quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

José James homenageia Bill Withers

José James e seu visual para homenagear Bill Withers
Boa parte da nova geração de vocalistas considerados do universo do jazz, estão bem longe do mainstream como, digamos, Tony Bennett.

Gerações mais novas, mesmo gostando de jazz, cresceram ouvindo outros gêneros musicais. São exemplos, Gregory Porter, José James, Leslie Odom, Jr., Jamison Ross, Dwight Trible e o alemão Theo Bleckman, esses dois últimos, nem tão jovens. Podem até cantar “Summertime”, “They Can’t Take That Away from Me” ou “I Love Paris”, mas não são o prinicipal de seus repertórios.

O mais conhecido e considerado o melhor é Gregory Porter. Tem uma bela voz de barítono, registro que não é comum. São poucos: Billy Eckstine, Johnny Hartman, e, dentre os não tão antigos, Andy Bey e Kevin Mahogany,  morto há pouco mais de um ano. No álbum mais recente, Porter homenageia seu ídolo, em “Nat King Cole & Me”.

O que ajuda na popularidade de Porter é lançar por um grande selo. Tradicional e responsável por um respeitável portfólio de grandes discos de jazz, o Blue Note, atendendo às mudanças do público, tem contratado intérpretes que em outros tempos não se encaixariam no seu perfil. Outro destaque da mesma gravadora é José James. Como Porter, lançou álbuns com repertório mais tradicional, como “For All We Know” (Impulse, 2010), com o pianista Jef Nieve, e mais recentemente, o fenomenal “Yesterday I Had the Blues” (Blue Note, 2015), tributo à Billie Holiday. Sua preferência, entretanto, é por um som cujas linhas musicais estão mais associadas ao pop, r&b e ao hip-hop.

James é outro cantor de voz grave, um pouco diferente da de Porter, um “whiskey-sour baritone”, segundo John Murph, da revista Downbeat. Coincidentemente, seu disco mais recente é um tributo, mas de alguém da seara r&b, Bill Withers, autor do clássico “Ain’t No Sunshine”

Veja JJ interpretando “Ain’t No Sunshine’, em apresentação em Paris.




Em “Lean on Me”, abre justamente com essa canção. Não é o único hit do compositor. Tem muitos outros, que estão presentes no álbum: a música título,“Kissing My Love”, “Just the Two of Us”, “Hope She’ll Be Happier” e “Better Off Dead”, as minhas preferidas.

Ouça o álbum pelo Spotify.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A bela e boa Hedvig Mollestad

Duas coisas são essenciais para prestarmos mais atenção em Hedvig Mollestad. Uma é a que nesses tempos de empoderamento – essa expressão pode cair em desuso rapidamente, assim como são as modas – das mulheres, uma guitarrista em um mundo em que os homens são maioria, é um bom dado. O talento é a segunda coisa.

Onde elas são maioria, no jazz, principalmente, é no mundo das cantoras. Exemplos: Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Anita O’Day. Mesmo nos tempos atuais, para cada Kurt Elling ou Michael Bublé, há uma infinidade de mulheres de talento: Diana Krall, Dianne Reeves, Madeleine Peyroux, Dee Bridgewater, Cécile McLorin Salvant, Becca Stevens, Cyrille Aymée, Luciana Souza, dentre outras. Há também um crescente número de boas instrumentistas: Anat Cohen, Ingrid Jensen, Akua Dixon, Nicole Mitchell e Melissa Aldana.

Hedvig Mollestad e sua Gibson
Faz tempo que a Escandinávia “produz” bons músicos, e é tradicionalmente um bom “importador”. O trompetista Don Cherry morou por muito tempo na Suécia, Stan Getz casou com uma sueca e morou nesse período em Copenhagen.

A capital da Dinamarca abriga um dos mais tradicionais clubes de jazz, o Jazzhaus Montmartre, mais conhecido como Café Montmartre, e, por isso, confundido por alguns desavisados que escrevem sobre música, que o situam em Paris. Além dos dois citados, a Escandinávia foi a morada do pianista cubano Bebo Valdés. O inglês John Surman, bem conhecido pelos fãs dos álbuns lançados pela ECM, mora em Oslo, assim como o vibrafonista americano Rob Waring. Cito os dois porque gravaram, com o brasileiro Nelson Ayres, o belíssimo “Invisible Threads”, neste ano.

A gélida Noruega é o país natal de uma série grande de bons músicos, a começar por Jan Garbarek, um dos primeiros a ficar conhecido, depois de participar do trio europeu de Keith Jarrett. Da mesma geração, ou próxima dela, temos ainda Ketil Björnstadt, Arild Andersen, Jon Christensen, Karin Krog, Jon Balke, Nils Petter Molvær, Sidsel Endresen e Terje Rypdal. E a lista continua com alguns mais novos: Bugge Wesseltoft, Marius Nest, Arve Henriksen, Mathias Eick, Arve Henriksen, Christian Wallumrød, Eivind Aarset, Tord Gustavsen, Thomas Ströner e Helge Lien. A lista é longa. Por coincidência, a maioria absoluta tem seus discos lançados ou pela ECM ou pela ACT Music.

Movido pela estatística e pela curiosidade, resolvi arriscar em Hedvig Mollestad. Ela vai na linha meio roqueira de Terje Rypdal. Cabe melhor na classificação de música instrumental, nem tanto jazz, na acepção mais tradicional. Na maioria dos discos até agora lançados, é acompanhada pela baixista Ellen Brekken e pelo baterista Ivar Loe Bjørnstad. A formação tem seu charme por ser composta de duas mulheres e um homem.

Lançou há pouco “Smells Funny”. A veia roqueira se revela logo na primeira faixa. Ouça “Beastie, Beastie”.




Infelizmente, as outras faixas ainda não estão disponíveis no Spotify. Mas você pode ouvir quatro faixas de “Black Stabat Mater”. Ouça.




O título nos remete ao Black Sabbath. Com o “black”, perverte-se o “Stabat Mater”, que serviu de fonte a várias composições musicais de autores como Haydn, Pergolesi, Liszt, Rossini e outros mais. Portanto, não é mera coincidência que Mollestad tenha tocado a famosíssima “Sabbath Bloody Sabbath”. Os vocais são de Gabrielle. Veja.




No YouTube há várias apresentações de Mollestad. Veja uma de 2014.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Afinal, 1968 foi um bom ano? Parte 2: Jimi Hendrix

No dia 13 de dezembro de 1968, “17 homens, nove militares e oito civis”* (cit. Daniel Aarão Reis, em O Globo, 1/12/2018) subscreveram o Ato Institucional nº 5, que “aprisionou o destino da sociedade brasileira.”* O Ato assinado pelo governo militar apenas selou o golpe de abril de 1964. O que estava ruim ficava pior. 1968 foi um ano estranho e emblemático mundo afora.

Em abril de 1968, nos Estados Unidos, Martin Luther King foi assassinado. Três meses depois, Robert Kennedy, em campanha para a presidência, foi assassinado pelo imigrante Sirhan Bishara Sirhan, na saída do Hotel Ambassador, em Los Angeles. Em outubro, foi lançado o álbum duplo “Electric Ladyland”. As datas são apenas referenciais, para assinalar alguns acontecimentos do ano.

Saindo do exército, Jimi Hendrix iniciou a carreira como músico tocando em bares e clubes. Chas Chandler, baixista dos Animals, assistiu a uma apresentação no Caf‚ Wha?, em Nova York. Percebendo seu potencial, assinou um termo de compromisso com ele e levou-o para tocar em Londres.

Com Noel Redding e Mitch Mitchell foi formada a Jimi Hendrix Experience. Na estreia no mundo discográfico, atingiu o sexto lugar nas paradas inglesas com o single “Hey Joe”. Jimi era o talk of the town, despertando a curiosidade de músicos que despontavam na cena londrina, como Eric Clapton e Pete Townsend.

Jimi tornou-se um pop star quase que instantaneamente, quando apresentou-se no Festival de Monterrey, no ano seguinte, 1967, em seu país natal. Sua performance incendiária, tocando “Wild Thing” foi apoteótica. Consta que Pete Townsend, da banda The Who, invejoso das apresentações surpreendentes do americano, arrebentou a guitarra, batendo-a nas caixas acústicas, lançando-a depois à plateia, imaginando que Jimi não conseguisse fazer algo tão impactante. Só não imaginou que ele ia jogar álcool na sua Fender e botar fogo.

No formato LP, estreou com “Are You Experienced?, e pouco tempo depois, saiu “Axis: Bold As Love”. Mesmo com a fama de maluco, por suas performances explosivas, era um perfeccionista como músico. Sem saber ler uma cifra, era o capeta. Ampliando horizontes para além da composição e da guitarra, passou a palpitar e interferir nas gravações em estúdio. No recém inaugurado Record Plant, de Nova York, tendo como engenheiros de som Gary Kellgren, um dos sócios, e Eddie Kramer, Jimi teve papel fundamental no produto final, atuando como produtor em “Electric Ladyland”. Chas Chandler não gostou nem um pouco.

Em um ambiente que o ex-baixista do Animals definiu como caótico, Hendrix gravou o novo álbum, com a participação de outros músicos além de Redding e Mitchell. Dentre eles, estavam o precoce Steve Winwood, que começou profissionalmente com 14 anos no Spencer Davis Group e depois montou o Traffic, a tocar o Hammond B-3, em “Voodoo Chile”, Mike Flinnigan, no órgão também, em “Rainy Day, Dream Away” e “Still Raining, Still Dreaming”, Al Kooper ao piano, em “Long Hot Summer”, Chris Wood, do Traffic, na flauta, em “1983… A Merman I Should Turn to Be), o baixista Jack Cassady, do Jefferson Airplane, em “Voodoo Chile”, além de pequenas participações que nem entraram na ficha técnica como Dave Mason, ao violão de 12 cordas, e Brian Jones, na percussão, em “All Along the Watchtower”.

A sofisticação de trabalho de estúdio foi um marco na história do rock. O início, com “… And the Gods Made Love”, com distorções de voz e efeitos de estúdio, explorando o estéreo, é extraordinária. São sonoridades climáticas, como no blues “Vooddoo Chile”, com Winwood no Hammond e no baixo de Casady e solos primorosos de guitarra, em “1983... (A Merman I Should Turn to Be)”, “Moon, Turn the Tide... Gently Gently Away”, e eletrizantes, como em “House Burning Down” e em “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan..

A edição dos 50 anos
Além do álbum remasterizado, no CD comemorativo temos um com takes de Hendrix apenas no violão ou guitarra e vozes, e outras, takes preparatórios para as definitivas. Acredito que, como a maioria das edições estendidas, são mais para deleite dos fãs mais fanáticos, Acontece o mesmo com “Live at the Hollywood Bowl, 9/14/68”, inédito oficialmente. É mal gravado e existem outros ao vivo que captam melhor os shows eletrizantes do trio de Hendrix.

Ouça algumas das que compõem o “making of” de “Electric Ladyland”.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Afinal, 1968 foi um bom ano? Parte 1: The Beatles

Para nós brasileiros, a imagem que temos do ano de 1968 não é das melhores. Fui o autor do catálogo “68  - Utópicos e rebeldes”, por ocasião dos 40 anos dessa data, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. No texto de apresentação do então ministro da Cultura, Gilberto Gil – “1968: uma ferida ou uma flor” –, ele observa que “se nosso 68 teve a carga pesada de uma repressão brutal em que as liberdades individuais e institucionais que ainda restavam foram aviltadas e violentamente interrompidas com a decretação do AI-5, também vivemos a intensidade de um 68, além da política operada nas artimanhas da clandestinidade: o País encontrou formas de luta na cultura e na arte.”

Em outro texto, de Paulo Vanucchi, à época, Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, observa que 1968 foi um ano emblemático. “Foram muitos os acontecimentos marcantes. No mundo, houve a revolta dos estudantes em Paris, a Primavera de Praga, o assassinato de Martin Luther King. No Brasil, a passeata dos Cem Mil, a morte de Edson Luís de Lima Souto, as prisões dos estudantes da UNE em Ibiúna até culminar no amordaçamento imposto pelo Ato Institucional nº 5.”

Para mim, inculto mortal, foi também o ano em que Jimi Hendrix lançou “The Electric Ladyland” e The Beatles gravou o chamado“ Álbum Branco”, para os gringos, “The White Album”.

Pois, em 2018, são lançados os dois álbuns comemorando 50 anos desses dois grandes momentos de 1968. Apenas confirmam para as gerações mais novas, que 1968 foi um “grande ano”, como diria Frank Sinatra em “It Was a Very Good Year”, se gostasse de rock.

Apenas o fim
Parte da crítica considera 1968 o início do fim dos Beatles. Depois da sofisticação sonora de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e a farra de “Magical Mystery Tour” havia uma expectativa do que poderia vir em seguida.

No tempo anterior à gravação do álbum, os quatro foram à Índia fazer meditação transcendental com o guru Maharishi Maheshi Yogi, Ringo Starr foi o primeiro a cair fora. Detestou a comida apimentada e não sentiu-se muito transcendental. John Lennon ficou bronqueado com o guru, que assediou sexualmente Prudence Farrow, que estava no mesmo grupo, com a irmã Mia, esta em fase free depois de ter se separado de Frank Sinatra. O episódio serviu de mote para duas canções que comporiam o futuro disco: “Dear Prudence” e “Sexie Sadie”.

Além da viagem à Índia, outros acontecimentos foram capitais para o início da desagregação da banda: a morte prematura de Brian Epstein, empresário deles, causada, provavelmente, por ingestão de drogas que tomava para ansiedade e insônia, e o início do relacionamento de Lennon com a artista plástica Yoko Ono. Ringo, descontente de ser o patinho feio, decidiu sair da banda, Harrison procurava mais espaço para suas composições.

Um amigo gostava de dizer que bandas tinham prazo de validade. Crianças crescem e, à certa altura, cada um quer tomar o seu rumo. Bom, a história o desmente por meio de formações longevas como os Rolling Stones e o U2. Mas vamos combinar: não andam para cima e para baixo juntos; encontram-se para as gravações e shows, se tanto. Não existia mais entre os quatro aquele sentido de patota, se me entendem.

Nesse sentido, Yoko Ono foi importante. Fez o papel do visitante protagonizado por Terence Stamp, em “Teorema”, de Pier Paolo Pasolini. “John apresentou as instalações de Abbey uma vez, e ela nunca mais foi embora… Aparecia todo santo dia.” Assim referiu-se à presença tóxica da japonesa, artista de vanguarda, George Harrison, na vida da banda, enquanto gravavam o novo disco.

Yoko apenas precipitou o que poderia demorar um pouco mais para acontecer. Na construção do novo álbum, apesar de continuarem a assinar juntos, ficam mais evidentes a autoria real de cada composição, mesmo assinando-as Lennon e McCartney. Essa individualidade se acentua na diversidade das canções presentes no disco. Eram tantas composições novas que um LP de 45 minutos seria insuficiente. O produtor George Martin queria um álbum simples. A banda discordou e bateu pé em lançar um duplo. São 30 canções no total. Várias viraram hits, como não poderia deixar de acontecer, entretanto, percebe-se que não fizeram a mínima questão de serem comerciais.

São vários os exemplos, a começar por “Revolution 9”, uma colagem de sons em loops, vozes, risadas desconexas, tendo como elemento de ligação George Martin a repetir “number nine” inúmeras vezes. Há também a country-western-folk “Rocky Racoon”, de Paul, brilhantemente descritiva, a provocativa “Piggies”, de George, “Why Don't We Do It in the Road? ”, sendo esse o único verso da canção, e “The Continuing Story of Bungalow Bill”, de John, dentre outras.

Outra que convém ser destacada é “Helter Skelter”, vigoroso pré hard rock, com vocais gritados de Paul. Foram muitos os takes até chegarem à versão presente no álbum. Na edição especial dos 50 anos, há um registro dela com 13 minutos e pouco. Alguns temas são demonstrativos do talento especial como hitmakers: “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Blackbird”, “Mother Nature’s Son”, “Dear Prudence”. Não posso esquecer de “While My Guitar Gently Weeps”, com a brilhante participação do amigo de Harrison, Eric Clapton, nos solos.

A edição especial dos 50 anos não é a primeira remixagem de “The White Album”. Nos 30 anos do lançamento, saiu uma bem legal, replicando o do LP, mas no tamanho dos CDs, Mas o que saiu agora é um item essencial não só para os beatlemaníacos. São seis CDs apresentando as gravações originais remixadas por Gilles Martin, filho do produtor George Martin, e mais quatro, com as chamadas Esher demos, com versões preparatórias feitas em quatro canais, basicamente, voz e violão, e takes alternativos, além de várias que sairiam nos próximos discos deles e nos solos depois da separação, como “Junk”, de Paul, e “Jealous Guy”, de John. Outra coisa a ser destacada é de como cada canção foi trabalhada até chegar-se à versão definitiva, Um exemplo é a tomada 102 de “Not Guilty”, de Harrison, que nem constou na versão final do álbum. É a demonstração de que a perfeição se dá depois de muito trabalho.

Em relação às novas mixagens, ouve-se melhor o contrabaixo e as vozes ficam mais ao centro da audição. São detalhes que na nova configuração apresentam-se mais equilibradas.


Ouça o álbum com as novas remasterizações.




Ouça a versão de “Helter Skelter”, com 13 minutos.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Algo sobre David Clayton-Thomas

Alegria de Clayton-Thomas, ao lado de Louis Armstrong
Aos 14 anos, David saiu de casa e dormia onde era possível, em estacionamentos ou edificações abandonadas. Para sobreviver, cometia pequenos furtos. Preso várias vezes, passou por cadeias e reformatórios. A música lhe salvou. Depois de sair da cadeia, em 1962, e aprendido um pouco de violão por conta própria, começou a tocar em bares, inicialmente, em Toronto, Canadá, indo depois para Chicago e Detroit. Dois anos depois, estava em Nova York apresentando-se em um programa de Paul Anka. Surgia assim David Clayton-Thomas. Abandonara o nome de batismo assim como abandonava a errância de ladrãozinho adolescente.

Tocando em algum canto de Nova York, foi ouvido por Judy Collins, a cantora que foi a primeira a gravar outro canadense, Leonard Cohen, em pouco tempo tornava-se membro do Blood, Sweat & Tears. Clive Davis, presidente da Columbia Records, quando o ouviu no Café Au Go-Go, definiu-o como “uma combinação perfeita de fogo e emoção.”

Em “Child Is Father of the Man”, álbum de estreia do Blood, Sweat & Tears, o protagonismo maior era de Al Kooper, que deixou a banda logo depois. À ideia de fundir o rock, o blues, o jazz e o pop, a entrada de um vocalista tão especial como Clayton-Thomas mudou a órbita da sonoridade da banda. No segundo álbum, lançado em 1969, intitulado “Blood, Sweat & Tears”, a tônica continuava nos arranjos de sopros e improvisos jazzísticos, e o repertório abarcava o erudito Erik Satie, passando por Billie Holiday, Laura Nyro e até o “Motown sound” de Barry Gordy, com a espetacular interpretação de “You Made Me Feel So Happy”. O sucesso foi tão grande que desbancaram, naquele ano “Abbey Road”, dos Beatles. Foram convidados para apresentarem-se no festival de Woodstock, e o cachê deles só foi inferior ao de Jimi Hendrix. Estavam com o prestígio lá em cima.

Em 1972, lançou “David Clayton-Thomas”, primeiro solo, pela CBS. Participou de VII Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, e ganhou o primeiro lugar, com “Nobody Calls Me a Prophet”. Seguiram-se “Tequila Sunrise” e “Harmony Junction”, de 1974. No ano seguinte, voltou ao BS&T. Entre idas e vindas, tanto ele como a banda foram perdendo protagonismo. Mas continua na ativa. A voz, se não tem o brilho de outrora, ainda dá um caldo.


Ouça alguns clássicos cantados por David Clayton-Thomas, no Blood Sweat & Tears.




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O encanto secreto de Dexter Gordon

Dexter Gordon, por Herman Leonard
A explicação para o fato de Dexter Gordon ser praticamente ignorado até meados dos anos 1970 é por ter morado por mais de uma década na Europa. Fez o mesmo que tantos outros músicos que tiveram problemas com drogas, prisões e, por conseguinte, terem suas licenças de trabalho cassadas. Outro fator, tão real quanto isso, foi a segregação racial. Como ele, por períodos maiores e menores, Ben Webster, Benny Bailey, Kenny Drew, Bud Powell, Slide Hampton, Bud Powell, dentre outros, foram muito bem acolhidos no Velho Mundo.

Entre Paris e Copenhagen, foram quatorze anos. Seus discos não deixaram de ser lançados nos EUA, pelo Blue Note e Prestige, e na Europa, lançou vários no selo Steeple Chase.

Os veteranos Ben Webster e Coleman Hawkins ainda estavam ativos e, apesar de não estarem mais no auge, mandavam muito bem. São clássicos os álbuns que gravaram juntos pelo selo Verve: “Ben Webster Encounters Coleman Hawkins” (1959) e “Ben Webster and Associates” (1961), Afinal, os dois e mais Lester Young, foram o trio de ouro da era do swing.

Na adolescência, Coltrane foi o rei para mim. Ao ouvir Webster em “Art Tatum & Ben Webster – The Tatum Group Masterpieces”, este passou a ser o meu ídolo no sax, com seu sopro cheio, terno e romântico na medida. Hawkins veio depois, junto com a descoberta dos discos de Lester Young com Oscar Peterson e Teddy Wilson. E como uma coisa leva à outra, percebi que aquele sax sublime e discreto dos velhos álbuns de Billie Holiday pela Columbia era dele.

Mal chegado à maioridade, descubro Dexter Gordon. Se não me engano, um dos LPs dele saiu em edição nacional, pela CBS, acho que “Sophisticated Giant” (1977). Nesse disco, toca com uma banda de onze elementos, em que se destacavam Slide Hampton, trombonista e autor dos arranjos, Bobby Hutcherson no vibrafone, George Cables ao piano, Frank Wess no alto e flauta, Howard Johnson na tuba e sax barítono e Benny Bailey e Woody Shaw no trompete e flugelhorn. A música, para mim, chegou em outro nível, superior, que, a partir daí, seria o meu parâmetro do que era a boa música. Claro que há um exagero nessa afirmação, mas para um jovem, uma paixão anula a outra. Com o tempo, aprendemos a balancear nossos ímpetos exacerbados.

Sob o regime austero das mesadas, em uma viagem ao Rio de Janeiro para assistir ao Rio Monterrey Jazz Festival, em que as atrações eram Pat Metheny, McCoyTyner e Weather Report, comprei dois discos importados que até hoje são simbólicos para mim: “Manhattan Symphonie” (1978) e “Grazing Dreams” (1977), de Collin Walcott, percussionista e citarista do Oregon. Nesse período, todo o meu dinheiro, em vez de hambúgueres e milk shapes, eram revertidos em discos, e posso dizer que tinha uma pequena coleção de respeito, com Art Tatum, Duke Ellington, John McLaughlin, Miles Davis, Weather Report, Pat Metheny, Soft Machine, Oregon, Ben Webster, Coleman Hawkins, Billie Holiday e outros inclusos.

A volta
O ano de 1976 foi um grande ano. Apresentava-se depois de muito tempo em Nova York. Foi no Village Vanguard, com Woody Shaw, Ronnie Mathews, Stafford James e Louis Hayes. Gordon tinha se tornado um “forgotten man” para as audiências americanas. Seu reencontro com a América resultou no álbum duplo “Homecoming - Live at The Village Vanguard” (CBS, 1977). Os americanos o redescobriram e nós brasileiros, descobrimos, pois era, praticamente, um desconhecido e um “hidden treasure” dos fãs mais fanáticos do jazz.

Depois de “Homecoming”, com um bom orçamento disponibilizado pela Columbia, produzido por Michael Cuscuna, ensaiaram por quatro dias e gravaram em dois. “Sophisticated Giant” é uma obra-prima sob vários aspectos. Gordon estava no auge, não só no sax tenor, como no soprano, na brilhante “How Insensitive”, de Antônio Carlos Jobim, nos arranjos de Slide Hampton são um primor de sofisticação e energia, com uma banda de onze músicos. É difícil destacar-se o que é melhor, pois é um álbum inteiro. Aliás, convém prestar atenção nos arranjos. Os inícios de “Laura” e “The Moontrane”, de Woody Shaw, são espetaculares. O solo de Gordon, em “Laura”, meio arrastado é um primor. Emociona. Outro arranjo espetacular é o “Fried Banana”. O standard “You’re Blasé”, de Ord Hamilton, é especial também. O americano foi um grande intérprete de baladas, com seu sopro robusto, arrastado, entremeando cacos de outros standards em solos longos e belos.

Em 1978, com formação mais clássica, um quarteto composto por George Cables, Rufus Reid e Rufus Reid, sob produção do mesmo Cuscuna, lançou “Manhattan Symphonie”. Menos ambicioso que o anterior, a tônica está em bem interpretar. É outro álbum excepcional, abrindo com pompa interpretando o clássico “As Time Goes By”, em ritmo lento, explorando cada nota. Presta reverência à John Coltrane em “Moments Notice” em andamento rápido. As restantes são “Tanya”, “Body and Soul” e “LTD”. O grande momento é tocando o clássico de Johny Green. O final é espetacular, de tirar o fôlego.

Ainda, comemorando a “homecoming”, a Columbia registoru em álbum duplo a apresentação do saxofonista na casa de espetáculos mais tradicional de Nova York, em “Live at Carnegie Hall” (1978). É com o mesmo quarteto do anterior, com a participação especial de Johnny Griffin, rememorando as antigas “sax battles” dele com Wardell Gray. Foi o encontro de gigantes: do “Little Giant”, como ficou conhecido o baixinho Griffin, e o verdadeiro gigante, tanto no talento e no tamanho, com quase dois metros de altura.

Ouça uma seleção que fiz de Dexter Gordon.



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tony Bennett e Diana Krall, um par perfeito

Parece cada vez mais fácil chegar aos 100 anos, mas a que custo? O importante é estar inteiro e bem de saúde. É o caso de Tony Bennett, o maior cantor vivo da atualidade. Aos 92 anos, mesmo tendo passado por uma fase em que consumiu boas doses de cocaína, está forte e pimpão, como diria um amigo. E mais: canta muito ainda, mantendo a bela voz que o consagrou. E ainda gosta de pintar.

Confirma sua boa forma em sua mais recente empreitada, “Love Is Here to Stay”, com Diana Krall, com o repertório de George Gershwin. Bennett se rejuvenesce em suas parcerias com intérpretes de todos os espectros. Fez muito sucesso “A Wonderful World” (Columbia, 2002), com a canadense kd lang. Em “Duets: An American Classic” (Columbia, 2006), divide os vocais com os pop John Legend, Barbra Streisand, Celine Dion, Sting, Bono Vox, Billy Joel, Paul McCartney, James Taylor, Stevie Wonder e outros. Como os duos que Frank Sinatra cometeu em seus anos derradeiros, quando sua voz era uma sombra do que havia sido, sucumbe aos apelos comerciais. A diferença com os de Sinatra é a de que a voz de Bennett era a mesma. Gravou ainda “Duets 2” (2011) e “Viva Duets” (2012), aproveitando a onda.

Os puristas torcem o nariz para Diana Krall. Com um início fulgurante, arrombando a porta do mainstream do jazz, a ex-aluna de Jimmy Rowles e protegida de Ray Brown, a canadense tocava muito bem piano, e se quisesse, poderia seguir por essa seara. O aprendizado com Rowles e poderosa influência da maneira de tocar de Nat King Cole, foi logo notada pela gravadora Impulse, logo depois de tornar-se um sucesso instantâneo em seu país natal. Como o mestre Cole, cantava, e muito bem. A exemplo dele, consagrou-se mais como cantora do que pianista. De hoje em dia, apesar de apresentar-se sempre sentada à frente de um Steinway, mais canta que toca.

No caso de “Love Is Here to Stay”, deixa o pianista é Bill Charlap. Bom, nem precisa mesmo. O filho de Sandy Stewart tem um dos trios mais respeitados da atualidade. É mainstream, que se diga, mas sua banda está uma que chegou bem perto da perfeição.

A perfect pair
Depois de terem cantado juntos em ocasiões esparsas nos últimos 20 anos, “Love Is Here to Stay” é o primeiro álbum deles juntos. Gravado no ano passado, acaba de ser lançado. É a reunião que muitos esperavam. Bennett é a majestade, no alto de seus 92 anos; Krall é a dama do jazz da atualidade, em que pesem o valor das experientes Dee Dee Bridgewater ou Diana Reeves. Um pouco por preconceito, é criticada. Popularidade causa dor de cotovelo e críticos acham que cair no gosto de um público mais amplo é devido a concessões ao mercado. Evidente que King Cole fez concessões, mas que beleza de cantor que foi!

Tanto Bennett quanto Krall cansaram de cantar o repertório de George Gershwin, mas em “Love Here to Stay, ambos interpretam pela primeira vez em discos “My One and Only Love” e “I’ve Got a Crush on You”. É uma surpresa

Há um enorme respeito, como não poderia deixar de ser, de Diana por Tony. “Ele não apenas canta essas canções. Ele sabe o que está dentro e fora. Ele é uma pessoa profunda em muitos níveis – às vezes você pergunta sobre coisas e ele diz o que acha. É um belo fenômeno emocionalmente.” É o respeito que Krall tem pela sabedoria de um intérprete que sabe tudo de música, sabedoria que amealhou por todos os anos que o tornou um dos grandes cantores de todos os tempos na história do jazz.

Bem, se Bill Charlap é um dos grandes ao piano e Bennett e Krall craques absolutos, poderia de esperar uma obra-prima. Não é. É um álbum agradável, com algumas pérolas distribuídas, ora pelos bons achados do pianista, belas combinações da voz cálida dela e da qualidade interpretativa dele. Comparando-se, não é genial como, por exemplo, o de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim, ou o de Betty Carter e Ray Charles, Ray Charles e Cleo Laine, ou Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Acho que, como diria minha amiga baiana, faltou um pouco de borogodó, aquela simbiose fervente que acontece inexplicavelmente entre dois seres.

Veja o clipe promocional do álbum, com os dois e o trio de Charlap interpretando a canção título.




Ouça o álbum. Um destaque é a excepcional interpretação de Krall em “But Not for Me”, com uma introdução que normalmente é cantada. A “inédita”, para os dois, “My One and Only”, é outro, pela combinação do piano e o clima relaxado entre os dois intérpretes. “Love Is Here to Stay” e “I Got Rhythm” são outras que destaco.




quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Gary Burton é famoso faz tempo

Com 75 anos hoje, Gary Burton, tornou-se conhecido entre os da minha geração ao gravar, com Chick Corea, o fabuloso “Crystal Silence” (ECM, 1972).

Com 18 anos completos,  em 1961, lançou seu primeiro álbum solo: “New Vibe in Town”, com Gene Cherico e Joe Morello. Em 1962, foi a vez de “Who Is Gary Burton?”. Quem era esse rapaz? Tendo Lionel Hampton e Milt Jackson, como os grandes nomes do vibrafone, Burton era o “new talk of the town”. Revelava-se aquele que é até hoje um dos melhores de todos os tempos nesse instrumento. Neste último, tinha as companhias de Clark Terry, Bob Brookmeyer e Phil Woods, um trio de sopros de respeito, além Tommy Flanagam ao piano.

Os títulos de seus primeiros discos eram um anúncio da grande novidade. O terceiro, o melhor deles, foi “Something’s Coming”. Neste, contou com a brilhante guitarra de Jim Hall, o talento revelado na célebre banda de Jimmy Giuffre.

Ouça “On Green Dolphin Street”, com Jim Hall na guitarra.




Praticamente um auto-didata no vibrafone e na marimba, Burton, resolveu aprender piano aos 16, estudando depois na Berklee School of Music. Excursionou com George Shearing, tocou com Stan Getz, Larry Coryell e Steve Swallow. Em 1968 foi considerado o “Jazzman of the Year”, pela Downbeat, o mais jovem a ser laureado com tal título.

Depois de “Crystal Silence”, além de alguns duos com Corea, gravou belíssimos discos pela ECM. Um deles é “Ring” (1974), com uma superbanda composta por Eberhard Weber e Steve Swallow nos contrabaixos, Pat Metheny e Mick Goodrick nas guitarras, e Bob Moses na bateria. Como Burton, que foi revelado jovem ainda, foi a oportunidade para Metheny ficar conhecido e logo depois estrear com o solar “Bright Size Life” (ECM, 1976). Como é costumeiro na ECM, os músicos participam de vários projetos com outros do cast da gravadora. Além dos álbuns com Chick Corea, com seu quinteto e quarteto, tem outros com Ralph Towner (“Matchbook” e “Slideshow”), Steve Swallow (“Hello Hotel”), e por outras gravadoras, Stéphane Grappelli, Paul Bley e Keith Jarrett.

A partir de 1988 passou a gravar pela GRP, Concord Jazz e Mack Avenue. Os destques dessa fase mais recente são “Ástor Piazzolla Reunion: A Tango Excursion” (1998), “Libertango: The Music of Ástor Piazzolla” (1990) e “For Hamp, Red, Bags, and Cal” (2009) e “Quartet Live” (2009), com Pat Metheny, Steve Swallow e Antonio Sanchez. A parceria Corea-Burton manteve-se ativa, mesmo fora da ECM, com “Native Sense - New Duets” (1997), “The New Crystal Silence” (2008), e “Hot House” (2012).

Ouça algo de Gary Burton a seguir.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um pouco mais sobre Jamie Saft

No texto sobre “Solo a Genoa”, inicio tecendo comentários sobre um estudo do Instituto Max Planck, sobre as diferenças da atividade cerebral do pianista que toca música erudita e o jazz. Este último tem a facilidade de improvisar sobre um tema, ao contrário de um virtuose como Nelson Freire ou Maurizio Pollini, muito mais focados na precisão e destreza para executar partituras complexas de um Schumann ou um Beethoven.

Não existem fronteiras, no entanto, quando se trata de música. Assim, autores eruditos como Gustav Mahler e Béla Bartók, inspiraram-se em temas folclóricos para as suas composições, a música popular se alimenta de formas mais e menos sofisticadas.Nos dias hoje, músicos de bandas conhecidas, como o Radiohead, The National e Arcade Fire, Jonny Greenwood, Bryce Dressner, Richard Reed Parry e Sarah Neufeld, têm desenvolvido trabalhos considerados crossover. Antes deles, bem antes, ouvimos várias bandas, classificadas como progressive rock ou art rock, que flertaram com a música erudita.

Na arte sem fronteiras, com o jazz é a mesma coisa. O movimento mais conhecido por incorporar elementos da música clássica chamou-se “Third Stream”, idealizado por Gunter Schuller. John Lewis, líder do Modern Jazz Quartet, fez algo semelhante, em razão, principalmente, por sua devoção ao compositor Johann Sebastian Bach. Em tempos atuais, pode-se citar Cyrus Chestnut, que acaba de lançar “Kaleisdoscope”, dedicado quase que todo ao francês Erik Satie. Aliás, é um dos preferidos dos que incorporam temas dos clássicos, como seus conterrâneos Maurice Ravel e Claude Debussy. Outro pianista que tem um álbum interessante abordando o repertório clássico é Steve Kuhn, em “Pavane for a Dead Princess” (Venus, 2006). Como Chestnut, faz releituras bem livres, tendo os temas como plot, dentro de uma linguagem essencialmente jazzística em formato trio piano/contrabaixo/bateria.

Nem um pouco do universo erudito
Jamie Saft é uma caso à parte.  Como muitos pianistas, passou por um aprendizado formal – estudou na New England Conservatory of Music –, mas sua música passa longe do universo erudito. Se comentei até agora dos cruzamentos do erudito com o jazz, o americano, incluído, por conveniência, neste último, percorre caminhos bem ecléticos que o aproxima mais do rock. Sua figura física, inclusive, não é a de um músico de jazz, se existe um estereótipo. A barba longa, que lembra a dos hassídicos, o faz parecer mais um rabino. É um judeu em um mundo estranho, como Matisyahu, um ortodoxo que preferiu o reggae para transmitir as mensagens de sua religião.

Saft poderia ser confundido com um rockeiro como Dusty Hill, do ZZ Top, por exemplo. Aliás, seu ecletismo musical pode ser associado a John Zorn, outro judeu que transita entre o erudito, o jazz e o rock, que, não por simples coincidência, acolheu-o em várias gravações em seu selo Tzadik.

Uma boa amostra de seu ecletismo está no álbum “Black Shabbis” (Tzadik, 2009): “Army Girl”.  Saft toca baixo elétrico, guitarra e teclados, com Trevor Dunn (baixo), Bobby Previte, Mike Pride e Dmitriy Shnaydman (bateria), e Mr. Dorgon (voz).




O novaiorquino tem os teclados – piano, Fender Rhodes, Hammond, moog e sintetizadores – como instrumento principal, mas toca contrabaixo e guitarra. Em sua discografia há álbuns, como “Serenity Knolls” (2017), com Bill Brovold, com ele tocando exclusivamente dobro e pedal steel guitar, muito interessante, com ambos fazendo algo que pode ser rotulado de “ambient country”.

Saft pode ser hard rock, reggae, country ou qualquer outra coisa, mas seu nome é citado como o de um músico de jazz. E como um pianista de jazz, na gravadora RareNoise, lançou dois álbuns com Steve Swallow e Bobby Previte: “The New Standard” (2014) e “Loneliness Road” (2017), este, com participação de Iggy Pop em algumas faixas. Neste ano, saiu “Blue Dream”, com Bill Henry, Bradley Christopher Jones, Nasheet Waits.

Ouça algumas faixas com Jamie Saft nesse playlist.






quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Um Paul de cada lado

Com poucos dias de diferença, foram lançados “In the Blue Light”, de Paul Simon, e “Egypt Station”, de Paul McCartney. Do primeiro, pelo que vi, não se falou nada; do segundo, páginas e páginas. É justo? Depende, não?

Em breve comparação, pode-se dizer que o Paul americano nos apresenta, como é possível uma associação com o título, um álbum, basicamente, de tom melancólico. O Paul inglês, pelo contrário.

A imagem de McCartney, inclusive no seu período “melhor idade”, é a de um sujeito bem humorado, divertido, como se vê no vídeo com o comediante Jimmy Fallon (https://youtu.be/Z9q3e5wIrDw), ou no programa de James Corden (https://youtu.be/QjvzCTqkBDQ). Com 76 anos, transmite uma jovialidade surpreendente.

O Paul da América
Uma forte onda, nomeada “soft rock”, inundou o mundo musical em fins dos anos 1960 e início do próximo. Destacaram-se Carole King, America, Jim Croce, James Taylor e Simon & Garfunkel. Com exceção de Carole, era uma turma meio tímida. Mesmo assim, fizeram um tremendo barulho com seus violões de inspiração folk, caindo no gosto popular. Dentre eles, Paul Simon destacou-se não só pela riqueza melódica e harmônica de suas canções, mas pela rica poética descritiva. Com Art Garfunkel, cantou os mais belos temas da música americana da época. Eram dois rapazes que se conheceram na escola e formaram uma daquelas duplas perfeitas. Perto de Art, Paul poderia ser considerado um sujeito extrovertido. Não é tudo questão de referencial? Com exceção de “Cecilia” e alguma outra, talvez, o tom melancólico prevalece.

Em “In the Blue Light”, Simon traz novas leituras para antigas composições que, segundo ele, “estavam quase corretas ou eram estranhas o suficiente para serem ignoradas na primeira vez.” “One Man’s Ceiling Is Another Man’s Floor”, a primeira, original lançada em 1973, serve como parâmetro do que ouvimos a seguir. Com o novo arranjo, tem um andamento mais lento e mais jazzístico. “How the Heart Approaches What It Yearns”, de “One Trick Pony” – o título foi tirado do primeiro verso da canção – acontece algo semelhante, com arranjos de Bryce Dressner, da banda The National, participação de Wynton Marsalis e o sexteto novaiorquino yMusic, composto por violino, viola, cello, trompete, flauta e clarineta, que conferem ao álbum um clima de beleza e sofisticação.

Um bom exemplo é “René and Georgette Magritte with Their Dog After the War” (“Hearts and Bones”, 1983). Ouça.





O Paul do outro lado do Atlântico
Assim como o Simon de hoje não é mais aquele dos tempos em que formou dupla com Art Garfunkel, e dos primeiros álbuns sob seu nome, as novas composições de Paul McCartney, apesar de boas, não são geniais como tantos clássicos da era Beatle. Colocam-no porém em um nível acima da média do que se faz atualmente.

O álbum começa com sons de trens, o primeiro sinal do por que do nome “Egyptian Station”, anunciando uma viagem com paradas em estações – ou momentos – diferentes. A primeira é “I Don’t Know”, por sinal uma das melhores do álbum. Se as restantes tivessem a qualidade dessa, teríamos um grande disco. Entre momentos mais vigorosos, como “Come on to Me” ou “Caesar Rock”, confessionais, “Hand in Hand” e “Happy with You”, as duas com o violão acústico destacado, como na bela “Dominoes”, duas faixas mais longas em que mescla momentos diversos, meio no estilo “Golden Slumbers/Carry That Weight” (“Despite Repeated Warnings” e “Hunt You Down/Naked/C-Link”), Paul exercita sua versatilidade como compositor. Ah, e tem o momento Brasil, ou melhor, “Brazil”, bem pra turista ver, em “Back to Brazil”. Mas, em vez de nos deixar orgulhosos por lembrar de nós, só faz pensar que McCartney pode ser muito chato também. Veja o clipe de “Back in Brazil” em https://www.facebook.com/PaulMcCartney/videos/538319739930496/

Bom, mas o melhor é ouvir e aí cada um faz o seu juízo.




Ouça também o novo álbum de Paul Simon.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Katia e Marielle Labèque e suas raízes

Ganha um doce quem sabe o que as irmãs Katia e Marielle Labèque e Maurice Ravel têm em comum fora terem seus nomes ligados à música erudita. Os três nasceram na região basca da França, Mais conhecida é a parte espanhola, que constitui 90% de seu território, e presente nos noticiários no século passado, devido aos atentados violentos e sanguinários perpetrados pelo grupo terrorista ETA, em favor da autononomia dos territórios bascos. Hoje, é considerado Comunidade Autônoma, como é a Catalunha.

Bascos notáveis
Maurice Ravel nasceu em Ciboure, bem perto de Biarritz, em março de 1875. Basco por parte da mãe, Marie Delouart, cresceu em Paris, entretanto, parafraseando uma frase conhecida, “saiu de lá, mas os Países Bascos não saíram dele.”

Katia e Marielle Labèque, nascidas em Bayonne, como Ravel, começaram seus estudos de piano com a mãe Ada Cecchi, que tinha sido aluna de Marguerite Long e, posteriormente, fizeram o Conservatório de Paris. Ficaram conhecidas, inicialmente, executando compositores contemporâneos, com György Ligeti, Luciano Berio e Olivier Messiaen. É desse autor “Visões do Amém”, que gravaram na primeira incursão fonográfica.

Belas e talentosas, atraíram a atenção das gravadoras. A Philips chegou na frente, com elas executando “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, em versão para dois pianos. Venderam um milhão de cópias, fenômeno, em se tratando de música erudita.

O prestígio das irmãs não foi apenas pelas vendas. Compositores contemporâneos, a exemplo de Berio, Michael Nyman, Philip Glass e Osvaldo Golijov, compuseram especialmente para as Labèque tocarem em estreia mundial.

Depois de lançarem discos pelos melhores selos de música erudita, criaram o KML Recordings, focado em um repertório mais abrangente e heterodoxo, incluindo o rock experimental e a música mais tradicional, como a que gravaram com a espanhola Mayte Martin (“De Fuego y de Agua”, 2008).

Os álbuns mais recentes são demonstrativos do distanciamento do repertório mainstream. “Moondog” aborda a música de Thomas Hardin, cujo nome artístico intitula o disco. É algo muito diferente, algo impossível de ser rotulado.

No mais recente, “Amoria”, as irmãs Labèque fazem uma viagem pela música basca, do século 16 até nossos dias. É um tributo às suas origens, com um resultado que não decepciona. Seu início é animador. “Con amores, la mi madre”, de Joanes Antxieta, em arranjo para dois pianos e o contratenor Carlos Mena, é um grande início. As seguintes são também de autores pouco conhecidos, fora Pablo Sarasate, basco de Pamplona, e Maurice Ravel.

O amor de Ravel por seu país
Acho que não há ser humano no planeta que não conheça “Bolero”, popularmente chamada de “Bolero de Ravel”. Apesar de possuir uma obra de respeito, que não se resume ao tema que virou “carne de vaca” depois de ter feito parte da trilha sonora de “Retratos da Vida”, filme de Claude Lelouch. Ser basco foi um dado importante não apenas na música, como é possível perceber-se nessa afirmação, contida no encarte: “É sobre meu coração seco. Isso está errado. Mas sou basco e os bascos não se entregam aos poucos. Você pode não acreditar com o desgosto que eu deixei St. Jean de Luz. Eu realmente senti essa impressão nostálgica somente quando vi o oceano desaparecer primeiro, depois os Pirineus. Realmente, meu país é um dos mais belos e bonitos, eu diria. O mar está cheio de acácias. E essas suaves colinas verdes, de cima a baixo, caem das pequenas bolas de carvalho esculpidas no basco. E, acima de tudo isso, os Pirineus, a malva de terra das fadas. E então, há luz. Não é o sol implacável do outro meio-dia. Aqui, é um brilho excelente. As pessoas sentem isso; ele é ágil, elegante, e sua alegria não é vulgar. As danças são leves, de voluptuosidade, sem excesso. A religião em si, embora altamente observada, é mesclada de um grão de ceticismo.”

Bela declaração de amor, não? Por meio dele, amigos como Arthur Rubinstein, Alfred Cortot, Igor Stravinsky, Claude Debussy, Serge Prokofiev e Marguerite Long, conheceram esse belo país.

Destaques
Além de “Kaddisch”, das “Mélodies hébraïques”, e “Bolero”, executada por dois pianos e percussão com o grupo Hegiak, destacam-se a “Sarabanda”, de Bernardo Zala Gakdeano (séc. 17), “Agota”, deBalere Artxu (séc. 18). Como curiosidades, belas e singelas são “Haika mutil” e “Elurra iruñan”, compostas neste século.

Ouça o álbum no Soptify.




sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O piano sublime de Jamie Saft

Jamie Saft em êxtase ao piano
Um estudo feito Instituto Max Planck para Cognição Humana e Ciências do Cérebro, em Leipzig, Alemanha, revela que a atividade cerebral de músicos eruditos e de jazz é bem diferente. Reside aí a razão de virtuoses do piano, como Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Nelson Freire, por mais habilidosos que sejam, terem dificuldade em improvisar. Enquanto “aprendem a dar mais ênfase à técnica, visando a uma execução mais fiel à proposta do compositor”, o músico do jazz foca na harmonia e “na adaptação mais ágil nas mudanças musicais inesperadas.” No documentário dirigido por João Moreira Salles, Nelson Freire revela sua admiração pelo modo de tocar de Erroll Garner. É a prova das diferenças entre o erudito e o jazz.

O pianista, que procura transitar entre os dois terrenos, mais conhecido é Keith Jarrett. Além das gravações que  o ser médio conhece, pelo mesmo selo ECM, tem álbuns executando Bach (principalmente), Handel, Mozart, Samuel Barber e Shostakovich. Esquece porém de sua veia jazzística e incorpora o do virtuose erudito. Provavelmente, pianistas de jazz são os que mais se aventuram em explorar temas eruditos, por seus aprendizados iniciais em conservatórios musicais. Há exceções, como Garner, que conseguia tocar até peças clássicas sem sequer sabia ler uma partitura.

Bem, depois dessa explanação sobre a diferença entre pianistas eruditos e do jazz, entro no assunto de modo bem torto, pois o texto é sobre um que, apesar do aprendizado formal na New England Conservatory of Music, e ser considerado do jazz, preferiu olhar para o “andar de baixo”. Eclético, em sua música percebem-se elementos do reggae, da country music, do rock, até do heavy metal, como em seus discos com Bill Brovold e com Nick Millevoi.

Com uma extensa discografia, revela seu enorme talento em vários gêneros musicais, e em “Solo a Genoa”, seu álbum mais recente e seu primeiro solo ao piano. Nele, apresenta temas tradicionais do jazz, como “Naima”, de John Coltrane, e “Blue in Green”, de Bill Evans, mas também o repertório da música americana (Stevie Wonder, ZZ Top, Curtis Mayfield e Joni Mitchell), e até do erudito Charles Ives. Em tudo imprime sua marca, em acordes belos, harmonicamente ricos, em sonoridades ondulantes, pulsantes e de tons impressionistas. Merecidamente, John Ephland, deu quatro estrelas e meia de um máximo de cinco. Eu daria cinco. Sou fã incondicional de Jamie Saft.

Ouça “Solo a Genoa” pelo Spotify.


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

John Surman, Nelson Ayres, Marlui Miranda

John Surman, Marlui e Caíto Marcondes

Na noite de 1º de agosto, a melhor opção seria ficar em casa. Chuva, frio e a perspectiva de muito trânsito eram os melhores argumentos. Mas iria acontecer a única apresentação de John Surman, Nelson Ayres e Rob Waring em São Paulo, no teatro Sesi.

Não tenho a certeza se foi na época em que ganhou uma bolsa de estudos pela “The John Simon Guggenheim Memorial Foundation”, em 1986, que Marlui Miranda conheceu Jack DeJohnette. Acho, pelo que soube na única vez em que conversei com ela.

DeJohnette ficara encantado com o álbum “Txai”, de Milton Nascimento, e lembrava-se de seus vocais na faixa “Nozani”. O contato serviu para que, depois, fosse convidada para participar da formação que se chamou The Ripple Effect. Um pouco fora do universo do jazz, o projeto era o de unir a música eletrônica, a improvisação com o universo da world music. Ao baterista, a banda contou com Foday Musa Suso tocando kora, instrumento africano de 21 cordas, os produtores Ben Surman e Big Al e Marlui. Surgiu assim o álbum “Hybrids” (2005). Título perfeito: eletrônica, dubs que nos remetem ao reggae, sons tribais, por meio dos vocalises de Marlui, e ritmos africanos. John Surman, pai de Ben, participa de algumas faixas. Tanto ele como Jack tinham tocado juntos inúmeras vezes. “The Amazing Adventures of Simon Simonn” (1981), em que ambos se dividem em vários instrumentos, é um dos grandes discos lançados pela ECM. Foi quando Marlui e John devem ter se conhecido. Tinham algo em comum: a pesquisa e exploração da música de suas origens, ela pela indígena, e ele, pela celta.

O Brasil desconhece o Brasil. As pesquisas com a música dos índios, desenvolvida desde a década de 1970, mereceu reconhecimento internacional. Além da bolsa de estudos de The John Simon Gugenheim Memorial Foundation, foi professora visitante na Chicago University e na Darmouth College, artista residente na Indiana University, além de ter sido agraciada com o prêmio da Academia Alemã de Crítica (SchallplattenKritik) em 1996 pelo CD “IHU, Todos os Sons”. Atualmente, faz doutorado na ECA-USP.

Em 2013, Marlui gravou “Fala de Bicho, Fala de Gente” (Selo Sesc), acompanhada por Nelson Ayres ao piano, Rodolfo Stroeter no contrabaixo, Caíto Marcondes na percussão e John Surman no saxofone e clarineta. A distância física entre Oslo e São Paulo não foi empecilho para que Surman e Marlui trabalharem em parceria os arranjos.

Ouça o CD na íntegra.


 

Não foi a primeira vez de Surman no Brasil. Em 1991, por ocasião de um seminário organizado pela UnB contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, apresentou-se com Marlui e, acho que deve ter sido quando conheceu Fortaleza, que o inspirou a compor “Pitanga Pitomba”, incluída em “Invisible Threads”, seu álbum mais recente, lançado no início pela ECM, em janeiro deste ano.

Uma coisa leva à outra. Marlui conheceu Jack DeJohnette, e assim conheceu John Surman, que ao vir gravar com Marlui, conheceu Nelson Ayres. Tempos depois, o inglês ligou de Oslo convidando o brasileiro a participar das gravações de um novo disco. Com o vibrafononista americano Rob Waring, há anos morando em Oslo, formou-se o trio de “Invisible Threads”. Como explicou Ayres no show em São Paulo, o conceito do álbum difere do padrão do jazz, em que os músicos vão alternando os solos. O título – “costuras invisíveis” – explica a estrutura do álbum. O diálogo entre os músicos são tecidos a três mãos.

Fiz um playlist em que estão incluídas as faixas de “Invisible Threads”.


 

Na noite fria de 1º de agosto, porque Marlui conheceu Jack, e assim, conheceu John, que conheceu Nelson, pude ver o meu ídolo pela primeira vez.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

David Clayton-Thomas continua craque cantando jazz ou soul

Em outra ocasião escrevo um pouco mais sobre David Clayton-Thomas. Para quem não sabe quem é ele, foi o cantor principal da melhor fase do Blood, Sweat & Tears. Para quem nunca ouviu o BS&T, paciência, ninguém é obrigado a conhecer tudo. Eu, por exemplo, sequer sabia da existência de um zagueiro chamado Fagner, nem sabia que era jogador do Corinthians. Foi titular na última Copa do Mundo

Tinha até esquecido que David Clayton-Thomas, um dia, havia existido. Mas, ao ouvir ‘Combo” e “Soul Ballads”, lembrei-me do quanto gostava de sua voz. Um é de 2010 – este último –, e o outro, de 2015. Ambos exploram um repertório bem conhecido. É, porém, uma oportunidade para relembrar de sua maestria em seu mister. Em “Combo”, canta standards como “Nature Boy”, “Summertime”, “As Time Goes By”, “Stardust”, “When I Fall in Love” e “God Bless the Child”, esta, um sucesso em seus tempos de BS&T.

“Soul Ballads” apresenta os hoje clássicos “A Change Is Gonna Come”, de Sam Cooke, que teve sua interpretação definitiva com Otis Redding, autor de “(Sittin” on) The Dock of the Bay” e “I’ve Been Loving You”, presentes também nesse álbum. Outras são “People Get Ready”, de Curtis Mayfield,“Midnight Train to Georgia”, de Jim Weatherly, “Ruby”, que teve sua interpretação definitiva por Ray Charles, “When Something Is Wrong with My Baby”,  de Isaac Hayes, David Porter, e “Sunny”, de Bobby Hebb, conhecida pela interpretação de Sonny & Cher. É um dos destaques.




Ouça “(Sittin’ on) the Dock of the Bay.




Do álbum “Combo”, ouça “Summertime”.




Ouça também “Nature Boy”, o destaque do disco.


quinta-feira, 19 de julho de 2018

John Coltrane inédito é sempre notícia

A descoberta de uma obra desconhecida de Leonardo Da Vinci será sempre um acontecimento; uma gravação inédita de John Coltrane, também. Sem comparar a importância de cada um, vamos considerar que um fanático pelo saxofonista, falecido em 1967, e nem um pouco interessado em artes plásticas, deve estar babando a ouvir sem parar “Both Directions at Once: The Lost Album”.

O título é uma brilhante sacada. Aquele dia de março de 1963 foi único: não foi o anterior nem o posterior, mas aponta para o passado e o futuro ao mesmo tempo. O agora é único e foi descoberto por Juanita Coltrane, sua primeira mulher. Era uma fita que tinha ficado com o artista daquela sessão. Foi oferecida à Impulse, sua gravadora à época e, atualmente, do grupo Universal.

No pouco tempo de vida – morreu com 40 – Coltrane, de sideman de Miles Davis, virou figura de proa, depois que passou a gravar como líder para o selo Prestige, Blue Note e, principalmente, para o Atlantic. São considerados jazz standards, dessa fase, “Naima”, “Giant Steps”, “Spiral”, “Countdown”, “Cousin Mary”, “Central Park West”, e é um clássico a sua interpretação de “My Favorite Things” ao sax soprano, pouco utilizado no jazz, à exceção de Sydney Bechet.

Quando Coltrane passou a explorar novas formas, mestre na improvisação das formas modais, como havia demonstrado em “Kind of Blue”, de Miles Davis, e em seus álbuns como líder, foi considerado “anti-jazz”. Tocou com o avant garde Eric Dolphy, ficara impressionado com John Gilmore, saxofonista da banda de Sun Ra, e interessara-se pela música indiana.

Com um pé no passado e outro no futuro, que nem ele sabia no que podia dar – deu em “A Love Supreme” –, fez das inúmeras apresentações no Village Vanguard, em Nova York, seu laboratório de experimentações, como ficou bem demonstrado no álbum ao vivo gravado lá em 1961. O futuro estava esboçado, mesmo com a predominância dos improvisos modais cheio de cores e texturas melódicas, com uma formação única, com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, acrescidos de Eric Dolphy, no sax alto e clarineta baixo, Garvin Bushell, no oboé e fagote, e Ahmed Abdul-Malik no oud. Mais tarde, foi lançada uma edição expandida com 4 CDs das apresentações de 1961 e fica evidente que explorava novos rumos.

Saíram matérias com destaque em jornais brasileiros, coisa rara em se tratando de jazz, gênero de baixa popularidade, vamos dizer a verdade, sobre “Both Directions at Once: The Lost Tape”. Bom, assim como Miles Davis, dentre os mortos, ou Keith Jarrett, dentre os vivos, e nunca Vijay Iyer ou Cécile McLorin Salvant, imagino que ainda causem algum interesse ao leitor não especializado. Em “O Estado de S. Paulo”, o título da matéria é “Grande Achado do Jazz”. Na Folha de S. Paulo, o título da matéria assinada por Carlos Callado, é menos bombástica: “Pequeno tesouro, novo disco de John Coltrane soa perturbador”. Menos triunfal, escreve: “Mesmo que soem aquém de consagradas obras-primas do músico, gravações ainda causa grande impacto.”

Na minha opinião, interessam mais àqueles referidos no primeiro parágrafo. Imagino que Coltrane ficou com as fitas em casa e esqueceu dela. Algumas faixas são conhecidas, como os vários takes de “Impressions”. É interessante ouvir para comparar as diferentes abordagens em cada um. Das faixas sem nome, identificadas por números, e inéditas, consequentemente, uma delas se destaca. É a “11386 - take 5”. É muito boa. Infelizmente, a única disponível é o “take 2’. Ouça.




Ouça um dos takes de “Impressions”.




O único standard é “Nature Boy”. Ouça.




Os diretores da Impulse certamente desejavam uma continuidade do que estava fazendo na Atlantic Records. Alguns álbuns, como “Ballads”, John Coltrane & Johnny Hartman” e “Duke Ellington & John Coltrane” seguiam pela seara mais mainstream, pelo seu “gentle side”, mas o saxofonista, mesmo na Impulse, enveredava por novas sonoridades.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Edu & Tom relembrados.

Em novembro de 1981, Antônio Carlos Jobim era um cinquentão de bem com a vida e o sorriso fácil de quem era reconhecido como o maior compositor brasileiro, autor não apenas de clássicos como “Garota de Ipanema”, mas músico maior, com álbuns conceituais, como “Matita Perê” (1973) e “Urubu” (1976), com arranjos orquestrais sublimes de Claus Ogerman. Jobim gostava de dizer que todo brasileiro precisava de um alemão – natural de Ratibor, hoje no território polonês – para dar uma ordem na casa.

Edu Lobo, com 43 anos, na época, onze anos mais novo, bem jovem, com menos de 20, lançou um compacto duplo, e em 1964, “A Música de Edu Lobo por Edu Lobo”, com arranjos de Luiz Eça, hoje, considerado um clássico. Em 1981, o foco em temas sociais se deslocara para um estudo mais específico dos fundamentos musicais. Morou nos Estados Unidos e fez cursos de orquestração com Albert Harris e Lalo Schiffrin.

Em 1981, ambos tinham suas carreiras consolidadas, Jobim, conhecido internacionalmente, e Lobo, considerado um dos destaques da segunda geração da bossa nova, depois de ser premiado em festivais de música com canções marcantes como “Ponteio” e “Arrastão”. Os novos “bossa nova” diferenciavam-se por terem mudado a temática de “um cantinho e um violão” para as causas sociais, consequência de um país convulsionado por um golpe militar. Como Jobim, não sentara na fama. Os dois foram explorar novos horizontes musicais, compondo para peças de teatro e trilhas de cinema.

Perto do que tinham feito até então, o álbum “Edu & Tom”, ideia do grande produtor Aloysio de Oliveira, parece deslocado de suas trajetórias ou momentos em que viviam. E é isso mesmo. O encontro serviu para cantarem coisas belas. Nessa simplicidade está o sublime do disco. São cinco composições de cada um, revezando-se em solos ou cantando juntos, como, por exemplo, Edu Lobo a interpretar Luiza, em vez de Tom, autor da composição.

Edu, em uma entrevista, disse que prefere as músicas tristes. Surpreende, pois á autor de “Vento Bravo”, “Arrastão” e “Ponteio”, mas nesse álbum fica claro de por que disse isso. É brilhante em canções de andamento lento. Duas delas, obras primas, estão presentes: “Pra Fizer Adeus” e “Canto Triste”, esta, sublime, apenas ao violão.

Ouça “Canto Triste”.




“Pra Dizer Adeus” é do início da carreira, e se não me engano, foi gravado pela primeira vez no LP “Edu & Bethânia” (Elenco, 1966), produzido pelo mesmo Aloysio de Oliveira.




“Pra Dizer Adeus” tem letra de Torquato Neto. Nesse álbum, há uma com título muito parecido, mas é de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes: “É Preciso Dizer Adeus”.




Um pouco mais uptempo é “Vento Bravo”, de Edu Lobo com letra de Paulo César Pinheiro. O flugelhorn é de Marcio Montarroyos. O registro é bem interessante porque mostra a discussão entre os dois para a gravação. Não sei se é uma dublagem ou não. Fiquei na dúvida.




O destaque, no entanto, é “Ligia”.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Jazzmeia Horn é a cantora revelação do ano

Cantoras surgem aos borbotões. Destacar-se no meio de uma multidão não é fácil. Considerando-se que ouvimos belas vozes, afinadas, aos montes, boas na média, o diferencial é importante, até em atributos extra musicais, como a beleza, ou até a feiura.

No “66th Annual Critics Poll”, que acaba de sair, pela Downbeat com data de agosto (sai com um mês de antecedência, o que nunca entendi), o grande destaque é uma cantora. Cécile McLorin Salvant foi considerada a melhor em seu mister e emplacou o álbum duplo “Dreams and Daggers” (MackAvenue 2017), como o melhor do ano, empatado com “Happy Song” (Anzic 2017), da brilhante clarinetista e saxofonista Anat Cohen.


Se for por diferencial, Salvant é campeã: usa óculos, de cores variadas, às vezes brancos, vermelhos ou azuis, feitos especialmente, mais para gordinha, seus vestidos são coloridos, denotando ótimo gosto. Bem, nem precisava: é a melhor cantora da atualidade. É tão evidente que recebeu 282 votos e a segunda, a ótima Lizz Wright, 79.

Bom, mas o post de hoje é sobre outra cantora: Jazzmeia Horn. Novinha, com 27 anos completos, vencedora do Thelonious Monk Institute International Jazz Competition de 2015, maior revelador de novos talentos vocais, tendo estreado com “A Social Call” (Concord Jazz 2017), é a “Rising Female Vocalist” do ano, pela Downbeat, com quase o dobro de votos sobre a segunda, Dominique Eade, aliás, que não é tão “rising star” mais.

Horn pode ser comparada a Salvant. É de uma beleza africana exuberante e canta muito. Diferenciais, além da beleza? O nome, por exemplo. Não é nome artístico; é de registro. Possivelmente, o pai ou a mãe, ou quem o tenha pensado, estivesse a prever o futuro de Jazzmeia.

A começar pelo nome do álbum, a primeira influência de Horn é Betty Carter. Outras canções, como “Tight”, são as evidências. E ela, menos exageradamente — graças a deus —, é muito boa nos scats, que tão bem caracterizam as cantoras de jazz. Outra referência, naturalmente, é Sarah Vaughan, e, curiosamente, a limpidez de sua voz faz lembrar sua quase contemporânea Cécile McLorin Salvant.

Veja Jazzmeia Horn, em “Tight”.




Dentre os bons números de “A Social Call”, várias estão disponibilizadas no YouTube. Ouça  a sublime “The Peacocks”, de Jimmy Rowles.




Fugindo um pouco do jazz, ouça “I’m Going Down”, do mestre do soul Norman Whitfield.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Puccini é pop e é jazz

Até quem não gosta de ópera ou de música erudita e nunca viu “Cantando na Chuva”, por não gostar de musicais, deve ter ouvido “Nessum dorma”, uma das árias mais conhecidas. Depois dos milhões de álbuns vendidos de “Three Tenors”, com Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras, árias como de Giacomo Puccini, citada acima, caíram, como se dizia antigamente, “na boca do povo”. Quem não a conhece a desse disco – tudo é possível –, deve conhecê-la na interpretação de Andrea Bocelli, o tenor mais pop do mundo, ou, quem sabe, com o espetaculoso André Rieu.

Questão de gosto. A ópera é daquele gênero “amo ou odeio”. Os libretistas capricham em enredos fantasiosos e teatralidade exuberante. Traições, violência, paixões, finais trágicos, nem tudo é leve e engraçado como nas “Bodas de Fígaro” e “Flauta Mágica”, de Mozart. É um gênero over por natureza, e exige uma certa sofisticação cultural/musical de seu ouvinte.

Alguns escolheram cenários que podem ser considerados exóticos, como Verdi, em “Aída”, no antigo Egito, como gancho, em razão da inauguração do canal de Suez, ou o Japão, para cantar a impossibilidade do amor de um tenente americano por uma gueixa. “Turandot”, ópera que Puccini não conseguiu concluir, o cenário é a China.

A ária “Nessum dorma” é a mais conhecida dessa ópera. É Calaf, um dos pretendentes da princesa Turandot, quem canta. Dentre as inúmeras gravações, a dirigida por Zubin Mehta, com Joan Sutherland e Luciano Pavarotti, de 1972, é considerada um clássico.

Ouça “Nessum dorma”, com o italiano.




Tão conhecida e sublime, natural que existam gravações como no jazz, com o trumpetista Lester Bowie e sua Brass Fantasy e até uma com o roqueiro Jeff Beck.

Comecemos com Jeff Beck.




Com Lester Bowie.




E lucevan le stelle
Em cenário mais familiar, Itália, mais precisamente, o pintor Mario Cavaradossi aguarda sua execução, no terceiro ato. É quando canta “E lucevan le stelle”, lembrando-se de sua amada Tosca. É uma ópera com belo libretto e merece ser conhecida até por quem não gosta do gênero. Várias árias são clássicas, sendo “E lucevan…” a mais bela. Uma grande montagem, com cenários de Franco Zefirelli, é a do Metropolitan, regência de Giuseppe Sinopoli, com Hildegard Behrens e Placido Domingo.  É a apresentada aqui.




Alguns músicos mais ligados ao jazz fizeram boas gravações dessa ária. Uma delas é a de Grover Washington Jr, no álbum “Aria”.




Outra bem boa, que postei no YouTube e foi bloqueada é a presente em “Tati” (ECM, 2005). Não foi seu único registro. Ouça a que está em “Rava l’opéra va” (Label Bleu).




quinta-feira, 21 de junho de 2018

O caso de Caetano Veloso com John e Paul

Caetano Veloso, sem lenço, sem documento
Nesses dias, por razões mais e menos obscuras, para mim, entrei em uma onda nostálgica, que me levou a gravar vários CDs com mp3 de álbuns significativos de música brasileira, para ouvir no carro. Nessa seleção, estão Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Beto Guedes, Dorival Caymmi, Dori Cammi, Nana Caymmi e Edu Lobo. Nesses dias, na maior parte do tempo, ouço meus CDs no meu amplificador de válvulas. Nesse frio, o calor físico e sonoro das válvulas parecem fazer diferença.

Deles, dois álbuns de Caetano Veloso estão entre os selecionados por estarem entre os meus preferidos: “Joia” e “Qualquer Coisa”. De 1975, saíram juntos. A referência maior são os Beatles, a começar da capa do último, inspirada em “Let It Be”, com a diferença de que os quatro são ele apenas, em variações de uma foto, com registros de fotolito deslocados. Das doze faixas, três, cantadas em seguida, são de John Lennon e Paul McCartney: “Eleanor Rigby”, For No One” e “Lady Madonna”; em “Joia”, uma única composição: “Help”. Mais de 40 anos depois, continuam entre as mais originais leituras existentes, dentre as milhões disponíveis.

Ouça “Eleanor Rigby”.




Ouça “For No One”.




Ouça “Lady Madonna”.




Nas três, os violões são de Caetano e Perinho Albuquerque. Em “Help”, que está em “Joia”, é Caetano sozinho.




Caso interessar, os manifestos lançados com os discos, acesse aqui.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O vibrafone de Lewis Wright, em perfeita sintonia com Kit Downes

Lewis Wright e Kit Downes
Considerado instrumento de percussão, o vibrafone tem grandes representantes na história do jazz, a começar por Lionel Hampton. Foi grande a sua influência, e por sua orquestra, passaram grandes músicos, fora que é o compositor da genial “Midnight Sun”.

Outro genial, é Milt Jackson. Diferentemente do primeiro, pura energia ritmica, este privilegiou a melodia de sonoridades hipnotizantes, em combinação perfeita com a concepção “third stream” do pianista John Lewis, no Modern Jazz Quartet.

Um dos vibrafonistas geniais, depois deles, é Gary Burton. Surgiu na cena musical nos anos 1960 e é até hoje a grande referência, junto com Bobby Hutcherson. Mais novos que ele, muito bons, são Stefon Harris, Steve Nelson e Jason Adasiewicz.

Apesar de Donald Trump, os Estados Unidos continuam sendo o centro de propagação do jazz, em prejuízo de países fora do continente americano. Por essa razão, o inglês Lewis Wright desponta entre os melhores rising stars, ocupando um modesto 20º lugar, pela revista Downbeat. O rapaz promete – recebeu um belo elogio de Gary Burton –, a começar por seu talento como compositor.

Pessoas que possuem seus cartões de idosos, para poderem estacionar em vagas especiais de mercados, bancos e shopping centers, podem viajar gratuitamente de metrô, trem ou ônibus, e que gostam de música, devem ter ouvido em alguma ocasião a grande parceria de Chick Corea e Gary Burton. Apresentaram-se no Brasil, depois de terem lançado “Crystal Silence” (ECM, 1979), “Duet” (ECM, 1979) e “In Concert, Zürich, October 28, 1979”. Quem viu sabe do quanto foi antológico o encontro.

O selo Signum Classics – a princípio, imaginei que fosse de música erudita – acaba de lançar o álbum “Duets”, com Lewis Wright e Kit Downes. Sem saber dele, “farejando” apenas por conhecer Downes, pianista e organista de enorme talento, resolvi arriscar. É uma bela surpresa. Lembra os de Corea e Burton. As composições são todas de Wright. Olha, vou ficar atento aos próximos que gravar. “Duets” é seu primeiro lançado. “Fortuna” e “Satis” são as minhas preferidas, por enquanto.

Por sorte, essas duas faixas estão disponíveis no YouTube.

“Fortuna”.




“Sati”.




Sobre Kit Downes, leia em Um grande início de 2018 da ECM

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Momentos musicais de Maurizio Pollini

1. Passo, de vez em quando, por alguns períodos obsessivo-compulsivo musicais. No mais recente, estou a ouvir Maurizio Pollini. A razão é o lançamento de “Prelúdios - Segundo livro”, de Claude Debussy. O “Livro 1” é de 1998, tempo bem distante, considerando-se que, se há um primeiro e um segundo, na minha lógica, deveriam sair juntos ou na sequência, e não vinte anos depois. Mas aí vai da cabeça de cada músico.

2. Nesse compasso, se Pollini gravou o primeiro livro de “O Cravo Bem Temperado”, de Johann Sebastian Bach, em 2009, o segundo sairá em 2029. O problema é que, vivo, terá completado 107 anos.

3. Considerado um dos grandes virtuoses atuais, Pollini notabilizou-se por gravar compositores do século 20, como Pierre Boulez, Arnold Schoenberg, Alban Berg, Anton Webern, Béla Bartók, Igor Stravinsky, Debussy, Prokofiev e Luigi Nono, além, evidentemente, dos clássicos Chopin, Beethoven, Brahms e Schubert. Com Nono, a ligação era mais particular, assim como com Claudio Abbado, não apenas musical, mas por suas militâncias no partido comunista.

4. A Deutsche Grammophon, mesmo a investir em formatos crossover e gravações de intérpretes mais jovens, não esqueceu dos mais experientes. Lançou um álbum com Menahem Pressler a tocar Schubert, Ravel e Fauré; Pollini, antes dos “Prelúdios II”, em janeiro de 2017, “Late Works”, com a obra de Chopin; e contratou o genial Murray Perahia.

5. Levado por essa obsessão-compulsiva, descobri que tenho três registros diferentes do “Concerto no. 1 para Piano e Orquestra”, do Brahms com ele. Uma é com o Karl Böhm na regência (1979), outra com o Claudio Abbado (1995), e a última, com Christian Thielemann e a Orquestra de Dresden (2011). Interessante como são diferentes, não apenas pela regência, mas pelo piano também, o que me faz pensar como a abordagem de um virtuose se transforma com o tempo e depende do maestro.
Esse concerto é impressionante pela força, brutal, às vezes, emoção fora de controle, a delicadeza do segundo movimento… não é possível entender que alguém ache Brahms chato.

Nesse momento, a minha preferida é a de Thielemann. Super regente. Assista ao Concerto no. 1, com eles.