quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O sublime em Abdullah Ibrahim

Capa do mais novo Abdullah Ibrahim
Parece que Abdullah Ibrahim, que um dia se chamou Dollar Brand, chegou naquele ponto em que tudo o que faz é poesia. Em seu álbum mais recente, Celestial Bird Dance, abre com um breve solo de saxofone soprano e o resto é só piano. Aos 80 anos, Ibrahim não precisa provar mais nada. Se fez ou não fez, se contribuiu ou não para alguma coisa, nessa altura, é irrelevante. Ninguém, desde o gênio ao ignorante, não há nada mais a ser feito.

Abdullah Ibrahim não tem mais o que provar. Não precisando mostrar que é moderno ou inovador, resolveu ser eterno. E o mais próximo disse é o sublime. O sul africano foi a Sacile, na Itália, cidade onde fica a fábrica de um dos mais prestigiados pianos, a Fazioli. Participou de um workshop e acabou gravando esse álbum que, coincidentemente, serve de comemoração aos seus 80 anos e dos 20 anos do fim do apartheid de sua terra natal.

Pianos Fazioli. Os pendores para a música levaram Paolo Fazioli a estudar piano. Fez a Universidade de Roma e concluiu o curso tornando-se mestre pela conhecida Academia de St. Cecilia. Ao mesmo tempo, interessou-se pela restauração de pianos. Como sua família tinha uma fábrica de móveis, resolveu, depois de formado, entrar no negócio. Em 1969, conseguiu construir o primeiro protótipo do piano de concerto. Convidando músicos consagrados como Aldo Ciccolini, Alfred Brendel, Martha Argerich, Louis Lortie e Vladimir Ashkenazy para tocarem nos Fazioli, passou a vender seus pianos para prestigiadas salas de concerto. Nesse trabalho de divulgação da marca, realizam workshops em Sacile e também no Fazioli Salon, em Nova York. Foi lá que o brasileiro Benjamin Taubkin, convidado pela casa, gravou seu belo A Pequena Loja da Rua 57 Piano Solo (Núcleo Contemporâneo, 2010). É incrível que uma marca surgida na segunda metade do século passado tenha conseguido tal prestígio, considerando-se que a Steinway e a Bösendorfer são bem mais antigas.

The Song Is My Story foi gravado em Sacile e o material consta de composições anteriores e improvisos livres. O resultado é uma daquelas coisas que beiram o sublime. As músicas não podem ser classificadas nem como jazz, que é o gênero no qual é conhecido e classificado e, muito menos, erudito. Está acima disso. A música dele exerce a liberdade da criação de universos sonoros. É a música de improviso que explora o desconhecido. Na música erudita, apesar das cadenzas, o pianista toca o que está na partitura. Ilustra bem a diferença, o encanto que Nelson Freire tem por Erroll Garner, por exemplo, um analfabeto em ler partituras. A diferença está na habilidade de se criar sons. O aprendizado na música erudita é tão rígida que acaba por tolher essa liberdade que o jazzista tem. É o que fica claro nessa explicação de Abdullah Ibrahim: “Há pessoas que só conseguem tocar com partituras. Mas nós, os outros, improvisamos sem saber para onde estamos indo. Isso nos torna livres. Não tememos situações que não conhecemos. Temos uma canção, ritmo, harmonia e afinação, e então começamos a brincar com isso, virando tudo de cabeça para baixo… nós, músicos de jazz, não temos medo de deixar as coisas seguirem seu curso.”

Ouça Open Door Within.



Ouça Spiral Mist.




Mais sobre Abdullah Ibrahim, leia em “A África que não sai de Abdullah Ibrahim”: http://bit.ly/1yBYy6k

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