segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Buddy DeFranco morre aos 91
O mês de dezembro é pródigo em “matar” pessoas. É um dos meses preferidos do destino. Dave Brubeck, Ravi Shankar, Bob Brookmeyer, Cassia Eller, Christopher Hitchens, Oscar Niemeyer, Christa Wolff, Vaclav Hável e Ronald Searle morreram em dezembro. Neste ano, soubemos de poucos. Bom, faltam alguns dias para o ano terminar. Pelo menos, do jazz, Buddy DeFranco é o primeiro de quem tenho notícia.
A clarineta foi um instrumento importante no jazz dos anos 1920 e 1930. O nome mais importante, sem dúvida, foi Benny Goodman, secundado por Pee Wee Russell, Artie Shaw e Johnny Dodds. A sonoridade da madeira deu lugar ao som metálico dos saxofones na era do bebop. O único destaque de fato nos anos 1950 foi Buddy DeFranco. Outro, menos conhecido e mais reconhecido como grande inovador foi Jimmy Giuffre.
Norman Granz é o criador do JATP – Jazz at Philharmonic. Ele teve a ideia de reunir grandes nomes do jazz e fazer shows. Metido na música, criou o selo Clef, em 1946, a Norgram, e a Verve, considerada até hoje, um dos grandes lançadores do jazz. Depois da Verve, criou a Pablo. Nessas apresentações do JAPT, reunia, na mesma noite Oscar Peterson, Lester Young, Ben Webster, Charlie Parker, Dizzy Gillespie e… Buddy DeFranco.
Buddy foi um dos músicos que fizeram parte da Verve e continuaram com o produtor na Pablo, assim como Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e outros nomes do mainstream do jazz. Depois do fim da Pablo, gravou em outros selos, como a Concord Jazz. Gravou mais de 150 álbuns. É um número e tanto. DeFranco influenciou gerações posteriores como Bob Wilber, Eddie Daniels e Kenny Davern. A clarineta continua um instrumento presente no século XXI com grandes músicos como Anat Cohen e Don Byron.
Vamos ouvir Buddy DeFranco em períodos diferentes.
Makin’ Whoopie, em gravação de 1956 com o genial Art Tatum.
Buddy DeFranco e Mike Gibbs executam Giant Steps, de John Coltrane (1987).
Em apresentação de 1983, DeFranco toca Yesterdays. Veja.
Ouça DeFranco com Oscar Peterson em I Got Rhythm. Os dois gravaram juntos em várias ocasiões. Um dos álbuns gravados, de 1955, é The George Gershwin Songbook. Há um outro, lançado em 1985, pela Pablo, chamado Hark.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Meu nome é Perfume Genius
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| Capa do álbum novo de Perfume Genius |
Perfume Genius é o nome sob o qual Hadreas se esconde – ou se mostra. Logo na primeira audição, vem a lembrança de Antony Hegarty, do Antony and The Johnsons. A semelhança não é apenas por ambos serem homossexuais. Isso os aproxima pela temática de suas letras, talvez. Sobre Antony a questão do gênero é mais dúbia ainda, porque se refere bastante em algo seria melhor nomeado como transgênero ou até, pansexualismo. Em Mike, isso, sobre gêneros, parece mais claro. É gay e sua referência e inspiração para a sua música é esse universo.
No terreno das excentricidades, é um tanto difícil suplantar Antony. É um cara diferente, até no Antony sem “H”, como a Bahia de um tal Denis Brean (era o pseudônimo do autor de Bahia com H). Alguém disse que é meio um Boy George gordinho. Pelas imagens disponíveis na internet, Mike parece ser bem normal. Gosta de usar batom, mas não é nada tão anormal, como homens fazerem as unhas dos pés ou raspar os pelos do peito e das pernas. Sem ser genial como Antony, suas composições são quase sempre “torch songs”, como são as de seu conterrâneo americano.
Ao escolher como nome artístico Perfume Genius, Mike Hadreas foi ambicioso – ou pretensioso, dependendo do ponto de vista. Mas como não chamar atenção com um nome diferente desses? Se você é ambicioso, é bom mostrar ao que veio. Caso contrário, é bem provável tornar-se motivo de gozação. Bem, Perfume Genius até que é original. Vai pela seara que o diferencia da maioria do que está por aí atualmente.
Antecede Too Bright, lançado neste ano, Put Your Back N 2 It. Neste provocou um pequeno escândalo com o clipe disponibilizado no YouTube. Chegou a ser banido do site, mas está de volta.
Assista.
Fora o “escândalo” – quem se escandaliza com alguma coisa? Melhor escandalizar-se com violências físicas ou corrupção, não? – Put Your Back N 2 It pode ser considerado um álbum bem médio.
O mais recente Too Bright é bem melhor. Traz canções “torchy” de qualidade, originais e interessantes. Um dos bons destaques, como foi dito logo no primeiro parágrafo, é Grid. Tem uma batida eletrônica muito boa, vibrante.
Veja o clipe.
A música título Too Bright é a melhor, junto com No Good. Faz o estilo “corta pulso”, maravilhosa.
Veja Mike, em Berlin, cantando No Good.
Veja também o vídeo oficial de Fool.
Perfume Genius canta Queen no program de David Letterman.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
O disco que João Donato não gravou com Chet Baker
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| João Donato e Chet Baker juntos: o grande disco “que não houve” |
Foi lançado pela editora Melrose Brooks o livro Funny Valentine – The Story of Chet Baker, de Mathew Ruddick. É um catatau com 830 páginas e é bem provável que seja traduzido para o português. Teve uma época em que era chique conhecer ou citar Chet Baker, ou melhor, o álbum Chet Baker Sings. Os “bacanas” possuem certos códigos. Enquanto é do conhecimento de poucos é o máximo. Aí, cai na boca da patuléia. Daí em diante, deixa de ser.
A vida de Baker ficou maior do que sua arte. Bonito, talentoso, devastado pelas drogas pesadas, e ainda morre pulando da janela de um hotel em Amsterdam. Concorda que sua história “dava um bom livro”? O de Ruddick não é o primeiro e nem será o último.
O LP, lançado em 1956, era item de colecionador. Poucos o tinham, e nesse caso, em estado imprestável de tanto ser tocado. E não eram muitos os que tinham dinheiro para comprar discos. LPs eram bem caros. Mesmo na minha adolescência, no início dos anos 1970, em um período de um ano, conseguia comprar cerca de 10 LPs. Está certo que a mesada que recebia era uma miséria. A qualidade dos nacionais era péssima e os importados eram caríssimos. Para cada nove nacionais adquiridos, comprava um importado. Aos poucos os discos foram ficando baratos (ou tivesse passado a ganhar um pouco mais). Até o fim da era dos LPs, tinha cerca de 4 mil.
O amigo Alberico Cilento, adolescente na época em que saiu Chet Baker Sings, lembra de uma de suas férias em que passaram um mês na praia e levaram quatro LPs. Um era esse e os outros, Canção do Amor Demais, Joias de Erroll Garner e Inolvidable, de Lucho Gatica. Passaram todos os dias ouvindo apenas isso. Imagine como as músicas devem ter “colado” em suas memórias. Não estranhe que o disco de Gatica esteja na lista. Fazia o maior sucesso. O chileno, um dos gigantes do bolero, gravou Inolvidable em Cuba com os Irmãos Castro, no violão e contrabaixo, influenciado pelas harmonias do guitarrista Barney Kessel em Cry Me a River, de Julie London.
Salto para o fim dos anos 1990
Os “bacanas”, nesse meio tempo já sabiam quem ele era. Falava-se que João Gilberto fôra influenciado pela maneira “cool” de Baker cantar. Enfim, o pessoal da bossa nova falava muito dele e das harmonias, avançadas para a época, de Barney Kessel. De tanto falarem da influência do americano sobre a bossa nova, Chet caiu na boca da patuleia.
O Brasil foi conhecendo a música de Baker pelas bordas. Foram lançados aqui, primeiro os gravados na Europa, depois que passara por prisões, internações e nem tinha mais os dentes da arcada superior, terrível para um trompetista. A voz perdera aquela delicadeza juvenil do início da carreira. Eram álbuns, desiguais, muito inferiores aos do início de sua carreira. Anos depois, por volta de 1990, apareceu um disco chamado The Best of Chet Baker Sings, com o subtítulo “Let’s Get Lost”. Tinha sido lançado pouco antes um documentário (virou cult) dirigido pelo fotógrafo de moda Bruce Weber com este nome. Além das doze do original, foram acrescentadas outras oito gravadas em outros álbuns feitos para a Pacific Jazz. Foi a apresentação do melhor de Chet.
O meu Chet Baker Sings
Os CDs musicais foram lançados em 1979 pela Philips. Custavam bem mais que os LPs e demorou um pouco para pegar. A contrapropaganda alardeava quanto à pobreza do som digital (verdade) e diziam que a superfície metalizada dos CDs degradaria em até cinco anos (mentira).
Comprei meu primeiro aparelho em 1987, em Nova York, e cerca de 20 CDs. Paguei uma grana preta na alfândega. O fiscal da polícia federal não considerou minhas alegações de que música era cultura. Disse até que em todo LP vinha escrito “Disco é cultura”. E era verdade. A besta não ficou nem um pouco comovida com meus argumentos.
Em 1990 fui ao Japão. CDs que nunca tinham sido lançados nos EUA estavam disponíveis, se bem que, mais caros. Um dos achados foi um “complete” de Billie Holiday com todas as gravações da Columbia. Em anos posteriores saíram no Brasil e nos EUA, mas separados e com o título The Quintessential of Billie Holiday. Não vinha com os “alternate takes” e um livreto com as letras de todas as canções.
Grande achado mesmo foi Chet Baker Sings. Sonhava com ele em CD. O problema é que havia um outro com o mesmo título acrescido de “My Funny Valentine”. Na dúvida, comprei os dois. Neste segundo, constavam dez das doze do original. A capa era com Chet empunhando um violão, imagem do mesmo William Claxton, autor das melhores imagens de Chet nos anos 1950. Essas fotos foram reunidas em um livro chamado Young Chet (Schirmer Art Books, 1993). Parece que o produtor e dono da Pacific Jazz Dick Bock, para ganhar um troquinho a mais, reutilizava as matrizes fonográficas acrescentando alguns instrumentos e os “relançava”. Neste, estão listados Joe Pass, Bud Shank, Lawrence Marable, Corky Hale na harpa, além de um naipe de cordas, ausentes no LP original.
Fui pego novamente na alfândega. Trazia um amplificador Denon de 20 quilos e 90 CDs. Quis o bom destino que aparecesse uma pessoa dizendo que eu era funcionário da Varig. Não era. Minha irmã era. Estranhando a minha demora, pediu a uma colega de trabalho que fosse ver por que eu demorava. O fiscal disse: “Fecha a mala. Está liberado.” Não tive de pagar nada. Saí de um jeito tão atabalhoado que esqueci de pegar o passaporte de volta, que, à essa altura, já estava no bolso dele.
Era, no Brasil, provavelmente, um dos únicos a ter Chet Baker Sings. Vários amigos correram para a minha casa, não por minha causa, mas por Chet, no intuito de gravá-lo em fita cassete (não existiam ainda os CDs graváveis). Minha amiga Tila Leal pediu-me que gravasse para o seu pai. Disse-me ela que, quando começou a ouvir, chorou. Por causa de Chet ficamos amigos. O Zeca passou a vir com frequência a minha casa. Nunca saía sem ter gravado umas três fitas de jazz. Conhecia Frank Sinatra como poucos. Conto essa história em http://bit.ly/1yYZu3y. Era muito amigo de Dick Farney. Fazia o imposto de renda dele. Possuía vários discos de playback com as bases de Nelson Riddle, sem a voz. A cantora Sylvia Telles pegou vários emprestados, e não devolveu.
Sempre gostei de cantores de jazz. Em certo momento, de tanto ouvir certos standards, passei a me interessar pelas letras, nem tanto pelo teor e mais para (tentar) cantar junto. “Acompanhava” Ella e Louis Armstrong de cór em canções como Moonlight in Vermont, Cheek to Cheek, Stars Fell on Alabama, Tenderly e muitas outras. Comecei “na unha”: ouvia dezenas de vezes a mesma música com uma caneta e uma folha de papel. Hoje, qualquer letra está disponível na internet. O Zeca era meu consultor para resolver as minhas dúvidas. Disse uma vez: “O melhor jeito de pegar as letras é ouvindo Frank Sinatra. Não existe ninguém com a dicção dele. Facilita muito.” Facilitou mais depois emprestando-me várias publicações importadas com letras de músicas mais conhecidos do cancioneiro americano. Mais tarde, achei um livro chamado Reading Lyrics (Pantheon Books, New York, 2000) com mais de mil letras. O bom é que não se limita aos mais consagrados como Cole Porter e Ira Gershwin.
O disco que Donato não gravou
João Donato morou, em períodos intercalados, nos Estados Unidos. Em 1965, fazia uma temporada com seu trio no clube Trident, em Sausalito, cidadezinha próxima à San Francisco. O “special guest” era Chet Baker. Na matéria publicada em 13/5/2013, na Folha de S.Paulo, sobre a biografia escrita por Ruddick, assinada por Roberto Evangelista, há uma referência sobre um episódio capital na vida do trompetista. Como sempre, estava sempre atrasado. Chegou com um lenço cobrindo a boca toda ensanguentada. Tinha levado uma surra de cinco jovens negros, aparentemente, sem razão. “Fiquei chateado, claro – ver tudo aquilo acontecer com uma pessoa bonita, com quem eu trabalhava todos os dias. Ele não podia tocar da mesma maneira depois disso. Então eu o mandei para a casa e disse, se cuide”, falou Donato. Uma observação: pelo artigo da Folha, o incidente ocorreu em 1965, enquanto mais de uma fonte dá como 1968.
Em consequência da agressão sofrida em 1966, Chet teve que tirar todos os dentes da arcada superior, fato desastroso para um trompetista. Ficou afastado por um período. Chegou a trabalhar de frentista em um posto de gasolina. Quando voltou a tocar, não era mais o mesmo.
Mesmo antes que o vício da heroína o dominasse, os amigos achavam que Baker já gostava de viver perigosamente. Joyce Freeman, ex-mulher do pianista e arranjador de vários discos seus, Russ Freeman, conta que, uma vez saíram com ele em seu Aston Martin. Dirigia bem, mas gostava de se arriscar. Ela lembra dele ter-lhe dito, uma vez, que tinha pavor de heroína. Tinha experimentado e jogado fora. O problema começou quando passou a namorar uma francesa amiga de vários junkies.
O título Let’s Get Lost do documentário de Bruce Weber e da canção de Frank Loesser e Jim McHugh funciona como a perfeita síntese de uma época. Depois de duas guerras mundiais havia desencanto dos que as viveram e esperança dos sobreviventes e de uma juventude que havia nascido durante os conflitos. O florescimento do rock, Bill Haley e Seus Cometas, o bebop, o cool jazz, a aparição de figuras emblemáticas como James Dean e Marlon Brando se incluem nessa transformação. Era uma mistura de inconformismo e ingenuidade. Baker, com sua beleza dúbia, queixo duro de macho e, ao mesmo tempo angelical, e voz delicada, de certa forma, era uma síntese dessa época. Viver no limiar do perigo, como Joyce Freeman exemplifica no jeito de Baker dirigir era a imagem de uma geração.
Veja-o cantando Almost Blue, de Elvis Costello. É uma das grandes músicas do Baker da última fase.
Em 1968, época em que foi “special guest” do brasileiro, era uma sombra do que havia sido. Era um homem destruído, mas algo do mito persistia. Mesmo depois que mudara para a Europa era cultuado por antigos fãs e músicos.
Quando tocavam no Trident, Baker e João combinaram de gravar um disco. Depois da surra que levou, ficou o dito pelo não dito. Resultaria em um bom disco? Não dá para saber. O que teria sido nunca será.
Sobre João Donato, conto uma história legal (duas) em http://bit.ly/13c3RQ6
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
As vidas de Leon Fleisher
Hoje, com mais de 80 anos, reconhece: a busca pela perfeição lhe trouxe “grande desespero, autopiedade, infelicidade aliada à imensuráveis êxitos.” Movido pela ambição da mãe e guiado por um talento natural, perseguiu seus objetivos com tenacidade e boas escolhas. Estudou piano desde os quatro anos e mais tarde Arthur Schnabel, aquele que por alguns é considerado o melhor intérprete de Beethoven de todos os tempos, foi seu professor. Estava com 16 anos quando apresentou-se pela primeira vez com a New York Philharmonic, sob regência do lendário Pierre Monteux. Foi uma estreia de ouro. Assinou contrato como artista exclusivo da Columbia. Seu gênio ficou evidenciado com as gravações dos cinco concertos para piano de Beethoven e os dois de Brahms realizadas com a Cleveland Orchestra, regida por um dos grandes maestros da história, o húngaro George Szell.
Ouça os cinco concertos para piano e orquestra com Leon Fleisher.
Um pequeno acidente. Sua mãe devia estar radiante. Mas tem sempre o imponderável. A carreira de grande concertista sofreu um revés. Por um desses golpes do destino, aconteceu um problema com sua mão direita. Pianistas são “ambidestros” por força da necessidade. Como concertista seus dias tinham chegado ao fim. Fosse pelo desejo materno, sobrara a opção de ser o primeiro presidente judeu.
“Eu estava me preparando para a mais importante turnê da minha vida, quando sofri um pequeno acidente doméstico. Cortei meu polegar numa peça de mobiliário barato de jardim e tive dar um par de pontos. Quando voltei a praticar novamente, não sentia direito o lado direito da minha mão direita. Meu quarto e quinto dedos pareciam querer virar para baixo. Pratiquei mais e mais, sem ouvir que meu corpo, por meio da dor, dizia para eu parar. As coisas foram piorando tanto que em menos de um ano aqueles dois dedos ficaram completamente curvados para baixo. Não podia mais tocar piano.”
Como bom filho de mãe judia, não ia desistir. Foi atrás do que fosse possível tocar apenas com a mão esquerda. Quem gosta de musica clássica conhece o Concerto para Mão Esquerda, de Maurice Ravel; e deve saber que fora composta por encomenda de Paul Wittgenstein, pianista austríaco que teve o braço direito amputado na Primeira Guerra Mundial. Wittgenstein encomendou obras no mesmo formato também para Richard Strauss, Korngold, Hindemith, Prokofiev e Britten.
O problema com a mão não trouxe percalços apenas à carreira. Acabou o casamento, pensou em suicídio, deixou a barba e o cabelo crescerem e comprou uma Vespa (hoje esse tipo de veículo é chamado de Scooter; naquela época, era conhecido como lambreta). Sua vida tinha perdido a direção. Reencontrou-se parcialmente como professor de música e como regente.
Fleisher tentou de tudo. Consultou-se com médicos, psiquiatras, acupunturistas, fez hipnose e tentou outros procedimentos alternativos. Nada feito. Em vez de resolvê-lo, teve outro problema regendo. O esforço de segurar a batuta e movimentar o braço causou-lhe uma neuropatia, que hoje chamam de L.E.R., conhecida como síndrome do túnel do carpo. Teve de fazer uma cirurgia para minorar o problema. Por uma dessas incongruências, após a operação, os dois dedos voltaram a ficar retos. Depois de 18 anos, e já com mais de 50, poderia voltar a tocar com as duas mãos. Programou uma serie de concertos para anunciar o seu “comeback”. Percebeu, no entanto, que sua capacidade de encarar qualquer peça do repertório clássico, como os concertos de Brahms, estava comprometida. Voltou a apresentar-se privilegiando o repertório para a mão esquerda.
Precisou mais de dez anos para que descobrisse que sofria de uma doença neurológica chamada distonia focal, mal comum em jogadores de golfe e sopradores de vidro. Se não tivesse sido acometido desses problemas, é provável que Leon hoje fosse incensado como Sviatoslav Richter, Emil Gilels, e seu mestre Arthur Schnabel. Mesmo não podendo usar a direita, continuou grande músico. Quando a gravadora Philips organizou a coleção Greatest Pianists of the 20th Century, Fleisher foi um dos escolhidos. Sinal da sua importância, mesmo depois de seu problema com a mão.
Quando ainda eram incipientes os experimentos com o botox, e antes que as madames passassem a usar para disfarçar rugas em volta da boca e dos olhos, descobriu-se que uma aplicação na mão a cada quatro meses, dirimia seu problema dos dedos.
Com 75 anos, em 2004, lançou pelo selo Vanguard Classics, o álbum, convenientemente, intitulado Two Hands. Foi um sucesso. É um disco de “encores”. É composta de peças curtas, em que incluem-se peças conhecidas como Jesus, Alegria dos Homens (Bach), Clair de lune (Debussy), Noturno no.2 (Chopin), dentre outras, e uma de maior fôlego, a Sonata em Si maior D.960, de Franz Schubert. Esta última é uma das peças essenciais do piano solo e prova de fogo para os virtuoses. E a interpretação de Fleisher está entre as melhores, à altura de Alfred Brendel, Radu Lupu, Sviatoslav Richter, Murray Perahia e András Schiff.
Veja Leon Fleisher executando o Noturno no. 2, de Chopin em www.youtube.com/watch?v=iBBVmlyHq48
Ouça Clair de lune, de Debussy.
Veja Fleisher executando um trecho da Sonata D.960, de Franz Schubert.
Leon toca Jesus Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach.
Ainda na ativa. Leon Fleisher nasceu em 23 de julho de 1928, o que quer dizer que, mais três anos e pouco estará com 90. Apesar das dificuldades, nunca abandonou a música. Ainda neste ano lançou All The ThingsYou Are. Executa várias peças para mão esquerda de autores americanos como Dina Koston e George Perle, além de Jerome Kern, autor da música título, e George Gershwin, com The Man I Love, brilhante, em uma adaptação de outro brilhante pianista americano, Earl Wild. Completam o CD lançado pela Bridge Records o Prelúdio no. 6 de Mompou, a Chacona da Partita para violino em ré menor, de Johann Sebastian Bach, transcrita por Johannes Brahms para a mão esquerda, e uma de sua autoria (L.H.). São números, na maioria, para a mão esquerda.
Para sair do terreno mais erudito, vamos ouvir The Man I Love.
Veja um trecho de um workshop com Leon Fleisher e Yo-Yo Ma do ano passado.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
As transformações de Marianne Faithfull
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| As duas Mariannes |
A mocinha educada de sobrenome aristocrático queria ser cantora. Esse foi o começo de seu descaminho. Parou em uma festa em que alguns Rolling Stones estavam presentes. O amigo que a tinha levado conhecia Mick Jagger e Keith Richards. O resto, todo mundo deve conhecer: “ganhou” As Tears Go By e fez o maior sucesso. Numa etapa seguinte, larga o namorado para ficar com Jagger.
O glamour da fama é encantador, mas tem seu lado perverso. Fãs adoram seus ídolos, têm ciúmes deles, entram em suas vidas. Marianne devia ser a mulher mais invejada (e odiada) da Grã-Bretanha. Não à toa que nessa época, a cidade que habitavam ficou conhecida como “Swinging London”. Não teve jeito; a mocinha caiu na vida. Muito tempo depois, disse que, bobamente, sempre pensava que seus problemas começaram com aquela maldita canção. A referência era As Tears Go By.
Os anos dourados com aquela gente que borboleteava em torno dos Stones não foram duradouros. Quando Mick entregou-lhe o bilhete azul, tentou o suicidio. Nessa altura, as drogas faziam parte ativa de sua vida. Por mais de uma vez tentou largar, internando-se em clínicas de reabilitação, mas sua cabeça e seu corpo já estavam atavicamente ligadas ao vício. Começou com um simples baseado e progrediu para outras mais pesadas como a cocaína e a heroína, tudo isso misturado ao álcool e ao cigarro.
A Marianne dos anos 1960 era uma cantora de voz doce, nada excepcional, mas, prótegée dos Rolling Stones, isso lhe conferia certo status. Poderia ter acabado como Mary Hopkins, a versão dos “concorrentes” Beatles se continuasse com aquela voz. Mary foi a primeira a assinar contrato com a gravadora Apple. Explodiu com Those Were the Days. Como Marianne, era bonitinha e tinha boa voz. Hoje, ninguém mais fala dela, o oposto de Faithfull, considerada cult pelos moderninhos.
Ironicamente, os abusos fizeram bem. Fãs adoram ver seus ídolos enterrando o pé na jaca. Se conseguem manter-se em pé depois de tantas drogas, melhor. Alguns ficam no meio do caminho, como Amy Winehouse, e outros estão vivos da silva, ralhando dos deuses, caso de Keith Richards.
As luzes voltaram-se novamente para Marianne após o lançamento de Broken English, em 1979. Era uma outra Marianne. Aquela menina de voz doce que cantava sob melosos arranjos não existia mais. A voz era outra, diz-se que por causa de uma laringite, mas consequência da cocaína, do cigarro e do álcool. Como acontecera com a voz de Billie Holiday, ganhara uma expressividade interessante. Muitos preferem a Billie decadente. Há um lado perverso da natureza humana em gostar da decadência. O artista tem de ser um bêbado, um drogado, esquisito, excêntrico, enfim, diferente do homem comum. No caso de Holiday, apesar de muito interessante sua voz dos anos 1950, não há dúvida de que seu auge foi o de meados de 1930 até 40 e pouco. Seus discos da Columbia e Decca são melhores do que os lançados pela Verve. Quanto a Marianne, não há como comparar a sua primeira fase com a de Billie. O da inglesa ficou mais interessante, como o de uma cantora de cabaret decadente.
Ouça algumas interpretações da primeira Marianne.
As Tears Go By, em 1965.
Veja Marianne cantando a mesma música (muito tempo) depois.
Uma canção que seria perfeita para a Marianne de hoje seria Ne me quitte pas. Em 1967, em Love in a Mist, ela canta Jacques Brel. Perceba a diferença da voz com a dos dias atuais.
Depois de Broken English. Depois desse álbum foram lançados 14, o que significa que Marianne tem gravado regularmente. Óbvio que não conheço todos, mas dos que ouvi, um dos mais interessantes é Strange Weather (Island, 1987), o ao vivo Blazing Away (1990). Strange Weather tem uma bela coleção de standards. A melhor é uma típica torch song. Na interpretação de Marianne, Yesterdays é uma daquelas de cortar os pulsos. A guitarra de Bill Frisell é um diferencial.
Ouça Yesterdays.
Em Blazing Away, passa pelo repertório mais conhecido e inclui seu primeiro sucesso (As Tears Go By), uma bela Working Class Hero, de John Lennon, e Sister Morphine. Vagabond Ways, de 1999, é outro bom disco. Veja Faithfull cantando Working Class Hero.
Marianne Faithfull ainda consegue surpreender. Give My Love to London, lançado neste ano, não decepciona. Mas, fica para uma outra vez.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Samba, amor e Lyambiko
A mudança não representou em mudança de estilo e nem que tenha ficado melhor ou pior cantora. Deu-lhe apenas mais visibilidade. Filha de pai tanzaniano, ligado ao jazz, a prioridade dada aos standards do gênero foi um caminho natural. Se não é excepcional como uma Sarah Vaughan ou uma Billie Holiday, Lyambiko não faz feio em um meio em que a concorrência é forte, que é o das cantoras. Tem a favor uma beleza exótica que chama atenção. E é uma moça classuda, coisa que ajuda nesse tipo de repertório um tanto repassado e que nem traz tanta novidade.
Tentando fugir do lugar comum, os arranjos são diferenciados e sempre tenta trazer um elemento original. Nem sempre acerta na tentativa de não ser mais uma apenas. Em Saffronia (Sony BMG 2008), álbum tributo a Nina Simone, canta várias consagradas como Four Women, Black Is the Colour of My True Love’s Hair, I Put a Spell on You, Ne Me Quitte Pas, I Loves You Porgy e Don’t Smoke in Bed, dentre outras. Em uma chega a tentar emular a voz de Nina, e o resultado é até interessante – em Ne Me Quitte Pas –, em uma interpretação bem original para uma daquelas “torch songs” de cortar os pulsos.
Ouça.
Ouça também Don’t Let Me Be Misunderstood.
Lyambiko e o Brasil. A primeira canção brasileira que a alemã gravou foi Dindi, em Shades of Delight (2003). É uma interpretação não muito diferentes das centenas de registros existentes. É, porém, muito boa. No álbum de 2005, o primeiro pela Sony BMG, chamado simplesmente Lyambiko, há várias do repertório brasileiro, como Summer Samba (Samba de Verão), O Pato, Corcovado.Até aí, nada demais. O “demais” é que canta a bela Samba e Amor; em português. Ouça.
Outro destaque é O Pato, com um suingue de respeito.
Em 2012, Lyambyko lançou Sings Gershwin, naturalmente, privilegiando o songbook de um dos grandes do cancioneiro americano. É um álbum bom, sem ser excepcional.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
O mito Nico
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| Nico, antes do Velvet Underground |
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| Ari, filho de Nico. Semelhança com Alain Delon |
Nico não possui muitos discos em catálogo. A maioria do que existe depois que voltou à Europa, são registros de apresentações ao vivo. Existe muita coisa interessante no meio. A voz marcante, um tanto teatral, as músicas, geralmente, de uma dramaticidade angustiante, revela uma personalidade nunca menos que interessante.
Ouça Frozen Warnings, de Behind the Iron Curtain, de 1986.
Assista a um vídeo de 1982 em que Nico canta Heroes, de David Bowie.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Diego Figueiredo na guitarra e no violão
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| Diego Figueiredo, com Gilberto Gil |
Diego é inventor de uma forma de tocar o violão. Chama-se “siririca”. Tinha uns 14 anos e fazia violão clásssico. Quando estudava para toca uma música chamada “El Colibri”, descobriu que, em vez de usar o indicador e o médio, poderia usar o polegar para imprimir maior velocidade no dedilhado. Após uma apresentação, impressionada com sua técnica com o dedão, alguém perguntou-lhe se a técnica poderia ser usada só no violão ou para alguma outra coisa. Um primo de Diego, que ouviu a conversa e batizou-a de “siririca”. A história foi contada em um programa de Jô Soares. Se você quiser assistir – porque é muito boa, não só por isso, acesse pela internet https://globoplay.globo.com/v/3507956/. Nela, explica outra técnica: a “pinicada”. Um esclarecimento: parece que esta palavra caiu em desuso. É o mesmo que “beliscar”. Em um sentido semelhante, quando as blusas de lã (natural ou sintética) mais grosseiras irritavam no contato com a pele, falava-se que elas “pinicavam” ou que eram “piniquentas”.
Brincadeiras à parte, o cara é bom. A culpa de não ser tão conhecido é por viver a tocar em outros países e a música instrumental não faz tanto sucesso quanto a cantada. É um globetrotter, como o bandolinista Hamilton de Holanda.
Não é a primeira vez que Diego é citado nesse blogue. Em “Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo” , conto que foi considerado por duas vezes o melhor guitarrista no Festival de Montreux e impressionou o produtor Quincy Jones. Apesar da dificuldade de se encontrar um disco dele nas lojas — está cada vez mais difícil é encontrar lojas que vendem CDs, na verdade —, acessando seu site, vemos que tem vários títulos lançados. Vários foram distribuídos pela Atração Musical e, pelo menos um foi lançado pela Biscoito Fino: “Vivência” (2009). Neste álbuum é acompanhado de Eduardo Machado no baixo e Fernando Rast, Figueiredo toca exclusivamente a guitarra elétrica. É uma boa amostragem de sua versatilidade.
Em “Vivência”, um dos destaques é “Paschoa”.
Em outro CD, lançado em 2008, toca violão acústico com Robertinho Silva na bateria e Rodolfo Stroeter no contrabaixo. Saiu pelo selo dinamarquês Stunt. Neste, abordam clássicos do cancioneiro brasileiro como “Na Baixa do Sapateiro”, “Último Desejo”, “Lamentos do Morro”, “Berimbau”, “O Morro Não Tem Vez”, “A Felicidade” e “Consolação”. É sempre um prazer ouvir um bom violão, ainda mais com a batida de Robertinho.
Veja Diego a tocar “Lamentos do Morro”.
Outro clássico: “Na Baixa do Sapateiro”.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Belo duo de piano com Bill Carrothers e Marc Copland
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| Carrothers (esq.) e Marc Copland. Foto: Cecile Mathieu |
Em outra feita, contou-me o Alberico, seu companheiro em várias viagens para os EUA, quase que exclusivamente para verem apresentações em clubes de jazz e comprarem discos, estavam em Washington e viram que Keith Jarrett estaria se apresentando lá. Muito em cima da hora, os ingressos estavam esgotados. Fizeram uma venda extra permitindo que alguns ficassem sentados no chão nos cantos do palco. Acomodaram-se bem perto do piano. Em uma hora, o Alberico percebeu que alguém próximo ressonava. Era o Conde dormindo no show de Jarrett. Dá para imaginar?
Comigo, ao contrário, uma das coisas que mais gosto é de um piano solo. Não apenas no terreno do jazz, em que despontam Mehldau e Jarrett, mas, principalmente na música erudita, em que há uma infinidade de virtuoses geniais como Nelson Freire, Helène Grimaud, Paul Lewis, Angela Hewitt, András Schiff, Martha Argerich, Maria João Pires, bom, paro por aqui, tocando as minhas peças favoritas de Chopin, Schubert, Schumann, Bach e Beethoven.
Se um piano é bom, imagine dois ao mesmo tempo, repetindo a primeira frase com uma pequena diferença. Pensando bem, nem sempre dá certo. Alguns podem discordar, mas o de Herbie Hancock e Chich Corea, dois dos maiorais do jazz, estou dizendo de An Evening with Herbie Hancock & Chick Corea (CBS, 1978), é chato.
Ouvi há poucos dias um em que a fórmula funciona, e bem: No Choice (2006), de Bill Carrothers e Marc Copland. O problema mais comum desse tipo de disco é de não conseguirmos definir quem é quem. As melhores soluções são sempre as mais simples: você ouve Carrothers no canal esquerdo e Copland no direito.
O início do CD é primoroso. A escolha também é feliz. Lonely Woman, de Ornette Coleman, é um daqueles standards modernos que vieram para ficar. Ouça.
No repertório escolhido por ambos incluem-se standards tradicionais como You and the Night and the Music, Take the “A Train”, Blue in Green e Bemsha Swing, de Thelonious Monk. Mais dois temas completam No Choice: Masqualero, de Wayne Shorter, e uma surpresa. Os fãs do canadense Neil Young reconhecerão rapidamente The Needle and the Damage Done, canção incluída em Harvest (Reprise 1972). Este álbum foi o álbum mais vendido em 1972, nos EUA.
Ouça The Needle and the Damage Done.
Se você quiser conhecer outro bom álbum de duos jazzísticos de piano, acesse http://bit.ly/1qXeJa6. Brad Mehldau e Kevin Hayes, em Modern Times, são perfeitos. Por coincidência, tocam Lonely Woman, também. Ouça.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
O disco tributo francês a Nina Simone
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| Imagem da capa de Autour de Nina |
Se Nina Simone nasceu nasceu em fevereiro de 1933 e morreu em abril de 2003, com 70 anos, teria sido razoável um festival de homenagens no ano passado, pois, viva, completaria 80. Não lembro de algum. Mas, agora no fim de 2014, foi lançado Autour de Nina, pela Verve francesa.
A França fez parte da vida de Nina. Foi sua última morada nos últimos dez anos. Devido a relação bipolar de amor e ódio ao país que nasceu, saiu dos EUA no início de 1970 e foi mudou-se para Barbados. Passou pela Libéria e Suiça, antes de estabelecer-se na região de Aix-en-Provence. Essa pode ser uma boa razão para a produção de Autour de Nina. Agorinha, em 16 de novembro aconteceu o concerto de lançamento no Studio 104, da Maison de la Radio, em Paris.
O álbum é uma seleção com títulos menos e mais conhecidos associados à Nina. Ao contrário da maioria dos tributos, habitualmente, saco de gatos, este Autour de Nina é uma produção bem cuidada, com intérpretes de primeira linha, apesar de não serem tão conhecidos. É uma turma em que um deles, pelo menos, já é estrela. Gregory Porter foi considerado o cantor do ano pela revista Downbeat, além de ter seu Liquid Spirit como quarto melhor do ano (http://bit.ly/15aNe8O). Ele é um dos escolhidos e é o grande destaque, cantando Black Is the Color (of My True Love’s Hair).
Ouça.
Se o resto não é melhor do que esta, há vários pontos altos. Para se ter uma ideia, quem abre o álbum é a estrela em ascensão Lianne La Havas, cantando Baltimore.
A seleção é bem cosmopolita. Tem, desde a sul coreana, razoavelmente conhecida por quem conhece o catálogo da alemã ACT, Youn Sun Nah, os franceses Ben l’Oncle Soul, Olivia Ruiz e Camille, Hindi Zahra, franco-marroquina, Keziah Jones, nigeriano, Sophie Hunger e La Havas, ingleses, e Porter e Gardot, americanos.
Por último, ouça Feeling Good, com Ben l’Oncle Soul. O rapaz tem uma voz parecidíssima com a de Nina.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
O novíssimo Avonmore, de Bryan Ferry
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| A capa de Avonmore, de Bryan Ferry |
“Este é o melhor álbum de Bryan Ferry em 30 anos, inquestionavelmente.” – The Quietus.
“Ferry no melhor de sua decadência.” – The Times.
“Uma fórmula ganhadora… sua desconexão romântica e charme crepuscular é inapagável.” – The Guardian
“Ferry ainda soa admiravelmente novo, mesmo com 50 anos de carreira… os oito originais e dois covers emanam classe em tudo.” – The Observer
“Avonmore desperta comparações com o clássico Avalon, de Roxy Music… cool e contemporâneo.” – The Sun
Todas são críticas elogiosas. Há um quase consenso em relação à contemporaneidade de um dos fundadores da melhor banda art-rock jamais existente. Aos 69 anos, Bryan continua a surpreender e a compor coisas que merecem ser conhecidas, contrário de tantos outros sexagenários e septuagenários, como Mick Jagger, ainda um bom performer no palco, ou Paul McCartney, outro que continua a fazer grandes shows no alto de seus 72 anos. Que me desculpem os fãs do velho Macca – sou um deles –, mas New, apesar da qualidade de Road e Struggle, está bem longe de suas grandes composições dos anos 1960 e 1970.
Há um estilo, uma “fórmula Bryan Ferry”, sem dúvida, com há um jeito específico de cada um. Isso é fato no sujeito mais medíocre da terra ao mais brilhante. É a marca do indivíduo. Sua voz é inconfundível, a elegância e classe dos arranjos podem nos remeter ao mais antigo Roxy Music ou ao derradeiro e clássico Avalon, mas Bryan não se repete. Apenas burila e se refina. Por alguma mágica, o que produz se transforma em beleza. O que antes era belo, torna-se belo de outra maneira. É o que fica evidente em suas interpretações de standards do cancioneiro americano.
Avonmore traz uma releitura de um dos últimos standards que valem a pena, composta nos anos 1960, que é Send in the Clowns, de Stephen Sondheim. Aliás, Ferry interpretando standards seria bom assunto para um post separado. Ouça.
Veja o vídeo oficial de Loop de Li, a faixa de abertura do álbum.
O bom gosto de Bryan Ferry está na escolha dos músicos que participam de suas gravações. Em Avonmore, os convidados são Johnny Marr, ex-Smiths que, além de tocar, contribui com Soldier of Fortune, Nile Rodgers, produtor e guitarrista, ex-Chic, Marcus Miller, Flea, Ronnie Spector, Mark Knofler e Maceo Parker.
Ouça o álbum na sua totalidade em streaming exclusivo disponível na página de The Guardian (http://bit.ly/11lowQC)
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
O sublime em Abdullah Ibrahim
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| Capa do mais novo Abdullah Ibrahim |
Abdullah Ibrahim não tem mais o que provar. Não precisando mostrar que é moderno ou inovador, resolveu ser eterno. E o mais próximo disse é o sublime. O sul africano foi a Sacile, na Itália, cidade onde fica a fábrica de um dos mais prestigiados pianos, a Fazioli. Participou de um workshop e acabou gravando esse álbum que, coincidentemente, serve de comemoração aos seus 80 anos e dos 20 anos do fim do apartheid de sua terra natal.
Pianos Fazioli. Os pendores para a música levaram Paolo Fazioli a estudar piano. Fez a Universidade de Roma e concluiu o curso tornando-se mestre pela conhecida Academia de St. Cecilia. Ao mesmo tempo, interessou-se pela restauração de pianos. Como sua família tinha uma fábrica de móveis, resolveu, depois de formado, entrar no negócio. Em 1969, conseguiu construir o primeiro protótipo do piano de concerto. Convidando músicos consagrados como Aldo Ciccolini, Alfred Brendel, Martha Argerich, Louis Lortie e Vladimir Ashkenazy para tocarem nos Fazioli, passou a vender seus pianos para prestigiadas salas de concerto. Nesse trabalho de divulgação da marca, realizam workshops em Sacile e também no Fazioli Salon, em Nova York. Foi lá que o brasileiro Benjamin Taubkin, convidado pela casa, gravou seu belo A Pequena Loja da Rua 57 Piano Solo (Núcleo Contemporâneo, 2010). É incrível que uma marca surgida na segunda metade do século passado tenha conseguido tal prestígio, considerando-se que a Steinway e a Bösendorfer são bem mais antigas.
The Song Is My Story foi gravado em Sacile e o material consta de composições anteriores e improvisos livres. O resultado é uma daquelas coisas que beiram o sublime. As músicas não podem ser classificadas nem como jazz, que é o gênero no qual é conhecido e classificado e, muito menos, erudito. Está acima disso. A música dele exerce a liberdade da criação de universos sonoros. É a música de improviso que explora o desconhecido. Na música erudita, apesar das cadenzas, o pianista toca o que está na partitura. Ilustra bem a diferença, o encanto que Nelson Freire tem por Erroll Garner, por exemplo, um analfabeto em ler partituras. A diferença está na habilidade de se criar sons. O aprendizado na música erudita é tão rígida que acaba por tolher essa liberdade que o jazzista tem. É o que fica claro nessa explicação de Abdullah Ibrahim: “Há pessoas que só conseguem tocar com partituras. Mas nós, os outros, improvisamos sem saber para onde estamos indo. Isso nos torna livres. Não tememos situações que não conhecemos. Temos uma canção, ritmo, harmonia e afinação, e então começamos a brincar com isso, virando tudo de cabeça para baixo… nós, músicos de jazz, não temos medo de deixar as coisas seguirem seu curso.”
Mais sobre Abdullah Ibrahim, leia em “A África que não sai de Abdullah Ibrahim”: http://bit.ly/1yBYy6k
terça-feira, 11 de novembro de 2014
O novo Pink Floyd é só para os fanáticos pela banda
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| Bela capa do novo Pink Floyd |
O álbum mais apreciado pelos fãs e não tão fãs é Dark Side of the Moon. Parece que é consenso ver Roger Waters como a “cabeça” intelectual de álbuns conceituais como o citado e The Wall. Pode ser. Mas a identidade musical, a marca do que percebemos como sendo a banda, se deve muito ao estilo da guitarra de David Gilmour e sua voz única, bem normal, mas de registro muito agradável, e aos teclados de Wright. Ficou evidente que os fãs continuaram fiéis aos membros remanescentes e menos ao baixista.
Como há um número enorme de fãs do Pink Floyd com menos de 50 anos, esses gostam da fase Gilmour e pouco conhecem os dois primeiros, ou até Ummagumma, já com David, o mais experimental da discografia deles.
Independentemente da idade, sejam aqueles que tiveram contato com a banda à época de Syd Barrett, ou depois, o Pink Floyd tem essa qualidade quase atemporal de ter fãs de todas as idades. Muitos devem ter ficado na expectativa com a notícia de que lançariam um álbum com inéditas. Inéditas sim, o que não quer dizer que estão apresentando novas composições.
Como Rick Wright morreu em 2008 em decorrência de um câncer, os Floyds são Gilmour e Mason. Eles dizem que é o último. Os nostálgicos da banda podem matar as saudades com os álbuns do guitarrista que, por sinal, de tempos em tempos, lança álbuns como líder, isso, até quando ainda o Pink Floyd encontrava-se na ativa. Mason gravou apenas um – Nick Mason's Fictitious Sports (1981) – e deve estar mais interessado em usufruir das milhões de libras que tem depositadas no banco. Aliás, seu único solo é bom e conta com o genial Robert Wyatt, que foi do lendária Soft Machine.
Ao anunciarem o novo álbum, disseram que era um tributo a Rick. Verdade. A maioria das composições é de sua autoria. Os remanescentes retrabalharam e remixaram a partir de registros de estúdio de Division Bell. Aquele climão tipicamente floydiano, viajante, com guitarras de ótimo gosto, está em cada trecho do álbum. Mas não é nada mais do que isso. Funciona bem para uma trilha sonora. É uma colcha de retalhos – ou de sobras –, belas, muitas vezes, mas retalhos. Enfim, é um disco para os seus fãs mais ardorosos. Uma última coisa: é o primeiro álbum deles depois de 20 anos. É apenas para afirmar que estamos ficando velhos.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Eles adoram cantar Leonard Cohen
São tantos os covers de Leonard Cohen, que ele virou um standard. Não são apenas as canções que se tornaram standards. Ele também, com um certo perigo de tornar-se caricatura de si mesmo. Quando ficou conhecido já tinha aquele jeito de “diferente”. Era alguém que parecia surgir na contra mão. Enquanto todo mundo queria fazer muito barulho, era da ala mais zen. A boa amostra desse seu estilo é a sua longa fala na apresentação no festival da Ilha de Wight.
Cohen, na mesma medida em que envelheceu, foi ficando mais conhecido e todo mundo canta suas canções. Agora que completou 80 anos, foram lançados alguns álbuns lembrando da efeméride, e o próprio Leonard soltou “Popular Problems”. A mais conhecida revista francesa especializada em música popular, a “Les InrocKuptibles”, encartou um CD com algumas interpretações conhecidas e outras menos. Dos intérpretes consagrados, muito boa é “Avalanche”, com Nick Cave em performance “intensa” e dramática, como de costume.
Veja Cave em “Avalanche”
As homenagens não param por aí. Saiu no mercado alemão um álbum chamado “Poet – Leonard Cohen in Deutscher Sprache”. É o bardo canadense cantado na língua de Goethe e Schiller. Os nomes, fora o de Nina Hagen, para mim, são desconhecidos. Mas não custa dar uma ouvida.
Ouça Peter Maffay em “Zuerst Also Manhattan” ou, “First We Take Manhattan”
Uma boa é a de Peter Maffay cantando Zuerst Also Manhattan, ou melhor, First We Take Manhattan.
Ouça também Sternblauer Trenchcoat, com Reinhard Mey, ou, Famous Blue Raincoat.

Em outra postagem, escrevo sobre outros discos tributo que foram gravados (ouça e leia em http://bit.ly/1wYW0lA)
Não posso deixar de repetir um dos grandes covers presentes nessa postagem. Veja If It Be Your Will, com Antony and The Johnsons.
O melhor disco tributo é bem antigo e tem um punhado de nomes consagrados como Lloyd Cole, Ian McCulloch, Pixies, James, John Cale, Nick Cave e R.E.M., dentre outros. Chama-se “I’m Your Fan”, de 1991.
Muito linda, presente em “I’m Your Fan”, é Suzanne com Geoffrey Oryema. Ouça.
Não posso deixar de repetir um dos grandes covers presentes nessa postagem. Veja “If It Be Your Will”, com Antony and The Johnsons.
O melhor disco tributo é bem antigo e tem um punhado de nomes consagrados como Lloyd Cole, Ian McCulloch, Pixies, James, John Cale, Nick Cave e R.E.M., dentre outros. Chama-se “I’m Your Fan”, de 1991.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
A grande arte de Dave Holland e Kenny Barron
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| Dave Holland e Kenny Barron |
Já na era dos CDs, e com novo proprietário, boa parte do catálogo foi relançado no novo formato, e em novo “impulso”, foi responsável por alçar ao sucesso a canadense Diana Krall. Relativamente conhecida em seu país natal, lançara Steppin’ Out, pelo selo JustinTime. Era pianista de primeira. E cantava. O segundo – Only Trust Your Heart – saiu pela GRP, gravadora de Dave Grusin. Tanto esse selo como a Impulse! faziam parte do Universal Music Group, outrora, MCA. Resumindo, nessa confusão, os donos sempre foram os mesmos. Os próximos três álbuns de Krall, depois do primeiro – All for You: A Dedication to the Nat King Cole Trio – todos de qualidade excepcional e ótimo apelo comercial, serviram para lembrar que o nome Impulse! foi lançadora de grandes álbuns na década de 1960. The Look of Love (2001) é o primeiro pela Verve, que é da Universal, que por sua vez, era proprietária do outro selo. Entendeu? Os donos eram sempre os mesmos.
McCoy Tyner Plays John Coltrane (1991) foi o último, disco que o pianista homenageia seu antigo líder. Agora, em 2014, quando parecia sepultada de vez, ressurge das cinzas com lançamentos interessantes. Acaba de sair um álbum com Charlie Haden e Jim Hall. É inédito, mas não foi gravado neste ano, pois os dois estão mortos. Outro é de dois que estão vivos e muito bem: Kenny Barron e Dave Holland. É desse álbum que faço alguns comentários.
Dave Holland figura em qualquer lista dos melhores contrabaixistas desde quando começou a tocar com Miles Davis no fim dos anos 1960. Destaca-se não apenas como instrumentista. Seu quinteto, com Chris Potter, Steve Nelson, Robin Eubands, Billy Kilson foi considerado como um dos melhores combos de jazz. Pela ECM gravou dezenas de álbuns e quase sempre também marcam presença dentre os melhores do ano. No seu currículo constam também solos, participações e discos diferentes como o que gravou com a banda do violonista flamenco Pepe Habichuela.
Kenny Barron é menos conhecido. Injustamente, pois é um dos melhores pianistas da atualidade. Tocou como sideman de Dizzy Gillespie, Philly Joe Jones, Yusef Lateef e Stanley Turrentine, dentre outros. Sunset Dawn foi seu primeiro álbum como líder pelo selo Muse, em 1974. Um de seus grandes discos é People Time (Verve 1992), álbum duplo com registros de uma turnê que fez com Stan Getz. Foi a última gravação do grande saxofonista. São números memoráveis. Em 2010, foi lançado uma edição especial dessa excursão, com sete CDs. É imperdível.
Ouça a belíssima First Song, de Charlie Haden, com os dois.
Veja os dois em People Time.
Kenny Barron é o pianista da delicadeza e da elegância. The Art of Conversation, agora lançado, é o encontro dessas duas elegâncias. Os dois têm se apresentado desde 2012 e programaram um tour pelos EUA e Europa que se iniciou há pouco e se estende até dezembro. Além de grandes instrumentistas, são compositores prolíficos. Em seus discos como líder, costumeiramente, privilegiam composições próprias. Neste, quatro são de autoria de Dave e três de Kenny. Completam Thelonious Monk, Charlie Parker e Duke Ellington.
Ouça Rain, de Barron, e confirme sua maestria e delicadeza.
Veja os dois em In Your Arms, de Holland.
Veja uma apresentação dos dois, na íntegra, no Jazz à La Villette, em 2012.
Uma última nota: estão programados álbuns de Madeleine Peyroux, Jacky Terrasson e Randy Weston nessa nova fase da Impulse!














