindy Lauper), e Late in the Evening (Paul Simon), dentre outros.

Sting, quando ouviu sua composição Fields of Gold, emocionou-se. É provavelmente o que acontece com qualquer um ao ouvir Eva pela primeira vez. Não a conhecia até um amigo, o Alberico Clento, dizer que havia ganhado de presente de uma prima que viera um disco seu. Ao ouví-la, depois disso, fiquei interessado em conhecê-la melhor. Cassidy canta com muita propriedade qualquer gênero. Suas interpretações são naturais, como se tivessem sido compostas especialmente para ela. O lançamento do álbum Nighbird é um acontecimento. Se estivesse viva, estaria desfrutando do sucesso merecido. Eva morreu aos 33. Muito cedo para morrer.

Ouça algumas interpretações de Nightbird

Fields of Gold, que emocionou seu autor.



Outro clássico moderno: Ain’t No Sunshine, de Bill Withers.



Versão mortal de Take Me to the River, de Al Green.



Existem alguns vídeos de Eva no YouTube da apresentação no Blues Alley. Aliás, Nightbird vem com dois CDs e um DVD. Veja-a cantando Autumn Leaves.



Nightbird, que dá título ao disco.



Time After Time.



A fenomenal People Get Ready, de Curtis Mayfield.




terça-feira, 17 de novembro de 2015

Allen Toussaint, o músico dos músicos

No último dia 10, Allen Toussaint sofreu um ataque de coração no hotel, em Madri, e não resistiu. Excursionava pela Europa e tinha um show marcado com Paul Simon no começo de dezembro com renda a ser revertida para a New Orleans Artists Against Hunger and Homelessness, organização de caridade da qual Toussaint foi um dos fundadores.

Toussaint ganhou reconhecimento tardio, mas do público. Era venerado pelos músicos por seu trabalho como produtor, diretor musical e compositor, bem antes de lançar From a Whisper to a Scream. seu primeiro álbum como líder. Isso foi em 1970. Sua estreia no mundo do disco, no entanto, havia se dado em 1958 com The Crazy World of New Orleans, assinando como Al Tousan. Os Rolling Stones, Aaron Neville, The Yardbirds, Irma Thomas, Oti Redding, dentre outros, gravaram suas composições. Era um cara de bastidores e ajudava não ser conhecido assinar suas músicas como Naomi Neville, o nome de sua mãe.

Era de New Orleans. Diferentemente de outros nativos da terra do dixieland, de Louis Armstrong e do clã Marsalis, seu gosto inclinava-se ao rhythm’n’blues, consequentemente, ao rock e ao funk. Ao lançar The Crazy World of New Orleans, todo instrumental, Allen mostrava ao que tinha vindo. Em vez de continuar a gravar, aceitou um convite para ser A&R do selo Minit. Foi produtor de inúmeros sucessos e emplacou várias composições neste selo e no seguinte, que foi criado por ele e o produtor Marshall Sehorn. Na década de 1970, quando lançou Toussaint, relançado como From a Whisper to a Scream, participou, como produtor principalmente, e também como arranjador de álbuns de Paul McCartney, Dr. John, The Band, John Mayall, Etta James, Patti Labelle, dentre outros.


O legado
The Bright Mississippi é um dos grandes álbuns de Toussaint. Lançado em 2009 por uma gravadora maior, a Nonesuch, serve como síntese de sua genialidade em um álbum que se inclina mais ao jazz do que a outros ritmos.

O lançamento do discoi foi acompanhado de críticas entusiasmadas. Menos rhythm’n’blues e mais jazz, mesmo assim, Toussaint, afirmava suas raízes. Afinal, New Orleans é a terra de Louis Armstrong, Lil Harding, genial pianista e compositora uma das mulheres do trompetista, o berço do ragtime, que teve como expressões Buddy Bolden, Sidney Bechet e Jelly Roll Morton.

Allen, ao piano e nos vocais (em Long, Long Journey) e um conjunto estelar do qual participam Don Byron, Marc Ribot, David Piltch, Jay Bellrose e Nicholas Payton fizeram um disco excepcional, delicioso, quente e contagiante. Seu piano é o eixo. O violão de Ribot relembra o estilo de Django Reinhardt e de ritmistas como Freddie Green. O trompete de Payton, este, natural de New Orleans, e a clarineta de Don Byron, em conjunto com o contrabaixo bem marcado de Piltch e a bateria de Bellrose rememoram temas caros como West End Blues, de King Oliver, St. James Infirmary, e Egyptian Fantasy, de Sidney Bechet.

Ouça Egyptian Fantasy, a primeira do disco.




Ouça St. James Infirmary.




The Bright Mississippi conta com participações especiais em dois números: Brad Mehldau em Winin' Boy Blues, de Jelly Roll Morton, e Joshua Redman Daydream, de Billy Strayhorn e Duke Ellington.

Ouça o duo de Mehldau e Tossaint. Belíssimo.



O sax tenor de Joshua Redman e o piano de Toussaint.



O piano de Allen Toussaint era realmente especial, não? Sua elegância não era apenas no vestir. Toussaint era a própria expressão da elegância.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O novo Leny Andrade lançado nos EUA

Leny Andrade e Roni Ben-Hur, muito à vontade
O jazz brasileiro tem sua maior expressão em Leny Andrade. A associação ao gênero, provavelmente, vem de seus inconfundíveis scats, que é um recurso tipicamente do jazz. Mas Leny é brasileira em sua essência. Não seria tão respeitada fora daqui se fosse mais uma cantora de jazz nos moldes de uma Sarah Vaughan, apenas para citar uma de suas grandes influências. O “molho brasileiro” é essencial para que ganhe até elogios do maior cantor vivo (aos 89 anos). Tony Bennett diz que que “Leny é uma das maiores improvisadoras do mundo. Amo o jeito dela cantar. Ela é original.”

Mais improvável do que que brasileiros influenciados pelo jazz pode ser a de israelenses gostarem de música brasileira e/ou latina. O melhor exemplo é o de Anat Cohen. Virtuose na clarineta, craque no saxofone, parceira eventual do Choro Ensemble, autora de gravações excepcionais de clássicos como 1 a 0 e As Rosas Não Falam, gosta tanto daqui que até aprendeu o português. [Sobre Anat e sua paixão brasileira, leia http://bit.ly/1Gft3Iq]. A “israeli-brazilian connection” não para por aí. Outro, de nome curioso, revela sua paixão pelos trópicos por suas ligações com brasileiros emigrados como Nilson Matta e Duduka da Fonseca. Israelense de nascimento, Roni Ben-Hur cresceu na Tunísia, iniciou a carreira de músico em clubes israelenses e, desde 1985, mora nos EUA.

A união de dois músicos improváveis gerou Alegria de Viver, lançado em 6 de outubro, pelo selo Motéma. Em um encontro em 2012, no Maine, quando se conheceram, Leny disse a Ben-Hur de que gostaria de gravar um disco com ele. Em janeiro de 2014, em Niterói, ensaiaram e selecionaram o que gravariam. De acordo com Roni, os arranjos, os tempos e a seleção das canções foram de responsabilidade dela. “Na verdade, eu era o sideman”, declarou.

Leny, aos 70, está cantando muito bem ainda. Alegria de Viver é a prova. Aparte standards mais que conhecidos como Dindi, Estrada Branca, Ana Luiza, Carinhoso e O Cantador, de Dori Caymmi, bem conhecidas até nos EUA, canta outras, menos populares e muito lindas como É Preciso Perdoar, tornada conhecida na interpretação de João Gilberto, de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz. Antológica meso e mais vibrante do que a de João é a com Ryuichi Sakamoto, Caetano Veloso e Cesária Évora.

Ouça esta versão.




Não se tornará tão antológica quanto a de Évora, Caetano e Sakamoto, é esta com Leny, boa na medida, com a sutil guitarra de Roni.




Além da citada acima, temos, dentre outra, Balanço Zona Sul, do pirajuiense Tito Madi, É Só Amar, de Johnny Alf, Rugas, de Nelson Cavaquinho, Passa por Mim, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, bem conhecidas por aqui, mas lá, possivelmente, não.


Do belo Alegria de Viver, ouça Samba Iluminado, de Fred Falcão e Marcelo Silva, canção que abre o disco.



Aqui você tem um preview do álbum.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Joanna Wallfisch e sua caixa de surpresas

Dan Tepfer e Joanna Wallfisch
Sentir-se agitado sem razão aparente é muito chato. Na falta de vontade de fazer qualquer coisa e, ao mesmo tempo, realizando várias inúteis, como converter sete mil CDs em mp3, o que é trabalhoso mas pouco objetivo em termos monetários, fico com dois computadores ligados ao mesmo tempo, e sem saber o que ouvir ante tantas opções. Vou rolando a barra esquerda do iTunes e uma capa vermelha me chama a atenção. Percebo que está marcado, o que significa que devo ouvir com atenção. Pelo número de itens disponíveis na minha audioteca, é o único jeito que tenho para conhecer novos intérpretes.

Minutos depois, estou me sentindo um pouco mais tranquilo, e passo a questionar a razão de ficar pulando de um computador para o outro, sofregamente como se meu tempo fosse finito. Estou prestando atenção à música que toca nas minhas caixas acústicas. Percebo que a beleza calma da voz de Joanna me deixou menos ansioso. Por acaso, a canção se chama This Is How I Feel. É sua voz e um piano que a acompanha.

Quando ouço Satin Grey, a segunda, já estou interessado em saber um pouco mais de Joanna, que agora passa a ter sobrenome: Wallfisch. Joanna Wallfisch. Este é o seu nome. Entro em www.joannawallfisch.org. Nas linhas iniciais, é elogiada por Fred Hersch: “uma verdadeira descoberta – artista de primeira classe, em todos os sentidos.” A Jazzwise Magazine a descreve como uma cantora-compositora “hipnotizante”.

Veja Joanna e Dan em Satin Grey.



Leio que Joanna é de Londres e que, depois de formar-se na Central Saint Martins College e na Escola Superior de Belas Artes de Paris, foi estudar na prestigiada Guildhall School of Music and Drama. Gravou então seu primeiro álbum, Swan.

Agora em 2015, lançou The Origin of Adjustable Things, com o tecladista francês, também radicado nos EUA, Dan Tepfer, por um selo de maior expressão, a Sunnyside. Além de intérprete, Wallfisch compõe. No álbum, a maioria das canções é de sua autoria, e poucas não, como Wild Is the Wind, Never Let Me Go, e as “modernas” Song to the Siren (1970), de Tim Buckey, e Creep (1993), do Radiohead. Sua interpretação dessas duas últimas é muito boa, mas os destaques são as composições próprias. Intimistas e melancólicas, são belas demais. O acompanhamento quase minimalista de Tepfer, em cuja carreira está incluída uma elogiada gravação de Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach, e a habitual participação da banda de Lee Konitz,  é a perfeita combinação com a sua voz, em várias ocasiões, dobradas em vocalizações hipnóticas. As três primeiras faixas – This Is How You Make Me Feel, Satin Grey e Satellite – são excepcionais.

Ouça Satellite.




Não faz feio nos clássicos. Ouça Wild Is the Wind.




Never Let Me Go é a canção que encerra esse disco tão bom, tanto que recebeu 4 estrelas e meia na Downbeat de julho.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tony Bennett, mais vivo do que nunca

Com 89 anos completados em agosto, Tony Bennett continua mandando bem. É um exemplo de longevidade sem insanidade. Nunca houve alguém como Frank Sinatra, mas este, aos 80, estava um trapo, um fio de voz, o que Tony, até hoje mantém a potência e afinação impecável. Aliás, Frank era fã de Bennett.

Nunca houve ninguém como Bill Evans. Seu xará, de sobrenome Charlap, filho da cantora Sandy Stewart e do compositor Mose Charlap, é um tremendo pianista, com muitos admiradores no meio do jazz. E é esse outro Bill que toca com Tony, revivendo a grande parceria de Evans com o cantor em dois clássicos – The Tony Bennett/Bill Evans Album e Together Again. Em relação ao primeiro – o segundo é de 1977 –, são 40 anos para o lançamento de The Silver Lining: The Songs of Jerome Kern.

E é incrível que 40 anos depois e com quase 90 anos, Tony esteja cantando tão bem. No ano passado, em parceria surpreendente, lançou Cheek to Cheek, com Lady Gaga (leia em http://bit.ly/1MpEQpH). E o que anunciava ser um desastre, saiu ótimo. Até que a moça, em um gênero que não é seu, faz bonito. O disco foi até elogiado pela crítica e vendeu muito bem.

Se os dois álbuns eram voz e piano, em The Silver Lining, apesar de ser no formato duo, sete faixas contam com o baixista Peter Washington e o baterista Kenny Washington, e em quatro, com o acréscimo da também ótima pianista Renee Rosnes, aliás, mulher de Bill. São três músicos que apenas abrilhantam o disco. É tão bom que o fã de Bennett pode curtir a voz de um dos melhores cantores do século passado, que continua firme entre os primeiros neste, fazendo de conta que o pianista pode ser um qualquer, e os admiradores de um bom piano podem só prestar atenção nas linhas extraordinárias que Bill executa no instrumento. Juntando os dois, é o que ouvimos em simbiose perfeita. É um dos melhores lançamentos do ano. Jerome Kern deve estar feliz.

Bill e Tony na música que dá título ao disco.




A melhor faixa do álbum é “They Didn’t Believe Me”. Aqui são acompanhados por Peter Washington e Kenny Washington. Confira.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Theo Bleckmann canta Kurt Weill

Theo e Julia, lado a lado
Tenho o costume de sempre dar uma olhada em um site cujo nome revela ao que veio – “musica degradata” (http://musicadegradata.blogspot.com.br) –, e outro, chamado “jazz boot experiment” (http://jazzbootexperiment.blogspot.com) – por neles encontrar gravações não lançadas em CD. Geralmente são registros tirados de transmissões radiofônicas ou gravações piratas mesmo. Na era digital, são de ótima qualidade, ao contrário dos que eram lançados antigamente, os chamados “bootlegs”, em sua maioria péssimos. O bom nesses dois sites é a chance de se ouvir encontros de músicos que só acontecem em shows.

Nessa garimpagem, achei um show de Theo Bleckmann com o quarteto da pianista e compositora Julia Hülsmann, em um festival de jazz em Bonn, que aconteceu em 28 de maio deste ano. Julia é uma jazzista alemã bem conhecida, e Theo já foi chamado de “local cult favorite” pelo New Yorker.

Pelo “cult” fica claro que Bleckmann não é aquele cantor que vai agradar a todos. “Cult” é uma expressão entojada e elitista, por natureza. Pois a própria pessoa que fez o post para o download escreveu o seguinte: “O pior cantor da redondeza. Espero que Manfred Eicher nunca lance um álbum com ele.” Pelo jeito, o dono da gravadora ECM não pensa o mesmo: meses depois foi lançado A Clear Midnight – Kurt Weill and America. E é isso mesmo: Beckmann é para poucos, seja isso um elogio elitista ou uma crítica. Como comparativo, na votação da Downbeat, ficou em terceiro como melhor vocalista masculino, segundo a crítica; na votação dos leitores, ficou em sexto, abaixo de Michael Bublé, que apenas tem o mérito de ser boa pinta e bom vendedor de discos. A crítica já o descreveu como “de outro planeta” (New York Times), “mágico, futurista” (AllAboutJazz) e “transcendente” (Village Voice).

Theo Beckmann é um cara diferente mesmo. É o caminho que escolheu. Basta observar com quem já trabalhou: Meredith Monk, Phillip Glass, Dave Douglas e Anthony Braxton, dentre outros. Seus projetos também possuem essa marca. Seu disco I Dwell in Possibilities foi inspirado no Art Povera, movimento artístico italiano dos anos 1960; Hello Earth! é uma releitura do álbum conceitual do mesmo nome de Kate Bush; e um outro chama-se Twelve Songs by Charles Ives with Kneebody. Com trabalhos assim, impossível ser apreciado por muita gente. Os álbuns que podem ser considerados mais “pop” são Schumann's Favored Bar Songs, duo com o pianista Fumio Yasuda (Winter & Winter, 2010), sua participação em Songs I Like a Lot, de John Hollenback (2013) e seus álbuns com Ben Monder, que mesclam o avant garde com standards.

A Clear Midnight

O álbum, cujo subtítulo é Kurt Weill and America, faz uma ponte do que foi composto depois que o alemão mudou-se para os EUA, fugido da guerra e de Hitler. Além de clássicos como Mack the Knife (a única exceção), Speak Low, September Song e Alabama Song, e outros menos populares, como Your TechniqueBeat! Beat! Drum! e River Chanty, em parceria com letristas como Ogden Nash, Ira Gershwin, Ann Ronnell, Langston Hughes e Maxwell Anderson, o álbum tem alguns números compostos por Julia sobre poemas de Walt Whitman.

Certamente, o álbum concebido por Julia não é do gosto de todos, mas é um bom diferencial, uma ilha no meio de tantos intérpretes que pouco se aventuram.


Veja Theo com Julia em Beat! Beat! Drum!, no Festival de Jazz de Bonn.




Assista ao vídeo oficial da ECM apresentando o álbum.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Luzes e trevas no mundo de Melody

O mundo visto através dos óculos de Melody Gardot é mais escuro. A frase pode ser de efeito, mas tem sua verdade. Se o que acontece na vida influi em como somos, a dela pode ser uma boa pista do que é a sua música, pelo menos a de seus dois primeiros discos. Algumas faixas de Worrisome Heart e My One and Only Thrill (não estou considerando o EP Some Lessons: The Bedroom Tapes, gravado depois de sair do hospital após um ano internada) são tremendamente tristes. No post passado (http://bit.ly/1KHzkrn), conto a terrível história por que passou depois de ter sido atropelada quando andava de bicicleta.

O sucesso foi instantâneo, desde o primeiro álbum, lançado com boa estrutura de divulgação. Seus ouvintes sentiram as dores que a perseguiam e até hoje persistem em razão das sequelas do acidente. A vida deve ter ficado bem melhor para Melody. E também deve ter achado que havia mais além de lamentar da própria desgraça. Almejou outros universos a explorar. The Absence (Verve 2012) incorpora elementos assimilados nas viagens em que conheceu Marrocos, as ruas de Lisboa, as praias brasileiras e o tango ouvido em casas de Buenos Aires. Pesa também a exploração por esses mundos a produção de Heitor Pereira, conhecido também como Heitor P. Não é à toa que uma das faixas se chame Iemenjá

No álbum mais recente, Currency of a Man, o foco é mais em cima de gêneros tipicamente americanos, da década de 1970. A produção é do mago das cantoras e cantores: Larry Klein é mestre em captar as potencialidades de quem os contrata e tem o dom de rechear suas vozes em instrumentações elegantes. O álbum foge um pouco do que os fãs esperavam de Gardot, o que, de maneira nenhuma, quer dizer que não seja bom. Mas, tem esse porém; é inferior aos anteriores.

Currency of a Man
Don’t Misunderstood abre com vocalise de Melody que parece um daqueles lamentos de blues, sobre um fundo de Hammond, percussões e lampejos de cordas. A música é atmosférica, lenta, meio preguiçosa, um tanto diferente do que se conhece dela. Mas não decepciona.

Don’t Talk segue na mesma toada, com uma introdução de cordas, e uma bela intervenção da guitarra que faz toda a diferença. Parece mais uma continuação da faixa de abertura. O mais do mesmo continua com It Gonna Come. A diferença mesmo está no belo arranjo, com uma marcação ritmica destacada de notas de baixo elétrico e o saxofone barítono. 

Nas três citadas, há um delicioso clima de sons da década de 1970, reforçada pelas cordas que surgem em breves intervalos, com riffs de sopros. Como gancho dessa época, Bad News lembra um pouco aquele instrumental meio bizarro Tom Waits. Same to You, que sucede ao breve Palmas de Rua – nome em português mesmo –, segue a receita das faixas anteriores, com ecos de gospel, funk e o pop antigo.


Ouça Same to You.




A Melody Gardot “escura”, que conhecemos dos álbuns Worrisome Heart e My One and Only Thrill, está presente na soturna No Man’s Prize. Ela é perfeita nas torch songs. A partir desta, resolve ser a Melody que vê o mundo através dos óculos que a protegem da luz. A exceção é a vigorosa Preacherman.


Veja. É a melhor das que Gardot é mais “solar”.





Bem Melody é If I Ever I Recall Your Face. Maravilhosa.




Infelizmente, o YouTube tem bloqueado o que é disponibilizado de intérpretes contratados de gravadoras maiores, fora o que é oficial, como os clipes promocionais. É uma pena, senão teria colocado as três últimas, todas muito lindas: Once I Was Loved, After the Rain e, principalmente, Buying My Troubles. Mas é possível ouvir trechos delas aqui. Boa audição.





terça-feira, 27 de outubro de 2015

A boa aposta em Melody Gardot

O talento de Melody
É estranho a grande imprensa no Brasil não ter dado a devida atenção a Melody Gardot. Seu último disco foi lançado no Brasil e, até onde eu sei, não se falou dela. Não faltam elementos que podem funcionar como “ganchos” para uma bela matéria, a começar pelo nome, que nos faz lembrar de Brigitte Bardot; é autora da maioria das músicas que grava. E aqueles óculos? Até nas capas de seus discos? Tem presença, é uma bela figura. Usa bengala para andar. O que pode ter acontecido com ela? E um último e importante detalhe: tem talento.

A razão de usar bengala e usar óculos escuros são a consequência de ter sido atropelada aos 19 anos andando de bicicleta. Ficou um ano hospitalizada. As sequelas foram sérios danos na bacia e na espinha, intolerância ao som e a luz. Antes de saber disso imaginei que os óculos eram uma acessório para lhe dar um certo ar de “intelectual” francesa, meio Audrey Hepburn em Funny Face. Pelo nome pensei que fosse francesa. Curioso e meio voyeur, aquele rosto na capa do CD que via exposto em todas as Fnacs e Virgins de Paris, me atraiu. Talvez fosse francesa cantando em inglês. Enganei-me. O disco não me impressionou muito na época: era meio Norah Jones e como não era lá muito fã dela, meio que a abandonei.

Um ano depois vi seu segundo disco. Por causa do título, My One and Only Thrill, que deve ter sido inspirado pela música My One and Only Love, que eu adoro, resolvi comprar.

Worrisome Heart, seu primeiro CD – tem o EP Some Lessons: The Bedroom Sessions entre os dois lançamentos –, como disse antes, me fez lembrar de Norah Jones e de várias outras que apareceram na mesma época, com o mesmo tipo de voz e repertório, meio molenga, um pouco insosso. No entanto tinha uma canção maravilhosa: Love Me Like a River Does. E a letra é uma maravilha: “Love me like a river does/ Cross the sea/ Love me like a river does/ Endlessly/ Love me like a river/ Baby, don’t rush, you’re not a waterfall”. Vale o disco. Imagens têm sentimentos.

O segundo, para meu espanto, era bem melhor que o anterior. Descobri por que: a produção era de Larry Klein. Ele tem a capacidade de valorizar e potencializar o talento de quem produz: Joni Mitchell, Madeleine Peyroux e Luciana Souza. Orquestrações sutis, solos discretos na medida se somam ao talento de Gardot como compositora e cantora. As canções “tristes” são as melhores e bem combinam com sua voz. Nas músicas mais “saltitantes”, dá-se bem também. A primeira faixa, Baby I”m a Fool parece com qualquer outra do CD anterior à exceção de um pequeno detalhe: o diferencial Klein. Cordas e um violão acústico que servem de ligação às palavras cantadas são um prenúncio do que está por vir. Larry Klein imprime um sabor “francês”, um clima meio bossa. A citação não é despropositada. Ouçam Coralie Clément, Carla Bruni e Charlotte Gainsbourg. Podemos dizer que existe um estilo “francês” de cantar: vozes pequenas e afinadas, com aquela sensualidade meio despretenciosa. Parte do álbum segue essa receita. Na quarta música, sentimos que algo está acontecendo. Um piano, um trumpete de poucas notas e um órgão criam o clima para a primeira faixa que vai fazer valer a pena comprar o disco: Your Heart Is as Black as Night. Só pelo título dá para imaginar o petardo que vem. Duas canções climáticas se seguem: Lover Undercover e Our Love Is Easy. Nessa altura, somos cúmplices das dores de Gardot. É um crescendo que se oxigena com uma leve faixa cantada em francês, meio Henri Salvador, leve percussão, sopros dobrados, aquele violãozinho; o chantilly desse doce é um belo solo no sax alto de Gary Foster.

Aí, Melody resolve nos tirar o fôlego de vez. A balada The Rain é daquelas de suspendermos a respiração para ouvir sua voz, o piano e as notas esparsas do sax tenor de Bryan Rogers. Ouvi-la faz chover em nossos corações. Uma sessão de cordas abre a próxima: My One and Only Thrill. Com Deep Within the Corner of My Mind, as duas anteriores formam um bloco só. Sua voz é doce e dramática, sem arroubos.

Gardot então canta a única música que não leva sua assinatura: Over the Rainbow. E termina com If the Stars Were Mine. Sim, há esperança nesse mundo. Um arco-íris desponta no horizonte. Num clima meio bossa saímos felizes por conhecer uma cantora que vale apostarmos nossas fichas.

Veja:
My One and Only Thrill




Veja o clipe de Baby, I’m a Fool.




Veja Melody em Your Heart Is Black as Night.




Veja Gardot em Love Me Like a River Does.




Publicado em 29/10/2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Seu nome é Indra Rios-Moore

O amor tem dessas coisas. Indra trabalhava como garçonete em um bar de vinhos e lá conheceu Benjamin Trauerup, jovem dinamarquês saxofonista. Após três semanas estavam morando juntos, e um ano depois, mudaram-se para a Dinamarca. Indra diz que “Se não fosse tão jovem e um pouco estúpida não teria ido para a Dinamarca, mas eu estava apaixonada, e ainda estou. Pois então, foi uma escolha pragmática. Demorou quatro anos para que eu aprendesse o dinamarquês, já que não é uma língua que flua naturalmente para um americano. Afinal, a criatividade surge da dificuldade.”

Ter casado com um dinamarquês é apenas um dado que se soma à incrível mistura de sangues e etnias. A mãe de Indra, assistente social de profissão, é portorriquenha, e o pai, Donald Moore, contrabaixista que já tocou com Jackie McLean, Archie Shepp, Elvin Jones e Sonny Rollins, é afro-americano-sírio. A música entrou naturalmente em sua vida por conta da profissão do pai e muito mais ouvindo a coleção de discos de jazz, rock e soul music de sua mãe. É dela também o nome Indra, inspirada na deusa hindu “guerreira do céu e da chuva”.

Indra e Benjamin, com o baixista Thomas Sejthen, montaram um trio em 2007. Lançaram um álbum chamado Indra, simplesmente, que foi indicado para Danish Music Award for Best Jazz Vocal Album, em 2010. Com o segundo álbum, In Between, em 2012, ganharam o prêmio que dois anos antes fora apenas indicação.

Indra e Benjamin estavam dispostos a dar um passo maior. Tinha gostado demais de Turbulent Indigo, de Joni Mitchell. Resolveram enviar um e-mail para Larry Klein, ex-marido de Joni, e midas da produção artística de cantores e cantoras, tendo em seu currículo, dentre outros, Melody Gardot, Luciana Souza e Madeleine Peyroux. Larry topou. Um contratempo: Indra ficou grávida.

Zarparam em Nova York com o novo membro da família. Pegaram cada tostão economizado para gravarem com Klein. Para a escolha do repertório, Indra pensou no que ouvia do aparelho da mãe. Lembrou-se de uma canção chamada Hacia Donde, composição da mexicana Marta Valdés. Foi uma de suas escolhas, além de Heroes, de David Bowie. Parece que virou norma: alguns originais, novas interpretações de sucessos pop e os famigerados standards. Está aí o modelo seguido pela maioria, até de consagrados como Diana Krall, Cassandra Wilson e até de emergentes como José James, Gregory Porter e Gretchen Parlato. Com Indra não é muito diferente. Dois standards contrabalançam as “modernidades”: Azure e Solitude, ambas de Duke Ellington.

Uma canção parece tão fora de contexto, mas tem relação com Hacía Donde. A escolha de Money, do grupo Pink Floyd, conhecidíssima até pelo ouvinte mais distraído, Foi sugestão do irmão mais novo. Quando menino, ficava a ouvir hip-hop. Indra insistia que devia ouvir rock dos anos 1970, Black Sabbath, Rolling Stones e Pink Floyd. Quando perguntou se tinha alguma sugestão de música para incluir no novo CD, respondeu: Money.

Na sua interpretação, Indra não foge muito do original, e o saxofone de Benjamin Traerup, e notas esparsas da guitarra de Uffe Steen compõem uma atmosfera relaxada e íntima.




Ninguém foge de sua natureza. Um bom produtor é aquele que sabe melhor explorar as características de cada um. É o que Larry Klein faz muito bem. Diana Krall não deixa de ser Diana Krall, assim como Joni Mitchell, que foi sua mais longa parceria, como marido e mulher e produtor e “produzida”. No caso de Rios-Moore, ele explora bem a voz inequivocamente negra, sem a extroversão de uma Sarah Vaughan ou de uma Etta James. A dela é nuançada, de uma expressividade mais para o intimista, com cada nota fluindo naturalmente sob uma instrumentação bem econômica. Essa característica está bem evidente desde os primeiros sons de Little Black Train.

Veja o clipe oficial de Little Black Train.




Mas o melhor de Heartland são duas interpretações matadoras: a de Heroes, de David Bowie, e From Silence.

Ouça Heroes.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Os melhores da Downbeat de abril a junho

Dando continuidade a lista de janeiro a março dos melhores ranqueados pela Downbeat, vai a de abril até junho. É um pouco maior que a anterior. Natural, pois, passados os primeiros meses após o Natal, as gravadoras voltam a lançar. O grande lançamento é o álbum de José James, desde já um dos melhores do ano. Sobre ele, postei em http://bit.ly/1Are1GR.

Não ouvi Naked Lunch, o outro 5 estrelas. Dos que receberam 4 estrelas e meia, tem muita coisa boa. Dos vocais, dois são muito bons, e o de Sarah Elizabeth Charles, fora o que ouvi no preview da iTunes Store, que me fez não ficar muito interessado em comprar. O de Maureen Budway, você pode ouvir em http://bit.ly/1jR06b8. Chris McNulty é uma australiana, ótima cantora. O álbum chama-se Eternal. Vale a aposta. Um quarto é o do cult Theo Bleckman, adorado por alguns e, por outros, não muitos. O repertório de A Clear Midnight | Kurt Weill and America é de composições de seu conterrâneo Kurt Weill e três de Julia Hülsmann, a líder do quarteto que acompanha Theo, sobre poemas de Walt Whitman.

Dos instrumentais, a oferta de bons discos é farta, a começar pelo brasileiro Nilson Matta, com seu East Side Rio Drive e continuando com Imaginary Cities, do saxofonista Chris Potter, Gefion do ótimo guitarrista Jakob Bro (leia sobre seus álbuns anteriores em http://bit.ly/1jQZZwk), Balance 38-58, do russo emigrado Alex Sipiagin, e Messin’ with Mister T, do guitarrista David Stryker. Muito bom também, talvez melhor que todos os citados neste parágrafo é Expedition 2, do Wolff and Clark Expedition. Mike Wolff é o tecladista e Mike Clark é o baterista.

Ouça Gefion, de Jakob Bro.




Dos álbuns com 4 estrelas, são várias as recomendações, a começar pela brilhante Anat Cohen, com o seu Luminosa. Ouça Putty Boy Strut, de Flying Lotus. Sobre ela, leia em http://bit.ly/1Gft3Iq.



Bob Dylan, em sua investida nos standards de jazz, com Shadows in the Night, recebeu boa acolhida pela crítica. Desafina bem menos que habitualmente. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1LAfL62.

Veja o clipe de The Night We Called It a Day.




Coming Forth by Day, de Cassandra Wilson, é também um tributo a Billie Holiday. É muito bom, mas não melhor que seus álbuns do fim do século passado e início deste. Sobre o disco, leia http://bit.ly/1W3hDyr.

Ouça Good Morning Heartache.




Outros destaques são: Made in Chicago (Jack DeJohnette), Wild Man Dance, estreia de Charles Lloyd na Blue Note, NYC Sessions, do pianista Dave Bass, Take This! (Jacky Terrasson), e Live at the Monterrey Jazz Festival, de Joe Lovano e Dave Douglas.  Tem mais coisa boa, mas fico por esses, que ouvi melhor.

A lista

5 estrelas
José James - Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
Ornette Coleman, Howard Shore - Naked Lunch: Complete Original Soundtrack Remastered (Home Records)

4 ½ estrelas
Alex Sipiagin - Balance 38-58 (Criss Cross)
Chris Biesterfeldt - Phineas (Biest)
Chris McNulty - Eternal (Palmetto)
Chris Potter Underground Orchestra - Imaginary Cities (ECM)
Dave Stryker - Messin’ with Mister T (Strikezone)
Gary McFarland - This Is Gary McFarland (Century)
Georg Breinschmid - Double Brein (Preiser)
Jakob Bro - Gefion (ECM)
Jeff Hamilton Trio - Great American Songs: Through the Years (Capri)
Julia Hülsmann Quartet with Theo Bleckmann - A Clear Midnight: Weil and America (ECM)
Maureen Budway - Sweet Candor (MCG Jazz)
Nilson Matta - East Side Rio Drive (Kirianworld Blue)
Pat Martino/Jim Ridl - Nexus (HighNote)
Sarah Elizabeth Charles - Inner Dialogue (Truth Revolution)
Tomoko Omura - Roots (Inner Circle)
Wolff & Clark Expedition - Expedition 2 (Random Act)
Zhenya Strigalev’s Smiling Organizm - Robin Goodie (Whirlwind)

4 estrelas
Adam Birnbaum - Three of a Mind (Daedalus)
Alex Conde - Descarga for Monk (Zoho)
Anat Cohen - Luminosa (Anzic)
Bettye LaVette - Worthy (Cherry Red)
Bob Dylan - Shadows in the Night (Columbia)
Cassandra Wilson - Coming Forth by Day (Sony)
Charles Lloyd - Wild Man Dance (Blue Note)
Chris Lightcap’s Bigmouth - Epicenter (Clean Feed)
Christian Wallumrød - Pianokammer (Hubro)
Dafnis Pietro Sextet - Triangles and Circles (Dafnisonmusic)
Danny McCaslin - Fast Future (Greenleaf)
Dave Bass - NYC Sessions (Whaling City Sound)
David Chesky - Jazz in the New Harmonic - Primal Scream (Chesky)
David Rothstein, Larry Koonse - Conversations (Jazz Compass)
Emilio Solla y La Inestimable de Brooklin 0 Second Half (Self release)
Felice Clemente Trio - 6:35 AM (Crocevia di Suoni)
Fresh Cut Orchestra - From the Vine (Ropeadope Records)
Gebbhard Ullmann Basement Research - Hat and Shoes (Between the Lines)
Glenn Zaleski - My Ideal (Sunnyside)
Ibrahim Electric - Rumours from Outer Space (ILK)
Jack DeJohnette - Made in Chicago (ECM)
Jacky Terrasson - Take This (Impulse!)
James Singleton - Shiner (Lousiania Music Factory)
Jeremy Siskind - Housewarning (Brooklyn Jazz Underground)
Jim Snidero - Main Street (Savant)
Joe Lovano & Dave Douglas Sound Prints - Live at the Monterrey Jazz Festival (Blue Note)
John Fedchock Quartet - Fluidity (Summit)
John Stowell/Michael Zilber Quartet - Live Beauty (Origin)
Mark Helias Open Loose - The Signal Maker (Intakt)
Mark Wingfeld - Proof of Light (MoonJune)
Marshall Gilkes - Köln (Alternate Side)
Milford Graves/Bill Laswell - Space/Time • Redemption (Tum)
Myra Melford - Snowy Egret (Enja)
Omar Sosa - Ilê (Otá)
Oz Noy - Asian Twistz (Abstractology)
Pablo Held - The Trio Meets John Scofield (Pirouet)
Pascal Bokar - Guitar Balafonics (Sugo)
Phil Markowitz, Zach Broch - Perpetuity (Dot Time)
Pops Staples - Don’t Lose This (Anti)
The Renga Ensemble - The Room Is (Allos)
Roscoe Mitchell Trio - Angel City (Rogue Art)
Russell Malone - Love Looks Good on You (HighNote)
Ryan Truesdell Gil Evans Project - Lives of Color: Live at Jazz Standard (Blue Note)
Soft Machine - Switzerland 1974 (Cuneiform)
Steve Gadd Band - 70 Strong (BFM)
Steve Turre - Spiritman (Smoke Sessions)
Steve Wilson & Wilsonian’s Grain - Live in New York: The Vanguard Sessions (Random Act)