terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Um gostinho de mel com os Beatles, Lizz Wright, Tony Bennett e outros

Bobby Scott na capa de seu último disco
Poucos conhecem Bobby Scott. O Alberico Cilento me deu uma cópia de From Eden to Canaan (Sony, 1976). Dono de uma voz forte e grave, lembra um pouco a de Barry White, ou o contrário, já que lhe é anterior. O repertório é relativamente desconhecido, com exceção de Autumn Leaves, Man of Constant Sorrow e New York State of Mind, de Billy Joel. Não tenho maiores referências: sem a ficha técnica e quase nenhuma informação na internet.

Procurando no iTunes, encontrei For Sentimental Reasons (MusicMasters, 1990), tributo a Nat King Cole, lançado no ano em que morreu, vítima de um câncer de pulmão, aos 53 anos. Na capa, Bobby está com um cigarro na boca. Pesquisando um pouco mais, descobri que, além de cantor, tocava piano e compunha. Pessoas mais bem informadas que eu, como o Alberico, o conheciam pelos discos mais jazzísticos que lançara pela Bethlehem, Verve e Mercury.

Bobby Scott, considerado músico prodígio, começou a estudar composição com oito anos e com onze  passou a se apresentar profissionalmente. Com 15, estava tocando com Louis Prima. Gravou vários discos com participações de músicos como Charlie Mariano, Tom Scott, Gene Krupa, Eddie Bert, Hal McKusick e Milt Hinton, como pianista, compositor e arranjador. No início dos anos 1960, começou a trabalhar com Quincy Jones, afastando-se um pouco do jazz. Foi nessa época que compôs A Taste of Honey. Outro hit de sua autoria é He Ain't Heavy He's My Brother, composto com Bob Russell. A versão mais conhecida é com The Hollies.

Ouça He Ain't Heavy He's My Brother.


Nem lembrava de A Taste of Honey; até ouvir a primeira do álbum Dreaming Wide Awake (2005), de Lizz Wright. Primeira do disco: maravilhosa. E que voz! (http://bit.ly/1hxTBns). Conhecia a música. Mas, de onde?… quando? Em um daqueles lampejos randômicos, lembrei-me dos Beatles. Era, no entanto, algo “não muito Beatles”. Estava no primeiro álbum dos garotos de Liverpool: Please Please Me, de 1963. Vejo no encarte do disco de Lizz que é de Ric Marlow e Bobby Scott. Bobby Scott? Aquele mesmo que o Alberico tinha me dado uma cópia em CD?

Gosto de ouvir a mesma canção com músicos diferentes. Gosto de comparar, sentir como cada um “a entende”. Saí na caça e descubro que é um quase standard. E não são “zé-ninguens” os intérpretes: Tony Bennett, Sarah Vaughan, Chet Baker, Julie London e, evidentemente, Os Beatles.

Ouça a dos Beatles, em primeiro lugar.




Ouça a de Lizz Wright.





A de Tony Bennett. Maravilhosa.




A de Sarah Vaughan. Boa, também.




Chet Baker.





A versão mais conhecida de A Taste of Honey, no entanto, é a instrumental de Herb Alpert e The Tijuana Brass. Veja.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quase matam Horace Silver

Horace Silver
Uma semana depois da morte de Jim Hall, surgiu a notícia de que Horace Silver tinha falecido (hoje, 17/12). A notícia provou-se falsa. Sua gravadora oficial, a Blue Note, desmentiu. Está “vivinho da silva”. Aliás, seu nome verdadeiro é Silva. Mais velho dois anos que Jim Hall, é outro que, quando morrer, de fato, será manchete na imprensa especializada. Silver faz parte da história como um dos grandes pianistas da história do jazz, não só como instrumentista, mas como compositor. Muitos são virtuoses em seus instrumentos, mas não são numerosos os que possuem composições que se tornaram clássicos. Silver é autor de temas como The Preacher, Señor Blues, Opus De Funk, Doodlin’, Peace, e Sister Sadie.

Houvesse nascido em algum país de língua portuguesa seu nome seria Horácio Silva. O Carlos Conde adorava brincar com isso. Seu pai veio de Cabo Verde, antigamente, colônia portuguesa. Casou-se com uma descendente de negros e irlandeses. Horace Ward Martin Tavares Silva adotou como nome artístico Horace Silver. Poderia ter mantido o “Silva”, como seu colega, o baixista Alan Silva, filho de mãe açoriana.

Horace Silver e Art Blakey são considerados os criadores de um gênero, o hard bop. Uma geração que cresceu ouvindo rhythm and blues e a música gospel incorporou esses ritmos ao jazz. Era uma reação, de certo modo, ao cerebralismo do bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O estilo vibrante de Blakey casou perfeitamente com as composições e a forma mais percussiva e ritmica de Silver.

The Preacher, de Silver, lançada em 1955, é considerada o tema que “inaugura” o hard bop. Ouça.




Logo depois que surgiram notas anunciando o falecimento de Horace Silver na internet, um blogueiro entrou em contato com Gregory, filho dele. Disse que “tomando café e fazendo o desjejum nesse momento.” Que bom, pois os fins de ano são pródigos em matar pessoas.

Ouça outro clássico: Opus De Funk.



Pianista dos bons, mesmo tocando outros: ouça Silver em Prelude to a Kiss, de Duke Ellington, acompanhado por Curly Russell, Percy Heath e Art Blakey.



Veja Silver com Blue Mitchell e Junior Cook em sua composição Señor Blues.



Silver interpreta Song for My Father.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Miles Davis elétrico e Sonny Fortune

O passado me condena: os primeiros Miles Davis que gostei foram os dos anos 1970: Agharta e Get Up with It, dois álbuns que não devem estar entre os preferidos da maioria. Charlie Parker, conhecia de nome. Tinha curiosidade de ouví-lo depois de ler O Perseguidor, conto de Julio Cortázar (veja em http://bit.ly/ICzw2X), de quem era fã incondicional. Era fã dele, de Jorge Luis Borges e de Alejo Carpentier. Os latino-americanos estavam em alta no meio dos estudantes da USP, a ponto de existir uma banquinha montada pela Ciça que vendia livros de arquitetura e também de Roa Bastos, Juan Carlos Onetti, Eduardo Galeano, Lezama Lima e outros autores que não publicados em português.

Os dois Miles foram os primeiros de quase uma centena que hoje tenho dele em CD. Multiplique por dois, pois os primeiros eram no formato LP, ou vinil, como são chamados atualmente, com a onda revivalista, os velhos bolachões 33 rpm. Minhas primeiras aquisições jazzísticas – os puristas não diriam que era jazz –, além desses, foram álbuns do Return to Forever, Weather Report e Jeff Beck, coisas do tipo. O inglês, um dos grandes da cena do rock britânico, com Eric Clapton, Jimmy Page e Pete Townsend, ao contrário deles, não cantava. Em 1975, lançou Blow by Blow, exclusivamente instrumental. Foi sucesso de vendas e ganhou fãs que curtiam o jazz fusion.

Veja Jeff Beck tocando Cause We’ve Ended As Lovers, de Stevie Wonder, uma das melhores faixas de Blow by Blow, em apresentação no Ronnie Scott. O nome da baixista é Tal Wilkenfeld. Pena que, quando veio ao Brasil, Tal não estava mais na banda.



Antes disso, quando ainda estava fazendo o cursinho preparatório para o vestibular, conheci Lucila W. Ela tinha o que eu não tinha: condições financeiras para viajar para fora. Bem antes da era Lula, viagens eram coisa para pessoas da classe média alta, a qual não pertencia. Os primeiros discos da banda inglesa Soft Machine e do Weather Report os conheci por seu intermédio. Emprestou-me e os gravei. É um débito que tenho com ela. Continuamos amigos por um bom tempo e como viajava sempre, cada volta, significava novos sons a descobrir.

Capa de Get Up With It
O Miles Davis elétrico

Agartha é a gravação de um show em Osaka, em 1º de fevereiro de 1975. Get Up with It é um apanhado de gravações de estúdio entre 1972 e 1974, com formações diferentes, mas no básico, seus músicos são quase os mesmos da banda que se apresentara no Japão: Sonny Fortune (sax soprano, sax alto, flauta), Michael Henderson (baixo Fender), Pete Cosey e Reggie Lucas (guitarras), Al Foster (bateria), e Mtume (percussão). Em Get Up with It, em várias faixas, a guitarra era de John McLaughlin, que fora indicado por Tony Williams.

Ouça os 30 minutos iniciais de Agharta.



Em 1974, Miles apresentou-se no Theatro Municipal de São Paulo, com a mesma formação (não tenho certeza absoluta) e, nessa altura, seu problema com as drogas tinha se agravado de tal maneira que uma ambulância ficou estacionada no teatro, caso acontecesse alguma coisa. Sergio Porto, o Stanislau Ponte Preta, uma vez escreveu: “Uma feijoada, para ser completa, precisa de ambulância na porta.” Mais ou menos assim, era a frase. Miles não tinha comido uma feijoada, mas estava um caco, com sérios problemas de saúde e nem tinha chegado nos 50, não se sabe como. Não muito tempo depois, retirou-se dos palcos e retornou só em 1981 com o álbum A Man with the Horn.

No show do Municipal, fãs do velho Miles saíram no meio e os jovens, que mal o conheciam, ficaram extasiados com aquele som. Foi a iniciação de muita gente no jazz, por vias tortas, é certo. Continuei minha coleção do trumpetista pela fase de transição para o elétrico: Filles de Kilimanjaro, In a Silent Way e Jack Johnson; Bitches Brew também, pois quem não conhecia, como se dizia, “estava por fora”.

A EMI tinha lançado uma série de jazz do selo Capitol. Foi meu primeiro contato com Coleman Hawkins e o Miles do início da carreira. Não era bem dele. Era um dos que participava do clássico The Birth of the Cool, com Gerry Mulligan, John Lewis, J.J. Johnson, Gunther Schüller, Lee Konitz, dentre outros. Um outro selo distribuiu um álbum duplo de Miles Davis chamado The Tallest Trees. As “árvores mais altas” tinham nome: Thelonious Monk, Sonny Rollins, Horace Silver e Milt Jackson, além de Davis. Foi a minha rendição. Para chegar nos registros de Davis com Charlie Parker pela Dial Records foi um passo. Percebi que aquele som que parecia careta aos ouvidos de um adolescente que estava entrando na faculdade era revolucionário.

O jazz se encontrava em uma encruizilhada face a mudança da indústria da música ocorrida a partir dos primeiros rebolados de Elvis Presley. Alguns preferiram ignorá-la ou maldizer. Mas era um fenômeno avassalador. Sobrou para o jazz. Miles Davis encantou-se com a nova música que surgia pelas mãos de Jimi Hendrix e do Sly and The Family Stone. Antes mesmo de Bitches Brew, considerado o “disco da virada”, essas influências se apresentavam nos anteriores Filles de Kilimanjaro e In a Silent Way.

Sonny Fortune no saxofone alto
Ainda com alguns dos remanescentes do quinteto anterior – Wayne Shorter, Herbie Hancock e Tony Williams –, acrescentou guitarras (John McLaughlin), baixo elétrico (Dave Holland), e teclados eletrônicos (Chick Corea e Joe Zawinul). Hancock resistiu, Foi demitido, readmitido e curvou-se à vontade do chefe. Meio que a contragosto sentou-se no banquinho do piano elétrico. Quem diria: Hancock foi um dos mais radicais nos experimentos com os novos instrumentos que surgiam e foi um dos pioneiros em incorporar a música que nascia nas ruas e nos guetos americanos.

Calcado em solos e ritmos frenéticos das guitarras de Pete Cosey e Reggie Lucas, e longos acordes no órgão, Miles mais uma vez, revolucionava a linguagem da música instrumental em Agharta. Os outros da banda eram Michael Henderson no baixo elétrico, Al Foster na bateria, e Sonny Fortune no saxofone alto e na flauta.

Sonny Fortune

Conheci Fortune assim: tocando com Davis. Em 1975 lançou seu primeiro álbum solo: Awakening. Muito diferente da fase “esquizofrênica” anterior, o disco era bem mais mainstream. À exceção do Fender Rhodes que aparece na última faixa, todos os instrumentos eram acústicos, com um line-up de primeira, a começar pelo belíssimo piano de Kenny Barron e outro craque do mesmo instrumento participando de For Duke and Cannon: John Hicks. Era uma belíssima estreia.

Ouça Awakening, última faixa do disco.



No ano seguinte lançou Waves of Dreams. Quase tão bom, conta com o craque Buster Williams no contrabaixo. O trumpete é de Charles Sullivan, o mesmo do disco anterior. Tem mais percussão, sintetizadores mini-moog e piano elétrico, mas não a ponto de estragar.

Ouça Thoughts. É Sonny no saxophone alto.


Veja Sonny Fortune tocando Waves of Dreams no sax soprano, em apresentação de 2009.



Por razões comerciais ou por gosto mesmo, Fortune enveredou pelo funk jazz. Pegou o sax alto e começou a tocar “açucarado”, bem naquele estilo Grover Washington, David Sanborn e andou gravando coisas como With Sound Reason. No meio de música de quinta encontra-se uma pérola. É Francisco, de Milton Nascimento. Fortune, grande flautista, arrasa.

Confira.



Desisti de Fortune a partir daí. Ouvindo discos posterior, vejo, que voltou aos bons caminhos. Em Great Friends (1986), os amigos são Billy Hart, Stanley Cowell, Reggie Workman e Billy Hart. Outro, igualmente bom, é Four in One (1999), com composições de Thelonious Monk, está na companhia de bons músicos como Buster Williams, Billy Hart e Kirk Lightsey.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gustavo Pinheiro e o Art Ensemble of Chicago que não vimos

Eram raras as apresentações de músicos de jazz no Brasil antes da criação dos festivais. Mesmo assim, músicos do quilate de Miles Davis e Bill Evans estiveram por aqui. No I Festival São Paulo-Montreux, em 1978, em uma só leva vieram Benny Carter, Dizzy Gillespie, Frank Rosolino, Harry Sweets Edison, Zoot Sims, Milt Jackson, Jimmie Rowles, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine, Ray Brown, Mickey Rocker, George Duke, John McLaughlin, Hermeto Pascoal, Helio Delmiro, Luiz Eça, Etta James, Raul de Souza, Marcio Montarroyos, Stan Getz e Ahmad Jamal. Depois disso, entramos no primeiro mundo da música.

Em 1980, a antiga capital do Brasil montou o seu Rio Jazz Monterrey Festival. E as atrações não ficavam nada a dever à edição paulista de Montreux. Constavam da lista Weather Report, considerada a melhor banda do chamado jazz fusion, o “iniciante” Pat Metheny, o ex-pianista de John Coltrane, McCoy Tyner, e uma das mais conhecidas formações da avant-garde, o Art Ensemble of Chicago. Era um a programação menos mainstream do que a de São Paulo.

Não que a experiência de ver Gillespie, Frank Rosolino ou o pianista Ahmad Jamal, venerado por Miles Davis, não tivesse sido sublime. Aqui entra o Gustavo Pinheiro.

Meu amigo Domingos Darsie estudava arquitetura em Mogi das Cruzes. Por ele, conheci o Guga. Logo, por conta de gostos comuns – charuto e jazz –, ficamos amigos. Tínhamos duas paixões em comum: Ben Webster e Coleman Hawkins. Ficávamos ouvindo os discos que gravaram pelo selo Verve identificando os solos de cada um. O Guga era a única pessoa conhecida que possuía um Selmer Mark VI, o rei dos saxofones. Para a sua infelicidade, todo mundo queria “tocar” um pouco no Selmer. Ele colocava uma palheta Vandoren mais usada e deixava, fazendo cara de poucos amigos.

Ouça Rosita, com Ben Webster e Coleman Hawkins.




Ao sabermos do festival que aconteceria no Rio, combinamos de ir. O Domingos era uma peça chave na história: apesar de detestar pop e jazz e ter uma paixão doente por música erudita tinha que topar em ir conosco. Sua tia era dona de um pequeno quarto e sala na rua Barata Ribeiro. Bom, mas éramos três: eu, o Guga e o “dono”. No quarto havia uma cama de casal e um sofá na sala. O Domingos já foi falando que a cama de casal era dele. Como disse, era o “dono”. De três, passamos para cinco. A Marcia G, colega de turma dos dois na faculdade, estava no Rio e decidiu ficar conosco. A Marcia conhecia o Pipoca, diretor de TV dos shows musicais da TV Cultura, que não tinha onde se hospedar. Imagine cinco em 30 metros quadrados, se tanto. Mas tudo valia para ver o Weather Report no seu auge, com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Jaco Pastorius e Pater Erskine. Outra grande atração aguardada com ansiedade era o Art Ensemble of Chicago.

O Rio de Janeiro era (é) uma festa. O festival aconteceu no Maracanãzinho. A acústica era péssima. Shows mais pesados como a do Weather Report, tudo bem, ouvia-se. O de McCoy Tyner, um dos que aguardávamos com expectativa, foi um desastre. Não se ouvia nada. A maioria dos que estavam lá não estavam nem um pouco interessados em ver o grande pianista das melhores formações de John Coltrane. Ouvia-se mais aquele burburinho de muita gente falando alto. Aqueles paulistas branquelos queriam ouvir música. Mas compensou pelo número de gente bonita e bronzeada. Os patins estavam na moda. E as meninas deslizavam seus pares de pernas pelo Maracanãzinho. Nem precisava de música.


Pat Metheny e Weather Report
Zezé Motta subiu ao palco para apresentar um “gato” (na opinião dela, claro). Era o Pat Metheny. O quase garoto de pouco mais de vinte anos já era um sucesso, conhecido até no Brasil, em razão de terem sido lançados alguns itens da ECM. O álbum mais “roqueiro” dele – American Garage – tinha acabado de ser lançado. E foi sucesso mundial. Ficou conhecido como um dos guitarristas da banda de Gary Burton. O primeiro solo – Bright Size Life –, justamente, com Pastorius no baixo, hoje, é considerado um clássico. (sobre esse álbum, leia: http://bit.ly/1b8NRAH)

Ouça American Garage, de Pat Metheny.




O Rio foi uma das cidades que fez parte da turnê do Weather Report e resultou no álbum duplo 8:30. Com Pastorius, a apresentação foi antológica, como era de se esperar. Leia em http://bit.ly/18QHIDn.

Veja o solo de Jaco Pastorius no baixo Fender fretless. Foi um dos pontos altos do Festival do Rio.




Art Ensemble of Chicago

Adicionar legenda
A AACM – Association for the Advancement of Creative Musicians – é uma organização criada em Chicago pelo pianista Muhal Richard Abrams, Jodie Christian, Steve McCall e Phil Cohran. Uma verdadeira constelação do jazz moderno e do avant garde é egressa da associação. Passaram por lá Jack DeJohnette, Leroy Jenkins, Chico Freeman, Anthony Braxton e Wadada Leo Smith. Duas bandas importantes surgiram lá: o Air (Henry Threadgill, Fred Hopkins, Steve McCall) e o Art Ensemble of Chicago (Lester Bowie, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman, Famodou Don Moye, Malachi Favors).

Pouco antes do Festival tinham lançado Nice Guys, do AEC. Era um som de vanguarda mas sem a aridez de um Peter Brötzmann ou um Cecil Taylor. Era avant garde com humor, interessante. Diziam que suas apresentações eram acontecimentos. Roscoe Mitchell era o mais discreto. o trumpetista Lester Bowie apresentava-se invariavelmente vestindo um jaleco branco, iguais aos dos enfermeiros, e os três restantes vestiam roupas de inspiração africana e pintavam seus rostos. 

Dias antes ficamos sabendo que o Art Ensemble havia cancelado a vinda para o Rio, para nossa frustração. Estávamos ávidos por vê-los. Fora isso, a viagem ao Rio foi muito boa.

Ouça Nice Guys.



Veja um trecho de uma apresentação do AEC, de 1981.







quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Jim Hall une-se a Bill Evans

Duos são comuns no jazz, nem tanto quanto na música sertaneja. São encontros de ocasião e é comum resultarem em discos belíssimos. É claro também que o encontro de dois gênios não quer dizer que, necessariamente sairá algo genial. Mas é infindável o número desses encontros fortuitos com interpretações inesquecíveis. Pode-se citar alguns recentes: ‘Mehldau/Metheny’, do guitarrista Pat Metheny com o pianista Brad Mehldau, Live in Montréal, do baixista Charlie Haden com o brasileiro Egberto Gismonti, Frank and Wess, com o nonagenário genial, recentemente falecido, aos 92 anos, , Hank Jones e o flautista e saxofonista Frank Wess. Na formação piano/sax, um dos bons registros é do CD duplo People Time, com Kenny Barron e Stan Getz, gravação de uma performance no Café Montmartre, tradicional clube de Copenhagen, poucos meses antes da morte do saxofonista em decorrência de um câncer no fígado. Um bom duo em formação “heterodoxa”, genial, é o encontro do trompetista Don Cherry – que no disco toca percussão e teclados também – com o polirrítmico baterista Ed Blackwell em El Corázon, que saiu pela ECM.

Jim Hall e Bill Evans
Agora, genial mesmo é um dos álbuns gravados pelo pianista Bill Evans e o guitarrista Jim Hall. Intermodulation merece um lugar de honra na estante de qualquer um. Bill é responsável por uma das “guinadas” de estilo de Miles Davis ao introduzir o modal no jazz. Em oposição ao bebop, que privilegiava o ritmo sob a forma de progressões de acordes em repetição que serviam de base para os solos dos instrumentos, a forma modal se desenvolvia mais sobre a melodia. Miles admirava o jeito de tocar do pianista Ahmad Jamal, que tinha um estilo diferente dos demais da cena jazzística da época e estava iniciando um trabalho com o arranjador Gil Evans. Kind of Blue é consequência desses “interesses”. Marcou história e é considerado um melhores discos de todos os tempos. Bill Evans, egresso da banda de George Russell, merecia ter seu nome na capa como parceiro de Miles, pois é a alma do disco. A estrutura musical parece mais simples do que as do bebop, mas não é: são simplesmente diferentes. Os solos se sucedem um a um como uma “corrente evolutiva”, em que o tema vai sendo desenvolvido por cada solista. O disco é a oportunidade de ouvir John Coltrane no sax-tenor, Cannonball Adderley no sax-alto e Miles no trompete “cool” no ápice de suas formas, produzindo belos solos com a preciosa companhia de Evans, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. A essência do jazz modal está na bela composição de Evans – “malandramente” assinada por Miles –, Blue in Green, em que o piano é ouvido “meio longe”. São maravilhosos o solo do trompetista e a breve intervenção de Coltrane. No processo evolutivo desse estilo contribuiram depois, não apenas os trios de Bill Evans e o quinteto posterior de Miles, com Herbie Hancock nos teclados, mas também o quinteto de John Coltrane com o pianista McCoy Tyner.

Certamente, Evans é o maior nome do jazz modal. Os álbuns de Bill com o baixista Scott LaFaro, que morreu muito cedo num acidente de carro em 1961, e Paul Motian na bateria, até hoje na ativa, com quase 80 anos, são o ápice do formato trio piano/baixo/bateria. O álbum Live at the Village Vanguard é básico para quem quiser conhecê-los.

Em 1962, gravou o primeiro disco com o guitarrista Jim Hall, Undercurrent. O jeito econômico e quase acústico da guitarra combinava perfeitamente com o estilo melancólico de Evans. Mas é no álbum Intermodulation, de 1966, que essa parceria encontrou a mais perfeita simbiose. Na composição de Evans, Turn out the Stars, a guitarra de Hall é quase “invisível”. Após o solo do piano, Hall entra com uma guitarra bem discreto, solo de poucas notas, cada qual essencial para a construção da música. Hall é o contrário de John Scofield ou Al DiMeola, que pensam que quanto mais notas melhor é o guitarrista. Hall toca o essencial, é um minimalista. Apoiado ou sentado na banqueta dedilha sua Gibson ES 175. Em Angel Eyes as notas do piano e da guitarra são apenas as essenciais, suficientes para imprimir o “mood” da composição do austríaco Joe Zawinul. Tudo é perfeito no disco, mas se existe algo “mais que perfeito”, é o registro de My Man’s Gone Now, dos irmãos Gershwin. Aos acordes iniciais de Bill e as poucas notas das cordas, sucedem a apresentação do tema que vai se desenhando em progressão para o início do solo austero e rico de sugestões de Jim, em sutis mudanças de tempo. Jim Hall é o poeta do silêncio. É intimista, como Evans. Cada nota de Hall e de Evans representa um brilho dourado e fugaz como a produzida pelos raios de sol em fins de tarde sobre a água.

Obs.: Meu amigo Carlos alertou-me sobre Paul Motian. O texto é uma republicação, para lembrar da morte de Jim Hall. Por isso, Paul Motian “está vivo”. Ele morreu em novembro de 2011.

Ouça o álbum Intermodulation na íntegra aqui.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nicky Shrire: três vezes África do Sul

Capa de Sapace and Time, Nicky Schire
No dia 5 passado aconteceram três coisas em série. Minha irmã enviou um e-mail avisando-me que iria para a África do Sul no sábado, dia 7, a trabalho. No mesmo dia ouvia pela primeira vez Nicky Shrire. Sempre gostei de coisas que me surpreendem, até negativamente. E ela me surpreendia pelo lado positivo. Querendo saber um pouco mais da moça, dei uma “googada” e percebi que ainda não é muito conhecida; afinal, nem possui um “wikipedia”. Em seu site oficial leio que nasceu em Londres, cresceu na África do Sul e, atualmente, mora em Nova York. Faz o périplo típico dos que querem ser reconhecidos no mundo da música.

Não existe exatamente uma tradição sul africana no jazz. São poucos os conhecidos. Lembro de Dollar Brand (hoje, Abdullah Ibrahim), sua mulher Sathma Bea Benjamin, cantora que ficou conhecida depois de ter impressionado Duke Ellington, e o saxofonista Hugh Masekela. Mas quem “explodiu” primeiro foi Miriam Makeba. Não era exatamente do gênero, apesar de ter sido casada com Masekela. O fato é que Makeba despertou olhares do ocidente para a absurda relação dos brancos com os negros na África do Sul. Não é casual que os holandeses tenham sido um dos principais colonizadores dos EUA e da África do Sul: a palavra “apartheid” é invenção deles.

Mais à noite leio notas de que Nelson Mandela acabara de morrer. Muita coincidência. Em minutos não há um site sem notícias e até textos mais elaborados sobre ele. Estava com 95, portanto, todos os veículos estavam com as matérias prontas. Jornalismo tem disso. Ruim é quando alguma personalidade morre de repente às 11 da noite.

Space and Time, lançado há pouco, é o segundo disco de Nicky Shrire. Há uma onda atual de cantoras bem originais como Becca Stevens (costuma apresentar-se tocando ukulele; leia em http://bit.ly/1blXHcn), Gretchen Parlato (leia: http://bit.ly/1brIQS7), Kat Edmonson (leia: http://bit.ly/1bnIKLu) e Rebecca Martin (leia http://bit.ly/1f3YZxI). Shrire se junta a essa turma, e no álbum recente, conta com a produção de Matt Pierson, um craque que trabalhou com Joshua Redman, Brad Mehldau, e cantoras como Sophie Millman (leia: http://bit.ly/18qlqs9) e a própria Rebecca Martin.

Nicky Shrire tem uma voz frágil e imprime marca própria em interpretações imaginativas e originais. Além das cinco composições de própria lavra, gravou standards como Someone to Watch Over Me e Say Isn’t So dos modernos, conhecida mesmo é Here Comes the Sun, de George Harrison. O destaque é uma interpretação originalíssima de Teardrop do Massive Attack. A “fragilidade” da voz de Nicky é realçada pelo acompanhamento solitário de um piano. Em vez de um a acompanhá-la em todas as faixas, são três pianistas diferentes: Gil Goldstein, Gerald Clayton e Fabian Almazan. Este último, cubano de nascimento, é mais “caliente”, mas não espere algo parecido aos teclados de um Chucho Valdés.

Ouça Teardrop, com Schrire acompanhada por Fabio Almazan.



Ouça a clássica Wish You Love.




Schrire canta Seliyana, em xhosa, língua falada no povoado em que Nelson Mandela nasceu.




Nicky Schrire canta Here Comes the Sun, no Blue Note.




Space and Time, acompanhada pro Josh Nelson.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A originalidade de Hilde Hefte

A norueguesa Hilde Hefte
A música é Mercy Street. Voz e contrabaixo apenas. Percebe-se uma pequena dificuldade dela em alcançar as notas mais baixas. Mesmo assim, é uma interpretação sensível e capta bem o espírito melancólico da canção de Peter Gabriel.

A seguinte – O Tysta Ensamhet - Visan Fran Utanmyra –, é apenas vocal, com overdubs. Estranha. Somos levamos a pensar que é quando ouvimos uma língua que não é parecida com o português, o espanhol, o francês ou o inglês. Natural. Descubro, pesquisando na internet que é uma canção sueca. Mas Hilde Hefte é norueguesa. Dou-me conta da minha ignorância: são línguas parecidas? Imagino que o sueco não deve ser tão distinto do dinamarquês ou do norueguês. Já o finlandês…

O álbum se chama Short Stories. Cada faixa parece “contar” uma história diferente. E são “estórias” (por que não existe mais essa palavra, bom diferencial de “história”?) minimalistas. Quase sempre é a voz de Hilde e algum instrumento. Tudo muito enxuto.

My Bells, a terceira, é Hilde e a harpa de Sidsel Walstad. Logo depois, canta um balançado (pela discreta percussão) O Pato, em inglês, acompanhada do violão. Seu pato, além de fazer “cuen, cuen”, faz “onc, onc”. Independente das interjeições, é a “estória” mais animada do CD. Aí, bom tudo é jazz, não? É um gênero com que parece familiarizada. Canta dois standards conhecidos: But Beautiful e My Romance; esta, acompanhada apenas pela harpa, é muito boa.

Ouça.


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Após a deixa jazzística, canta In German Before the War. A música de Randy Newman, conhecido por muitas trilhas cinematográficas, fala de um homem, em Dusseldorf, antes da guerra, que em todos os fins de tarde, atravessa o parque em direção ao Reno: “Olho o rio, mas estou pensando no mar.” É um dos destaques desse disco, no geral, muito bom.

Ouça.


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Hilde tem gosto apurado. Interpreta um Danny’s All-Star Joint originalíssimo, bem diferente do original de Rickie Lee Jones. Lembra um pouco as aventuras vocais de Bobby McFerrin.

Ouça.


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A norueguesa volta ao jazz cantando You Leave Me Breathless e à Escandinávia em Jag Vet En Dejlig Rosa, da sueca Robyn. Flotervise é a canção que fecha o disco: piano e sax.

Confira.


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Veja uma apresentação de Hilde Hefte cantando Close Enough for Love, de Johnny Mandel.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Rare Silk e a tradição dos conjuntos vocais

Grupos vocais como o Hi-Lo’s, Four Freshmen, The Pied Pipers, Andrew Sisters e Boswell Sisters fizeram muito sucesso no período entre guerras e após. No Brasil também. Tivemos formações como Os Garotos da Lua, liderado por Jonas Silva, que depois fundaria o pequeno selo Imagem, gravadora que lançou bons títulos de jazz. Aliás, um dos melhores álbuns do Hi-Lo’s não saiu lá: é a coletânea que Jonas lançou aqui. Outro conjunto famoso – o mais, provavelmente – é Os Cariocas. Foram grandes divulgadores da então nascente bossa nova.

Veja os Hi-Lo’s em com Frank Sinatra.





Ouça Os Cariocas cantando Samba do Avião.




Há certo charme nostálgico nesses grupos vocais que estiveram tão em voga em certo período e hoje estão quase extintos. Ativo ainda, não tenho a certeza, é o New York Voices.

Posteriores aos citados, na era bebop, surgiu o Lambert, Hendricks and Ross. Jon Hendricks resolveu fazer uma coisa que parecia impossível: adaptar letras em temas de Tadd Dameron, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Era uma coisa meio alucinante, como os versos em temas rapidíssimos como A Night in Tunisia: algo como Ademilde Fonseca cantando Brasileirinho. Não ficaram juntos por muito tempo. A bonitona (naquele tempo; se você quiser saber quem é ela, assista a Shortcuts, de Robert Altman; é a mãe da cellista suicida) caiu fora logo e foi perseguir carreira solo. No seu lugar entrou Yolande Bavan e mudaram o nome para Lambert, Hendricks and Bavan. Não foram longe. Hendricks continuou em carreira solo e até outro dia (tem hoje 98 anos) estava fazendo participações especiais em álbuns de outros músicos.

Um dos grupos vocais mais conhecidos na década de 1960 foi o Singers Unlimited. O mesmo Gene Puerling, um dos Hi-Lo’s, foi um de seus criadores. Eram excepcionais. O álbum que gravaram com Oscar Peterson – In Tune – é uma preciosidade. Lançaram três álbuns “a capella” que são clássicos. Como era um grupo surgido na era do rock’n’roll dos Beatles e os Rolling Stones, não restringiram o repertório aos standards do jazz. Gravaram bossa nova e canções como Here, There and Everywhere, de Lennon e McCartney.

No Brasil, nesta mesma década, vimos surgir vários conjuntos desse tipo. O mais conhecido é o MPB4, mas tivemos também o Quarteto em Cy, Trio Esperança e os Golden Boys. Os dois últimos iam por um caminho voltado mais ao pop. Inspiraram-se mais por outros conjuntos conhecidos, como os Platters. Os Golden Boys (três irmãos e um primo) eram afinadíssimos; até mereciam ser relançados.

Nos anos 1970, a vez foi do Manhattan Transfer. Apropriaram do título de um romance de John Dos Passos e seguiram uma linha próxima a do Singers Unlimited, cantando standards com uma roupagem mais moderna. Um dos destaques é a versão de Killer Joe, famoso tema de Benny Golson.

Veja a apresentação da música, que consta do DVD Vocalese.





A formação original de Rare Silk
Gaile Scriver, MaryLynn Gillaspie, Marguerite Juenemann e Todd Buffa formaram o Rare Silk. Chamaram a atenção quando participaram do Playboy Jazz Festival, com a banda de Benny Goodman, em 1980. Ganharam um contrato da Polydor e lançaram New Weave (nova trama), bom trocadilho com “new wave”, contando com participações de Ronnie Cuber, Randy Brecker, Michael Brecker e Gary Bartz. O disco foi um sucesso e até indicado para o Grammy. Eles e o Manhattan Transfer eram os melhores grupos vocais.

Dois anos depois, lançaram American Dream (Palo Alto, 1985). Não era tão bom quanto o primeiro. Saiu ainda mais um e depois não se falou mais do Rare Silk. É quase inexplicável o ocaso. Simplesmente, evaporaram: não possuem nada à venda na loja iTunes e nem em sites de downloads piratas. Mereciam ser conhecidos pelas novas gerações que possuem bom gosto. Quer uma prova?

Ouça Spain, de Chick Corea, com letras de Al Jarreau.




Ouça Lush Life “a capella” com o Rare Silk.




Ouça a ótima Joy!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Aaron Parks arrasa em estreia na ECM

Aaron Parks, um craque no piano
O tal do James Farm não existe. Nem apóstrofe tem para que pensemos que pode ser a “fazenda do James”. O James são quatro pessoas: “J”, de Joshua Redman, “A”, de Aaron Parks, “M”, de Mat Penman, e “E”, de Eric Harland. O “s” fica por conta da imaginação.

O “A” [Aaron] tinha 18 anos quando passou a tocar na banda de Terence Blanchard. Quem ficou impressionado com o seu piano foi Kenny Barron. Não era pouco. Não lançou muita coisa como líder, no entanto, participou de shows e discos de Lage Lund, Kurt Rosenwinkel, Christian Scott, Ambrose Akinmusire, Mike Moreno, Kendrick Scott e a jovem cantora Gretchen Parlato. São todos mais ou menos jovens, como ele que, atualmente, tem 30 anos.

Lançou um (tanto estranho) CD no começo do ano, com Yeahwon Shin, chamado Lua Ya. São canções de ninar coreanas. Está explicado o “estranho”. Será “lua” uma palavra da língua de Yeahwon? Em português sabemos que existe. Explicação da pergunta: seu álbum anterior, chamado apenas Yeahwon (2010), é composto de nove músicas brasileiras, a maioria cantadas em português e conta com participações de Egberto Gismonti e Cyro Baptista.

O álbum que gravou com Yeahwon Shin foi seu primeiro trabalho pela ECM. Agora, acaba de ser lançado seu primeiro como líder por esta gravadora. Arborescence é um piano solo. À maneira de Keith Jarrett, a partir do “nada”, desenvolve os temas musicais. A comparação com o genial pianista é inevitável. Apesar de não ser verdadeira a afirmação de que tenha inventado o improviso “espontâneo”, depois de lançado o famoso Köln Concert (ECM 1975), essa forma ficou como que uma marca registrada.

Arborescence (ECM 2338)
Jarrett, quase sempre, prefere dividir os improvisos como Partes (I, II, III etc.). Não foi a opção de Parks. Todas as faixas têm nomes. Se partimos do princípio de que são temas “espontâneos”, somos levados a crer que os títulos são posteriores às gravações. “Desperto na Floresta” (Asleep in the Forest) é a primeira. Depois, são nomes um tanto abstratos, como Toward Awakening ou Past Presence.

O título Arborescence é perfeito. É uma palavra que consta nos nossos dicionários e “arborescer” significa “1. tornar-se árvore. 2. Crescer como a árvore; desenvolver-se” (Dicionário Aurélio). Perfeito. Os temas de improvisos “brotam” e Parks os desenvolve, construindo belas paisagens sonoras..

No solo, o instrumentista depara-se consigo mesmo. É uma viagem solitária, sem a “conversa” com um contrabaixo, uma saxofone ou bateria. Arborescence é o primeiro álbum de Parks nesse formato. Estávamos acostumados a ouví-lo em trios ou quartetos e nem se poderia imaginar que pudesse gravar um disco tão bom. É claro que Keith Jarrett tem seu estilo, ou mesmo Richie Beirach que, aproveitando a onda, andou gravando (bons) piano solo, e Parks tem o seu. Vai na tradicão da música modal, do aprendizado que passou pelos impressionistas como Debussy e Ravel, ou mesmo pelos românticos, mas conseguiu desenvolver linguagem própria, e, o rapaz tem apenas 30 anos. Promete. Arborescene – já estamos em novembro – é um dos melhores lançamentos do ano. Pode comprar sem vacilar.


Ouça Asleep in the Forest, a primeira do álbum.




Ouça In Pursuit. Preste atenção nos contrastes dos graves.


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Veja Parks em um solo no YouTube.




Veja Aaron e Mike Moreno no clássico All the Things You Are.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Prazer, Ann Burton

Capa do álbum Blue Burton
Ann Burton, nascida Johanna Rafalowicz, em 1933, em Amsterdam, morreu em decorrência de um câncer de mama, em 1989. Vinte e poucos anos é tempo suficiente para esquecer-se de muitos e de muita coisa. Aliás, você sabe quem é Ann Burton? Daqui a poucos dias, 29 de novembro, faz 24 anos que morreu. Teria hoje, 80. Em meio a tantos de quem não se fala mais, Burton é estatística.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a família viveu fugindo e se esondendo em razão de serem de origem judaica. Terminada a guerra, os percalços de Johanna não terminaram: a mãe não queria de jeito nehum que tentasse a carreira de cantora. Trocou de nome. Virou Ann Burton e caiu na vida.

O disco que a tornou conhecida – o segundo –, emblematicamente, chama-se Blue Burton. Tinha 36 anos. No ano de seu lançamento, 1967, o mercado da música estava maciçamente dominada pelo rock’n’roll dos Rolling Stones e dos Beatles e foi o ano em que Jimi Hendrix lançava seu primeiro disco. Não era boa época para alguém se aventurar por algum outro gênero. Figurões como Count Basie e Duke Ellington sofriam para manter suas orquestras. Bem que gravaram temas “modernos”, mas não era bem o que o mercado queria.

Músicos que se apresentam nos EUA, naturalmente, tornam-se mais conhecidos. Não é o caso de Ann Burton. Apesar de sediar desde 1976 o North Sea Jazz Festival, um dos mais prestigiados na Europa, poucos músicos possuem projeção fora da Holanda. Duas cantoras se destacam: Rita Reyes, de quem escrevi em http://bit.ly/1bgO6tf, e Laura Fygi, que por ter morado um tempo no Uruguai, canta bem em espanhol e em português. Alguns tecladistas como Michiel Borstlap (gravou com o baterista Bill Brufford), Jasper van’t Hof, Misha Mengelberg e Jef Neve, são relativamente conhecidos fora do país em que nasceram..

Burton gravou regularmente até morrer, mas a discografia não chega a duas dezenas. Um dos mais conhecidos é Ballads & Burton, acompanhada por Louis van Dijk, seu pianista favorito. É uma boa amostra da voz de fundo triste, que lembra um pouco a da americana Irene Kral, morta precocemente também em decorrência de um câncer. Ballads & Burton foi lançado pela Sony holandesa em 1969 e é um belo disco de canções tristes, bem do jeito que eu gosto.

Se você procurar no YouTube, existem vários registros de Burton.

Ouça Bang Bang, de Ballads & Burton.



Ouça It Never Entered My Mind, do mesmo álbum.


Ouça The Shadow of Your Smile.


Ouça Try a Little Tenderness.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O estranho mundo de Elina Duni

Elina Duni pelas lentes de Blerta Kambo
Em uma área de pouco mais de 28 mil metros quadrados encontra-se um país que possui um histórico de opressão e isolamento. A hoje República da Albânia, localizada na Penínsinula dos Balcãs, faz limites com antiga e hoje desmembrada Iugoslávia (Montenegro, Croácia, Macedônia e Sérvia) e a Grécia. O Kosovo, ainda parte da Sérvia, almeja sua independência e é povoado por maioria de albaneses.

A Albânia, como a Grécia, ficou por cerca de 400 anos sob o jugo do Império Otomano. Quando tudo poderia ficar melhor, ficou pior, se visto por um lado. Antes da Segunda Guerra, foi invadida pelas tropas de Mussolini. Um dos líderes da resistência, pouco antes do fim da Segunda Guerra, Enver Hoxha, comandou o país até morrer, em 1985. Nesse período, alinhou-se à União Soviética de Stálin, mas não se entendeu muito bem com seu sucessor Kruschev e em 1961 entrou na esfera do comunismo chinês. De novo, após a morte do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, rompeu relações.

Se era um país pobre, a situação econômica ficou pior. Muitos abandonaram suas terras e fugiram para a Grécia, Itália e países vizinhos nos Balcãs. O regime de Hohxa fez da Albânia um dos países mais fechados do século XX. Mesmo assim, no meio dos comunistas brasileiros havia quem simpatizasse com esse peculiar regime. Tínhamos, além dos tradicionais comunistas, os militantes que preferiram a linha chinesa e alguns que abraçaram a albanesa.

Oprimidos por séculos de dominação e o isolacionismo no século passado, de certo modo, contribuíram para a manutenção de valores culturais locais.

Culturalmente, o nome mais conhecido é o de Ismail Kadaré, escritor sempre lembrado para ganhar o prêmio Nobel e autor de Abril Despedaçado (virou filme dirigido por Walter Moreira Salles). Pouco sabemos, no entanto, sobre a música da Albânia. Uma ponta que é o vislumbre do que é revela-se com Elina Duni.

Nasceu em Tirana em 1981 e, com 11 anos mudou, com a mãe, para a Suiça. Estudou canto e composição e formou um quarteto com o pianista suiço Colin Vallon, o baixista Bänz Oester e o baterista Norbert Pfammatter. Lançou o álbum Baresha em 2007 e logo ganhou reconhecimento. No primeiro disco, além de canções cantadas em albanês, gravou três músicas francesas conhecidas – La javanaise, Ces petits riens e Avec le temp – e Solitary Moon, Loch Ness e Spice Island em inglês.

Ouça Elina Duni cantando La javanaise, de Serge Gainsbourg.




Em Lume, Lume, pela mesma Meta Records, explorou um pouco mais a música tradicional de seu país, Romênia, Bulgária e Grécia. A exceção é River Man, do inglês Nick Drake, em emocionante interpretação.

Ouça River Man.


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Elina Duni canta Kaval Sviri, do folclore búlgaro. Esta é de Lume, Lume.




Tornou-se tão conhecida a ponto de chamar a atenção de Manfred Eicher. Agora, neste ano, estreou com Matame Malit (Beyond the Mountain), pela ECM. É a grande oportunidade para ampliar o número de ouvintes. Pouco antes, em 2011, Eicher produzira o primeio solo de Colin Vallon – Rruga –, em 2011. Sendo pianista de Elina, é possível que isso a tenha ajudado.

Capa de Matame Malit
Matame Malit tem uma linda capa, como é costumeiro na ECM, e a imagem com silhuetas de pessoas caminhando sugere um êxodo e lembra imagens de O Vale dos Lamentos (The Weeping Meadow), de Theo Angelopoulos. Apesar de o álbum não ter recebido boa crítica pela revista Downbeat – recebeu três estrelas –, pejorativamente comparada aos discos da malfadada gravadora Windham Hills, especizada em música “new age” e hoje extinta, é um disco bem interessante. A revista é especializada em jazz, apesar de acolher matérias e resenhas de música que não é do gênero. O que Duni faz é diferente de tudo o que estamos acostumados a ouvir.

Segundo Elina, o álbum vai além da música folclórica. Algumas são canções que foram proibidas de serem difundidas na Albânia. Erë Prnaverore (Spring Breeze) é uma delas. Mini Peza é outra. Conta o drama real de Mini: ela lamenta a prisão de seus filhos que lutavam contra a ocupaçao italiana, nos anos 1940.

É a que você ouve aqui.


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Decerto, Matame Malit não é um disco que faz o gosto mais comum, É cantado em uma língua estranha e são músicas de forte conteúdo regional. Mas, por que não conhecê-lo? O quarteto é de primeira. Vallon é um pianista brilhante, Patrice Moret (até o segundo era Bänz Oester) é um baixista muito bom e a bateria de Norbert Pfammatter é espetacular.

A música cantada por Elina é quase sempre melancólica. Quando perguntada se havia uma tristeza inerente no repertório de Matame Malit, respondeu: “É tristeza. Acho que é mais melancolia. Os Balcãs são um lugar onde a alegria é melancólica, e onde a melancolia pode ser alegre. Nos Balcãs temos um jeito de cantar nossos sofrimentos – é um tipo de terapia.”

A bela Elina canta U rrit vasha. É a décima primeira do CD mais recente. Preste atenção ao piano de Colin Vallon.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O talento em família de Anat, Avishai e Yuval Cohen

Da esquerda para a direita: Avishai, Anat e Yuval
Por um tempo muito breve trabalhei com um sujeito que se dizia publicitário – e não se chamava Mario –, arrogante. Achava-se o “bom” e era muito feio. Certo dia, perguntei de onde era. Respondeu: “Sou do mundo.” “Se achar” era a compensação para tamanha fealdade.

Cohen é um sobrenome comum. Entre judeus, talvez seja como Silva, no Brasil, ou Yokoyama, no Japão. Avishai é um nome comum. O público do jazz conheceu Avishai Cohen quando virou baixista do Origin, de Chick Corea. Tremendo baixista, em um época em que Jaco Pastorius havia se tornado uma espécie de ícone, gravou alguns discos pela Concord, criou selo próprio e seu Seven Seas, de 2011, saiu pela Blue Note.

Para confundir um pouco, surge na cena novaiorquina outro Avishai, e com o mesmo sobrenome, mas este toca trumpete. Ainda bem: imagine se fosse também baixista. Enquanto este tem barba e usa óculos, o baixista é louro. O Avishai mais novo tem os cabelos bem pretos. O primeiro nasceu em um kibutz, o segundo, em Tel Aviv.

O Avishai mais novo é um dos três irmãos que compõe o 3 Cohens. A irmã, a mais talentosa, toca sax tenor e é, simplesmente, a melhor clarinetista da atualidade. O último é Yuval e seu instrumento é o sax alto e o soprano. Gravaram três discos. O último se chama Tightrope, ou seja, “corda esticada”. Bom nome para o CD. Os três contam com participações de Fred Hersch ao piano, Christian McBride no baixo e Jonathan Blake na bateria. As faixas mais interessantes são as que contam apenas com a participação dos Cohens. Lembra vagamente aqueles discos antigos do World Saxophone Quartet (David Murray, Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill), mas aqui, no caso, são dois saxofones (ou uma clarineta e um sax) mais o trumpete.

Ouça um genial Squeeze Me, com participação de Christian McBride no baixo.



Ouça também o clássico Hot House, de Tadd Dameron.



Sobre Anat Cohen, leia “A ‘brasileira’ Anat Cohen”: http://bit.ly/1aNCrfu
e “Por que gosto tanto de Siboney”: http://bit.ly/1bKkV05

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Frank Wess e sabedoria adquirida pelo tempo

Frank Wess na flauta
Depois de ter caminhado um bocado pela cidade, chegara a hora de sentar para ouvir boa música. A amiga Denise havia feito reserva no Dizzy’s, no Lincoln Center, para uma apresentação às 18 horas do domingo. Era o pretexto para um encontro e ela nem vira de quem seria a apresentação: era de Ernestine Anderson, tendo como “guest” o saxofonista Houston Person.

O mundo, na verdade, é bem pequeno. A ilha de Manhattan é um pouco como Cingapura: não tem por onde expandir, a não ser, verticalmente. Num fim de tarde do mês de abril vejo na fila uma senhora oriental de idade com um senhor. Era Frank Wess, a menos de cinco metros. Já dentro do Dizzy’s, a cerca de três mesas, vejo sentado Monty Alexander. É. Mundo pequeno. É bem provável que mais músicos estivessem presentes a prestigiá-la. E eu que a imaginava aposentada! Em 2008, beirava os 80 anos.

Depois de voltar de viagem (a de agora, que foi a Portugal), ligo o computador e em algum site sobre jazz, vejo que Frank Wess morreu no dia 30 de outubro. Faria 92 em janeiro do próximo ano. Manteve-se ativo até há pouco: seus últimos álbuns, salvo engano – Magic 101 e Ménage à Bleu –, foram gravados entre 2011 e 2012. Encontramos um Wess em plena forma. Magic 101 é um disco em que conta com um brilhante Kenny Barron ao piano. Apenas no saxofone, Wess é como um bom vinho: envelheceu bem. Grande disco.

Ouça The Very Thought of You, do álbum Magic 101.



Ménage à Bleu traz uma formação diferente: Joey De Francesco no Hammond B-3, Paul Bollenback na guitarra e Byron Landham na bateria, sem contrabaixo, como sói ser, pois o órgão faz a linha do baixo na pedaleira. Mais uptempo – não poderia ser diferente com De Francesco participando –, Wess toca flauta também, o instrumento em que fora considerado o melhor de 1959 a 1964, pela Downbeat.

Ouça Joy Spring, com Wess na flauta.



Wess estreou como líder em 1957 com Jazz for Playboys (Savoy). Até 1963, quando lançou Yo Ho! Poor You, Little Me, pela Prestige, foram seis discos como frontman. Participou por bom tempo da orquestra de Count Basie. Na década de 1990 foi “redescoberto” e gravou alguns discos pela Concord Jazz. Na fase madura, dois destaques, além dos anteriormente citados, são os gravados com outro veterano, Hank Jones: Hank and Frank e Hank and Frank II, lançados há cerca de dez anos. O “1” é melhor.

Ouça Things Ain’t What They Used to Be. É Wess na flauta e sax com John Coltrane e Paul Quinichette no sax, do álbum Wheelin’ and Dealin’, de 1957.



Acerca do tempo

Trabalhei ao lado de um radialista que tinha um programa matinal na rádio AM do grupo Bandeirantes. Apesar da fazermos parte do corpo da TV, na precariedade da época (não sei se continuou assim), dividíamos uma sala empoeirada de chão de cimento batido e mesas sobre cavaletes como esses usados no trânsito. Ele, não lembro mais do seu nome, tinha um vozeirão, era alto e estava sempre de óculos escuros e tinha um jeito peculiar de andar, meio curvado e os braços compridos a balançar. Gostava de falar, como bom radialista. Bem mais velho que nós, falava com autoridade. Lembro de uma discussão com uma companheira de trabalho fanática por religiões e filosofias orientais. O argumento que a fez calar foi a de que a tal sabedoria milenar chinesa não tinha nada de sabedoria. O tempo secular, ao contrário de ser prova de “sabedoria”, era a confirmação do fracasso, um sinal de suas ineficácias. Era um iconoclasta, engraçado pelo seu mau humor.

No dia a dia fica claro que tempo não significa, necessariamente, experiência ou sapiência. Conheço alguém que alega dirigir bem porque tem 35 anos de carteira de motorista. Outra amiga, um pouco mais realista, com dez anos a mais de habilitação, vê o carro apenas como um mal necessário. Sabe bem que é péssima no volante, com um capotamento e inúmeras colisões (conseguiu bater o carro duas vezes no mesmo dia) no currículo e, à medida que o tempo passa, piora. Bom frisar que ela tem outras aptidões, bem mais interessantes que apenas dirigir bem, ao contrário da primeira, que vive a papaguear seus “35 anos de carteira” para dizer que é boa, não apenas na direção. Dizem alguns que o tempo deixa as pessoas mais humildes e realistas. É coisa que não se aplica a todos.


Respeite os meus cabelos brancos

Deus tem cabelos e uma longa barba branca. Pelo menos, é assim que o retratam. Aqueles sábios orientais possuem longas barbas. Por que? São características associadas à sabedoria, à experiência. O certo é que tanto jovens como velhos podem ser idiotas e pior, podem ficar mais idiotas. A experiência, e a sabedoria, por consequência, são valores agregados aos anos vividos.

Lembro de uma boutade do artista plástico L.P. Baravelli. Dizia que quando resolveu escolher uma profissão, excluiu de cara a de atleta: “Um jogador de futebol já está em fim de carreira aos 30 e poucos anos.” Pensou, pensou e resolveu escolher uma profissão em que pudesse ficar melhor à medida que o tempo passasse: “Veja o caso do Matisse: velhinho, ainda fez aquela série genial de colagens. Degas, quase cego, realizou uma bela série de esculturas.”

Matisse, Degas e Picasso, longevos, mereceram o epíteto de “lendas vivas”. É expressão lugar comum, mas encaixa-se bem para esses homens que não pararam de produzir até morrer. São pessoas talentosas que, sabiamente, aprenderam com a vida. Se Arthur Rubinstein e Vladimir Horowitz eram considerados “lendas vivas”, o mesmo se aplica a músicos como Hank Jones (leia http://bit.ly/17vOUtm), que faleceu pouco antes de completar 92 anos de vida e a Frank Wess. Jones, irmão do baterista Elvin e do trumpetista Thad, em seus últimos anos continuou ativo, tocando com Joe Lovano, Charlie Haden e com Frank Wess. E este, que também faria 92 anos em poucos meses não parou. E mereceu ser chamado de “lenda viva”.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Anoushka, a filha menos conhecida de Ravi Shankar

Anoushka Shankar e a cítara
Numa prova de sincretismo, quando floresceu a onda orientalista, com o budismo, propagado nos EUA pelo inglês Alan Watts, e a onda das seitas hinduístas, muitas jovens em fervorosa fé, preferiram ter suas experiências religiosas no sentido bíblico.

Prudence Farrow resolveu fazer um curso de meditação transcendental com Maharishi Mahesh Yogi na Índia. Aceita, levou a irmã Mia. Como o mundo é pequeno, os quatro Beatles tinham ido fazer a mesma coisa. Consequência desse encontro, compuseram Dear Prudence, preocupados com sua obsessão pelos exercícios de meditação.

George Harrison foi quem mais foi fundo na cultura hindu. Aprendeu o básico da cítara com Ravi Shankar. Um dos pioneiros em montar eventos em prol de grandes causas, foi o responsável por unir vários grandes intérpretes (todos amigos) para o Concert for Bangladesh. Shankar era um deles.

Em 1972, quando aconteceu o Concerto, Ravi já era uma celebridade. Havia se apresentado nos festivais de Woodstock e de Monterrey. No entanto, não era mais “virgem” de Ocidente. Menino ainda, excursionara com um grupo de dança pela Europa. Havia conhecido Yehudi Menuhim, um dos violinistas mais conhecidos da música erudita, em 1952. Muito tempo depois, ambos gravaram o clássico West Meets East (1968), pela inglesa Angel Records. É um dos primeiros discos em que o erudito se mescla ao popular. Só muito tempo depois inventaram um termo para classificar esse gênero: “crossover”.

Na década do slogan “paz e amor”, aquele ar de espiritualidade transmitido por sua música e por sua fala mansa era atraente e apaixonante. E, como do espírito o próximo passo é a carne, enroscou-se com a produtora musical Sue Jones. Foi uma união abençoada: dela nasceu Norah Jones.

Espiritualidade elevada, Shankar não deixava de cuidar bem da sua vida aqui na Terra. Em 1979, quando Norah nasceu, ainda estava casado com a dançarina Kamala Shastri, com quem ficou até 1981. O romance com Kamala datava de meados dos anos 1940, quando ainda estava casado com Ammapuma Devi, que foi sua primeira mulher. Confuso, não? Para ficar um pouco mais, em 1981, tivera uma outra filha, mas com Sukanya Rajan: Anoushka Shankar. O caso com a mãe de Norah durou até 1986. Após o rompimento, reatou com Sukanya, e daí, sossegou..

Ravi Shankar gerou duas filhas talentosissimas. Não é coisa que acontece todos os dias. É raro. Norah cresceu convivendo pouco com o pai. Não existe nada da música dele na mistura de folk, country e jazz de Norah.

Anoushka conviveu mais com o pai, quando ele e sua mãe reataram. Teve lições de cítara com ele e passou a se apresentar aos treze anos, revelando enorme musicalidade. E conseguiu desenvolver uma carreira independente, mesmo tocando o mesmo instrumento.

Mas, de certo modo, Anoushka segue por uma linha evolutiva iniciada pelo pai, que é o tal do “crossover”. Nascida em Londres, passando a infância nos EUA, fazendo apresentações na Índia, o resultado é uma música que transcende rótulos.

Depois de gravar cinco álbuns, em 2011 lançou seu primeiro por uma das maiores gravadoras de música erudita, a Deutsche Grammophon. O declínio das vendagens de música erudita fez com que a Deutsche e outras majors do setor como a Decca e a Virgin Classics passassem a procurar outras opções que seduzissem ouvintes mais jovens. Elvis Costello lançou um disco com a mezzo-soprano Anne Sofie Mutter incluindo composições do roqueiro “crossover”, de Lennon e McCartney, Burt Bacharach e Tom Waits. Sting lançou pela Deutsche três álbuns explorando o folclore britânico e canções de compositores antigos. Em movimento inverso, o “erudito” Gidon Kremer registrou obras de Astor Piazzolla, com participações como a de Caetano Veloso. Outro que abordou o tango e Piazolla foi o judeu argentino Daniel Barenboim em Mi Buenos Aires Querido, pelo selo Telarc. Este é um item imperdível para o amante da música.

No primeiro álbum para a Deutsche Grammophon, em Traveller, Anoushka reuniu músicos como Pepe Habichuela e Concha Buika, apresentando temas que unem a música indiana e a espanhola.

Assista à apresentação de Anoushka com as músicas de Traveller.




Agora, em 4 de outubro, foi lançado o álbum Traces of You. Ela conta com a participação do músico e produtor britânico de origem indiana Nitin Sawhney. É um disco mais “light” – ou menos frenético – que o anterior e mais ocidental. Traveller é melhor, o que não quer dizer que Traces não seja. É bom, também. É apenas questão de gosto. Anoushka conta com a participação da irmã Norah Jones em The Sun Won’t Set, Traces of You e Unsaid.

Assista ao vídeo oficial da música-título Traces of You, com Anoushka e Norah Jones. O clipe foi dirigido pelo marido de Anoushka, o cineasta Joe Wright, de Razão e Sensibilidade e Desejo e Reparação.




Ouça também Flight, composta e executada por Anoushka.


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Quem assistiu ao Concert for George, ocorrido um ano após a morte de George Harrison, vai se lembrar dela. Veja aqui.