quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A fila anda com Rolando Villazón

Nos anos 1980/90, se perguntados, fossem especialistas ou não, quem era o melhor tenor do mundo, as opções recairiam em três: Placido Domingo, Luciano Pavarotti e Jose Carreras.

Em brilhante golpe de marketing das gravadoras, com a montagem e gravação do espetáculo Three Tenors, viraram popstars mundiais, coisa que um Giuseppe di Stefano ou Enrico Caruso nem chegaram perto de serem. Não que Caruso não tenha sido um popstar, guardadas as devidas proporções. Foi. Por ter coincidido com o surgimento da indústria fonográfica, vendeu muitos discos. Deve ter sido, observadas as equivalências, tão famoso quanto Mick Jagger em seu tempo. Além do repertório erudito, gravou canções napolitanas. Então, não é de hoje que existe esse “negócio” que, hoje, chamam de crossover.

Jose Carreras, em 1987, foi diagnosticado com leucemia. Fez transplante de medula, radioterapia e quimioterapia, curou-se e continua a se apresentar. Mas doenças graves, se não são impedimento, são limitantes. O medo faz coisa, diz o ditado popular.

O italiano Luciano Pavarotti era o mais apreciado pela beleza da voz, apesar de não ser tão bom ator quanto Placido Domingo, um predicado importante nas encenações das óperas. Foi amado e, quando o brilho e perfeição da voz lhe fugiam, faleceu com 71 anos.

Placido Domingo continua em plena atividade. O madrilenho que cresceu no México possui características bem diferentes das de Carreras e Pavarotti, classificados como tenores líricos. De voz mais potente, mais escura e grande flexibilidade, talvez seja o mais completo dos três, principalmente por atuar muito bem. Com a idade, passou a enfrentar papéis que exigem mais da voz, cantando, inclusive, como barítono e interpretando personagens wagnerianos. Fora isso, aventura-se na regência de orquestras. Como se vê, está a toda.

Aplausos merecidos para Villazón
Como a fila anda, novos cantores têm merecido a atenção do público de música erudita. Confesso conhecê-los pouco. Estou feliz com os registros antigos que tenho, mas um pouco de curiosidade não faz mal.

Andrea Bocelli é o mais famoso deles, sem dúvida, por razões que escapam aos ouvidos “eruditos”. Parte de que, acometido por um glaucoma desde a infância, foi perdendo a visão, fato que o impede de atuar em óperas. Dono de uma bela voz, é quase um popstar, como Andre Rieu, sem querer comparar-lhes as competências.

Falou-se bastante do argentino José Cura, a quem pouco conheço. Dois, seguramente, estão no panteão dos melhores da atualidade: Roberto Alagna e o mexicano Rolando Villazón. O primeiro já foi vaiado em cena e abandonou o palco. Villazón teve um sério problema vocal e teve de cancelar apresentações. Aparentemente, está recuperado, mas uma doença dessas é sempre preocupante. São tenores líricos, o que facilita para se cair no gosto geral. Ambos são excepcionais e intensos.

Ganhei da amiga Vania o CD Opera Recital (Virgin, 2006), de Rolando Villazón. Belíssimo. Obrigado

Até o ano que vem. Feliz ano novo.

Ouça a interpretação impressionante de Villazón em Os Pescadores de Pérolas (“Je crois entendre encore”), de Georges Bizet!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O disco solo do vocalista do Gnarls Barkley

Os óculos modelo “Lady Killer” estão à venda
em 
http://www.ceelogreen.com/us-store
Quando vi a capa, a primeira coisa que pensei foi: “Nossa, como o Al Green está diferente!” Engano. O CD era de Cee-Lo Green, vocalista do grupo Gnarls Barkley. Essa banda montada por DJ Danger Mouse e o vocalista ficou conhecida por ter atingido o primeiro lugar nas paradas inglesas com Crazy sem sequer ter sido lançado em CD. Disponível apenas em download pela internet, virou um fenômeno. O sucesso é justificado. Crazy é uma das músicas mais vibrantes – daquelas de sacudir os esqueletos esticados nas camas e sofás – e geniais surgidas na primeira década do século XXI; tanto ou mais que Hey Ya, do Outkast.

The Lady Killer, saiu em novembro de 2010. Está sendo lançado no Brasil. Como é época de festas de fim de ano, provavelmente, estará nas lojas apenas na segunda quinzena de janeiro. Desde já, é candidato a ser um dos melhores de 2011, pois, de 2010, já é, pelo menos fora do Brasil.

Veja e ouça duas que constam do CD.
Vídeo oficial de Fuck You:




No Ones Gonna Love You. O original é de Band of Horses.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os “xis” de The XX

Jamie, Romy, Oliver e Baria Quireshi (a que saiu)
Quem leu o post anterior sobre The XX vai notar algumas repetições. É mais uma oportunidade para se conhecer a banda. Ouça uma versão estendida de Intro.


Intro é a primeira música do disco do XX. Ou melhor, se “intro” significa algo que vem antes do início, VCR é a primeira. Mas Intro é uma boa “introdução” para as canções que vêm a seguir. A marcação do baixo e da bateria, e sobre ela, alguns sons de guitarra, criam um “clima” do que virá. O som é muito diferente do mainstream do rock. Há originalidade no XX, de tão simples, pode ser considerado primário. São melodias frias, meio vagas… e belas. Em algumas passagens, lembra um pouco a atmosfera criada por Angelo Badalamenti para os filmes de David Lynch.

As guitarras são tão básicas que faz imaginar que qualquer um, depois de um aprendizado de seis meses, poderia integrar o XX. Nota: a segunda guitarrista – e tecladista – Baria Quireshi não toca mais na banda, mas está no disco lançado em 2009. As estruturas das músicas, como Infinity, uma das mais interessantes, são “inteligentes” em seus minimalismos. Algo tão simples como frequências baixíssimas e breves que fazem vibrar as portas da sala, ressoam nos esqueletos dos ouvintes em contraste com as vozes de Romy Madley Croft – doce e feminina – e de Oliver Sim – em tons médios e melancólicos – como em Islands e Fantasy.

A banda, atualmente, é formada por Romy Madley Croft (guitarra e vocais), Oliver Sim (baixo e vocais), e Jamie Smith (bateria e MPC).

Ouça Intro, que deve ser a melhor do CD, junto de Infinity.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

No reino dos homens barbudos

Não sei se, devido à proximidade do Natal, e à de outra efeméride, o centenário da morte de Tolstoi, veio-me à  ideia uma coisa, digamos, meio-besta:  falar de alguns barbudos célebres. Barbudos, digo; não barbas ou barbichas; como as do escritor… e de Papai Noel.

Liev Tolstoi
Liev Tolstoi, que no meu tempo era chamado de “Leão” e não “Lev” ou “Liev” – e possuía acento agudo no Segundo “o” –, em novembro de 1910, fez o que muitos homens ficam a vida inteira pensando em fazer e não fazem: fugir de casa. Pois, com 82 anos nas costas, saiu escondido da mulher. A notícia correu feito rastilho de pólvora e foi coberta pelas publicações europeias. Foi um frenesi. Dez dias depois, em 20 de novembro, 6h05 da manhã, o escritor russo morreu em consequência de uma pneumonia e, vá lá, tinha uma idade avançada, pelo menos para os padrões da época. Aproveitando a efeméride – o centenário –, o jornalista e escritor Pavel Basinsky escreveu o livro Fuga do Paraíso.

Tolstoi era considerado deus, guardadas algumas proporções. O paraíso a que se refere Pavel é a propriedade do escritor: Iásnaia Poliana. Distante 200 quilômetros de Moscou, o lugar era quase um santuário. Pessoas de todos os lugares que para lá acorriam eram acolhidas pelo escritor. Observou a jornalista Tatiana Shebaeva: “Em Iásnaia Poliana, Tolstoi estava aberto ao mundo, acessível a todo viajante, admirador, bandido ou miserável. Ao mesmo tempo, voltava-se cada vez mais para si próprio e, dando ouvidos à voz da alma, dolorosamente percebia com sofrimento toda e qualquer injustiça ou brutalidade.” (FSP, 22/10/2010, Gazeta Russa, p.8). A imensa barba branca e roupas simples – botas, batas largas – davam-lhe aparência de um mujique. “Tolstoi acreditava que o homem tinha sido feito para a felicidade. Ele mesmo aspirava à felicidade e ao paraíso – não para desfrute individual, mas para o maior número de pessoas possível.” (id. FSP, p.8). Amealhou um sem-número de fanáticos seguidores. A corte czarista torcia o nariz e chegou a censurar publicações do russo.

Iásnaia Poliana ainda hoje atrai muitos visitantes e funciona como um polo aglutinador não só de tolstoístas (“não comem carne, não consomem álcool ou tabaco e procuram não utilizar animais na lavoura. Numa fase mais avançada, além de plantar o próprio alimento e fabricar suas roupas e sapatos, Tolstoi chegou a abdicar do sexo.” – FSP, 21/11/2010, em Ilustríssima, assinado por Mariana Darmaros), mas de eventos literários como a Conferência Acadêmica Internacional Liev Tolstoi.

O Nobel de Literatura, Bernard Shaw
Se barbas longas não são requisito primário para ser um bom escritor, existe a coincidência de outros dois possuírem essas características: o dublinense George Bernard Shaw (1856-1950) e o americano Walt Whitman. Um terceiro, Herman Melville, autor do clássico Moby Dick e da breve narrativa (genial) Bartleby, o escrivão, possuía longas barbas também, mas, ao contrário dos três citados anteriormente, tinha vasta cabeleira. Com algumas diferenças, eram calvos, o menos talvez, era Whitman, apesar das acentuadas entradas.

O autor de O Socialista Insociável era ótimo frasista e autor de cerca de 60 peças teatrais, dentre as quais, a mais conhecida é Pigmaleão. Em outra seara, em outro continente e em outro século viveu Walt Whitman (1819-1892). Sua obra mais conhecida é Folhas de Relva (Leaves of Grass), que a cada nova edição foi se ampliando. Começou com 12 poemas, na primeira edição. Na última, tinha mais de 300.

Walt Whitman, em montagem, como Papai Noel
A razão de juntar os três escritores é mais que casual. Não tem o propósito de fazer comparações ou suscitar discussões que possam resultar em ensaios teóricos. Vale mais como uma constatação e um fato episódico. Outros barbudos famosos como Karl Marx e Deus (se bem que a ciência não tenha provado se tinha barba ou não) ficam de fora.

Barbas longas são marcantes visualmente e podem tornar-se “maiores” do que seus possuidores. Uma vez que voltava de Paris, tinha pedido um táxi que me levasse até o aeroporto. O motorista vestia uma camisa azul-clara, de mangas curtas, usava óculos de grau forte e tinha longas barbas grisalhas. Lembrei-me do brasileiro Paulo Freire. Era a cara do educador. Isso ficou na lembrança.

Mark Twain, um bigodudo célebre
Mudando de assunto, mas nem tanto, por outra coincidência, 2010 é o centenário da morte de outro grande escritor: Mark Twain. No mês de seu falecimento (abril), não lembro que tenha recebido tantas referências como Tolstoi. Twain é um clássico, inventor de personagens conhecidos como Huckleberry Finn e Tom Sawyer. As narratives das aventuras dos dois eram parte constante dos livros da União Cultural Brasil-Estados Unidos, em São Paulo. Foi desse modo que tive o primeiro “contato” com Twain. O americano ficou famoso em vida e, ao contrário de muitos, e como Tolstoi, desfrutou a condição de celebridade, quando sê-lo não era tão comum como sói ser nos dias. Andy Warhol, ao afirmar que todo mundo teria direito aos seus quinze minutos de fama, antecipou, em alguns anos, o que vivemos atualmente. Uma vez, e olhe que foi há mais de dez anos, um artista austero e sério, arquiteto, como o ex-guerrilheiro urbano Sérgio Ferro, militante da ALN de Carlos Marighella, apareceu em seis páginas – não lembro o número de páginas – da revista de amenidades Caras, vi que o mundo mudara bastante.

A referência ao escritor Mark Twain é pela comemoração dos cem anos de seu falecimento, e não por ser barbudo. O americano usava mesmo era um vasto bigode, daqueles de fazer inveja a Friedrich Nietzsche. Bem, mas aí é outro assunto.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Stanley Kubrick, o mestre da música

Alguns devem lembrar-se da proibição de vários filmes perpetrados pela censura na época do governo militar, década de 1970. Filmes de cunho político-social como Mimi, o Metalúrgico (Lina Wertmüller), A Classe Operária Vai ao Paraíso (Elio Petri), Sacco e Vanzetti (Giuliano Montaldo), Queimada (Gillo Pontecorvo); ou Sopro no Coração (Louis Malle), Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci), Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor) e Laranja Mecânica (Stanley Kubrick), esses, por abordarem temas polêmicos, foram proibidos pelo Conselho Superior de Censura. Não sei se alguém se lembra que, antes da exibição de um programa, uma novela, aparecia uma ficha com carimbo da Censura e uma voz em off dizia algo como “Esse programa está liberado para exibição a partir das 22h.”

A censura, no entanto, não é exclusividade brasileira. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) causou muita polêmica em 1971, quando foi lançado. Como Sob o Domínio do Medo, do americano Sam Peckinpah, era um filme que abordava a “ultraviolência”. Foi proibido no país de origem de seu diretor, a Inglaterra. Posteriormente, o próprio Stanley Kubrick proibiu a exibição e comercialização em vídeo. Os ingleses que queriam assistí-lo, tiveram de recorrer às cópias piratas.

Kubrick: retrato do artista quando jovem
Anthony Burgess, autor do romance que deu origem ao filme, escreveu o livro a partir de uma experiência que viveu: o estupro sofrido por sua mulher em um assalto. Uma das passagens mais chocantes é a de quando a gangue de Alex entra na residência onde moram um escritor e sua mulher. Alex canta e dança como Gene Kelly em Cantando na Chuva. Em vez do guarda-chuvas, tem um bastão na mão; enquanto canta Singin’ in the Rain, em vez de chutar as poças-d’água deixadas pela chuva, acerta violentas botinadas no escritor, imobilizado pelos comparsas. É uma cena antológica, apesar de capaz de causar enjoos nos de estômago mais delicado.

Parece que a ideia de usar Singin’ in the Rain é de McDowell, e não do diretor. Isso, no entanto, não tira os méritos do bom gosto de Kubrick no uso da música em seus filmes. Em Laranja Mecânica, Beethoven é arranjado pelo organista Walter Carlos (que, mais tarde, mudaria seu nome para Wendy Carlos). Bem capaz que os puristas tenham odiado as versões eletrônicas de Carlos.

Antes desse filme, Kubrick já tinha demonstrado o quanto uma música, incidental ou não, é um fator gerador ou complementar para as cenas, potencializando o que vemos na tela. É sempre interessante ver aqueles que sabem mesclar o antigo  com o novo, a música mais popular (brega, até) com a informação erudita mais sofisticada. Alguém no Brasil é tão requintado quanto o britânico: Júlio Bressane.

O filme 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968) consagrou a abertura de Also Spracht Zarathustra, de Richard Strauss. Tornou-se tema de publicidade, e massivamente conhecida por um público que nem sabia que havia um outro Strauss além de Johann, que, aliás consta no filme com a conhecidíssima Danúbio Azul. Also Spracht… mereceu até adaptação do brasileiro Eumir Deodato, excelente arranjador e músico ligado ao jazz e à bossa-nova. Aproveitou a “onda” e vendeu milhares de discos pela gravadora que, nos anos 1960 e 70, entrou de sola no mercado tentando vender um “jazz” (as aspas são porque nem sempre se podia considerar jazz) mais palatável ao público médio, a CTI Records, de Creed Taylor. Ele fez com que nomes consagrados como Paul Desmond, saxofonista de Dave Brubeck, registrasse interpretações canhestras de sucessos da música pop.

A trilha de 2001 é complementada pelo russo (armênio) Aram Khachaturyan e György Ligeti (Lux aeterna, Atmospheres, Requiem e Adventures). A música climática do húngaro era perfeita para um filme de ficção científica. Mais tarde, Kubrick voltaria a usar a música de Ligeti (Musica ricercata) em De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999). Nesse filme estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman, a música vanguardista de Ligeti, e Jazz Suite, de Shostakovich, são complementadas por alguns temas da inglesa Jocelyn Pook (o tema do Masked Ball é de sua autoria) e por standards como If I Had You, Strangers in the Night e Blame It on My Youth ou até músicas de Chris Isaak.

Outro filme em que é evidente a sofisticação do gosto musical do cineasta é Barry Lyndon (1975). Sendo filme de época, as escolhas recaem em Vivaldi (3º movimento do Concerto de cello em ré menor), Bach (Adagio do Concerto para 2 cravos e orquestra, BWV 1062), Handel (Sarabanda da Suíte para cravo nº 4 in ré menor, HWV 437), Giovanni Paisiello (O Barbeiro de Sevilha), Mozart (Idomeneo) e Schubert. O romance de Tackeray, no qual se baseia Kubrick, é de 1840, sucesso nas “paradas literárias” da Inglaterrra. Mais que perfeito é a utilização do Segundo movimento do belíssimo Trio nº 2, opus 100 (violino, cello e piano) na cena que se inicia na mesa de jogo e termina num beijo. Anos depois, Tony Scott iria utilizar a mesma música em Fome de Viver (The Hunger, 1983), filme protagonizado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon.

Veja a cena de Barry Lyndon com o segundo movimento (Andante con moto) do Piano Trio opus 100.



Outro exemplo da maestria de Kubrick na utilização da música: cena final de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), com a música We’ll Meet Again, cantada por Vera Lynne.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dilermando Reis: no tempo em que se escrevia “majestade”com “G”

Dilermando nasceu em Guaratinguetá (Guará, como os nascidos lá gostam de dizer), interior de São Paulo, que fica mais ou menos na metade do caminho, na Via Dutra, para o Rio. Entre uma cidade e outra, preferiu ir para a capital; não a de seu estado natal, mas para a capital do Brasil.

Dilermando e o violão
O amigo Armênio Guedes deu-me um presente valoroso: o Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, organizado por Ricardo Cravo Albin. É a quem recorro para saber que nasceu em 1916  e faleceu no segundo dia do ano de 1977. A curiosidade é a de que foi professor de violão do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Curiosidade mesmo. Sabe-se que o criador de Brasília era um pé de valsa (meu pai, fotógrafo por profissão, sediado à época em Passos, MG, tirou uma foto de Juscelino dançando com uma moça, em São Sebastião do Paraíso), e tornou, pelo menos, uma música famosa: a canção folclórica Peixe Vivo. O JK brasileiro, pelo que parece, antecipou o JK americano em alguns anos quanto ao interesse “exacerbado” por pessoas do sexo feminino.

Voltando ao Dilermando, nesse momento ouço o disco Sua Magestade o Violão, isso mesmo, com “G”; era o nome de seu programa na Rádio Nacional do Rio, que passou a ser transmitido em 1956 e durou mais de dez anos. Era um virtuose. Mereceu uma homenagem em 1994 por outro não menos virtuose, o genial Raphael Rabello, em Relendo Dilermando Reis.

Em Sua Magestade o Violão (1957), Reis mescla peças eruditas compostas para o piano (e arranjadas para o violão) como o Noturno nº 2 (Chopin) e Clair de lune (Debussy), peças originais para o violão (Pavana, de Francisco Tárrega), Malagueña (Ernesto Lecuona), Índia (J. Asunción Flores e M. Ortiz Guerrero), e algumas composições brasileiras, sendo duas de sua autoria (Araguaia e Se Ela Perguntar). Se fosse escolher alguma desse disco, ficaria com a bela guarânia. Ouça:




Dilermando e JK
A história de que deu aulas de violão ao ex-presidente é bem conhecida. Quando procurava alguns dados, deparei-me com um texto ótimo de Nelson Rodrigues sobre um “acontecido” à época em que governava o Brasil. Transcrevo aqui.

Descalço com Kim Novak
Kim Novak e JK: descalços
Ninguém mais antipresidencial. Ele trouxe a gargalhada para a Presidência. Nenhum outro chefe de estado, no Brasil, teve essa capacidade de rir – e nos momentos mais inoportunos, menos indicados. Dir-se-ia que ele tinha sempre um riso no bolso, riso que ele puxava, escandalosamente, nas cerimônias mais enfáticas. Os outros presidentes têm sempre a rigidez de quem ouve o Hino Nacional. Cada qual se comporta como se fosse a estátua de si mesmo. Não Juscelino. Quando ele tirou os sapatos para Kim Novak (que achado genial! que piada miguelangesca!), ele foi o antipresidente, uma espécie de cafajeste dionisíaco. Eu diria que jamais alguém foi tão brasileiro. O novo Brasil é justamente isso: – um presidente que tira os sapatos para uma beleza mundial. (Nelson Rodrigues no jornal Brasil em Marcha, 10/2/1961)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Duas ou três coisas de My Blueberry Nights, de Wong Kar-Wai

Norah Jones tem sido o “assunto” das minhas últimas conversas por e-mail com a amiga Vania. Talvez por isso, acabei revendo Um Beijo Roubado (é o título brasileiro), de Wong Kar Wai.

Se o diretor – craque nas escolhas musicais para seus filmes – gosta de Norah Jones, por que não eu? Ela é sucesso de crítica e público, sem dúvida. A gravadora Blue Note vendeu-a como intérprete de jazz quando sua música ficaria mais bem classificada como country-folk, gênero que não é dos meus preferidos. Seu disco Come Away with Me explodiu nas paradas (vendeu até hoje mais de 20 milhões) e foi bem recebido pela crítica, mesmo de revistas mais voltadas ao jazz. Não achei que era para tanto. Deu-me impressão de um brilhante golpe de marketing: muitos, um tanto desinformados, acharam que o que Norah fazia era jazz. Esse dado – gato por lebre – despertou em mim certa birra. Mesmo assim, é inegável que faz uma música bem agradável. E, depois de ter revisto o filme, tem competência como atriz.


Duas ou três coisas sobre o filme:
1. Algumas cenas são belíssimas. O chinês é um esteta, como demonstrou em seus filmes “orientais”. Um recurso que costuma usar é o de dar uma leve desacelerada (como um breve slow motion) em algumas cenas. Outro recurso é o de filmar através de vidros que refletem ambientes fora dos que estão sendo captados. O cinema é “um olhar pela janela”. Somos espectadores que não têm como intervir nas cenas vistas. Dentro do filme, vidros ou janelas são “anteparos”; separa o de “fora” do de dentro”. É um duplo distanciamento e um “olhar” sem “olhar”, é um ver parcial do “através” e do que se reflete.

2. As cenas iniciais são as de uma metrópole – Nova York –, ou seja “vertical”. Quando Elisabeth (Norah Jones) resolve sair da cidade indo para o interior do país, o filme se “horizontaliza” na paisagem aberta. Arruma trabalhos como garçonete, trabalha de dia e de noite pois, ocupando-se, não pensa muito sobre ter sido trocada por outra.

A verticalidade está em Elisabeth, que, do rés do chão, vê as luzes acesas e nota a presença de uma mulher no apartamento de seu namorado. Verticalidade está relacionada à busca de Deus, e a horizontalidade é relação do homem com seus pares. A vertical é o céu e a horizontalidade, a terra. Quando resolve viajar por lugares não conhecidos procura essa relação com o humano, a compreensão do mundo pela observação, pelo dia a dia do trabalho rotineiro, com as pessoas que, randomicamente, vai conhecendo, que entram em sua vida, “batendo ou não na porta antes de entrar”. Um dos clientes é Arnie ((David Strathairn). Abandonado pela mulher, embeba-se, e é o último a sair. Confrontando-se com a realidade do outro (“relações horizontais”), percebe que seu sofrimento com a perda (“relação vertical”) não é exclusivo.

Arnie sai do bar e bate o carro. Sue Lynne (Rachel Weiz) sofre com a morte do ex-marido. Vivo, não prestava; morto faz falta. O sofrimento de Sue Lynne tem alguma semelhança com a de Elisabeth. Ambas as perdas são definitvas.

2. Jeremy (Jude Law) é dono de um bar em NY. Tem um pote de vidro em que os clientes deixam as chaves para que aqueles que dividem os apartamentos as peguem. Elisabeth chega no bar e procura por seu namorado. Pela sua descrição (pelo que come, mais exatamente), Jeremy o identifica. Ela diz que vai deixar as chaves, para que, acaso apareça, possa pegá-las. Naquele amontoado de chaves, algumas nunca foram resgatadas. Portanto, pode-se dizer que elas são “registros” de amores ou amizades desfeitas. Uma delas é a do próprio Jeremy, abandonado por sua namorada russa Katya (Cat Power).

Numa noite, ela aparece quando se prepara para fechar o bar. Katya diz: “Às vezes, mesmo quando se tem as chaves, essas portas não podem ser abertas, não é?”. Jeremy responde: “E mesmo que a porta seja aberta, a pessoa que procura talvez não esteja mais lá, Katya”. Despedem-se laconicamente com um beijo.

3. Ao ser perguntado da razão de ter optado por uma cantora sem experiência em atuar, Kar Wai esclarece que vários atores orientais com quem trabalhou em filmes anteriores são cantores ou sabem cantar. Justifica a escolha dizendo que músicos têm muita noção de ritmo, e isso ajuda. Acertou com Norah. Ela é bem convincente, a ponto de esquecermos de que é cantora. Outra que trabalha em My Blueberry Nights é Cat Power. Faz uma ponta de alguns minutos. É Katya, a ex-namorada de Jeremy.

As imagens: a do carro é Sue Lynne (Rachel Weisz), com Jeremy, é Katya (Cat Power); nas três em série, é Leslie (Natalie Portman), uma jogadora profissional de pôquer; e última, é Elisabeth (Norah Jones)


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Rogério Caetano pinta o sete no violão de sete cordas

O CD mais recente de Rogério Caetano
Numa dessas tardes quentes de verão e a rua com poucos carros passando, o silêncio é quebrado pela algazarra de algumas crianças e cães que latem o dia inteiro. Coloco Pintando o Sete, de Rogério Caetano. Encontro-o no meio de uma pilha de discos sobre a bancada do equipamento de som. No meio de tantos comprados recentemente, ficou esquecido. Paulatinamente, o som toma conta da sala.

Curioso é o fato de dois dos bons instrumentistas revelados nos últimos anos serem do Planalto Central. Rogério nasceu em Goiânia e Hamilton de Holanda (carioca) cresceu em Brasília. Interessante também é o número de músicos jovens tocando choro, atualmente. Nos anos 1970, ocorrera um boom desse gênero, com jovens – naquela época – formando conjuntos e tocando em bares. As gravadoras lançavam discos de Waldir Azevedo, Joel Nascimento e Altamiro Carrilho entre tantos outros. Em 1976, Paulinho da Viola lançou dois discos ao mesmo tempo: Cantando e Chorando. Esse último continha apenas choros de antanho e alguns compostos por ele. Acompanhado do pai, o violonista César Farias, do pianista Cristóvão Bastos e do mestre Copinha na flauta e sax, Paulinho fez um disco memorável e, provavelmente, despertou o interesse de muitos jovens que ouviam mais rock que música brasileira. Num belo filme exibido em 1977, Chuvas de Verão, Carlos Diegues encerra-o com a tomada de uma rua de subúrbio e Pedacinho de Céu, de Waldir Azevedo, como fundo sonoro. Nessa cena, Diegues sintetiza algo de muito caro ao gênero choro.

Rogério, além de virtuoso no violão de sete cordas, demonstra ser bom compositor. A primeira faixa, Violão na Gafieira é sua. É vigorosa, daquelas que poderiam ser tocadas numa gafieira. Em Rogerinho no Sete, toca com Maurício Carrilho, autor da música, e com Luciana Rabello no cavaquinho. Em seguida, ouve-se Valsa de Mãezinha, de Caetano e Hamilton, interpretada por ele e Yamandú Costa, ambos no violão de sete cordas. Belíssima. Em Carioquinha da Gema, Hamilton esmerilha no bandolim de 10 cordas e André Vasconcelos, no baixolão, e Rogério no violão, o acompanham. Pintando o Sete e Milena são dois belíssimos solos de violão. Em Saída pela Esquerda, outra composição de Rogério, as cordas (três violões e o cavaquinho) se contrapõem ao som áspero do trombone de Zé da Velha e o trompete de Silvério Pontes. Correr com Medo, um tour de force dos dois amigos brasilienses, em ritmo alucinante, fecha esse belo disco que vale a pena ser conhecido. Dino 7 Cordas e Raphael Rabello tem um sucessor à altura.

Veja e ouça Rogério Caetano tocando Samba em Prelúdio, clássico de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Toninho Horta • Harmonia compartilhada é lançado em São Paulo

A Maria Tereza R. Arruda Campos estará amanhã, 15/12, autografando o livro Toninho Horta, harmonia compartilhada. Editado pela Imprensa Oficial, parte da Coleção Aplauso, é um apanhado da história do fabuloso Toninho até hoje, detalhadíssimo e fartamente documentado com imagens cedidas por ele. É um daqueles livros que deve fazer parte da biblioteca de qualquer ser que gosta de música e dos fãs do compositor e violonista (deles, nem é preciso dizer que estarão presentes).

Na ocasião, Toninho Horta estará autografando seu novo CD, Harmonia e Vozes (foi indicado ao Grammy Latino). Ele divide sua sensibilidade e bom gosto com Djavan, Ivete Sangalo, Seu Jorge, Ivan Lins, Frejat, Erasmo Carlos dentre outros.

Apareça. O evento acontece na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho 915) a partir das 19h, quarta-feira. Tem estacionamento na porta.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Norah Jones canta Love Me Tender e, Love Me, simplesmente

Minha amiga querida, a Vania, leu, gostou e protestou em bom som: “adorei!!!!! Só não gostei que você nos considera como franceses................essa não, ESSA NÃO !!!!!!!!!” (quem não leu o post de ontem, está aqui: http://bit.ly/hSXHFc).

Volto ao tema “Norah Jones”, por duas razões.

O vídeo que a Vania tinha anexado no e-mail, tinha sido o da música Love Me, sem o “Tender”, de Jerry Leiber e Mike Stoleer, em que Norah canta com sua banda country Little Willies. Achei que tinha sido engano dela; troquei o vídeo por Love Me Tender, lembrando da paixão do Marcio por essa música. Alertou-me depois de ler o post e completou: “Mas o Elvis que a Norah canta que tá no disco que eu te comprei.”

Aqui entra a segunda razão: ela comprou o disco da Norah; apesar de ter dado a entender que não é das minhas preferidas. Muitas pessoas – mais as mulheres –, quando encasquetam que querem fazer uma coisa, nem Deus consegue demovê-las de seus propósitos. Querem e tem que ser do jeito delas. Não é uma crítica; é apenas constatação. E nem consideraria um defeito. É uma característica. Acho que ela é um pouco assim. E gosto dela como ela é.

Uns versinhos de Love Me: “Treat me like a fool,/ Treat me mean and cruel,/ But love me.” Forte, não?

E a música, é claro.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Love Me Tender, com Norah Jones

George Lucas inventou um sistema de som revolucionário para as salas de cinema, chamado THX. Nunca chegou ao Brasil em razão do custo elevado de instalação. E acabou não dando certo internacionalmente também, por uma dessas razões que a própria razão desconhece. Mas quem assistiu a algum filme em THX não esquece.

Laura Dern e Nicolas Cage em Coração Selvagem
O único que vi foi Coração Selvagem (Wild at Heart), de David Lynch. Lembro até hoje da “explosão” sonora da cabeça do fósforo na hora em que se acende. Quando surge a chama, ouvimos aquele som característico da pólvora na hora em que vira chama, superamplificado. No momento seguinte, salvo engano, entra uma das mais belas canções (lieder) de todos os tempos: Im abendrot, uma das quatro de Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss.

Vi o filme numa sala de Paris com a Vania e o Marcio, que depois de mais de quinze anos morando lá, hoje, podem ser considerados franceses. Após terminada a sessão, tentamos pegar um táxi. Como estávamos em quatro, por uma dessas razões razoáveis apenas entre os taxistas franceses – recusam-se a levar mais que três passageiros (e não adianta argumentar) – e, no adiantado da hora, eram poucos nas ruas e os metrôs não circulavam mais, não nos restou outra opção senão voltarmos à pé. Paris é uma cidade bem menor que São Paulo. Mesmo assim, das proximidades da Galeria Lafayette até a Bastilha, não era um percurso deveras curto. A noite de setembro estava agradável e fomos nós, conversando e rindo. Paramos em um estabelecimento que encontramos aberto para comer e beber alguma coisa nas proximidades do Beaubourg. Seguimos pela Rue de Rivoli e por sua continuação, Rue Saint Antoine, até a Rue de Charenton. Já em casa, Marcio estava animado, cantando Love Me Tender. A Vania disse que ele tinha verdadeira paixão por essa música. Por coincidência, uma das cenas mais marcantes de Wild at Heart era justamente a de Sailor Ripley (Nicolas Cage) declarando seu amor por Lula (Laura Dern), quando sai da cadeia, cantando esse clássico de Elvis Presley. Para quem não viu o filme, Sailor era fanático pelo cantor, como o amigo Marcio.

Em todos os fins de ano passam, parte de dezembro e janeiro no Brasil. A Vania sempre lembra de me presentear com alguma coisa. Dessa vez, perguntou se queria o CD novo de Norah Jones. Nunca perguntou, sempre faz alguma surpresa, e dessa vez vem com a Norah? Tergiversei. Não sou o maior fã da filha de Ravi Shankar. Insistiu, dias depois, com um e-mail em que o título era “treat me like a fool....but love meeeeeeeeee”. Escreveu: Pena que tu não quer a Norah........ A bichinha canta o maix sexy LOVE ME que eu ja ouvi......... Velho Elvis tá se virando na tombe...............hê, hê....... E junto, enviou um link para eu ver o vídeo de Norah cantando Love Me Tender. E não é que eu gostei?

Veja a cena de Coração Selvagem em que Nicolas Cage canta Love Me Tender para Lula (Laura Dern)




Norah canata Love Me Tender:



Im abendrot, uma das Quatro Últimas Canções (Vier letzte lieder), de Richard Strauss, cantada pela americana Renee Fleming:

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O mundo de dentro de Dori Caymmi

Dá o que pensar sobre o que Dori Caymmi disse, meio assim sem mais nem menos, no show de Sérgio Santos. Foi alguma coisa como dizer que o Sesc é o “ministério da cultura”. Não dá para entender por que o Ministério da Cultura e a Petrobras, em vez de patrocinar a disseminação da cultura no Brasil, como os Sesc’s fazem, promovendo shows ótimos com preços baixos, oficinas culturais voltadas à população menos favorecida, abrigando há décadas o grupo do teatrólogo Antunes Filho, em vez disso, dão dinheiro para nomes estelares como Maria Bethânia e Gilberto Gil (nada contra; sou fã dos dois), ou ao rico Cirque de Soleil, que não precisa de ajuda de ninguém, em que os ingressos são vendidos por mais de 100 reais (os do Cirque custaram bem mais que isso). Agora, em novembro, o estado gastou a bagatela de 1,5 milhão para a cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, sendo 489 mil reais destinados pelo MinC a Bia Lessa, responsável pela produção e direção do evento.

Como o pai e o irmão Danilo , 
Dori usa bigodes desde que pode tê-los
Pois um compositor do valor de Dori Caymmi tem dificuldades em distribuir seus discos no Brasil. Com aquele humor, notificou ao público que o disco estava à venda na saída, junto do último de Sérgio Santos e o de André Mehmari e o bandolinista Hamilton de Holanda. Fez alguma referência de que precisava desse dinheiro. Tão pouco divulgado, em 2009, Dori lançou Mundo de Dentro, apenas com composições de sua lavra, com o “parceiro da humanidade” (das 13, 12 são dele). É assim que, brincando, chama Paulo César Pinheiro.

Salvo engano, Dori não grava um disco autoral há mais de dez anos. Contemporâneos, Influências e Cinema – A Romantic Vision são mais discos de intérprete. Por isso, o lançamento de Mar de Dentro deve ser considerado um acontecimento.

Sua música nunca foi exatamente esfuziante. Dori é um dramático. Como sua irmã, tem um pé na densidade. Suas vozes também são graves e funcionam muito bem em despertar emoções fortes. A voz de Dori vem de “dentro”, é coisa de alma. Deve ser fruto de herança genética. Mesmo quem ouviu à exaustão o velho Caymmi, nunca deixará de se emocionar em cada audição de O Bem do Mar, apenas com o violão, ou de A Jangada Voltou Só. Tem Dois de Fevereiro e O Que É Que a Baiana Tem, mas aí é outra história. O “dengo” de Dorival é baiano. Dori nasceu no Rio. Isso não significa que não consiga fazer uma marchinha “pra frente”. É que no tom menor ele é maior.

Quebra-Mar, que abre o disco, é uma composição em que não há outro qualificativo se não o de maravilhoso para defini-la. Com Renato Braz dividindo os vocais, é uma peça emocionante. O grave da voz de Dori e o agudo de Braz se complementam. A próxima, Rio Amazonas, foi gravada antes por Wanda Sá. Não são inéditas também as belas É o Amor Outra Vez, gravado por Maria Bethânia, e Sem Poupar Coração e Saudade de Amar, pela irmã Nana (parecem ter sido feitas na medida para ela). Canções como Delicadeza, Fora de Hora e Armadilhas de Um Romance, são baladas, em tom menor. Tem canções nem tão esfuziantes como Dança do Tucano, Flauta, Sanfona e Viola. Mesmo o frevo – Chutando Lata –, em que divide os vocais com Edu Lobo, não é daquelas de fazer alguém sair por aí dançando ou chutando lata.

As letras de Paulo César Pinheiro são o perfeito complemento para o tom dado pelo músico. Exemplos: Sem Poupar Coração (Não quero mais/ Ouvir quem diz/ Que o amor é só/ Pra ser feliz/ Angústia ou paz/ Prazer ou dor/ Eu quero é mais/ Morrer de amor// Eu quero amar demais/ Sem poupar coração/ Que pra mim o amor que apraz/ É uma louca paixão/ Um amor só satisfaz/Além da razão.), ou Mundo de Dentro (…/ Cego é quem olha pro mundo e o mundo se põe como centro sem enxergar um segundo o mundo do mundo de dentro/ Cego só vê a medida do que alcança a visão, não olha nunca pra vida com olho do coração).

Veja Quebra-Mar com Dori e Renato Braz, em show no Teatro Espaço Tom Jobim, RJ, 2010, postado por Liza Hilel no YouTube.




Nana canta Sem Poupar Coração, de Dori e Paulo Cesar Pinheiro:




Maria Bethânia canta É o Amor Outra Vez:

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

The Boy in the Bubble por Peter Gabriel

David Vetter, o menino que viveu dentro da bolha
David Vetter nasceu com um problema no sistema imunológico impedindo-o de ter algum contato com o mundo externo. A Nasa construiu uma modalidade de bolha em que o ar era triplamente filtrado para impedir que entrasse algum tipo de germe nela. Foi o que o destino reservou ao pequeno David: viver dentro de uma bolha. Para que pudesse “dar uma voltinha” de vez em quando, como qualquer criança normal, criaram uma roupa especial para que pudesse sair da bolha, mesmo que, por alguns momentos. Tentaram um transplante de medula, sem sucesso. David viveu doze anos.

Produziu-se um filme inspirado nesse episódio, com John Travolta, em 1976. Nesse ano, David ainda estava vivo. A imagem da bolha é sugestiva: é bolha porque, numa hora, estoura. Em 1986, Paul Simon lançou Graceland. Não é o pioneiro em mesclar sons africanos com os ocidentais. Conseguiu, no entanto, um equilíbrio raro, bem diferente da música tipo “pacote turístico”. A quantidade de músicos, partícipes do projeto, é algo surpreendente. É uma verdadeira “legião estrangeira” e são de vários gêneros musicais, aparentemente, irreconciliáveis. Fizeram parte dele desde músicos associados ao country-folk, como Linda Ronstadt, Everly Brothers, “roqueiros” como Adrian Belew, jazzistas como John Faddis, Lew Soloff, Ronnie Cuber e Randy Brecker, e, principalmente, africanos das mais diferentes etnias. Graceland não atingiu o primeiro lugar nos EUA, mas na Inglaterra, no Canadá e na França, sim. Mesmo, depois de tanto tempo, resiste bem. Pois, quem abre o disco é uma música chamada The Boy in the Bubble, composição de Paul com o africano Forere Motloheloa. É excepcional. Tem uma levada que combina o som do acordeão de Motloheloa com um baixo, contagiante. Os dois opostos combinam-se: a natural melancolia da voz de Simon e a “expansividade” dos sons africanos.

Paul Simon: a calvície não é 
exclusividade de Peter Gabriel
Não há na música alguma alusão clara ao drama do garoto da bolha. Só se “The way we look to a distant constellation/ That's dying in a corner of the sky,/ These are the days of miracle and wonder/ And don't cry baby don't cry/ Don't cry”, ou “Medicine is magical and magical is art think of/ The Boy in the Bubble/ And the baby with the baboon heart” têm algo a ver com o caso de David ou de outro que teve problemas semelhantes.

Depois de um tempo sem gravar, sem muito estardalhaço, Peter Gabriel lançou Scaratch My Back. O tempo “fez coisa”. Assumiu a calvície, os cabelos embranqueceram e, hoje cultiva um charmoso cavanhaque. Passa a impressão que está em paz consigo. O plot de Scratch My Back (já falei sobre isso em outro post: http://bit.ly/g0Jzhd) foi o de gravar covers. Uma das escolhidas foi The Boy in the Bubble. Sua interpretação segue a tônica do resto do CD. É um disco melancólico, no geral; em algumas horas, dramático. Os arranjos orquestrais são de John Metcalfe, músico que participou do Durutti Column, de Vini Reilly. Está explicada a razão de tanta melancolia.

Em certas coisas, as pessoas não mudam demais. Se se pensar na carreira de Gabriel desde a banda Genesis, mesmo em músicas que são “para cima”, como Sledgehammer ou Shock the Monkey, há um componente dramático (principalmente) e melancólico.

Não existe um registro de boa qualidade em vídeo de The Boy in the Bubble (esse, de Verona, deve ter sido captada pela câmera de um telefone celular, mas se alguém tiver curiosidade, acesse http://bit.ly/hjsLZE).  Outra opção é ouvi-la no YouTube, apenas com a imagem da capa.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sabrina Starke é jazz?

A surinamesa Sabrina Starke
Nem todo mundo que é distribuído pela Blue Note é jazz. Antes, especializada nesse gênero, moldou-se aos tempos mutantes e, procurando novos mercados, tem gravado discos de intérpretes cujo repertório fica num meio caminho. É o que chamam de crossover. A procura por novos mercados fez com que as gravadoras, frente a blitzkrieg do rock a partir dos anos 1960, tentassem vias em que a linguagem do jazz ficasse mais palátavel a um público maior.

Muitos registros da Blue Note, nos anos 1960, são resultado da permealidade de músicos jovens que estavam com os ouvidos atentos às novidades dos ritmos mais populares que derivavam do blues e do rhythm’ blues. Cantaloup Island, antes de ficar conhecida mundialmente através da gravação do US 3 (não por coincidência, pela Blue Note), quando composta por Herbie Hancock, já era funky.

Sabrina Starke, nascida no Suriname, iniciou a carreira na Holanda. Seu disco, Yellow Brick Road, chamou a atenção dos americanos e foi relançado pela Blue Note nos EUA. Ela faz parte de uma corrente da qual fazem parte Norah Jones, Melody Gardot e Lizz Wright. Como elas, tem voz agradável. O registro de cantora negra a aproxima um pouco de Wright, apesar desta ter uma voz mais poderosa. Yellow Brick Road foi lançado no Brasil e não custa caro. Vale a pena. Essa bela cantora tem personalidade.

Veja e ouça Sabrina Starke cantando Do for Love.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A luz de Ornette Coleman

Nas situações mais inesperadas ocorrem as coisas mais inusitadas. O quarteto de Ornette Coleman se apresentava no Sesc-Pinheiros, SP, e, subitamente, acabou a luz. Não sei se a queda de energia aconteceu no teatro ou na região. A música foi interrompida, de chofre, e acenderam-se as luzes de segurança. A plateia ficou em silêncio, como os músicos. De repente, Ornette começa a tocar, acompanhado do baixo acústico e sons discretos da bateria. Lonely Woman interrompeu o silêncio e o público, como que hipnotizado, apenas ouvia o som e não podia vê-los. Foi um momento mágico. Essa é para não esquecer.

Belo paletó, Ornette
O disco mais famoso e conhecido – e nem tão ouvido – é Free Jazz – A Collective Improvisation by The Ornette Coleman Quartet. Representou uma revolução em 1961, quando foi lançado. São dois quartetos tocando cada um em um dos canais do disco: no esquerdo, o saxofonista, Don Cherry no trumpete, Scott La Faro no baixo e Billy Higgins na bateria; no direito, o grande Eric Dolphy na clarineta baixo, Freddie Hubbard no trumpete, Charlie Haden no baixo e Ed Blackwell na bateria. É um bando de figurões. O propósito era de que o som fosse resultado de uma improvisação coletiva, free, como explicitava o título. Uma pintura de Jackson Pollock, um dos mestres da action painting ilustrava o miolo do LP.

Mesmo que esse disco represente o lado free do jazz, Ornette não foi tão radical quanto outros que surgiram concomitante ou posteriormente como o pianista Cecil Taylor, Albert Ayler ou Anthony Braxton. Mas o que vale é o significado simbólico desse disco, como uma ruptura numa época em que os músicos de jazz se viram “pressionados” pela nascente onda do rock e porque a arte, no fundo, a pintura, a literatura ou a música necessitam dessas renovações para evoluir e enriquecer suas linguagens.

Tampouco, quer dizer que não tenha sido radical. Na verdade, Coleman sempre foi uma dessas figuras inquietas da música. Em 1977, lançou Dancing in Your Head, cujo tema é repetido indefinidamente e sem interrupção por mais de 25 minutos. É bem diferente do som que os “eruditos” Steve Reich e Philip Glass propunham. Ambos, cuja música era rotulada também de minimalista, faziam uma música climática, hipnótica. Com Ornette era barulho mesmo, algo como uma música circular, sem algum propósito mântrico: o tema é energicamente martelado em nossos cérebros por uma banda composta por duas guitarras, baixo e bateria. Midnight Sunrise, a composição que completa o disco, é uma música tocada com os Músicos Mestres de Joujouka, do Marrocos.

Se alguns que o conhecem esperavam que ele surgisse com um vistoso paletó cheio de cores ou azul acetinado, viram um Coleman sóbrio vestido em um costume preto risca de giz. O restante da banda é relativamente jovem. Mesmo seu filho Denardo, o baterista, que toca desde os doze anos com o pai (um veterano, então), o mais velho, é um jovem de 56 anos, mas aparenta uns vinte a menos. No programa, constaram várias composições conhecidas como The Sphinx, Chronology, Peace, Song X e Turnaround, mas não seguiram a ordem que constava no programa. Não sou um especialista no repertório de Ornette como o amigo Sieiro, que deve conhecer tudo dele e de uma enormidade de músicos avant garde. Não consegui reconhecer vários temas apresentados no domingo. Uma que não conhecia chamou-me a atenção pelo fato de sua introdução ser o primeiro movimento da Suite nº 1 para cello de Johann Sebastian Bach. Constava no programa uma música chamada Bach. Devia ser essa. Bem dito: no início, era Bach, depois, puro Ornette.

Saindo do teatro, encontramos os semáforos quebrados nas proximidades da Rua Pinheiros e Teodoro Sampaio com a avenida Brigadeiro Faria Lima. A pane elétrica foi no bairro e não no teatro, quem sabe causada por Coleman tocando um tema “elétrico” demais; no exato momento em que acabou a luz e acenderam-se as de segurança.

Ouça o clássico Lonely Woman:

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O “maluco beleza” Willie Nelson

Willie pode pegar dois anos de cadeia
Saiu uma notícia sábado, na internet, de que o cantor Willie Nelson foi preso portando 170 gramas de maconha. No histórico dele, consta outra detenção, em 2006, portando 700 gramas de maconha e 91 gramas de cogumelos alucinógenos. Se for para consumo próprio, realmente, Willie, com seus 77 anos, deve, depois de morto, servir de cobaia para pesquisadores. Ou é uma prova viva de que a maconha serve mesmo a propósitos medicinais.

Willie Nelson não está na lista de cantores que ouço com frequência, mas é inegável seu valor. Tenho uns dois discos dele e um DVD com Wynton Marsalis. Lá, bem longe, na década de 1980, quando o CD começava a substituir os velhos discos de vinil, ganhei um disco dele cantando standards. Naquele tempo não era tão comum os discos de intérpretes da música popular gravando clássicos mais conhecidos entre os apreciadores de jazz. Stardust foi um dos primeiros CDs que tive. Por incrível que pareça, não só gostei como teve a serventia de diminuir meu preconceito em relação à música chamada country. Em relação a esse gênero e à folk music, meu limite era Crosby, Stills & Nash, Neil Young e Credence Clearwater Revival.

Além de Stardust, todas elas são clássicos: Georgia on My Mind, Blue Skies, All of Me, Unchained Melody, September Song, On the Sunny Side of the Street, Moonlight in Vermont, Don’t Get Around Much Anymore e Someone to Watch Over Me. É difícil “estragar” essas músicas. Alguns conseguem, o que não é o caso do velhinho “maluco beleza”.

Vejam Willie cantando Stardust (versão original)…



… ao vivo



… e Blue Skies.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A apresentação de Jeff Beck no Via Funchal, SP

Achei que Jeff Beck tinha se apresentado no Brasil antes, mas não. Disse, no show, que ocorreu em 25 de novembro no Via Funchal, ser a primeira vez. As apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo aconteceram por conta do lançamento do último CD Emotion and Commotion. Não o ouvi ainda, mas a crítica tem elogiado o disco, que apresenta algumas canções não exatamente do repertório do rock, como a conhecida ária Nessum dorma, da ópera Turandot, de Puccini, e Over the Rainbow, clássico de Harold Arlen e letra de E.Y. Hayburg. Além da banda, conta com uma orquestra, trilhando a onda que costumam chamar de crossover, atraindo, tanto os “roqueiros” flertando o formato erudito, como o contrário, casos de Yo-Yo Ma e Gidon Kremer, ou de cantoras consagradas no universo clássico como Jessye Norman, Barbara Hendricks, Frederica von Stade… bom, a lista é bem grande. Nessum dorma, por ser um tema belíssimo e tão popular, se não me falha a memória, foram registradas por Branford Marsalis e Grover Washington, músicos ligados ao jazz.

Jeff adora uma roupa sem manga
Em razão da generosidade do meu amigo Jay Horvath, convidado por ele, fui ver o show. Foi uma mescla de alguns sucessos consagrados, como Led Boots, do clássico do fusion, Blow by Blow, de 1974, e músicas do novo CD. Beck iniciou com Plan B, bem pauleira, para esquentar a plateia, que respondeu com entusiasmo. Seguiu com Corpus Christi Carol e Hammerhead, do novo álbum, desconhecidas do público. Esquentou mesmo com um solo performático da baixista Rhonda Smith, craque no palco em vista da experiência de ter tocado na banda de Prince. Tal Wikinfeld, a baixista anterior, uma lourinha com cara de menina, é mais técnica que Rhonda, mas com maior presença, vestida de preto, calça justa, gestos e poses. Narada Michael Walden é um poderoso baterista substituiu Billy Cobham na banda de John McLaughlin na época do Mahavishnu Orchestra) e tocou anteriormente com Beck em Wired, na década de 1980. É também músico de estúdio requisitado (tocou em discos de Diana Ross, Mariah Carrey, Aretha Franklin e Whitney Houston. Ambos dão um peso considerável ao conjunto do som. Complementa a banda o experiente Jason Rebello, que acompanhou vários músicos de jazz e também, Sting.

Os destaques do show foram a citada anteriormente, Over the Rainbow, People Get Ready, clássico de Curtis Mayfield, e I Want to Take You Higher, poderosa composição conhecida na interpretação de Sly and The Family Stone. O ponto negativo, segundo meu ponto de vista, foi um canhestro How High the Moon, clássico do jazz. Quando Beck empunhou a Gibson Les Paul, imaginei que fosse acontecer algo de muito especial (só tinha o visto com a Fender Stratocaster). Soltaram um vocal absurdamente feio em playback para a performance da banda. Horrível. Não fosse isso, teria sido um show irrepreensível.

Para fugir do trânsito pós-show, não assisti ao último bis: Nessum dorma. Fui na do amigo Jay: melhor perder uma música do que ficar uma hora preso no trânsito da saída. Há um vídeo disponível com orquestra da ária de Puccini. Confira.



Jeff Beck e a baixista Rhonda Smith:




Jeff Beck toca Led Boots com a antiga baixista, Tal Wikenfeld.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jeff Beck no Brasil

Esse texto foi publicado no blogue do jornalista Paulo Moreira Leite, no ano passado, e, aproveitando a vinda de Jeff Bek ao Brasil – apresenta-se hoje no Via Funchal, São Paulo – estou republicando no meu blogue. Os comentários são mais em cima de sua breve aparicão em Blow Up, de Antonioni.


Em uma cena do filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni, o fotógrafo protagonizado por David Hemmings, vai parar num bar em que a banda de rock Yardbirds está tocando a música Stroll on. Dois de seus componentes, além de Eric Clapton, transformaram-se, mais tarde, em ícones da guitarra no rock. Os ingleses Jimmy Page, Jeff Beck e Clapton formam o grande trio da guitarra e, por coincidência, ou porque o mundo é muito pequeno, tocaram na mesma banda, os Yardbirds. Por conta do destino, Jimi Hendrix, aquele que é considerado o melhor guitarrista de todos os tempos, iniciou sua carreira na Grã-Bretanha, apesar de ser americano de Seattle. Todos moravam na mesma cidade em meados da década de 1960.

Jeff Beck, um ego do tamanho de sua habilidade
Por outra obra do destino, dos três ingleses, o mais prestigiado naquela época, ficou para trás. Clapton, que foi “Deus”, e Jimmy Page, que se consagrou no Led Zeppelin, ficaram mais famosos que Jeff Beck. Várias razões contribuiram para que isso acontecesse. Uma delas, provavelmente, foi o ego “gigante” de Beck e, consequentemente, sua dificuldade de trabalhar com pessoas que pudessem concorrer com ele. Em Blow Up, o amplificador Vox da guitarra de Jeff Beck começa a “chiar”. Ele se irrita, esmurra o amplificador, arrebenta a guitarra e a lança em direção à plateia. O público briga avidamente para pegar a guitarra destruída. O fotógrafo consegue pegá-la. Thomas – que deve ter sido inspirado no grande fotógrafo da “swinging London”, David Bayley – sai com ela e depois, joga-a no lixo. É claro que, sendo Antonioni, aquele objeto fetichizado tem um significado: jogá-lo fora é desprezar as idolatrias ou seus objetos. Numa entrevista, anos depois, Beck disse que odiou Antonioni, dizendo ser ele um cara “metido a intelectual” ou qualquer coisa parecida. Vejam, a “subversidade contracultural” de Antonioni não foi entendida pelo jovem Beck.

Depois desse filme, lançado em 1966, Antonioni dirigiu outro grande filme “contracultural” no seio dos Estados Unidos. Zabriskie Point, produzido pelo marido de Sofia Loren, o produtor Carlo Ponti, é a própria síntese daquele tempo, retratando revoltas estudantis, intermináveis assembleias, movimentos libertários contra a segregação racial. Zabriskie tem um dos finais mais impressionantes do cinema. Um palacete construído no alto de uma montanha, em que capitalistas discutem sobre um grande projeto imobiliário, explode em bilhões de partículas que voam pelos ares em camera lenta acompanhado pela música “psicodélica” de Pink Floyd. Antonioni era um cara antenado, atento aos movimentos do mundo. Ao mesmo tempo em que Godard fazia sua A Chinesa do outro lado do oceano, num discurso caracteristicamente na tradição europeia do pensamento, o italiano Antonioni foi à América para tentar entender o movimento contracultural americano in loco.

A “aparição” de Jimi Hendrix foi “mortal para o “Deus” Clapton. Eric ficara tão impressionado com Jimi, que quase desistiu de continuar a tocar guitarra. O alcool e as drogas não conseguiram destruí-lo e está até hoje na ativa. Deus foi bondoso com ele, pois sobreviveu a Jimi e a tudo. Deus também tem sido bondoso com Jimmy Page. Ele continua inteiro e ainda é referência para várias gerações de novos guitarristas. Jeff Beck, que era o grande do meio dos anos 1960, não teve a glória de seus conterrâneos britânicos e não é, por isso, menor. Continua um grande guitarrista, mas tem uma carreira, por vezes, errática. Tem grandes discos e um deles é o instrumental Blow by Blow, de 1975.

Jeff Beck é um estranho na seara do chamado jazz-rock,  jazz-fusion, jazz-progressivo, e outros “jazzis”. Nomes associados a esses gêneros são músicos de jazz que absorveram a linguagem do rock, como Chick Corea, Joe Zawinul, Herbie Hancock ou Miles Davis. Mesmo assim, Beck, músico nascido sob a influência do rhytm-blues americano, gravou um dos melhores discos fusion de todos os tempos. Acompanham Beck o tecladista Max Midleton, o o baixista Phil Chen e o baterista Richard Bailey. É um belo showcase das habilidades do guitarrista. Há uma química fenomenal com o Fender Rhodes de Middleton e os sons de Beck. A produção do mestre George Martin é perfeita. Abusa-se dos efeitos do estéreo nos sons que saem do piano elétrico: dançam nos canais esquerdo e direito, “etereamente”, flutuando sobre a marcação firme do baixo e da bateria. Beck tem um jeito diferente de tocar, recorrendo pouco da paleta, usando bastante o dedão (usa três dedos, incluindo o polegar) e, abusando da alavanca para distorcer o som, produzindo uma verdadeira miríade de sons possíveis. Além da infinidade de sons que Beck tira de seu instrumento, Blow by Blow é uma coleção de climas que se associam à sugestibilidade de títulos como Air Blower Scatterbrain e Freeway Jam. O momento mais belo, no entanto, é em ’Cause We’ve Ended as Lovers, de Stevie Wonder. É um clássico inesquecível. Para quem não conhece, creia, é um pedaço do paraíso.

Vejam Jeff Beck em ’Cause We’ve Ended as Lovers no Ronnie Scott. Pena que a baixista Tal Wilkenfeld não está mais com ele. Prestem atenção em sua performance.



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O caminho difícil de Sharon Jones

Quando James Brown morreu, disseram 
que seu corpo tinha desaparecido do túmulo
Se dizem que este mundo é pequeno – e, realmente, são surpreendentes coincidências do destino –, imagine-se um encontro de James Brown preso por ter dado uma surra na sua mulher com a carcereira Sharon Jones. Brown está morto e, sabe-se lá se perdoado pelos pecados cometidos na terra, e Jones não trabalha mais na cadeia. Mas o encontro dos dois teria resultado num belo som.

Coisas do destino, minha nega
Jones nasceu em 1956 e quem a ouviu ou acaba de conhecê-la, achará estranho nunca ter ouvido falar dela antes, se é tão boa cantora. Como muitas pessoas pobres de ascendência negra, cresceu frequentando e cantando em corais de igrejas. E como tantas outras de sua idade, cresceu ouvindo músicas lançadas pelas gravadoras Stax e Motown, tendo como ídolos James Brown, Otis Redding e Sam Cooke.

Para não sair tanto do script, quis ser cantora. Além de cantar na igreja, fez backing vocals para diversos intérpretes. Mas quando imaginou que poderia gravar discos sob seu nome, ouviu coisas como “você é muito negra e gorda” ou “você não é bonita” etc.

O tempo foi passando e notou que aquilo de tornar-se cantora não era para ela. Foi pegar no pesado e, pelo seu porte físico, quem sabe, poderia trabalhar na polícia. Passou no teste e virou carcereira de uma penitenciária em Nova York (nascera na Geórgia, mas cedo mudara para essa cidade). Depois, ainda, trabalhou de segurança de carro-forte do tradicional Wells Fargo Bank.

Nem todos os Daps são negros
Gabriel Roth e Philip Lehman eram donos de um selo francês, a Pure Records. Em 1996, para o álbum que estavam gravando com o cantor soul Lee Fields, precisavam de três cantoras para os backing vocals. Uma delas era Sharon, que deixou os produtores impressionados com sua voz. Gravaram uma faixa apenas com ela intitulada Switchblade, que foi incluída em Soul Tequilla, disco da banda Soul Providers.

Sharon não caiu das nuvens. Tinha sido casada com um saxofonista componente do Soul Providers, que lembrou dela quando os produtores precisaram de vocalistas para os backings. Os donos da Pure resolveram montar uma nova gravadora nos EUA e chamaram-na de Desco. Dois membros da banda Mighty Imperials se juntaram ao Soul Providers e mudaram o nome para Dap-Kings, e a Desco  virou Daptones. Já como Sharon Jones & The Dap-Kings, gravaram dois álbuns, um em 2001 (Dap-Dippin’), e outro em 2005 (Naturally). Quando lançaram 100 Days, 100 Nights, em 2007, Sharon e a banda já eram muito prestigiadas por uma legião de fãs, bem como pela crítica especializada.

Não foi obra do acaso o som dos Dap-Kings chamar a atenção de Mick Ronson, produtor de Amy Winehouse. O som sessentista dessa banda não fazia feio comparado às que acompanharam Otis Redding, Wilson Pickett e outros reis do funk e do soul. Por obra do destino – ou das conjunções – Sharon Jones ficou conhecida, por tabela. Que eram os tais Dap-Kings. E assim cumpriu-se o destino de Jones, que quisera ser cantora e gravar um disco. Tardiamente, mas nunca é tarde. E quem a ouve, surpreende-se, pois parece que nasceu feita.

A primeira faixa do disco 2007, 100 Days, 100 Nights, é um aviso do que virá. A combinação dos sopros, trumpetes e saxes em riffs contagiantes e o sax-barítono fazendo o contraponto grave aos sons agudos é eletrizante. A voz vigorosa de Sharon tem personalidade e ela é a rainha. Até na pose da capa, com vestido dourado cintilante e sandálias idem, isso fica claro.

Com caras de homens maus, em costumes pretos e blusas vermelhas de gola olímpica, posam atrás de Sharon Jones que, mais uma vez, faz aquela pose de “eu posso”, altiva, queixo levantado, uma das pernas pouco a frente da outra, pouco mais gordinha do que no disco anterior, em I Learned The Hard Way. O título é perfeito para essa cantora que o destino e as circunstâncias revelaram. O disco é bom, mas não tão impactante como o anterior. Soa, às vezes déjà vu, lembrando ora Marvin Gaye; ora os Dap-Kings parecendo uma emulação da fabulosa banda que acompanhava Otis Redding. A música, no entanto, é uma realimentação do que já foi feito. As brancas Joss Stone e Amy Winehouse são exemplos. Mesmo assim, fazem boa música; que é o mais importante.

Ouça Money. Tem um pouco de Al Green, um pouco de Marvin Gaye. E daí? É da boa.