quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Frank Wess e sabedoria adquirida pelo tempo

Frank Wess na flauta
Depois de ter caminhado um bocado pela cidade, chegara a hora de sentar para ouvir boa música. A amiga Denise havia feito reserva no Dizzy’s, no Lincoln Center, para uma apresentação às 18 horas do domingo. Era o pretexto para um encontro e ela nem vira de quem seria a apresentação: era de Ernestine Anderson, tendo como “guest” o saxofonista Houston Person.

O mundo, na verdade, é bem pequeno. A ilha de Manhattan é um pouco como Cingapura: não tem por onde expandir, a não ser, verticalmente. Num fim de tarde do mês de abril vejo na fila uma senhora oriental de idade com um senhor. Era Frank Wess, a menos de cinco metros. Já dentro do Dizzy’s, a cerca de três mesas, vejo sentado Monty Alexander. É. Mundo pequeno. É bem provável que mais músicos estivessem presentes a prestigiá-la. E eu que a imaginava aposentada! Em 2008, beirava os 80 anos.

Depois de voltar de viagem (a de agora, que foi a Portugal), ligo o computador e em algum site sobre jazz, vejo que Frank Wess morreu no dia 30 de outubro. Faria 92 em janeiro do próximo ano. Manteve-se ativo até há pouco: seus últimos álbuns, salvo engano – Magic 101 e Ménage à Bleu –, foram gravados entre 2011 e 2012. Encontramos um Wess em plena forma. Magic 101 é um disco em que conta com um brilhante Kenny Barron ao piano. Apenas no saxofone, Wess é como um bom vinho: envelheceu bem. Grande disco.

Ouça The Very Thought of You, do álbum Magic 101.



Ménage à Bleu traz uma formação diferente: Joey De Francesco no Hammond B-3, Paul Bollenback na guitarra e Byron Landham na bateria, sem contrabaixo, como sói ser, pois o órgão faz a linha do baixo na pedaleira. Mais uptempo – não poderia ser diferente com De Francesco participando –, Wess toca flauta também, o instrumento em que fora considerado o melhor de 1959 a 1964, pela Downbeat.

Ouça Joy Spring, com Wess na flauta.



Wess estreou como líder em 1957 com Jazz for Playboys (Savoy). Até 1963, quando lançou Yo Ho! Poor You, Little Me, pela Prestige, foram seis discos como frontman. Participou por bom tempo da orquestra de Count Basie. Na década de 1990 foi “redescoberto” e gravou alguns discos pela Concord Jazz. Na fase madura, dois destaques, além dos anteriormente citados, são os gravados com outro veterano, Hank Jones: Hank and Frank e Hank and Frank II, lançados há cerca de dez anos. O “1” é melhor.

Ouça Things Ain’t What They Used to Be. É Wess na flauta e sax com John Coltrane e Paul Quinichette no sax, do álbum Wheelin’ and Dealin’, de 1957.



Acerca do tempo

Trabalhei ao lado de um radialista que tinha um programa matinal na rádio AM do grupo Bandeirantes. Apesar da fazermos parte do corpo da TV, na precariedade da época (não sei se continuou assim), dividíamos uma sala empoeirada de chão de cimento batido e mesas sobre cavaletes como esses usados no trânsito. Ele, não lembro mais do seu nome, tinha um vozeirão, era alto e estava sempre de óculos escuros e tinha um jeito peculiar de andar, meio curvado e os braços compridos a balançar. Gostava de falar, como bom radialista. Bem mais velho que nós, falava com autoridade. Lembro de uma discussão com uma companheira de trabalho fanática por religiões e filosofias orientais. O argumento que a fez calar foi a de que a tal sabedoria milenar chinesa não tinha nada de sabedoria. O tempo secular, ao contrário de ser prova de “sabedoria”, era a confirmação do fracasso, um sinal de suas ineficácias. Era um iconoclasta, engraçado pelo seu mau humor.

No dia a dia fica claro que tempo não significa, necessariamente, experiência ou sapiência. Conheço alguém que alega dirigir bem porque tem 35 anos de carteira de motorista. Outra amiga, um pouco mais realista, com dez anos a mais de habilitação, vê o carro apenas como um mal necessário. Sabe bem que é péssima no volante, com um capotamento e inúmeras colisões (conseguiu bater o carro duas vezes no mesmo dia) no currículo e, à medida que o tempo passa, piora. Bom frisar que ela tem outras aptidões, bem mais interessantes que apenas dirigir bem, ao contrário da primeira, que vive a papaguear seus “35 anos de carteira” para dizer que é boa, não apenas na direção. Dizem alguns que o tempo deixa as pessoas mais humildes e realistas. É coisa que não se aplica a todos.


Respeite os meus cabelos brancos

Deus tem cabelos e uma longa barba branca. Pelo menos, é assim que o retratam. Aqueles sábios orientais possuem longas barbas. Por que? São características associadas à sabedoria, à experiência. O certo é que tanto jovens como velhos podem ser idiotas e pior, podem ficar mais idiotas. A experiência, e a sabedoria, por consequência, são valores agregados aos anos vividos.

Lembro de uma boutade do artista plástico L.P. Baravelli. Dizia que quando resolveu escolher uma profissão, excluiu de cara a de atleta: “Um jogador de futebol já está em fim de carreira aos 30 e poucos anos.” Pensou, pensou e resolveu escolher uma profissão em que pudesse ficar melhor à medida que o tempo passasse: “Veja o caso do Matisse: velhinho, ainda fez aquela série genial de colagens. Degas, quase cego, realizou uma bela série de esculturas.”

Matisse, Degas e Picasso, longevos, mereceram o epíteto de “lendas vivas”. É expressão lugar comum, mas encaixa-se bem para esses homens que não pararam de produzir até morrer. São pessoas talentosas que, sabiamente, aprenderam com a vida. Se Arthur Rubinstein e Vladimir Horowitz eram considerados “lendas vivas”, o mesmo se aplica a músicos como Hank Jones (leia http://bit.ly/17vOUtm), que faleceu pouco antes de completar 92 anos de vida e a Frank Wess. Jones, irmão do baterista Elvin e do trumpetista Thad, em seus últimos anos continuou ativo, tocando com Joe Lovano, Charlie Haden e com Frank Wess. E este, que também faria 92 anos em poucos meses não parou. E mereceu ser chamado de “lenda viva”.

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