quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Jamie Saft e a cereja do bolo

Steve Swallow, Jamie Saft e Bobby Previte
Depois de ouvir, por curiosidade, “Borscht Belt Studies” (2011), fiquei um tanto obcecado por ouvir mais coisas de Jamie Saft. Por gravar na Tzadik, gravadora de John Zorn, e pelos títulos, percebi uma ligação particular com o judaísmo, o que sempre me atrai, não pergunte por que.

Ao ouvir outros títulos, fiquei feliz e, ao mesmo tempo, decepcionado. Desejava o mesmo tipo de som de “Borscht Bell Studies”. O que me atraiu foi o gosto dele construir sua música por meio de acordes, entremeados de belos floreios que, às vezes soa ao kitsch, meio Lovelace ou Pedrinho Mattar. Percebi que Saft era eclético, um pouco demais para o meu gosto. “Ticonder”, pelo line up – Joe McPhee e Joe Morris –, vi que seria meio avant garde. E era. Apesar de nem detestar o gênero, queria a face lírica, de climas de uma beleza estranha, como notas flutuando sobre a superfície de um mar calmo.

Nesse sentido, “Fight Against Babylon”, com o New Zion Trio, com Larry Grenadier e Craig Santiago, que tinham participado de “Borscht Belt Studies”, não me decepcionou. Os elementos que buscava estavam presentes nesse CD, talvez por terem sido lançados no mesmo ano.

O som é uma fusão judaico-jamaicana. É uma mistura um tanto inusitada, mas funciona. Há a batida clássica do reggae e do dub, engenhosamente mesclada à linguagem do jazz contemporâneo. Se for  possível outra classificação, diria que é meio “zen-reggae”. É possível?

Ouça “Slow Down Furry Dub”




Outro destaque é “Fire Blaze”. Achei uma apresentação do trio. Se for classificar, invento outra categoria: ambient-reggae.




Ouça “Hear I Jah”, com Saft no Fender Rhodes. Brilhante.




Depois de conhecer esses álbuns, ouvi “Black Shabbis”, anterior, de 2009. É completamente outra coisa. É punk-rock-jazz. Além de tecladista, toca guitarra, contrabaixo e canta. É bom, mas foge totalmente do que queria ouvir dele, novamente.

Um trio mais jazz
Jamie Saft, Steve Swallow e Bobby Previte montaram um trio, sem um líder, colaborativo Segundo Previte, depois de um almoço, entraram no estúdio e gravaram tudo em três horas, em sistema análogo de duas pistas em fitas de meia polegada. Das dez músicas, sete foram compostas – ou esboçadas, como disse – por Saft e as restantes são de autoria dos três. “The New Standard” foi lançado em 2014 pela gravadora inglesa RareNoise.

Previte e Swallow tocaram juntos ocasionalmente por quatro décadas. Ambos são veteranos. Swallow tem 77 anos e é um dos melhores baixistas elétricos da história. Começou no acústico e tocou em bandas lendárias, como a de Jimmy Giuffre, no início, e depois passou a tocar em um baixo elétrico e cinco cordas. Diferentemente dos mais conhecidos, como Jaco Pastorius ou Stanley Clarke, é menos percussivo e mais melódico, e utiliza-o quase que como um instrumento solo, privilegiando a melodia em notas mais agudas. Previte tem cerca de dez anos a menos e é um baterista que orbitou por todos os estilos, desde o mainstream até o avant garde. Participou de gravações com John Zorn, dono da gravadora Tzadik, a mesma na qual Saft gravou a maioria de seus discos.

Um trio desses nunca poderá ser classificado como mainstream É diferente de tudo. Queira-se ou não, o piano melodioso e nuançado de Saft predomina. “The New Standard” teve boa acolhida, recebendo 4 estrelas na Downbeat e pelo site AllAboutJazz. O encontro foi tão bom que merecia uma continuação. Agora em 2017, saiu “Loneliness Road”, com uma cereja no bolo: participação especial de Iggy Pop em três faixas.

 Iggy. Pop ou jazz
Ao contrário de alguns cantores e cantoras que, numa certa hora, aquela do esgotamento criativo, como Rod Stewart, resolvem gravar discos com o repertório do “great american songbook”, em versões orquestrais estilo Frank Sinatra, Iggy Pop optou por um “french songbook” mezzo muzzarela mezzo calabresa, ou melhor, mezzo camaembert mezzo pastrami. No conceito de “Après”(2012), são temas que possuem alguma relação com a França. Estão incluídas “La vie en rose”, “Syracuse”, clássico na voz de Henri Salvador, “La javanaise”, de Serge Gainsbourg, mas também “Michelle”, de Lennon e McCartney, presumo que devido ao nome, e, não me pergunte por que, “What Is This Thing Called Love”, de Cole Porter, e “Only the Lonely”, clássico de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn, eternizado por Frank Sinatra em sua fase dor de cotovelo por ter perdido Ava Gardner.

Pop não conhecia nenhum dos três pessoalmente. Tinha ouvido falar de Swallow, por ser ele casado com Carla Bley. De Saft, nunca tinha ouvido falar. A parceria improvável aconteceu por meio do músico e produtor Bill Laswell. Os dois e mais Bootsy Collins estavam fazendo algum trabalho, e Bill comentou de uns músicos de Nova York, não se lembra direito, como disse em uma entrevista à Rolling Stone, que queriam a sua participação em um projeto. Saft enviou três músicas para Pop, em Miami. O cantor disse que as letras saíram naturalmente na primeira ouvida. E o resultado é até impressionante. A voz é aquela, um Leonard Cohen de registro menos sujo. Alguns acharão sua participação a cereja do bolo; outros poderão achar que a cereja é falsificada, feita de chuchu.

A primeira a constar no disco é “Don’t Lose Yourself”. Ouça.




Na de encerramento, Pop canta "I'm hungry for the soul that shines in your eyes/And all I want to say is/I love you/Every day/I love you.", em “Everyday”.




Jamie Saft é o pianista das cores. Veja-o, com Swallow e Previte na música que abre o CD: “Ten Nights”.




“Henbane” é mais jazz. Swallow arrasa no walking bass e Previte é só classe.




Feliz passagem de ano e, em 2018, estou de volta.

Veja também uma apresentação do trio, em 2015.






quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O mais belo grave de Johnny Hartman

Ao ouvir “Wave” no álbum “Invitation”, de Art Van Damme e The Singers Unlimited, lembrei-me de Johnny Hartman. Em LP nunca lançado em CD, “Once in Every Life” (Bee Hive Records, 1980), o cantor mais subestimado do jazz solta um “together” respeitável no verso “The fundamental loneliness goes whenever two can dream a dream together”. É um grave de respeito.

O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.

Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.

Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto teremescutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.

John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.

Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.

Ouça “In a Sentimental Mood”.




Hartman não atingiu a fama de Eckstine. Na fase pós Segunda Guerra Mundial, as orquestras ainda estavam à toda. Johnny começou com Earl Hines e logo depois com Dizzy Gillespie. Início brilhante. O primeiro disco que gravou como líder foi “Songs from the Heart” (1955), pela Bethlehem Records, e lançou apenas mais três LPs antes de “John Coltrane and Johnny Hartman”. O cantor mais famoso, fora Frank Sinatra, era Billy Eckstine. Era considerado o Sinatra negro. Bonitão, sua voz grave, de macho, como se falava antigamente, e carisma atraía milhões de ouvintes e, como não fosse isso suficiente, em suas orquestras tocavam os melhores músicos do jazz.

“John Coltrane and Jonnhy Hartman” foi gravado na mesma época dos dois citados. A escolha de Hartman foi a ideal. Os três álbuns representam o “gentle side” do gigante do saxofone. 

O crítico A.B. Spellman, autor das liner notes do disco original, escreve que a era dos cantores, principalmente os do sexo masculino, perderam o protagonismo com o fim das bandas de bebop. Vários crooners que ficaram conhecidos eram barítonos, com vozes potentes, casos de Hartman, Herb Jeffries, Arthur Prysock e o grande Billy Eckstine.

Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.




Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.

Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.




De todos os posteriores, a obra prima é “Once in Every Life” (1980), pelo selo BeeHive. Quando ninguém mais ligava para ele, nos surpreende com essa pérola. A banda que o acompanha, com exceção do pianista Billy Taylor e do flautista e saxofonista Frank Wess, mais conhecidos, é completada por Joe Wilder no trompete e flugelhorn, Al Gafa na guitarra, Victor Gaskin no contrabaixo e Keith Copeland na bateria.

Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.

Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.

Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.




‘Moonlight in Vermont” fica mais genial na voz de Hartman.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Joni Mitchell, seus amores e a doença

Joni Mitchell quando jovem
Há algumas semanas, mais uma vez, “mataram” Joni Mitchell. Em 31 de março saiu a notícia de que tinha sido encontrada desacordada em sua casa. Em seu twitter oficial, foi publicado que Mitchell encontrava-se na UTI de um hospital de Los Angeles. Não é de hoje que surgem notícias sobre o estado de saúde da cantora.

Joni sofre de uma misteriosa enfermidade conhecida como Síndrome de Morgellons. Discute-se se é uma doença física ou psicológica. Entretanto, pesquisas médicas associam-na ao uso de drogas. Ela cita uma excursão, a Rolling Thunder Revue, em 1975, com Bob Dylan e Joan Baez, em que consumiram muita cocaína. A única a não entrar na onda foi Baez.

Mas os problemas de saúde são bem anteriores e podem ter resultado em outros por consequência. Quando tinha dez anos, teve poliomielite, que a deixou paralisada. Em entrevista ao Daily Mirror, disse que alguns sintomas da pólio voltaram na época em que namorava o baterista e percussionista Don Alias que, muito ciumento, agrediu-a mais de uma vez. Na biografia recém lançada, “Reckless Daughter: A Portrait of Joni Mitchell”, de David Yaffe, conta também que, uma vez, acompanhou Alias a uma jam com Miles Davis. Sendo tão ciumento, não fez nada quando o trompetista pulou em cima dela, estranhamente. A sorte é que ele estava tão chapado de cocaína, que conseguiu escapar. No histórico de violências, teve outro namorado violento: John Guerin, por coincidência, também baterista.

Quando fazia a escola de arte, em Calgary, Canadá, perdeu a virgindade com Brad McMath e engravidou. Muito jovem, entregou a filha para a adoção. Por muito tempo, foi um segredo. Mudou-se para Toronto, decidida a tentar a carreira artística. Conheceu o folk singer Chuck Mitchell e casou-se. Não durou dois anos. Chegou ao fim em 1967. Joan Anderson adotou Joni Mitchell como nome artístico. Assim ficou conhecida uma das mais talentosas compositoras e intérpretes do século passado.

California girl
A garota canadense dos cabelos dourados partidos ao meio, conquistou o coração de David Crosby, que a levou para a Califórnia e tornou-se, nas palavras de seu biógrafo, “uma elegante princesa boêmia”. Lançou seu primeiro álbum. “Song to a Seagull”, produzido pelo namorado Crosby, em 1978. Joni tinha composições gravadas por outros intérpretes, como “Both Sides Now”, por Judy Collins, “Chelsea Mornng”, “Eastern Rain”, “Urge for Going” e “The Circle Game”, mas preferiu apenas temas inéditos em sua estreia no mercado fonográfico.

Nossa casinha
Joni montou a sua casa na Lookout Mountain Road, em Laurey Canyon, bairro de Los Angeles, que, na época, servia de morada de um sem número de músicos: Frank Zappa, Carole King, membros do The Doors, Buffalo Springfield, Byrds e Canned Heat. Em um encontro na sua casa estavam Stephen Stills, David Crosby. Ambos tocavam “You Don’t Have to Cry”, música em que estavam trabalhando. Graham Nash, vocalista dos Hollies, que estava de férias da Inglaterra, era um dos convidados. Tocada várias vezes, Nash deu uma de “entrão” e fez a terceira voz, com sua bela voz de tenor. A combinação foi sublime. Era o que faltava para o que Stills e Crosby pensavam em montar. Assim nasceu a fabulosa Crosby, Stills & Nash, mais tarde acrescida do canadense Neil Young. Enquanto Nash estava se entendendo musical, em outra sintonia, entendia-se com Mitchell.

Em pouco tempo, estava morando na casa de Joni. Em certa ocasião, passeavam e viram um vaso em uma loja de antiguidades que a interessou. Era uma noite chuvosa. “Por que você não põe flores no vaso, que eu acendo a lareira?” Logo que disse isso, surgiu uma ideia. Foi ao piano. “Eu acendo a lareira/ E você coloca as flores no vaso/ Que comprou hoje.” Foram os primeiros versos da doce “Our House”, canção que retratava, de algum modo, a felicidade doméstica. Mas não era essa a felicidade que Joni queria para ela. “Clouds”, o segundo álbum, estava sendo gravado. O casamento acabou quando terminava o ano de 1969.

Amores musicais
Joni ama a música e os músicos. Teve casos com James Taylor e Jackson Browne, Don Alias e John Guerin, citados anteriormente, e Jaco Pastorius. Todos foram parceiros musicais também. Preferia os músicos. Rechaçou investidas de Warren Beatty e Jack Nicholson. Ela conta que conseguiu escapar do assédio deles porque estava com o carro dela.

“Wild Things Run Fast”, de 1982, é o primeiro que gravou pela Geffen Records e o primeiro com o baixista Larry Klein. Nesse mesmo ano casou com ele. O disco, mesmo com a participação de Wayne Shorter em três faixas, representa um afastamento de elementos do jazz, que tinha incorporado desde “Hejira”.

A juventude de Klein – tinha 25 anos e ela 39, quando casaram – deu um novo gás. Houve uma guinada para uma linguagem mais pop. Klein revelou-se ótimo produtor e parceiro musical. Cercou-se de bons músicos, incluindo Wayne Shorter, que nunca deixou de fazer suas participações especiais, o baterista Brian Blade, Vinnie Colaiutta e Greg Leisz.

Sem comparar, era uma nova Joni. Seus discos podem não ser tão importantes quanto os gravados no selo Asylum, mas Joni ainda era capaz de compor música de boa qualidade. O melhor é dentre esses é “Turbulent Indigo” (Reprise Records), com os destaques “Sex Kills” e “The Magdalene Laundries”.

Joni e Larry deviam se amar. O casamento durou doze anos e continuaram amigos após a separação. Mas ele deve ter projetado uma relação mais estável. Queixou-se que ela não mudou no seu estilo de vida: continuou a fumar muito, quase não dormia, consumia em boas quantidades cocaína e capuccinos. Sentia-se cada vez mais irritada e perdida financeiramente. Teve de indenizar em 250 mil dólares a sua empregada, que a acusou de tê-la agredido. No verão de 1985, quase foi atropelada por um adolescente bêbado na Pacific Coast Highway, em Malibu, e quando voltou ao mesmo lugar, semanas depois, quase aconteceu a mesma coisa. Se a vida de Joni continuava turbulenta, para Larry não devia estar sendo fácil. Separou-se e atualmente está com a brasileira Luciana Souza.

É um tanto triste ver Joni com problemas para se movimentar. Pela sua descrição, o mal que a acomete é bem complicado e assustador: “Eu tenho essa doença estranha e incurável que parece vir do espaço sideral. A síndrome de Morgellons é um assassino lento e imprevisível – uma doença terrorista: explodirá um de seus órgãos, deixando você na cama por um ano.”

Bom, chega de papo e vamos ouvir a clássica “Sex Kills”.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O lado obscuro de Kevin Spacey

Depois de o ator Anthony Rapp ter acusado Kevin Spacey de tê-lo molestado quando tinha 14 anos, a coisa foi tomando proporções inesperadas. Se Rapp, hoje com 44 anos, cita um caso de muito tempo atrás e se Spacey continua com a mesma pulsão sexual – diz o lugar comum que se agrava com o tempo – muitas outras denúncias surgirão, com certeza. Segundo o The Guardian, até agora, existem mais de 20 acusações de comportamento inapropriado nos 11 anos em que foi diretor artístico do Old Vic, em Londres. As acusações são de assédio sexual contra jovens em ambientes privados e públicos, como bares. Somando-se às recentes acusações da equipe de filmagem de “House of Cards”, é bem possível que chegue a uma centena. É um assediador em série.

Spacey sempre foi muito reservado em relação à vida privada. Ao longo de sua vida, um pouco como Rock Hudson, arrumou namoradas fictícias, e, por continuar solteiro, passaram a especular que era gay, o que, peremptoriamente, negava. Saiu do armário forçado. E, por isso, recebeu muitas críticas até da comunidade gay. Imagine então o que estão achando os homofóbicos.

É preciso que esses escândalos venham à tona, para que abusos virem assunto entre a plebe anônima, que sofre tanto quanto os célebres. Se acontece entre atores hollywoodianos, imagine no mundo dos atores da vida cotidiana. Quem sabe, esses admoestadores, que estão por toda parte, nos ônibus, metrôs, nos bares e em ambientes privados, sejam também denunciados e punidos.

Mas vamos combinar: não há um exagero no comportamento das pessoas que se revoltam e exercem “linchamentos morais”? Será que aquele que chama o outro de racista não pode ser um tremendo mau caráter, homofóbico ou machista? E, vice versa? O que muitas vezes é externado por alguém representa apenas um desejo de ser ou parecer mais justo do que realmente é. Kevin Spacey deve responder pelo que fez, sim. Mas, pensando bem, será que o que é lido nas redes sociais, onde cada um pode se manifestar como quer, não é algo semelhante àquele que se revolta e mata um ladrão ou um estuprador, achando que está fazendo justiça? É um modo de sentir-se melhor que o outro, de ser o “justo”, como uma forma de camuflar os próprios defeitos. Há um cheiro de hipocrisia no ar.

Além do assédio
Será uma pena que Kevin Spacey fique marcado definitivamente como “aquele que assediou um menino de 14 anos”. Assediador e pedófilo. Mas, como diz minha amiga Celia Melhen, “entre um assédio e outro, ele é um talento”.

Pois, entre um assédio e outro, Spacey teve grandes atuações, principalmente no teatro, que é menos visível, e eventualmente, cantou, e bem. Que eu saiba, no cinema ouvimos, pela primeira vez, Spacey cantando em “Midnight in the Garden of Good and Evil” (1997), dirigido por Clint Eastwood, a clássica “That Old Black Magic”, de Harold Arlen e Johnny Mercer. O cineasta e ator é grande admirador do jazz. Em seus filmes, a trilha, geralmente, é de temas do gênero. Nesta, todas as canções escolhidas são de Johnny Mercer, em várias parcerias. Os soundtracks de seus filmes são sempre primorosos. É assim com “Madison County” (“As Pontes de Madison”, 2011), e “Bird” (1988).

Ouça “That Old Black Magic”.




Spacey alentava fazer um filme sobre o cantor, compositor, instrumentista e ator Bobby Darin. Realmente sua vida dava um filme. Walden Robert Cassotto – esse era o seu nome real – cresceu acreditando que era filho de sua avó. Como outra estrela de Hollywood, Jack Nicholson, na verdade era filho de quem achava que era sua irmã. Naqueles tempos mais conservadores, Nina Casotto, com 17 anos, engravidou de Bobby e, para que não desse na vista, foi criado como se fosse seu irmão.

Desde cedo, revelou enorme talento com a música. Tocava piano, guitarra e bateria. Seu primeiro sucesso foi “Splish Splash”, aquela música que muitos podem achar que era de Roberto Carlos. Vendeu um milhão de cópias. Envolveu-se com a política e trabalhou com o então senador Robert Kennedy. Darin estava no Hotel Ambassador na noite em que Robert foi assassinado. Nesse mesmo ano, 1968, ficou sabendo era filho de sua irmã Nina. Foram dois episódios que o abalaram enormemente.

Um problema sério de saúde obrigou-o a implantar duas válvulas no coração. Parcialmente recuperado, voltou a apresentar-se, mas acabou morrendo em 1973. Tinha apenas 37 anos. Bobby emplacou vários sucessos. Era versátil. Cantou músicas associadas ao jazz, rock, pop, country e folk.

A participação de Spacey vai da direção, roteiro, atuação e também cantando. O filme não foi bem na bilheteria. Mas mostrou que se fosse cantor não se daria mal. O título escolhido para o filme foi“Beyond the Sea”, uma das músicas que tornou Darin conhecido mundialmente.

Vamos começar por “Mack the Knife”, clássico de Kurt Weill.




A música título “Beyond the Sea”.




O meu preferido, “Dream Lover”.




Veja Spacey cantando “Mind Games”, em “Come Together John Lennon Tribute” (2007).




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Joni Mitchell, standards e orquestras

Joni Mitchell, por ela mesma.
Até para fazer o seu disco de standards, Joni Mitchell foi original. A ideia em “Both Sides Now” (Reprise, 2000) foi a de fazer um álbum programático, ou seja, com um conceito. Joni quis traçar “um arco de relacionamentos românticos modernos”, segundo Larry Klein, então marido e produtor. Nas liner notes, ele escreve que “achou que a ideia era inovadora, excitante e especialmente apropriada, considerando que o ponto central de seu trabalho [o de Mitchell] era a investigação sobre a natureza do amor moderno.” Seria uma suite “documentando um relacionamento, desde o flerte inicial até a consumação otimista, transformando-se em desilusão, o desepero irônico, e, finalmente, culminando numa visão filosófica de aceitação e a probabilidade de o ciclo se repetir por si.”

O conceito é ótimo. Como não estou acostumado a prestar muita atenção em letras, não posso afirmar se conseguiram passar o conceito pretendido. Vou relacionar as canções na ordem para que o leitor tire suas conclusões: “You’re My Thrill” (1933), “At Last” (1942), “Comes Love” (1939), “You’ve Changed” (1968), “Answer Me, My Love” (1953), “A Case of You” (1972), “Don’t Go to Strangers” (1954), “Sometimes I’m Happy” (1925), Don’t Worry Bout Me” (1939), “Stormy Weather” (1933), “I Wish I Were in Love Again” (1937), “Both Sides Now” (1967).

A maioria das escolhidas é bem antiga, e dois são composições de sua lavra bem conhecidas do fã de Mitchell: “A Case of You” e “Both Sides Now”. Todas elas foram arranjadas por Vince Mendoza, um dos mestres da orquestração na atualidade. Larry Klein é um dos magos na produção de discos de cantores e cantoras. E sendo Joni Mitchell, Klein foi um parceiro musical ideal.

O destaque é a música título.




Outro número muito bom é “You’ve Changed”, de Carl Fischer e Bill Carey. A orquestração de Mendoza é de tirar o fôlego.




Mais Joni e orquestra
Depois de “Both Sides Now”, Larry e Joni gravaram o duplo “Travelogue”. Saiu em um box luxuoso, com um encarte de 28 páginas, em capa dura, contendo trechos de letras e pinturas de sua autoria, além de outro, as letras das 22 faixas. Ambos são com orquestra e gravados nos mesmos estúdios, o que faz concluir que podem ter sido realizados juntos. Não sei se foi. “Travelogue” foi lançado em novembro de 2002. É um ano importante na vida dela. Foi o fim do casamento de 20 anos com Larry e também porque declarou que este era seu último disco. Mudou de ideia e lançou mais um: “Shine” (2007).

O estranho é este belíssimo álbum não ter ficado nem entre os 100 mais vendidos, na época. Até para um colecionador da canadense, como eu, passou batido. Sem saber nem que tinha sido gravado, meio que sem querer, encontrei-o na Pop Discos, uma lojinha (ótima) que fica em uma galeria da rua Teodoro Sampaio, em São Paulo. Nunca tinha visto em lojas como a Tower, HMV e J&R em minhas viagens a Nova York.

Neste, as composições são todas de Mitchell, fora um caco de “Unchained Melody”, incluído em “Chinese Cafe”. Se Vince Mendoza preferiu arranjos mais discretos em “Both Sides Now”, em “Travelogue” são mais vigorosos, exuberantes e delicados, quando o momento pede. É um primor em canções conhecidas em novo contexto. E os músicos participantes, quase todos são do primeiríssimo time, como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Kenny Wheeler, Billy Preston, Chuck Berghoffer, Larry Klein, craque no baixo elétrico, além de produtor, e Brian Blade.

Ouça a versão matadora de “Sex Kills”, a última grande canção de Joni Mitchell.




Excepcional também é a clássica “Hejira’.




Ouça “Amelia”




“For the Roses”. O sax soprano, advinhe de quem é.




“Woodstock”

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Messiaen e a adversidade

Cristo e os pássaros, as guias de Messiaen
Quem nasceu a partir depois de meados do século 19 e início do seguinte viveu duas grandes guerras. É um dado e tanto aos que sobreviveram, principalmente para os que estavam nos palcos dos conflitos.

Pierre Messiaen foi um deles. Professor e tradutor de William Shakespeare, mesmo assim, foi convocado na 1ª Guerra Mundial. Tinha dois filhos e era casado com a poeta Cécile Sauvage. Um deles, Olivier Messiaen, se tornaria um dos compositores mais importantes do século 20.

Com sete anos, Olivier aprendeu a tocar piano sozinho. Com onze, entrou no Conservatório de Paris e, além de instrumentista, passou a compor.

Olivier não tinha a esta muito boa, mas assim mesmo foi convocado na 2ª Guerra Mundial, mas trabalhando como auxiliar em um hospital. Foi capturado pelos alemães, em maio de 1940, ficando prisioneiro em um campo perto de Nancy. Na mesma situação, encontravam-se o clarinetista Henri Akoka e o violoncelista Étienne Pasquier. Na breve estada, Messiaen compôs uma peça solo para Akoka.

Antes do início da Guerra, Messiaen já tinha um bom número de obras compostas, como os “Prelúdios” para piano (1928-1929), várias para órgão — “Le banquet céleste” (1926), “Diptyque” (1930) e “Apparition de église èternelle” (1932) — e “Les offrandes oubliées” (1930) para orquestra.

No fim de junho, foram transferidos para Stalag VIII-A, a 110 quilômetros de Dresden. Um dos guardas, Carl-Albert Brüll, apaixonado por música e fluente em francês, auxiliou Messiaen. Arrumaram um piano de armário, o que foi de grande auxílio para que continuasse a compor, embora desafinado. Aos dois músicos que foram transferidos, juntou-se o violinista Jean Le Boulaire. Assim nasceu “Quatuor pour la fin des Temps”, feita para ser tocada pelos músicos disponíveis no campo. Em condições adversas, Messiaen não deixou de compor.

Há um elemento simbólico bem forte de ter sido composto durante a Guerra, e mais ainda em um campo de prisioneiros, e o título ser “Quarteto pelo Fim dos Tempos”. Na verdade, alguns movimentos tinham sido concebidos anteriormente. A peça foi concluída em Stalag VIII A. “Louange à l’Éternité de Jésus” (Prece para a eternidade de Jesus”), o quinto movimento, é de “Fête des belles aux” (1937). A segunda “prece” – “Louange à l’Immortalité de Jésus” –, movimento final, é um retrabalho baseado em “Diptyque” (1930). O solo composto para a clarineta de Henri Akoka, em Nancy, passou a fazer parte do terceiro movimento: “Abîme des oiseaux”.

Ao vivo em Stalag VIII A
A première do “Quarteto” aconteceu em 15 de janeiro de 1941, às 18 horas, em Hut 27B, feito um teatro improvisado. Messiaen disse em uma entrevista que cerca de 5 mil pessoas, de diversas classes, ouviram o “Quarteto” em total silêncio. Empolgação do compositor.

É o tipo de coisa que fica no mito, na lenda. Impossível 5 mil. Étienne Pasquier, o violoncelista, relata que todos assentos estavam ocupados, cerca de 400. Muitos estavam ouvindo música de câmera pela primeira vez. Era uma noite fria e os telhados estavam cobertos de neve. Étienne faz outra retificação: o seu violoncelo estava com as quatro cordas, e não três, como relatou Messiaen. “Quatuor” era uma obra revolucionária. Obviamente, alguns dos espectadores ficaram irritados.

No mesmo ano, Messiaen foi solto e apresentou a peça, pela primeira vez, em Paris, em 24 de junho, no Théâtre des Mathurins. Antes, houve uma introdução falada. O compositor Arthur Honneger, com certo sarcasmo, afirmou em uma crítica em Comoedia que “algumas pessoas, talvez, tenham encontrado um pouco de literatura demais na música.”

Ser católico (fervoroso) e vanguarda ao mesmo tempo é um tanto contraditório, não? São duas substâncias que não se misturam, aparentemente. Mas Messiaen tinha duas paixões: Cristo e o canto dos pássaros. O “Quatuor” era uma peça programática e o texto explicativo era parte essencial.

A peça pode ser ouvida sem o texto, sem dúvida. É impactante, revolucionária e emblemática, considerando-se a época em que foi composta. As marcações de tempo coincidem com os sentimentos que o compositor imprime: infinitamente lento, estático (“Louange à l’Éternité de Jésus”), extremamente lento e terno, estático (“Louange à l’Immortalité de Jésus”), decidido, vigoroso, granítico, um pouco vivo (“Danse de la fureur, pour les sept trompettes”) e, por aí vai.

A parte do texto é também muito interessante, poético e religioso. É um complemento que merece ser conhecido. Está um tanto longo para ser lido em uma tela de computador ou celular, mas, paciência.

• “Liturgy de cristal”: Entre três e quatro da manhã, o coro da aurora: um pássaro preto e uma andorinha improvisam um solo, rodeados por sons esparsos… transponha isso para um plano religioso e você tem o silêncio harmonioso do céu.

• “Abîme des oiseaux”: O abismo, que é o Tempo, na sua tristeza e cansaço. Os pássaros são o oposto do Tempo: representam nosso desejo pela luz, pelas estrelas, por arco-íris e vocalises radiosos.

O “fim dos tempos” não é o fim da humanidade. Na visão religiosa, ou de Messiaen, significa a supressão do tempo, e não uma visão apocalíptica. No sétimo movimento – “Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps” – percebe-se o que o compositor busca exprimir: O anjo aparece com toda força… Em meus sonhos, ouço e vejo acordes ordenados e melodias, cores e formas familiares; então me transporto para a irrealidade e sofrimento, com êxtase, um redemoinho de sons e cores sobre-humanos.

Melhores gravações
Apesar de ser um quarteto, não segue a formação tradicional de violinos, viola e violoncelo. Por essa razão, as gravações existentes são de músicos reunidos para tocar “Quatuor pour la fin de Temps” exclusivamente. O primeiro registro que ouvi é o meu preferido – é quase sempre assim, não?, a primeira impressão – é de Hans Deinzer (clarineta), Aloys Kontarsky (piano), Saschko Gawriloff (violino) e Siegfried Palm (cello), da Deutsche Harmonia Mundi (1978). Acho que não existe em CD.

Em 1979, pela Deutsche Grammophon, saiu o “Quarteto”, com Claude Desurmont, Daniel Barenboim, Luben Yordanoff e Albert Tétard (mantenho a ordem dos instrumentos aqui e nos próximos). Essa é versão que menos gosto. Por que? Não sei. Questão de gosto.

Outra é com Wolfgang Meyer, Yvonne Loriod, Christoph Poppen e Manuel Fischer-Dieskau, lançado pela EMI, em 1991. O destaque aqui é Loriod, segunda mulher de Messiaen, que deve ter passado boas orientações.

Em 2000, pela Deutsche Grammophon, os instrumentistas são Paul Meyer, Myung-Whun Chung, Gil Shaham e Jian Wang. Não gosto.

Acaba de ser lançada, pela Sony, e é essa a razão de estar a escrever sobre esse quarteto, é com Martin Fröst, Lucas Debargue, Janine Jansen e Torleif Thedéen. Ouvi umas três vezes e torna-se a minha primeira opção, já que a de 1978 ficou apenas na minha lembrança como a melhor e nem posso comparar. Nem sei por onde anda esse LP.

No YouTube tem várias gravações na íntegra. Por ser uma peça que foge à formação costumeira de um quarteto, há uma profusão de virtuoses em seus instrumentos reunidos, o que o torna mais interessantes. Disponibilizo duas dessas.

Veja esta, com Patrick Messina, Nicolas Stavi, Daniel Hope e Tatjana Vassilijeva.




Nesta, músicos do primeiro time: Sabine Meyer, na clarineta, e Sol Gabetta, no violoncelo, são as mais conhecidas. Os outros são Bertrand Chamayou, ao piano, e Antje Weithaas no violino.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A classe insuperável de Roberta Gambarini

Mesmo não lançando discos com frequência maior, Roberta Gambarini está sempre entre as melhores nos “polls” da crítica. Isso tem uma explicação: há algo de atemporal no seu cantar. A italiana imprime uma elegância em suas interpretações como ninguém. Além dela, talvez, Stacey Kent e Diana Krall.

Autodidata, conviveu desde criança com o jazz — seu pai tocava saxofone tenor — e aprendeu sozinha a tocar piano. Tinha 17 anos e, decidida em ser cantora, procurou seu espaço em Milão, considerado o centro do jazz italiano. Passava os dias à base de arroz, batatas e queijo. Nos fins de semana, voltava a Turim, cidade onde nascera e moravam seus pais.

Mudou-se para os Estados Unidos, aproveitando a oportunidade ao ser convidada a cursar na New England Conservatory of Music, em Boston. As dificuldades eram as mesmas ou até piores. Morando em um pequeno quarto em Roxbury, ficava imaginando uma forma de sair da penúria. Poderia ser uma “singing waitress” em algum restaurante italiano, quem sabe. Surgiu a oportunidade de participar do Monk Competition, edição 1988. Ficou em terceiro lugar e um dinheiro para sobreviver por mais três meses. Em primeiro, ficou Teri Thornton, e em segundo, Jane Monheit. Para alguns, não foi justo.

Teri cantava desde 1950, quando iniciou a carreira em clubes de Detroit e depois mudou para Nova York e tinha gravado uns poucos discos no início dos anos 1960, sem nunca chegar ter atingido grande notoriedade. Era uma veterana. Não fazia o perfil das competidoras do Thelonious Monk Institute Vocal Competition, quase sempre de intérpretes iniciantes. Ao ficar em primeiro, gravou “I’ll Be Easy to Find”, pela Verve. Ficou nisso. Morreu no ano seguinte. Ficou a impressão de que ganhara por conta da idade, 54 anos. Jane, a segunda colocada, era a “it girl du jour”. Roberta era uma estrangeira de quem nunca tinham ouvido falar. Por isso, muitos consideraram o resultado injusto. De qualquer maneira, chamou a atenção ao ponto de logo mais ser chamada por músicos como Jimmy Heath, Harold Land, Billy Higgins, James Moody e Benny Carter.

Cult singer
Depois do terceiro lugar, Gambarini foi convidada para cantar em Nova York. Teve boa ajuda de James Moody e Benny Carter, que organizou sua primeira apresentação em Los Angeles. Excursionou com a Dizzy Gillespie All Star Big Band e com o pianista Hank Jones.

Em 2006, seu primeiro álbum, pela Groovin’ High. “Easy to Love”, basicamente de standards, contou com o piano de Tamir Hendelman e Gerald Clayton, Chuck Berghofer e John Clayton no baixo, Willie Jones III e Joe LaBarbera na bateria e participação especial de James Moody, no sax e vocais. Foi reconhecida com a nominação do Grammy como melhor álbum de jazz vocal do ano.

Nem parecia um disco de estreia de tão bom. Roberta dominava a arte de intérprete como poucas. É absoluta nos tempos do jazz. Veja-a cantando “Lover Come Back to Me”, que está em seu primeiro disco, em uma apresentação tributo a Ella Fitzgerald.




Veja Gambarini em “Porgy, You Is My Woman Now”, com a Latvian Radio Big Band.




Oficialmente, o segundo álbum de Gambarini é “You Are There”, duo com Hank Jones, um dos melhores acompanhadores de cantores e cantoras, o que é uma arte. Gravado em 27 de setembro de 2005, foi lançado em 2007. Tem a qualidade do seu disco de estreia. É composto de standards conhecidos, como “Just Squeeze Me”, “Stardust”, “Come Sunday” e “Lush Life”, e menos populares, como “People Time” (Benny Carter), “Reminiscing” (Gigi Gryce, Jon Hendricks) e “You Are There” (Dave Frishberg, Johnny Mandel).

Ouça “Stardust”.




“So in Love” (2009) foi gravado em junho e outubro de 2008, mas contém duas faixas que são de 2001. Os músicos são quase os mesmos do primeiro, como Eric Gunnison, Tamir Hendelman e Gerald Clayton (este, apenas em “Estate”). É muito bom, mas nem tanto quanto os dois primeiros. Vale ressaltar que tanto neste como no primeiro, apesar de não ter passado por um aprendizado formal em música, com exceção do pouco tempo em que ficou na New England Conservatory of Music, os arranjos são dela. Outra coisa a ressaltar é sua pronúncia perfeita em inglês. Em uma entrevista para a All About Jazz, de 2006, Judith Schlesinger se refere ao seu bom vocabulário e pronúncia perfeita, e ela respondeu que sempre leu muito e chegou a trabalhar para um publisher de Nova York. Além de James Moody, tem a participação de Roy Hargrove. Ela e o trompetista mantêm uma bela parceria. Apresentaram-se mais de uma vez no Brasil. Tive a oportunidade de vê-los no Bourbon Street Bar, em São Paulo. Impressionante o magnetismo dela.

Ouça a música título.




A única que foge um pouco do padrão é o medley “Golden Slumbers / Here, There and Everywhere”, de John Lennon e Paul McCartney. Ouça.



Assista ao vídeo de “Estate”, em brilhante duo com o também italiano Enrico Rava. Quando criança, gostava de imitar o som do trompete (aqui, assemelha-se mais ao som de um trombone) com a boca e improvisar scats, influenciada pela audição dos discos que Ella Fitzgerald e Louis Armstrong juntos.



É um tanto inexplicável a discografia irregular de Roberta Gambarini em termos de constância. Depois desses três, em 2013 saiu “The Shadow of Your Smile – Homage to Japan”, que, se não me engano, não chegou a sair nem nos Estados Unidos nem na Europa. Quem quiser adquiri-lo, vai ter de desembolsar 31 dólares, porque é importado do Japão. Até nas plataformas digitais há poucas opções. De graça, via torrent, nem existe. É inexplicável porque é ótimo. O pianista da vez é George Cables, outro grande nome no instrumento. Há interpretações maravilhosas de “Poor Butterfly”, “Close to You”, “Embraceable You”, “I Remember Clifford”, “Moanin”, “My One and Only Love” e outras do cancioneiro americano.

Ouça “Poor Butterfly”. Começa a capella. Estupenda. Quando entra o piano, é demais. Cables arrasa ao piano.



“Embraceable You” é outro destaque. O saxofone alto é de Justin Robinson.



“Moanin” é um dos clássicos do jazz. Benny Golson, no dia que a compôs, estava muito inspirado.



Dê uma busca por “Roberta Gambarini The Shadow of Your Smile homage to Japan” no YouTube, que tem o álbum inteiro.


O mais recente
Saiu em 2015 o último de Gambarini. Chama-se “Connecting Spirit – RG Sings Jimmy Heath Songbook”. A opção mais barata de compra – “de grátis”, impossível – é pelo Google Play Store: 21 reais. Na loja iTunes Store é mais cara. O chato de comprar pela internet, mesmo em sites oficiais, é a ausência de um booklet do disco, na maioria das vezes. Jimmy Heath ainda toca seu saxofone, mesmo prestes a fazer 90 anos. Foi homenageado agora, em 21 de outubro, no Jazz at The Lincoln Center.

“Connecting…” não é um disco para todos. Acho que atinge um público mais ligado ao jazz. Jimmy é de uma família de músicos, como a do pianista Hank Jones, que tocou bastante com Gambarini. Os irmãos de Hank são bem conhecidos – Elvin, baterista do quarteto de John Coltrane, e Thad, do Thad Jones-Mel Lewis Big Band –, e Jimmy é irmão de Percy Heath, do Modern Jazz Quartet, e o baterista Albert “Tootie” Heath, na ativa até hoje.

As referências de Jimmy Heath para as suas composições têm uma ligação com o mundo do jazz. Exemplos: “The Voice of the Saxophone”, “Frank Foster” e “Ellington Stray Horn”.

Ouça esta última. O título, por si, é sugestivo: separa o nome do grande parceiro de Duke Ellington em dois.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Virginie Teychené, a francesa com ginga brasileira

Alguns segundos são suficientes para que sua voz mude o seu humor: uma sensação de júbilo e você nem percebe por que. A voz de Virginie Teychiné é cristalina como a água que sai de um veio na rocha. E você a conhece? Você não é o único. Em uma busca pela internet se descobrirá que é como um metal raro a ser descoberto. Poucas referências. Inexplicável. Pelo menos para mim, é. Virginie em todos os predicados de uma boa intérprete do jazz, além de bela. É boa nos scats, afinadíssima, voz agradável. Apesar de francesa, vira-se bem cantando em inglês e em português. Sua habilidade em modular bem os tempos quebrados do jazz faz dela uma intérprete ideal para o gênero.

Uma das poucas formas de se saber um pouco mais dela é acessando sua página oficial (http://www.virginieteychene.com/index.html). Fico sabendo que cursou Literatura e Direito, antes de seguir a carreira de cantora. Seu primeiro álbum é “Portraits” (Altrisuoni 2007). Em 2008, na International Vocal Jazz Competition, em Juan les Pins, onde tradicionalmente acontece um festival, ganhou o “Prix du Juri” e “Prix du Public”, ao mesmo tempo.

O crítico Xavier Prévost, a propósito de seu álbum de estreia, escreveu que “essa jovem cantora mostra uma notável maturidade, dominando o idioma do jazz com uma expressividade muito profunda. Nestes tempos insípidos, sua originalidade aquece os corações, as almas e o espírito.”

Um dos destaques de seu disco de estreia é “Zingaro”. Veja Teychiné cantando esse clássico de Tom Jobim.



Depois de “Portrait”, lançou “I Feel So Good” (Altrisuoni 2009). “Double Rainbow” é um relançamento com os dois em um único CD, pela Jazz Village, selo de jazz da Harmonia Mundi.

“Bright and Sweet” (2012) é seu melhor disco, e é onde explora os scats, temas em uptempo e encanta com brilhantes interpretações de standards, como “Don’t Explain” e “Goodbye Pork Pie Hat”, além de clássicos contemporâneos como “Dry Cleaner from Des Moines”, de Joni Mitchell, e de quebra, “Para Que Discutir com Madame” e “Por Toda Minha Vida”, cantadas em impecável português.

Ouça “Por Toda Minha Vida”.



Teychiné canta “Rat Race” em apresentação no Jazz in Marsiac. Manda bem nos tempos rápidos.



Outra ótima é “Dry Cleaner from Des Moines”, de Joni Mitchell.



Uma das melhores é “Angel Face”.



“Encore”, de 2015, é seu mais recente. Bom CD. Como sempre, inclui temas brasileiros, como “Eu Sei Que Vou Te Amar” e “Doralice”.

Ouça esta última.



Bom, como ela é francesa, é preciso uma cantando em sua língua original. Veja o clipe oficial de “C'était bien”, de Gaby Verlor, conhecida na voz de Juliette Greco.



E, outra em francês: “Septembre” a última do disco. Na abertura, Olivier Ker Ourio toca um trechinho de “The Man I Love”.



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Azul é apenas uma cor ou um sentimento?

Dave Lambert, Jon Hendricks e Annie Ross
Num filme visto em uma das Mostras de Cinema organizadas por Leon Cakoff, Isabella Rossellini é uma baronesa, dona de uma fábrica de cerveja em Winnipeg, Canadá. Passa na época da crise econômica de 1929, a Lei Seca em vigor. Pensando na prescrição da Lei, resolve montar uma competição mundial para promover sua fábrica. Nome do concurso: “The Saddest Music in the World”.

O filme é de 2003, mas não lembro do ano em que assisti. Sei que seu diretor, Guy Maddin, era um dos homenageados e foram exibidos vários de seus trabalhos na ocasião. A “originalidade” do canadense era a de realizar filmes em branco e preto, como se fossem dos primórdios do cinema: movimentos truncados, falta de sincronismo, dizeres explicativos entre as cenas etc.

Não exatamente por ser diferente que fui ver. Foi pelo título, por Isabella Rossellini e a portuguesa Maria Medeiros. Agora, na breve pesquisa que fiz, descubro que foi baseado num argumento de Kazuo Ishiguro, escritor que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Uma curiosidade: o nipo-britânico é expert em jazz – escreveu em revistas e jornais sobre o assunto, inclusive sobre Billie Holiday, que é citada mais abaixo – e é parceiro de Jim Tomlinson em algumas músicas cantadas por Stacey Kent.

Domingo lúgubre
Bem antes de assistir ao filme, ouvi uma história contada pelo Zeca Leal, cerca de trinta anos mais velho que eu, conhecedor profundo de jazz, enquanto gravávamos em fita cassete um disco de Mel Tormé, seu cantor preferido depois de Frank Sinatra.

Quando tocava “Gloomy Sunday”, o Zeca contou-me que quando a música foi lançada, houve uma onda de suicídios. É realmente uma canção que seria finalista no concurso inventado pela baronesa no filme, se fosse uma das candidatos. Coincidência ou não, o concurso acontece em 1933, mesmo ano em que “Gloomy Sunday” foi composta por Rezsõ Seress. Guy Maddin devia saber da história de “Szomóru Vasárnap” – é o título original.

Os versos do húngaro se referem a alguém que pensa em suicídio depois da morte da amada, num domingo. Pensando bem, é o pior dia da semana, mesmo agora. Pensa: depois de um daqueles almoços fartos, meio bêbado, você dá uma descansada, acorda com aquele mau humor e, daqui a pouco vai pedir uma pizza delivery esperando o início do “Fantástico”. Não tem poesia num domingo desses, portanto, vamos voltar com a história de Seress.

Composta em 1933, foi lançada só em 1935, cantada por Pál Kálmar. A primeira versão em inglês é de 1936, cantada por Paul Robeson. Existe mais de uma versão em inglês. A consagrada é de Sam M. Lewis. A gravação mais conhecida é a de Billie Holiday, que saiu em 1941. A de Mel Tormé, que imaginava ser anterior à de Billie, é posterior.

Ouça, com Billie Holiday.




A minha segunda eleita é a de Mel Tormé, de vez em quando, a primeira, lançada em 1958. Ouça.




Tardes tristes
No espectro, o azul é considerado uma cor fria. Em inglês, pode significar melancolia, tristeza ou sentimento de depressão.

Uma canção, bem menos popular, e até onde sei, não provocou nenhum suicídio, é “Blue”, composta pelo pianista Gildo Mahones, com letra de Jon Hendricks, um dos cantores mais célebres da história do jazz. Além de compositor, Hendricks ficou conhecido mesmo por incorporar letras em temas do bop, coisa difícil devido à complexidade rítmica e que, na maioria dos casos, interessantes são as improvisações. Colocou letras em músicas de Horace Silver, Dizzy Gillespie, John Coltrane, Benny Golson, Clifford Brown, Randy Weston e outros. Por isso foi chamado de “poet laureate of jazz”, pelo crítico Leonard Feather, e o “James Joyce of jive”, pela revista Time. É um caso para ser estudado pela medicina: apresentou-se até 2015. Agora, em 2017, ainda criou letras para as músicas de “Miles Ahead”, de Miles Davis com Gil Evans. 

Além da carreira solo, está na história por ser um dos melhores conjuntos vocais de todos os tempos, o Lambert, Hendricks & Ross, completados por Dave Lambert e a bela Annie Ross. Ela ficou de 1957 a 1962 no trio. Foi substituída depois por Yolande Bavan. Annie, além da carreira solo, trabalhou como atriz (uma das atuações foi em “Shortcuts”, de Robert Altman), Lambert morreu em um acidente de carro, em 1966, e Hendricks seguiu em carreira solo.

O autor do tema de “Blue”, Gildo Mahones era o pianista do trio comandado pelo baixista Ike Isaacs, que acompanhou o LH&R nos álbuns lançados pela Columbia. É parte de “High Flying”, gravado em 1961.

“Blue”, na minha opinião é mais triste que “Gloomy Sunday”. Assim como os domingos são maçantes, os fins de tarde tendem a ser melancólicos. A razão de muitos terem tirado suas vidas num domingo por causa da música envolvem fatos ou sentimentos em sincronicidade, talvez uma tristeza sem fim, bem quando a música toca no rádio.

Quanto a mim, sinto uma certa melancolia ao entardecer. Acho que essa percepção ficou mais aguda quando, ao voltar para a casa, em meio a um trânsito infernal, ouvi “Blue” e, pela primeira vez, prestei atenção na letra. Mais ou menos assim: “Cada tarde, na hora em que o dia cai, cada tarde, quando a hora da noite é noite, vem um sentimento, um sentimento de solidão. Me encontra mesmo aonde não estou; me lembra que não existe ninguém mais triste que eu, que sentimento, esse sentimento de solidão.” E termina com esses versos: “Toda manhã tento saudar o dia com um sorriso/ Quando chega a tarde/ Depois de ficar um momento sozinho/ Me vem um sentimento / Que sentimento de solidão/ I’m blue/ I’m blue/ I’m Blue.”

A letra de “Blue” ficou marcada indelevelmente em mim. Agora, em qualquer hora em que ouço, seja dia, tarde ou noite, sinto um aperto no peito, e penso: “I’m blue”.

Ouça a música, com Lambert, Hendricks & Ross. A única outra gravação de “Blue” que conheço é a de Annie Ross, depois de ter saído do trio.









quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A intimidade de Barbara Casini, Phil Woods e Stefano Bollani com a música brasileira

A música brasileira não era estranha a Phil Woods, um dos melhores saxofonistas alto de todos os tempos, depois de Charlie Parker, naturalmente. Cansou de ser considerado o primeiro por revistas especializadas em jazz. É de 1975 “Floresta Canto”, LP em que toca “Canto de Ossanha” e “O Morro”, de Baden Powell e Tom Jobim, respectivamente. Em 1996, resolveu fazer outro álbum parcialmente dedicado à nossa música. Em “Astor e Elis”, algumas canções que se tornaram conhecidas na voz da cantora apelidada de Pimentinha, por Vinícius de Moraes: “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Cais” e “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento, e “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque.

Do pianista Stefano Bollani então, nem se fala. Tem vários álbuns com temas brasileiros. Canta, inclusive, com enorme graça “Trem das Onze” e não fica no repertório batido da bossa nova. Canta coisas que só alguém especialista em música brasileira: “A Voz do Morro”, “Ao Romper da Aurora”, “Luz Negra”, “Folhas Secas”, “Apanhei-te Cavaquinho” e “Ao Romper da Aurora”. Lançou pelo selo japonês Venus Records “Falando de Amor” (2003), dedicado mais a temas da bossa nova. Em 2013, pela ECM, gravou “O Que Será”, em duo com Hamilton de Holanda.

Bárbara
Se esses dois são familiarizados com a nossa música, nem se fala então de Barbara Casini. A cantora nasceu em Florença, mas podia muito bem ter nascido no Rio de Janeiro. É expert em Brasil e tem até sotaque de carioca.

Quando tinha quinze anos, viveu o seu primeiro e definitivo amor. Caiu-lhe nas mãos um LP de Bossa Nova. Terminou o curso de psicologia, mas passou a pesquisar tudo sobre a arte que vinha do outro lado do oceano. Não foi apenas pela música, mas pela literatura e o aprendizado da língua.

Conheceu Brasil em 1982, ano da morte de Elis Regina, por quem tinha admiração. Tempos depois lançaria um álbum com o título “Furacão Elis”. Voltou com a mala cheia de discos. Na outra vez que veio, fez uma longa viagem do nordeste ao sudeste e conheceu a música de Luiz Gonzaga, Xangai e Geraldo Azevedo. Quando voltou à Itália, montou a banda Outro Lado.

Casini tem cerca de vinte álbuns, e neles é acompanhada por músicos italianos do primeiro time, como Stefano Bollani, Renato Sellani, Enrico Rava, Fabrizio Bosso, além de Toninho Horta, Guinga, Lee Konitz e Phil Woods. Uma parcela significativa deles está relacionada ao Brasil: “Todo o Amor” (1997), com composições próprias, incluindo uma parceria com Novelli, e um original de Chico Buarque, “Você e Eu” (2001), “Uragano Elis” (2004), “Outra Vez” (2002), com o mestre Lee Konitz, “Anos Dourados – para Tom Jobim” (2003), e “Luiza” (2004), “Uma Mulher” (2015), com composições próprias, Danilo Caymmi, João Nogueira e Ivan Lins, e, o mais recente “Terras” (2016), que aborda temas do repertório da música nordestina, Edu Lobo, Djavan, Roberto Mendes e Dori Caymmi.

‘Luiza”, do álbum do mesmo nome, é uma das grandes interpretações de Casini. Preste atenção no piano de Riccardo Arrighini.





Além da música, dedica-se a traduzir canções e literatura brasileira. Verteu “Vidas Secas” de Graciliano Ramos para o italiano. É também autor de “All Is Music”, livro com suas conversas com Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros.

Trio perfeito
“Você e Eu” é de 2001. Phil Woods era um veterano. Tinha 70 à época. Mesmo com enfisema pulmonar, tocou até pouco antes de morrer, no fim de setembro de 2015. Em escala decrescente, vem Barbara, nascida em 1954, e Stefano Bollani, pianista ótimo e versátil.

Um trio como esse é dos sonhos. Quem não teria gostado de ter Phil Woods na banda. É um dos maiores da história no instrumento identificado indelevelmente ao genial Charlie Parker. Uma curiosidade: Phil casou-se com Chan, viúva de Parker.

As dez canções do disco são todas do cancioneiro brasileiro. São todas da década de 1970 para trás. Acho que a mais nova é “Cai Dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. É a mais uptempo do disco. Três são de Antônio Carlos Jobim – “Fotografia”, “Por Causa de Você”, parceria de Dolores Duran, e “Estrada Branca”, com Vinícius de Moraes –, duas de Carlos Lyra – “Maria Ninguém” e Você e Eu” –, uma de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida – “Pra Que Discutir com Madame”, uma de Caetano Veloso – “Avarandado” –, e duas de Ary Barroso – “Pra Machucar Meu Coração” e “Na Baixa do Sapateiro” –, as minhas preferidas.

Ouça “Pra Machucar Meu Coração”.




Ouça também “Fotografia”, faixa que abre o disco. Se quisermos uma referência, acho que a voz de Barbara Casini tem alguma semelhança com a de Joyce Moreno.




Ouça “Estrada Branca”.




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

World Saxophone Quartet foi pura inovação

Na adolescência, tinha amigos mais e menos caretas (essa é uma expressão demodé, mas quem não a conhece desconfia o que pode significar). Transigir faz parte do crescimento das pessoas, principalmente nesse período. É uma maneira de conhecer o novo. Por isso, pelo menos nos anos 1960/70, experimentar drogas leves como a maconha era considerado perigo supremo, assim como as moças não serem mais virgens. Era a forma de você ir contra o sistema.

Bom, não sei se tem a ver ou não, mas a minha turma não estava a fim de ficar a ouvir Chico Buarque ou MPB4. Queriam ouvir Emerson, Lake & Palmer, Rolling Stones, Led Zeppelin, King Crimson e outros mais. Até os Beatles eram um tanto certinhos para alguns. Ainda bem que as pessoas mudam e reavaliam suas opiniões. Pelo menos, aquele que não gosta de Chico pode ter argumentos mais racionais além do “não gosto e pronto”.

Por algum acidente e uma curiosidade enorme, meus interesses musicais se expandiram para o jazz, inicialmente por algumas bandas de membros oriundos dos anos elétricos de Miles Davis, como Weather Report, liderado por Joe Zawinul, Wayne Shorter e Miroslav Vitous, Return to Forever, liderado por Chico Corea, e, saindo desse espectro, a inglesa Soft Machine. Melhor: era o que via como jazz.

Com o tempo, parecido ao que aconteceu quando tinha 13 ou 14 anos, por curiosidade também e por ler bastante sobre o assunto – passei a assinar a revista Downbeat –, comecei a procurar conhecer o que era considerado “mainstream” e, portanto, careta e antiquado: Duke Ellington, Count Basie, Art Tatum e outros. Aliás, quando estava nos primeiros ano da faculdade, saíra uma leva de álbuns de Tatum. Gostei tanto que amigos que vinham em casa, eram obrigados a ouví-los. Um dos discos era do pianista com Ben Webster. Até hoje é um dos meus “desert island records”.

Apaixonei-me pelo saxofone tenor. Eram meus ídolos Ben, Coleman Hawkins, Lester Young, John Coltrane e, depois, Dexter Gordon. 

O quarteto original
Um quarteto de ases
Uma amiga, depois de um casamento frustrado, que não deve ter durado um ano, foi passar uma temporada na Califórnia. Voltou com vários discos na bagagem. Um deles era “Low Class Conspiracy”, de David Murray. Outro era “Steppin’ with The World Saxophone Quartet”. Peguei emprestado, aliás, todos os LPs, e gravei-os em fitas cassete, a mídia regravável mais comum à época.

A partir de então, outro saxofonista entrou na minha lista. Era um jovem de 21 anos quando gravou “Low Class Conspiracy”. Tinha a ferocidade de Albert Ayler, saxofonista avant garde morto seis anos antes deste álbum, aparentemente por suicídio, mas com um som menos áspero e mais palatável. Murray, com Fred Hopkins e Steve Wilson, os que tocaram com ele no disco, eram parte da linha evolutiva que teve Ayler como um de seus expoentes. Minha amiga não tinha gostado dele. Tentei fazer com que ela o vendesse para mim. Mas, não gostava de se desfazer das coisas, mesmo que não gostasse. “Low Class” apresentou-me outro veio a ser explorado. Assim, interessei-me por Anthony Braxton, Art Ensemble of Chicago, Air, belíssimo trio formado por Henry Threadgill, Steve McCall e Hopkins, o mesmo que tocou com Murray, e outros, membros da célebre AACM – Association for the Advanced of Creative Musicians.

“Steppin’” era tão inusitado quanto o segundo álbum de Murray como líder. Formado por ele, no saxofone tenor e clarineta baixo, Julius Hemphill, no sax alto, soprano e flauta, Oliver Lake no alto e soprano, e Hamiet Bluiett na clarineta alto e sax barítono, o World Saxophone Quartet fazia um jazz avant-garde sem a chatice de algumas outras formações e, além de tudo, tinham humor. Ao longo do tempo, a formação mudou e hoje é menos interessante. 

Ouça “P.O. Cairo”, do primeiro álbum da banda.



Óbvio que chega uma hora em que a fórmula se esgota e cansa até seus membros. Além da troca de alguns, por morte, inclusive, caso de Julius Hemphill, falecido em 1995, em alguns álbuns houve o acréscimo de outros músicos, como Jack DeJohnette e percussionistas africanos, em “Selim Sivad” (1998), tributo a Miles Davis, ou em “Breath of Life” (2006), em que contam com Fontella Bass nos vocais, Donald Smith ao piano, Amina Claudine Myers no órgão e piano, além de baixistas e bateristas, o que, na minha opinião, faz perder um pouco a graça de o ritmo das composições ser marcado pelos contrastes entre os registros da cada instrumento de sopro.

Ao longo do tempo, alguns outros saxofonistas fizeram parte da banda, como Arthur Blythe, Eric Person, James Carter e James Spaulding. Os melhores álbuns são os que foram lançados pelo selo italiano Black Saint. Posteriormente, foram para a Elektra Nonesuch. São bons ainda, dentre os quais, destacam-se “WSQ Plays Duke Ellington”, “Selim Sivad”, e “Rhythm and Blues”. Passaram para a canadense Justin Time, e “Yes We Can”, de 2010, pela Jazzwerkstatt, slogan da campanha do ex-presidente Barack Obama.

Ouça o clássico “In a Sentimental Mood”, de WSQ Plays Duke Ellington, de 1986.



Duke Ellington é um dos gênios do jazz. Deixou muitos belos temas. Ouça “Come Sunday”.



Outro bom álbum é “Rhythm and Blues”, com clássicos da música negra, como “Night Train”, Let’s Get It On”, “(Sittin’ in the) Dock of the Bay” e “Try a Little Tenderness”.



Gravaram também “Experience” (Justin Time 2004), tributo a Jim Hendrix. É menos interessante, mas vale ouvir e ver a banda tocando “Foxy Lady”. Nesse disco, contam também com Billy Bang no violino, Matthew Garrison no baixo, Craig Harris no trombone e Gene Lake na bateria. No lugar de Julius Hemphill, toca Bruce Williams.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Lizz Wright em estado de graça

A graça de Lizz Wright
Ao contrário de Dee Dee Bridgewater, comentado (leia o post anterior), ao dizer que ser uma “jazz singer” era algo com que sempre sonhara, Lizz Wright, em entrevista à Downbeat (jan, 2017), disse que não se sente confortável em ser classificada como uma cantora de jazz. Afirma que suas influências vêm da música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues, folk, o gospel e o pop contemporâneo.

Curiosamente, Wright afirma que “Grace”, álbum mais recente, lançado agora no dia 15, é uma volta às raízes. No caso de Bridgewater, o retorno se faz por meio de um repertório aparentado ao que ouvia na adolescência na sua estação favorita de rádio, a única que transmitia exclusivamente música afro-americana.

Lizz é bem mais nova que Bridgewater. São quase 30 anos de diferença. Nem tão norte nem tanto ao sul, a referência é a de onde vem. Georgia é um dos estados em que a cultura afro americana foi e continua bem presente, assim como a religiosidade. Lizz é filha de pastor e também diretor musical de sua paróquia. Não é muito diferente do figurino que conhecemos. Lizz saiu da Georgia mas não foi muito longe: divide a morada entre Chicago e Great Smoky Mountains, na Carolina do Norte, onde comprou um terreno de 28 acres, e passa os seus momentos de descanso.

Na música também nunca esteve distante de suas raízes sulistas. Portanto, não é exatamente uma retorno a elas, como afirma. Agora, se considerarmos como um retorno à cultura e sua história, sim, mas no fundo, até nisso, permaneceu fiel a ela.

Desde sua estreia, com “Salt”, em 2003, apesar de lançada pelo selo Verve, não se pode dizer que era um disco de jazz. Fora standards como “Afro Blue”, de Mongo Santamaria, cuja versão mais conhecida e espetacular é a de John Coltrane, e “Goodbye”, de Gordon Jenkins, as restantes, quase todas composições de sua autoria, possuem características que não podem ser classificadas como tal. Os músicos participantes, sim; são desse universo: John Cowherd, Chris Potter, Danilo Perez, Brian Blade e outros mais.

Em “Dreaming Wide Awake”, que inclui as belas “A Taste of Honey”, de Bobby Scott, “Get Together”, de Chet Powers, aquela que os cinquentões conhecem com os Youngbloods, e “Old Man”, de Neil Young, apesar de Scott ter sido um pianista e cantor ligado ao jazz, podem ser classificadas no termo mais genérico de “músicas clássicas do cancioneiro americano”.

Foram quase cinco anos entre “Fellowship” e “Freedom and Surrender”. Foi primeiro na casa nova, a Concord Jazz. Pelo título do mais recente, “Grace”, a primeira suposição é o de que há uma relação entre os dois, pois são duas expressões que nos levam a pensar em redenção, ou algo parecido, que nos remete à religião.

O canto de Wright é universal. Poderia vir do Amapá ou de Cochabamba. Esse é um dom que Deus dá a poucos. Desde “Salt” (Verve), sua estreia em discos, em 2003, sucesso instantâneo, alçado ao segundo mais vendido no chart da Billboard Top Contemporary Jazz, mantém uma linha coerente e fugindo de qualquer rótulo. Há uma evolução, ou construção, de uma linguagem que a torna reconhecível em qualquer música que cante, seja ela de Bob Dylan ou kd lang, presentes no mais recente lançamento.

Grace
“Barley”, de Allison Russell, abre o disco. O ritmo marcante, o violão “beliscado”, árido, e a voz de Lizz cantam paisagens rurais. A segunda é “Seems I’m Never Tired Lovin’ You”, conhecida pela interpretação de Nina Simone. Desde o início, ela nos captura com sua voz cálida e elegantemente sensual em uma espiral emocional que, aos poucos vai nos envolvendo até ficarmos a querer mais e mais.

Ouça “Barley”.



É apenas o começo. “Seems I’m Never Tired Lovin’ You” é um petardo. Veja e ouça nessa apresentação.




Uma coisa que contribui para caracterizar como um álbum em que revisa suas raízes é o recurso estilístico do uso do órgão, massivamente presente nos cultos religiosos, e aqueles coros irresistíveis. Está presente na canção título, de Rose Cousins. Ouça.



Com apenas 37 anos, Wright, em seus cinco álbuns, amealhou apenas elogios da crítica e conquistou milhões de ouvintes. Desde “Salt”, sua estreia, parecia uma cantora pronta. Neste disco, quis, como afirmou para a matéria de Giovanni Russonello, do New York Times, “capturar a delicadeza do Sul e de onde eu vim e a minha experiência disso.” O sul é um lugar que tem “uma cultura e história incríveis, que se baseia em você cultivar a sua terra e importar-se um com o outro. Eu venho de uma família que cresceu produzindo o seu próprio sustento nos tempos da escravidão e o das pessoas ao seu redor. Descobri então, por meio das conversas sobre a terra e sobre a casa com meus vizinhos, muitos pontos em comum”, complementa. É uma cultura que procurou preservar com os seus vizinhos de Blue Ridge Mountains. Tanto é que “Grace” é dedicado a sua “next-door neighbor” de 92 anos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A face soul de Dee Dee Bridgewater

“Sim, sou uma cantora de jazz”, afirma Dee Dee Bridgewater nas notas internas de “Memphis… Yes, I’m Ready”, que acaba de ser lançado. Era o que sonhava ser: uma jazz singer.

Também! Era previsível. Seu pai, Matthew Garrett, foi trompetista profissional e professor na Manassas High School de 1949 a 1952. Foram alunos seus, simplesmente, Charles Lloyd, George Coleman, Frank Strozier, Brooker Little, Phineas Newborn Jr. e Harold Mabern, sem dúvida, uma turma de respeito.

“Sim, eu nasci em Memphis, Tennessee”, assim começa nas notas internas. Quando tinha três anos, a família mudou-se para Flint, Michigan. Adolescente, ouvia nas noites a WDIA Radio. Nas suas palavras, era seu “jardim secreto”. Era a única rádio que tinha a programação inteiramente voltada para a música afro-americana. Assim, tomou gosto por vários gêneros, no entanto, tornou-se uma jazz singer porque “isso é algo que sempre sonhei ser”.

Não fosse esse seu propósito, poderia muito bem tem virado uma intérprete “pop”, como Aretha Franklin, que, aliás, no início de sua carreira voltou-se para os standards de jazz. Tivesse seguido por esse caminho, Dee Dee teria feito até mais sucesso, pois talento e aquele timbre que só os negros têm nunca lhe faltaram.

Denise Eileen Garrett, enquanto cursava a Michigan State University, cantava em clubes de jazz, pois sua meta era ser cantora. Conheceu o trompetista Cecil Bridgewater, com quem se casou. Mudaram-se para Nova York. Cecil tocava na banda de Horace Silver. Dee Dee, a partir de então, Bridgewater, foi ser crooner da Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. O início auspicioso fez com que conhecesse Sonny Rollins, Dexter Gordon, Max Roach e Dizzy Gillespie, dentre outros.

Dona de uma voz poderosa, a bela negra participou do musical “The Wiz”, ganhou o Tony Awards como “best featured actress”, em 1975, e um Grammy no ano seguinte. Como performer de musicais foi para a França, fazendo parte do musical “Sophisticated Ladies”, e por lá ficou. Casou-se com o produtor Jean-Marie Durand, em 1911. Antes, estava casada com Gilbert Moses, com quem teve China Moses, que optou pela mesma profissão da mãe. No início dos anos 1980, retomou a carreira de jazz singer.

Um talento tão indiscutível só poderia encontrar morada em grandes gravadoras como a Verve e ser convidada para cantar nos maiores e mais prestigiados festivais e clubes de jazz. É considerada uma das melhores cantoras vivas, junto com as experientes Dianne Reeves e Cassandra Wilson. É certo que há a emergência de uma nova geração de peso em que despontam Roberta Gambarini, a sensação Cécile McLorin Salvant, Cyrille Aimée, Lizz Wright, sem esquecer das fabulosas Dianna Krall, Stacey Kent, Karryn Allison, Tierney Sutton e Catherine Russell, que preenchem o meio campo desse espectro geracional.

Pois Dee Dee resolveu montar um repertório resultado da “investigação do seu passado”. “Meu círculo de vida foi fechado. Agora eu me entendo em sua totalidade. Meu espírito está tranquilizado.” Seu propósito de vida, afinal, ficou entremeado de tudo do que ouvia no rádio. É por isso que o nome do álbum é “Memphis… Yes I’m Ready!”. Foi nesta cidade que nasceu, em 27 de maio de 1947.

Como na música de Al Green, Sam Cooke, Aretha Franklin e outros, algumas características são marcantes na música gospel americana, soul, blues, ou, para ser mais abrangente, do rhythm’n’blues: backing vocals, naipes de sopros e sons do órgão Hammond. Tudo está presente em “Memphis…”. Clássicos de compositores e intérpretes como Norman Whitfield e Barrett Strong, Isaac Hayes, Margaret Ann Peebles, Otis Blackwell, Jerry Leiber e Mike Stoller, Van McCoy compõem esse álbum impecável e poderoso.

Com sua voz cheia daquela energia própria dos negros, apesar de sua mãe – a quem o disco é dedicado – nunca tivesse querido que Dee Dee cantasse blues, quando começou a cantar profissionalmente, “Memphis…” é candidato a ser o melhor álbum do ano em um gênero que não é jazz. Confira.

Ouça a clássica “Sound Dog”, que ficou famosa na voz de Elvis Presley.



A clássica “Try a Little Tenderness”. Foi até cantada por Frank Sinatra, mas a clássica mesmo é a de Otis Redding.


 

Ouça “Why (Am I Treated So Bad)”, de Roebuck Staples.



Provavelmente, a mais conhecida interpretação de “The Thrill Is Gone” é a de B.B. King, mas a de Bridgewater também é excepcional. O Hammond B3 faz a diferença.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A guitarra roqueira de Mark Wingfield

Markus Reuter (esq.) e Mark Wingfield e os pedais
Coisa fácil é colocar a culpa nos outros. Assim você foge da responsabilidade. Tem gente que até coloca a responsabilidade de seus maus feitos na mulher. Se ela está morta, melhor ainda: não tem como defender-se. Pois, no meu caso, a culpa é do Jimi Hendrix.

O jazz é o meu gênero preferido, atendo-se à estatística. Considerando-se que ouvi muito Hendrix, e gostava, natural a minha curiosidade por guitarristas nessa modalidade.

Um dos discos que estão entre os meus preferidos é “Intermodulation” (Verve 1966), de Bill Evans e Jim Hall. A interpretação de “My Man’s Gone Now” é obra do encontro de deuses. Antes de descobrir guitarristas “cool” como ele, os meus preferidos iniciais foram John McLaughlin, com Miles Davis e na sua banda Mahavishnu Orchestra, Jeff Beck, em “Blow by Blow” (CBS 1975), em sua primeira incursão pelo jazz, e Pete Cosey, da banda de Miles.

De cara, gostei de “Proof of Light” (Moonjune 2015), de Mark Wingfield. A razão principal foi essa: a lembrança dos primeiros guitarristas que me chamaram a atenção. Meu gosto, ao passar a ouvir – e gostar de – jazz, tinha como referenciais Hendrix, Robert Fripp, Steve Howe, Jimmy Page, Eric Clapton e Jeff Beck.

A revista Downbeat deu mais linhas que o costume ao disco de Wingfield, conferindo-lhe 4 estrelas e meia. John Ephland inicia a crítica descrevendo “Proof of Light” como um álbum cuja música é maior do que suas partes. Descreve o som de sua guitarra “como um som penetrante, arrojado, espectral, de engenhosos glissandi.” É um elogio e tanto. Impressionante a sua técnica e é um mestre nos sustain, e inúmeros efeitos que tira das seis cordas. Com Yaron Stavi e Asaf Sirkis, Wingfield forma um power trio de respeito, como poucos tendo a guitarra como protagonista.

Ouça “Way to Etretat”, uma das melhores faixas.




Cinco estrelas para “The Stone House”
No álbum mais recente, Wingfield divide o protagonismo com todos os componentes da banda. Na capa constam os nomes de todos: (Mark) Wingfield, (Markus) Reuter, (Yaron) Stavi, (Asaf) Sirkis. Ou seja, são os mesmos do álbum anterior, com acréscimo de um guitarrista.

O diferencial aqui é Markus Reuter. Ex-aluno de Robert Fripp, participou do Crimson ProjeKct e tornou-se membro do Stick Men, com Tony Levin e Pat Mastelotto. O também psicólogo (formou-se na Universität Bielefeld), interessou-se pelo Chapman Stick tocado por Levin e criou o U8 e o U10 stick guitar. Com esses instrumentos, “inventou” um som totalmente original.

Se uma guitarra é boa, imagine duas. Bem, nem sempre é assim. Em bandas de rock, geralmente há um segundo que faz mais a chamada rhythm guitar enquanto o principal é o que sola. Não é o caso aqui. Wingfield e Reuter são complementares, assim como são Stavi e Sirkis, que não fazem papel secundário.

No anterior, há overdubs. No caso de “The Stone House”, não. Gravado em uma mansão da Espanha, cada tema foi saindo de improvisos coletivos, sem ensaios prévios. À beleza do lugar e o prazer de tocarem resultou em uma música em que transparece a espontaneidade das jam sessions. O som traz à lembrança os projetos de Robert Fripp, o que é natural, pela presença de alguém que foi seu aluno e componente das bandas por ele capitaneadas.

O estilo meio tenso, melodicamente rico, harmonia sofisticada e a maestria na exploracão nos efeitos de “sustain” de Wingfield, lembra um pouco outro guitarrista de quem sou fã: Terje Rypdal. A parceria com Reuter e sua TouchGuitar AU8, Stavi no baixo fretless e a bateria frenética de Sirkis, compõem em que cada instrumentista explora “algo deliciosamente inesperado”, como bem define John Ephland na Downbeat.

Ouça e delicie-se. Se você é fã do King Crimson, vai adorar esse som.

“Rush”, faixa inicial.



Ouça o álbum na íntegra aqui.