terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Uma reprodução do terno e belo texto de Humberto Werneck sobre Elisabeth Bishop



Reproduzo aqui, sei que que é um ato licencioso, mas é porque é a melhor coisa que li sobre Elisabeth Bishop, depois dessa celeuma de que apoiou a ditadura militar, tinha uma visão negativa sobre o Brasil, etc.

O texto:

Um porto na montanha
Elizabeth Bishop e a linda casa mineira onde viveu alguns de seus melhores anos de Brasil
Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo
03 de dezembro de 2019 | 03h00

De dezembro de 1951 a abril de 1974, a aventura brasileira de Elizabeth Bishop, a homenageada da próxima Flip, estendeu-se por 22 anos – alguns deles, os anos finais, vividos em Ouro Preto, sobretudo depois da morte de sua companheira, Lota de Macedo Soares, em 1967. A cidade não tomou conhecimento da grande poeta americana. Nós, os então jovens escritores de Minas, também não. Hoje, leitor apaixonado de tudo o que ela escreveu, carrego a frustração retroativa de ter cruzado com Elizabeth em Ouro Preto, talvez nas madrugadas de Belo Horizonte, sem me dar conta de quem estava ali. Consolam-me as histórias que saltam de seus livros e, em especial, da memória de seus (e meus) amigos Linda e José Alberto Nemer, vinhetas que um dia reuni com a pretensão de iluminar ainda mais a personagem que Marta Góes tão lindamente recriou na peça ‘Um Porto para Elizabeth Bishop’. 

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Ela adorava aquela casa, construída entre 1698, dois anos após a descoberta do ouro na região, e 1711, quando Ouro Preto foi elevada à condição de vila. Comprou-a em 1965 e não teve outra na vida, a não ser o apartamentinho de Boston onde morreria em 1979. Tinha, dizia Elizabeth, “o telhado mais lindo da cidade”, cuja forma lhe sugeria “uma lagosta deitada de bruços”. Batizou-a Casa Mariana, não por estar plantada à beira do caminho que leva a essa cidade, mas em homenagem à poeta americana Marianne Moore, mestra e amiga. Perfeitamente conservada, pertence hoje aos irmãos Nemer.

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“Gosto de Ouro Preto”, explicou Elizabeth ao poeta Robert Lowell, “porque tudo lá foi feito ali mesmo, à mão, com pedra, ferro, cobre e madeira. Tiveram que inventar muita coisa – e tudo está em perfeito estado há quase 300 anos.” Não havia mudado de opinião cinco anos mais tarde, numa entrevista ao Jornal do Brasil: “De Ouro Preto, gosto sobretudo das coisas que são feitas aqui. Os móveis, os utensílios do século 18 são sólidos. O clássico não me atrai, o que importa é a durabilidade – aqui as coisas permanecem”.
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Elizabeth tinha dois gatos, Suzuki e Tobias, dados a se aconchegar. “Eles gostam de experimentar o colo das visitas”, explicava.
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Adorava café na cama. Levantava-se, fazia um tanto de coisas – e, de volta às cobertas, pedia o breakfast. Gostava de variar de bandeja e caneca, que tinha em profusão. Quando Anny Baumann, sua médica e amiga, foi passar uns dias na Casa Mariana, tratou de incorporá-la a esse desjejum na alcova. Tratavam-se de “Dra. Baumann” e “Miss Bishop”, mas a intimidade daquele desalinho matinal acabou estimulando a médica a propor uma quebra em tamanha cerimônia: “Já que nós tomamos café de camisola”, anunciou, “vou te chamar de Elizabeth”. Mas a amiga continuou a chamá-la de “Dra. Baumann”.
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Acordava e punha logo um disco. Janis Joplin, Bob Dylan – ou Joan Baez, cujas letras copiava, esperançosa de ensinar inglês a Linda Nemer. Queria traduzir Não Identificado, de Caetano Veloso, mas esbarrou na impossibilidade de passar para o inglês a conotação fonográfica embutida em “disco voador”.
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Teve uma jovem empregada, Vitória, e cuidou de vesti-la com uniforme, meias três-quartos e o mais. Para ensinar-lhe inglês, escrevia nas coisas os nomes que as designavam – window, table, chair... A cozinha da Casa Mariana era inteirinha escrita em inglês.
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Seu talento era também culinário. Preparava pratos indianos (trazia curry dos Estados Unidos), lombo de porco com purê de maçã, abobrinha ao forno, geleias, conserva agridoce de legumes, tortas de maçã e de limão... Bem americana, tinha termômetro para controlar o cozimento da carne, colherinhas para medidas exatas, panelas dinamarquesas com design dos anos de 1940. Inda há quem se lembre da batida de limão de Elizabeth Bishop.
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Bebia muito, muito, e quase sempre na cama – onde também costumava escrever, o caderno apoiado numa prancheta. Começava com uísque, descia para a cachaça. Depois de esvaziá-la, rolava a garrafa para baixo da cama. Não se levantava mais, e não via noite nem dia. Cantava, ria, chorava, conversava com imaginários interlocutores. Jamais agressiva. Virava um trapinho, obedecia às ordens que lhe dessem. Tinha dia de chamar Vitória, chamar o chofer e tocar para a casa de Linda, em Belo Horizonte: “Não aguento mais, me salva!”. A amiga lhe dava o confortável quartinho dos fundos e encarregava Dilza, a empregada, de preparar um suco de laranja, uma comidinha leve. Elizabeth, que era cheia de pudores, ficava constrangida quando a chamavam para a mesa – não queria que reparassem nas mãos trêmulas da bebida.
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Ao sentir que já não dava conta do alcoolismo, pedia para ser internada. Levavam-na então para a clínica Pinel, em Belo Horizonte. Depois passava uns dias na casa dos Nemer, antes de retornar a Ouro Preto. Atravessava romances policiais, estoques que o caçula José Alberto, jovem artista plástico, seu xodó, ia renovar na livraria. Pintava aquarelas em papel ingres que Linda comprava na Livraria Oscar Nicolai. E adorava engraxar sapatos – seus e de todo o pessoal da casa. Divertia-se também polindo a prataria. (Falava de duas “besteiras” que, entre muitas, nunca fez: vender a prataria e mexer no capital.)
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Belo Horizonte, disse em carta ao poeta James Merrill, era “a cidade mais feia do mundo”. Mas acabou descobrindo ali “alguns lugares bastante apresentáveis, até divertidos”, entre eles “um restaurante maravilhoso” (provavelmente o finado Tavares, especializado em caça) e um boteco onde, além de batidas “de todos os sabores possíveis”, topou certa vez com “cerca de sete poetas às duas da manhã”.
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Foi com Linda à serra da Piedade, nas cercanias de Belo Horizonte, e decidiram almoçar. O cozinheiro veio lá de dentro com o bife espetado no garfo. De tão batido, ficara quase translúcido. Elizabeth não parava de rir: “Eu vou comer um pedaço de renda...”. 
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De passagem por Ouro Preto, umas grã-finas do Rio, amigas de Lota, foram visitar Elizabeth. A filha de uma delas, mocinha, lhe perguntou o que fazia na vida. “Sou escritora”, respondeu. “Ah”, disse a outra, “pensei que a senhora trabalhasse...”
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Uma noite Elizabeth improvisou um serão lítero-musical, com uma gente simples que provavelmente conhecera em botequins ouro-pretanos. Um dos convidados ia em meio à exaltada declamação de um poema quando irrompeu na sala, esbaforida, uma jovem americana, amiga de Elizabeth, trazendo um guardanapo que abriu teatralmente no centro da roda: “Escorpião! Escorpião!”. Parou tudo. A dona da casa voltou-se para o desacorçoado declamador: “Você, que é poeta, entende as tristezas que a gente passa...”.
Ela entendia.


E Bishop gostava de Janis Joplin e Bob Dylan.

De 1962/63, ou será 1964. “Girl from the North Country”.




Nada mais anímico do que “Ball and Chain”. A sua apresentação no Festival de Monterrey é inesquecível.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A primeira vez de Robert Fripp e David Sylvian



Robert Fripp é um dos meus ídolos. E faz tempo. Lembro bem de quando ouvi “In the Court of the Crimson King” pela primeira vez, em um formato que hoje poucos conhecem: o tal do LP, abreviatura de “long playing”. Como os importados eram muito caros, o meu foi de uma edição nacional, da gravadora Continental, horrível, cheia de chiados. Na música título não era problema, “ruidosa” como era, mas consegui ouvir direito “Moonchild” apenas quando surgiram os CDs.

O KC é uma criação de Fripp. A banda gira em torno dele, mesmo que os holofotes se direcionem aos cantores. Foi assim, no início, quando o vocalista foi Greg Lake, e depois, John Wetton e Adrian Belew, e, pouco menos, com Gordon Haskill e Boz. Cada um deles marcou uma “fase”.

A banda passou por uma fase brilhante com Wetton ao contrabaixo e David Cross ao violino e viola, e o genial Bill Bruford, com “Larks Tongues in Aspic”, “Starless and Bible Black” e “Red”.

Fripp resolveu desfazer a banda logo depois. Retornou triunfalmente com a entrada de Adrian Belew, na guitarra e vocais, Tony Levin no baixo elétrico e stick bass, e o mesmo Bruford. “Discipline”, Beat” e “Three of a Perfect Pair” não envelheceram. Trinta e cinco anos depois, ainda ouço-os com enorme prazer.

O estilo único da guitarra de Fripp
No grupo “Línguas de cotovia na galantina”, administrado pelo Alex Antunes, por ocasião da apresentação do King Crimson, em setembro, surgiu a discussão de quem poderia ter influenciado Robert Fripp. Um dos participantes observou que, em alguma entrevista, referiu-se à John McLaughlin. Pode ser, mas não foi para tocar parecido. Se com muitos dá para se dizer que tenham sido influenciados por Jimi Hendrix, Jimmy Page ou Jeff Beck, seu caso é bem específico. Tem um estilo único, tão único que é difícil dizer quem toque parecido com ele. Talvez Jakko M. Jakszyk, que, atualmente, é um dos membros do KC.

A primeira vez de Fripp e David Sylvian
No fim dos anos 1980, Fripp convidou David Sylvian para ser parte do KC. O guitarrista já tinha participado de um dos melhores discos do ex-Japan: “Gone to Earth” (1986). Seria difícil. Desde que partira para a carreira solo, com ótimos álbuns, ser um sideman, mesmo que fosse do KC nåo devia estar em seus planos.

Fripp, mesmo líder inconteste do KC, sempre aceitou de bom grado tocar em álbuns alheios. Comendo pelas beiradas, sempre deixou a sua marca, mesmo sendo apenas um convidado. Suas participações ou como coprotagonista atestam a minha afirmação. São insequecíveis em “I Advanced Mask” e “Biwitched” (Andy Summers), “No Pussyfooting”, “Evening Star”, e em uma série de participações em álbuns do genial Brian Eno, “Peter Gabriel, 1978”, do ex-vocalista do Genesis e em “Scary Monsters (and Supercreeps)” de David Bowie.

Sylvian não aceitou o convite, mas propôs que fizessem um disco juntos. Saiu assim “The First Day”. O nome de Sylvian está grafado em destaque, e o de Fripp, menor.

A carreira de Sylvian está associada ao Japan. Surgiram na onda do glam rock.  Vestiam-se com roupas extravagantes, usavam maquiagens pesadas. Todavia, além das aparências, eram muito bons, como foram também Roxy Music e David Bowie.

Desde a estreia, com “Adolescent Sex” (1978), ficou claro que o modo de vestir era um detalhe, comparado com a qualidade musical de Sylvian (vocais, guitarra e, depois, sintetizadores), Richard Barbieri (teclados e sintetizadores), Mick Karn (baixo), Steve Jansen (bateria) e Rob Dean (guitarra). Gravaram poucos discos. O último foi “The Drum” (1981).

Depois da separação, lançou “Brilliant Trees” (1984). Neste e em seus álbuns posteriores, ficou claro que o Japan era ele e o resto, apesar do talento dos músicos. Voltaram a reunir-se para gravar o álbum “Rain Tree Crow” (1991). Foi a derradeira.

Há um parentesco sonoro entre “Rain Tree Crow” com “The First Day”. Entre os dois há uma diferença de menos de dois anos. Como sempre, vocalistas tendem ao protagonismo. Não seria, entretanto, “The First Day” tão bom sem a presença do mago da guitarra e dos frippertronics. Sua genialidade como músico está demonstrada em “Bringing Down the Light”, que fecha o álbum, única composição em que não divide autoria com Sylvian.

Lançaram depois “Damage”, fruto da excursão “Road to Graceland”. É melhor ainda.
Com algumas inéditas, é um disco vigoroso, variado ritmicamente. A faixa inicial, de mesmo título do álbum, é uma super balada, comparável à “Forbidden Colors”, composta por ele e Ryuichi Sakamoto, e à “Ghost” e “The Night Porter”, da época do Japan.

Ouça e veja-os em “Damage”, registro ao vivo.




“Rain Tree Crow” era gelado, cheio de experimentações eletrônicas. “The First Day” e “Damage” eram quentes. A guitarra esquizofrênica, às vezes, puro lirismo, de Fripp era o diferencial. São responsáveis por isso também Trey Gunn no stick bass e Jerry Marotta na bateria, no primeiro, e Pat Mastelotto, no segundo.

Os dois ainda voltaram a reunir-se para gravarem “Approaching the Silence” (1999), bem experimental. São viagens cinematográficas, algo parecido com outros de Sylvian.

Ouça “Darshan (Road to Graceland”.




“The First Day” é outra obra-prima. A guitarra de Fripp é simples e genial.




Veja-os em “Blinding Light of Heaven”.




O gênio de Fripp em “Bring Down the Light”.




quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A graça toda de Andrea Motis


 Com 24 anos apenas, Andrea Motis pode ser considerada uma veterana. Com sete, tocava trompete. Com dez, foi estudar na Escola Municipal de Música de San Andreu, dirigida por Joan Chamorro. Este músico, saxofonista, trompetista, flautista e contrabaixista, com seus alunos, criou a San Andreu Jazz Band e tem sido responsável pela revelação de uma nova geração de músicos na Catalunha e, por extensão, Espanha.

Andrea é a sua revelação maior. Além de tocar trompete e saxofone, é dona de uma voz bem afinada, charmosa por seu registro, meio juvenil. Depois de ter gravado na Espanha alguns álbuns com seu mentor Joan, lançou “Emotional Dance”, pelo selo Impulse, ligado ao grupo Verve, o que ajudou-a bem para ser mais conhecida fora de seu país. Nesse disco é acompanhada por Ignasi Terraza ao piano e Chamorro no contrabaixo, e conta com participações de músicos conhecidos como Warren Wolf ao vibrafone, Gil Goldstein no acordeão, Joel Frahm no sax tenor, Scott Robinson no sax barítono e o brasileiro Café da Silva na percussão.

“Emotional Dance” é composto de standards do cancioneiro americano, o que é uma boa forma de ser conhecida, pois funciona como um “teste”, um“exame de aprovação” para ser aceita no mundo do jazz. Mas Andrea é uma moça de personalidade e talento ímpar. Fora cantar e tocar trompete, compõe também. Nesse álbum estão incluídas “If You Give More Than You Can”, “I Didn’t Tell Them Why” e “Save the Orangutan”, de sua autoria.

Em março deste ano, Andrea Motis lançou um novo álbum. Chama-se “Do Outro Lado do Azul”. Quem está do outro lado do azul, se a referência é a Europa, naturalmente, é o continente americano, mais exatamente, o Brasil, o que nos atiça mais ainda a curiosidade. Das treze, oito são originais brasucas, com escolhas que fogem do óbvio.

Com exceção de “Antonico”, “Pra Que Discutir com Madame” e “Dança da Solidão”, consideradas clássicos do cancioneiro brasileiro, a grande qualidade de “Do Outro Lado do Azul” está na escolha de músicas como “Filho de Oxum”, do baiano Roque Ferreira, “Saudades da Guanabara”, de Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, “Samba de Um Minuto”, de Roberta Sá e Rodrigo Maranhão, e até uma composição de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit  — “Baião de Quatro Toques”.

Um dado surpreendente é Andrea cantar em português quase sem sotaque. É o que fica demonstrado logo no belo início, com “Antonico”, de Ismael Silva. As três seguintes — “Sombra de Lá”, “Brisa”, esta em parceria como brasileiro Sérgio Krakowski , e “Sense Pressa” — captam o espírito dos ritmos brasileiros, meio samba, meio bossa nova, são boas amostras do talento dela como autora.

Em todo o álbum, a brasilidade está no uso de instrumentos como o pandeiro, o bandolim, o cavaquinho e a clarineta. Em vários números Andrea canta em catalão, sem perder de vista a pegada brasileira, como em “Record de Nit”, de Joan Mar Sauqué, e em “Mediterráneo”, de Joan Manuel Serrat. Uma curiosidade, já que os músicos, em sua absoluta maioria” é de espanhóis — catalães, para ser mais exato — é o “ole” proferido no final da vibrante interpretação de “Saudades da Guanabara”, tão vibrante que até Beth Carvalho aprovaria. Essa energia presente em todo o álbum termina em grand finale ao incluir uma citação de “Aquarela do Brasil” em “Baião de Quatro Toques”, a canção que fecha o álbum.

Ouça o álbum.




Se não for possível entrar no Spotify pela janela acima, acesse por https://open.spotify.com/album/5RvZON3nk7EiYypuoFI4aQ?si=tJom_QHRQ3eqq1eSujGNdg

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O duo perfeito de Sean Foran e Stuart McCallum


Para os que leram a postagem de duas semanas atrás, esta é uma continuação. Nã exatamente, mas é por ser sobre um álbum em que tocam juntos de novo. Chama-se “Counterpart”, lançado neste ano.

Sobre Foran. Natural da Austrália, ficou conhecido pelo trio Trichotomy, dele com Samuel Vincent e John Parker, em 1999. Além da fama local, encontraram boa acolhida na Inglaterra.

Sobre McCallum. O inglês é um dos bons guitarristas da nova geração. Eclético, tocou com músicos associados ao jazz — John Surman, Kenny Wheeler, Ira Coleman e Ari Koenig, dentre outros —, mas seu universo não se restringe apenas a esse gênero. Participou também em projetos de Björk, Manu Delago e José James, dentre outros. Em seu interessante álbum solo “City” (2015), envereda pelo terreno do pop. Em outro, divide a liderança com Mike Walker — “The Space Between” (2016) —, interessante diálogo de guitarras, com o último na guitarra, e McCallum ao violão e instrumentos eletrônicos. Há o acréscimo de um quarteto de cordas em quatro números.

“Counterpart”. O disco pode ser ouvido, praticamente, como uma continuação, como escrevi sobre “Frame of Reference”. É a mesma guitarra climática, intervenções belas e econômicas ao violão sem floreios entremeado de sonoridades brilhantes. Neste Foran toca também piano elétrico. O Fender Rhodes aparece pouco, e serve para dar um colorido suplementar.

“Stasis” é um início espetacular. As poucas notas do piano elétrico se fundem de modo quase imperceptível ao solo de Sean, para depois entrar o violão, e  Stuart voltando ao tema principal, na guitarra, beiram a perfeição.

Na maior parte do tempo, ambos, com Sam Vicary no contrabaixo e John Parker na bateria, nos levam a temas noturnos, como noites, que, em alguns momentos, vemos estrelas a brilhar no céu outonal. É assim com “November”, “While the Trees Waltz”. Em “Panorama”, McCallum é primoroso. Umas poucas notas no piano elétrico fecham o tema. “Triple Bypass” evoca algum tempo passado ou remoto. Sean e Stuart, sem volteios delirantes, com simplicidade impressionante e sonoridades belas nos levam a um mundo inaudito, que não habitamos antes. O que fazem é poesia sonora.

Ouça o álbum. Preste atenção na guitarra na faixa final. É uma bela conclusão.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

Genial Vitor Araújo


Vitor Araújo é um desses gênios que não aparece todos os dias. Pouco conhecido no Brasil, estreou com “A/B”, mostrando sua maestria ao piano e na composição, com o ciclo “Solidão”. No seguinte, “Levaguiã Terê”, álbum duplo de 2016, lançado pela gravadora alemã Nutriot Recordings, o som é um pouco diferente. Neste, claramente, percebe-se a influência de Thom Yorke, do Radiohead.

O texto a seguir foi em 24 de janeiro de 2013 e aborda o disco “A/B”.

Com certo atraso, vou falar de um rapaz chamado Vitor Araujo. Depois de ler no “Guia Livros Discos Filmes” da Folha (27/10/2012) o “5 perguntas para Vitor Araujo”, assinado por Manuel da Costa Pinto, fiquei bem curioso. Com pouco mais de 20 anos, o rapaz faz uma música entre o pop e o erudito.

Na primeira resposta, Vitor escreve sobre o conceito do álbum “A/B”: “Na minha forma de ver, existe unidade no disco. Consigo perceber que ele desenha um sentimento que aparece fortemente em todas as faixas – porém, claramente, olha para este sentimento de formas diametralmente opostas, antagônicas, por assim dizer. Sinto o disco como uma gradação, sinto uma narratividade. No ‘lado A’, existe um se deparar sobriamente com o sentimento de solidão; no ‘lado B’, uma dificuldade incrível de gerir tal sentimento e uma descrença na realidade. Cada um vai ter sua própria sensação, pois o ato de absorver um produto artístico está profundamente ligado a experiências individuais, como elas reverberam dentro de si.”

Perguntado sobre o que pesa mais, “o repertório erudito, o instrumental de Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal ou o registro pop”, responde: “Difícil dizer. Acho que “A/B” tem exatamente essa dificuldade em se ater a uma vertente específica. Prefiro conter em mim os meus estudos de Villa-Lobos, minha observação dos instrumentistas geniais e minha paixão desenfreada pelo Radiohead.”

Por fim, ao ser perguntado sobre a “relação entre Nietzsche citado no encarte e as dedicatórias das músicas a Modigliani, Renoir, Zé Celso, Bukowski, Tarantino e Angeli, entre outros”, responde que “o texto de Nietzsche contém em palavras muito do que eu tenho a dizer no disco através das melodias, das harmonias e, principalmente, pela forma como ele está organizado. As homenagens são para os artistas que me inspiraram fortemente em músicas específicas.”

Vai lá que vale a pena. O rapaz é bom.

Veja a brilhante interpretação de “Paranoid Android”, do Radiohead. O primeiro instrumentista a gravá-la foi o jazzista Brad Mehldau. Desde então, faz parte das apresentações dele. O de Vitor Araújo é excepcional. Confira.





Vitor toca “Asa Branca”.




Veja Vitor estraçalhando em “Baião”.




Veja Vítor executando “Solidão 1”, com orquestra, no SESC Belenzinho.




Como é uma repostagem com algumas alterações, veja Vitor na faixa de “Canto 3”, do álbum “Levaguiã Terê”, de 2016.




“Toque no. 1 (Rondó Fálcigo) é a primeira do álbum.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Quando Diego Figuueiredo toca com Ken Peplowski



Somos, no fundo, preconceituosos, por razões frívolas. Tal cara é de direita e, por isso, não lemos. Ou, vice-versa. No fundo, é bem bobo isso. Por que alguém de direita não pode escrever algo interessante. Por conta disso, leio de tudo. Se elogio alguém de direita, como João Pereira Coutinho, recebo respostas como “não gosto e não leio”. Cabe bem no que significa “pré-conceito”. O hífen, que não existe, separa aquele que, por não concordar, recusa-se a lê-lo. Na música acontece coisa semelhante. “Não ouço Anitta, porque é brega”. Bom, já entrei nessa classificação, o que quer dizer que sou preconceituoso. Não vou ouvir Belo nem Ivete Sangalo. Desculpe, é preconceito, e admito, se não tenho em relação à João Pereira Coutinho, meu filtro não me permite gostar de Leandro e Leonardo ou Chitãozinho e Chororó.

Depois dessa quase longa digressão, terei de confessar que não dava valor aos artistas que gravavam pela Concord Jazz. Se o disco era desse selo, nem ouvia. Estavam incluídos Scott Hamilton, Warren Vaché e Ken Peplowski. Se fosse para ouvir mainstream, preferia os velhos Count Basie, Duke Ellington e Dave Brubeck.

Mas meu amigo Alberico, um dos maiores conhecedores do jazz, junto com o também amigo Carlos Conde, um dia, colocou um CD do Ken Peplowski. Que belo clarinetista! Na época, nem ligava muito para esse instrumento. Tinha ouvido Buddy De Franco, Benny Goodman, alguns da banda de Duke Ellington. Com o tempo, passei a gostar de alguns como Jimmy Giuffre, Don Byron e, mais recentemente, a genial Anat Cohen.

É aquela coisa: o Natal não mudou, mudei eu. “Mainstream” deixou de ser palavrão. Todas as pedras que tinha guardadas para lançá-las em Wynton Marsalis, por exemplo, ficaram pelo caminho. Bem, devo confessar que ainda não estamos em um “relacionamento sério”. Prefiro o irmão Branford.

Bem, devo falar de outro músico: Diego Figueiredo. Por Cyrille Aimée, conheci um belo violonista que, de quebra, era brasileiro. Tive o prazer de conversar com ele por alguns minutos em uma apresentação que fez no clube Blue Note, de São Paulo. Muito simpático, disse que iria apresentar-se com Aimée, em São Paulo, em outubro. Por enquanto, não sei onde vão tocar. Mesmo apresentando-se em vários lugares desse vasto mundo, conserva o jeito caipira de quem nasceu em Franca, interior do estado de São Paulo. Fora isso, toca violão como se estivesse em um boteco. Não tem aquela pose de violonista clássico, nem a de roqueiro. É do jeito dele, usando uma das pernas para apoiar o instrumento, mal recostado nas cadeiras.

Fora do Brasil, não é o caipira de Franca; é um músico cuja linguagem associa-se ao jazz, mesmo sendo o mais brasileiro dos brasileiros em termos de sonoridade. Pois não é nenhuma surpresa que seja um dos parceiros de Cyrille Aimée e que tenha acabado de gravar um álbum em duo com Ken Peplowski.

Mesmo que o nome de Peplowski venha em primeiro lugar na capa, o álbum é mais brasileiro que qualquer outra coisa. Vamos combinar: faz muito tempo que as composições de Tom Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá fazem parte do repertório dos músicos de jazz do mundo inteiro. São universais.

Um outro dado da brasilidade é o título: “Amizade”. Fora “Caravan” e “Stompin’ at the Savoy” e o medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”, dois clássicos latinos incorporados ao cancioneiro americano, as restantes são composições de Diego, de Diego e Ken; o resto são temas dos já citados Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá. Há uma perfeita combinação entre os dois, tanto Peplowski tocando clarineta ou saxofone. Não é pouco não.

Veja os dois em “Caravan”, numa apresentação em Portland.




No medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”. Preste atenção no violão de Figueiredo.





Um dos destaques é “Pro Paco”, composição dos dois. Belíssima. Acho que a referência é Paco De Lucia. Ouça.






quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sean Foran e a melancolia


Pelo dicionário de Antonio Houaiss, a melancolia pode ser um “estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral”, e, por extensão, “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.” Tentemos ver então como um “sentimento de vaga e doce tristeza”. Bom, mas existe uma “doce tristeza”? A tristeza é quase sempre amarga. No máximo então, vamos considerar a melancolia como um estado que, não sendo antônimo efetivo de “alegria”, seja aquele em que entramos em “um sentimento de vaga e doce tristeza”, tristes até, mas não tanto como o jovem Werther, personagem de Goethe. Tentemos então como algumas das belas passagens das três últimas sonatas de Franz Schubert.

Permito-me a entrar em outra seara: artistas que nos levam à melancolia e à tristeza não são, necessariamente, melancólicos e tristes.Confunde-se comumente a obra com o autor. Não necessariamente um gênio é um bom caráter, boa gente. Fala-se bastante de que Pablo Picasso, além de misógino, foi um mau pai. A dramaticidade de um lied de Schubert, como em “Im Abendrot”, ou “Die liebe hat gelogen”, no melancólico “Andante con moto” do “Piano Trio no. 2, op. 100”, não combinam com a história do compositor austríaco, bon vivant, que vivia às custas dos amigos ricos, e teve a morte prematura em consequência da sífilis. Isso não combina exatamente com suas composições sublimes, ternamente melancólicas.
Essa breve digressão é em razão do início de “Room with a View”, primeira faixa de “Frame of Reference”, do australiano Sean Foran, lançado em 2016. Nessa canção, iniciada com arpejos de Foran ao piano, é seguida de timbres melancólicos do violoncelo de Ben Davis e da guitarra atmosférica de Stuart McCallum, que entra logo a seguir, enriquecida com a bateria de Joost Hendricks. No todo, é um tema em que os instrumentos interagem em perfeita harmonia, melodicamente rica, colorida, em que as luzes solares atravessam nuvens escuras.

Os arpejos de Sean Foran ao piano assemelham-se com a sonoridade do guitarrista Pat Metheny. A comparação não tem o propósito do demérito, pois ele mesmo citou o americano como influência musical. Lembro da época em que Pat tinha o tecladista Lyle Mays como seu parceiro musical. 

Uma boa imagem de como as composições de Foran evoluem — li em uma resenha não assinada e me permito citá-la — como o desabrochar de uma flor. Ao som de seu piano, entrelaçam-se a guitarra, o violoncelo e o saxofone de Julian Argüeles. Tudo é finamente construído, combinando lirismo, melancolia, climas cinematográficos — penso numa paisagem a percorrer o meu horizonte visual —, que encantam por sua beleza impressionista. “A Room with a View”, “Frame of Reference”, “A Fine Balance”, essas três, penso eu, combinam bem com o que tentei expressar nesse breve texto.


Ouça o álbum.


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Nunca é demais um Jeff Buckley a mais


Ele foi o assunto de alguns posts neste blog e, provavelmente, não será o último. É um pouco por fascínio e incredulidade por mortes como a dele e, claro, por seu enorme talento.

Em 27 de maio de 1997, Jeff Buckley e o roadie Keith Foti pararam às margens do rio Wolf. Jeff disse que ia entrar na água. Enquanto Keith pegava algo no carro, entrou com roupa e tudo no rio, cantando “Whole Lotta Love”, de Jimmy Page e Robert Plant. Foi encontrado distante alguns quilômetros adiante, próximo ao rio Mississippi, dias depois. Tinha 30 anos e “Grace”, seu álbum de estreia, era sucesso entre o público e a crítica.

Por esses dias ando a ouvir o álbum duplo póstumo “Live at Sin-é” e também os registros encontrados posteriormente e lançados recentemente: “Live at Cabaret Metro, Chicago” (13/5/1995), “Live at Wetlands, New York” (26/8/1994), “Live at Columbia Records Radio Hour” (4/6/1995) e “Live from Seattle, WA” (7/5/1995). Como Buckley vende ainda, relançaram ainda os póstumos, em versões “expanded edition”: “Sketches for the Sweetheart” e “Mystery White Boy”. Saiu uma coletânea de números ao vivo, recentemente que não sei se são inéditas, mas é bem possível que estejam repetidos nos citados anteriormente: “In Transition”. Conclusão: não sou eu apenas a continuar interessado — e a ouvir — em Jeff Buckley.

Pouco antes de “Grace”
Apenas para situar, Jeff era filho de Tim Buckley, cantor popular em sua época, morto aos 28 anos por overdose de heroína. Em um show tributo ao pai, apresentou-se e chamou a atenção de alguns produtores. Na ocasião, conheceu Gary Lucas, do Captain Beefheart. Saiu da Califórnia e foi tentar a sorte em Nova York. Dentre os lugares em que apresentou-se, o Sin-é tornou-se o mais frequente. Nele, servia café e, uma vez por semana, às segundas-feiras, fazia um pequeno show.

O Café, situado no East Village, ficou pequeno para o público que passou a aparecer. O repertório era bem eclético: Bob Dylan,Van Morrison, Nina Simone, Billie Holiday, Leonard Cohen, e até Nusrat Fateh Ali Khan, seu Elvis Presley, como diz antes de cantar “Yeh Jo Halka Halka Saroor Hai”, em paquistanês. Mas incluía também músicas próprias, que depois fariam parte de “Grace”. Acompanhado apenas da sua guitarra. Interagia com o pequeno público e incluía riffs e trechos de Nirvana, The Doors e Led Zeppelin. Jeff não foi da geração que amava os Beatlers e os Rolling Stones, como cantava Gianni Morandi em sua canção-protesto “C'era Un Ragazzo Che Come Me Amava Beatles i Rolling Stones”. A sua foi a que cresceu ouvindo Led Zeppelin, que seu pai colocava na vitrola, quando era pequeno. Parece até ficção que tenha caminhado para a morte cantando “Whole Lotta Love”, segundo Keith Foti, quando desapareceu nas águas do rio Wolf.

Dramático
Ninguém fica impune amando Nina Simone. Nos registros do Sin-é não consta “Lilac Wine”. Mas está presente com “If You Knew”. Jeff queria ser Nina. Jeff gostava das chamadas “torch songs”, não especificamente relatando amores perdidos, porém no sentido de dar cores dramáticas às interpretações. Em “Mojo Pin”, número de abertura de “Gace”, misturam-se delicadeza, na voz lamentosa introdutória, e uma tristeza interior, que culmina em um grito torturado e dolorido.

Com o sucesso do primeiro álbum, Jeff sofreu a pressão da gravadora — e dele próprio, presumo —, para fazer outro tão bom quanto. Para a sua extrema sensibilidade, foi muito. Não conseguiu terminá-lo. Morreu antes. Segundo os legistas, não estava drogado ou alcoolizado e, concluíram que pode ter sido um acidente mesmo, e não, suicídio. É, entretanto, estranho ter morrido assim sem ter concluído o que seria seu segundo disco.

Sempre Jeff
Gerações que não viveram a época em que Buckley surgiu, têm a oportunidade de conhecê-lo com os relançamentos e com os registros de apresentações ao vivo disponíveis agora. Aos que o conheceram quando foi lançado “Grace”, nunca é demais ouvi-lo nessas gravações que foram sendo reveladas depois. Em cada uma há diferenças do modo como interpreta as mesmas canções, tantas vezes repetida. É como deleitar-se com as sutilezas de um amor eterno, aquele amor que nasceu em ‘Grace” e é sempre lembrado.

No ao vivo no Sin-É, não há registro de “Lilac Wine”, um dos números mais emblemáticos do repertório de Jeff. Há, entretanto, outra “torch song” clássica. Ouça sua versão matadora de de “Strange Fruit”.




Ouça “Mojo Pin”, em registro de 1994, no Wetlands, em Nova York. É uma faixa bem mais longa do que a gravação em estúdio. É interessante, porque fica reforçado seu gosto pela forma lamentosa de interpretação. Essa versão de quase 15 minutos é excepcional.




Ouça uma versão longa de “Lilac Wine”. Esta é do ao vivo no Columbia Records Radio Hour, Nova York, em 4 de junho de 1995.







quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Mais jazz que Jazzmeia Horn não há



Como dizia meu amigo: “É uma bela ‘tipa’!” Sempre com turbantes — ou lenços!, não sou um connoisseur de indumentárias femininas — coloridos e vistosos a realçar a beleza que Deus lhe deu, Jazzmeia Horn chama a atenção de qualquer ser normal. Além de ser uma “tipa”, é uma intérprete do jazz em sua expressão mais genuína. Não bastasse, tem esse nome. Não consegui saber se é de batismo ou apenas artístico. Se for de nascimento, seu pai tem o dom da premonição. Se “Horn” for seu sobrenome real, até nesse ponto, o foi sem querer ter sido. Afinal os instrumentos de sopro estão na alma do jazz. Sem o saxofone, raramente utilizado na música erudita, até por ter sido criado apenas no século XIX, por Adolphe Sax, o jazz não teria existido como o conhecemos.

Nascida em Dallas, Texas, desenvolveu interesse pelo jazz desde pequena e teve como ídolo e referência Sarah Vaughan. Estudou na Manhattan's New School for Jazz and Contemporary Music. Nesse período, foi agraciada com premiações da Downbeat Student Music Award. O prêmio maior, entretanto, que abriu-lhe as portas foi vencer o Thelonious Monk International Vocal Jazz Competition de 2015.

Horn é uma intérprete tipicamente do jazz, como Cécile McLorin Salvant, considerada a melhor vocalista da atualidade. Esta ficou em primeiro lugar em todas as categorias que podia concorrer, agora em 2019. Foi a “Jazz Artist” do ano, a melhor cantora do ano, desbancando as veteranas Diane Reeves, Dee Dee Bridgewater, Cassandra Wilson e Diana Krall, no “67th Annual Critics Poll”, da Downbeat. “The Window”, seu mais recente álbum, ficou como segundo melhor do ano, atrás apenas de “Emanon”, de Wayne Shorter.

Jazzmeia Horn foi considerada a sexta melhor cantora do ano. Nem aparece na lista das melhores “rising stars”. Na do ano passado, ficou em primeiro lugar nessa categoria. Sinal de que a crítica nem mais a considera um talento emergente, apesar de ter apenas dois discos lançados.

E é verdade. Horn mostrou personalidade desde a estreia, o que deve ter impressionado os críticos. Como era o primeiro, é provável que o produtor tenha sido preponderante na seleção das que iriam no disco.

Em “Social Call”, evidencia-se a influência de Betty Carter, a começar pelo título, que é um dos seus primeiros sucessos, além de “Tight”, a que abre o disco, ser de sua autoria. O resto consiste de clássicos, como a obra-prima de Jimmy Rowles — “The Peacocks” —, belamente terna na sua voz, “I Remember Ypu”, de Victor Schertzinger e Johnny Mercer, bem uptempo, em que Horn faz scats de gente grande, um medley (“Afro Blue- Eye See You - Wade in the Water”), e outras que servem bem como um showcase de suas capacidades.

Depois de ter ficado evidente seu talento como intérprete, Jazzmeia resolveu mostrar uma outra faceta, a de compositora, algo raro entre os cantores. Das doze, oito são de sua lavra, no segundo disco.Percebe-se que o ritmo do jazz está em seu DNA, não apenas no cantar, mas na construção de suas composições.“Love and Liberation” abre com “Free Your Mind”, puramente jazz. A próxima, nem tanto, mas “Out of the Wind”, outra dela, vai na mesma toada, assim como “When I Say”, a quinta, e a sétima, “Searchin’”. Lembra muito Betty Carter mesmo, sem demérito nenhum. É melhor ser comparada com uma gigante do que com uma qualquer. Jazzmeia intercala canções uptempo com outras lentas. Dentre elas, incluiu “Green Eyes”, de Erykah Baduh que, aliás, de vez em quando, usa uns turbantes vistosos, como Horn. Mesmo em um número pop como esse, predomina a improvisação tipicamente jazz, com um belo solo do pianista Victor Gould. A mistura que Horn imprime, mesclando um jazz fortemente calcado no hard bop, com pitadas de soul, blues e rhythm’n’blues, é poderosa. É o que Cécile McLorin Salvant vem fazendo também.

Só para terminar, um pouco fora desse espectro mais jazz, há um duo com Jamison Ross, romântico e belo. Ouça.





O número final é o clássico “I Thought Abot You”, de Jimmy van Heusen e Johnny Mercer. É bem jazz, com um belo contrabaixo e direito a floreios bem no estilo de Betty Carter. 





Horn é muito boa nos temas uptempo mesmo. Não é fácil alguém com sua agilidade de articular as palavras. Ouça “Searchin’”.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Norah Jones, Brasil e o eterno retorno



Quando “Come Away with Me” foi lançado, proclamou-se o surgimento de uma nova grande intérprete do jazz. Ao sair pela tradicional Blue Note, a associação foi automática. Esse selo, no entanto, desde a década de 1960, com a invasão avassaladora do rock, abriu-se às novas sonoridades, sem sair exatamente das trilhas do gênero, por meio de músicos jovens, como Grant Green, Wayne Shorter, Larry Young, Herbie Hancock, dando um novo gás ao mainstream. Era um jazz mais vigoroso, incorporando ritmos vindos do rhythm’n’blues. Como exemplo, cito “Cantaloupe Island”, de Hancock, sucesso quando lançado e, “incorporado” por vários músicos, mais recentemente, como o US3.

O selo Blue Note, portanto, não mudou muito. Apenas adaptou-se aos novos tempos. Em seu plantel, nos dias de hoje, estão incluídos os melhores intérpretes desse gênero que, se não é mais jazz, não deixa de ser música, que é o que importa, como Gregory Porter, considerado um dos melhores cantores da atualidade, José James, genial, tanto cantando antigos standards de forma maravilhosa, como em “Yesterday I Had the Blues” (2015), ou incorporando novas sonoridades. Norah Jones foi uma das primeiras contratadas nessa nova onda em que o termo “jazz” ficou amplo demais, motivado por razões mais comerciais que artísticas.

Pois, em 1992, Jones estreou com “Come Away with Me”, alardeada como a nova revelação no jazz. Essa álbum, até hoje, vendeu quase 40 milhões de cópias. É uma cifra invejável.

A novidade, filha de Ravi Shankar — esse dado era um bom chamariz comercial, apesar de nunca ter convivido com o citarista —, tinha uma voz doce, com traços de uma melancolia muito charmosa. E não foi apenas o público que a consagrou; muitos da crítica especializada gostaram também. Na época, não me conquistou. Por motivos externos, a sua participação em “My Blueberry Nights”, de Wong Kar-Wai, me fez tornar-me fã dela. Aquela doçura de sua músixa era parte constituinte de Norah.
A “nova” Norah Jones era a mesma de “Come Away with Me”. Quem mudou foi eu. Passei a gostar dela, e resolvi até reescutar seu disco de estreia. Passei a prestar atenção em Norah. Nesse meio tempo, as vendas de seu disco decresceram. Continuava a mesma, quem sabe melhor, mas ela nunca foi uma pop star, como Madonna. Nunca deixou, contudo, de ser top ten.

“Day Breaks”, de 2016, representa uma retomada do fio do primeiro disco. É o que foi dito por ela e pela crítica. Ladeada por músicos estelares, como o brilhante e discreto baterista Brian Blade, o organista Lonnie Smith e o saxofonista Wayne Shorter, canta e toca alguns jazz standards, como “Fleurette Africaine”, de Duke Ellington, e “Peace”, de Horace Silver. Composições de sua lavra complementam o disco.

Se Norah intitula seu mais recente de “Begin Again”, seria um terceiro começo ou retomada?  Não sei dizer. Em “Little Broken Heart”, de 2012, contou com a participação do produtor Danger Mouse, em “Day Breaks”, com um mundo de músicos do jazz, e, no recente, volta a ter parceiros do universo pop, em parcerias nas composições e na produção: Jeff Tweedy,de Wilco, e Thomas Bartlett (Doveman).

Quem acompanha atentamente aos seus novos lançamentos — não é o meu caso —, já devia conhecer todas as músicas do álbum. Cada uma foi lançada em formato single. Na sua totalidade, são apenas 28 minutos, mas a brevidade não é problema. Cada canção representa um pedacinho de doce melancolia, emoldurada por um mundo que é só dela, em que é dado a nós participar.

“My Heart Is Full”, a primeira é totalmente climática, com sua voz reproduzida em eco, sobre uma batida que marca o ritmo, emulando um coração. Junto com os versos “My heart is open/ Eyes are wild/ My mind is free/ My hands are tied/ I can see/ People hurting”, à medida em que sobe o tom de sua voz, vai ficando cada vez mais sufocante. E, pergunta: “Are we broken?” Replica, porém: “I will rise”. “I am tired/ I am strong/ I am human/ I will listen/ I can think/ I will love/ If we love/ Then we’ll love/ We can love/ Without hate.” Letra simples e, tremendamente — ou imperfeitamente — humana.

A segunda é a música-título. Bem Norah. É assim com “It Was You”, outro desatque, com uma seção de sopros, de linhas simples e muito bela, relaxante. O mesmo se pode dizer da tranquila “A Song with No Name”, sempre com letras muito pessoais. Completam o álbum “Uh Oh”, “Wintertime” e “Just a Little Bit”. Novamente, a seção de sopros dá um colorido especial a esta última.

Norah Jones fará apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, em dezembro. Quer ir? Clique aqui.

Ouça o álbum.




Se você não conseguir acessar por aqui, vá em https://open.spotify.com/album/0iDASlJ6faB4ZDVkKlqbHj?si=y6ILsw1LT8u8eeJO8uNBXw

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Quando a new wave foi a bossa-nova


Ondas. Cada uma é diferente da outra, como o rio que corre. “The river runs through”. A água que corre no rio ou a das ondas, nunca é a mesma. No eterno retorno, tudo é sempre novo, mesmo que, aparentemente, não seja.Por isso, talvez um dia, a Bossa Nova foi “new wave”. É o que penso ao ouvir “New Wave!”, de Dizzy Gillespie, lançado em 1963.

No começo da década de 1960, a Bossa Nova era a grande onda, que invadiu a América, a “onda que se ergueu no mar”, como cantou um dia João Gilberto, “e das estrelas que esquecemos de contar”. Bem, João completa: “fundamental é mesmo amor”. Estava certo o compositor Antônio Carlos Jobim.

O mundo passou a adorar a Bossa Nova. Nessa onda surfaram Stan Getz, Charles Byrd, Lalo Schifrin, inicialmente, e, até hoje, o gênero ainda dá um caldo. “Garota de Ipanema”, de Vinícius e Tom, ainda é uma das mais executadas no mundo. Dizzy Gillespie navegaria nessa onda, naturalmente. Ele, que disseminou os ritmos caribenhos para o dito Primeiro Mundo, não poderia ficar indiferente.

Maldosamente, poderíamos dizer que Gillespie foi esperto, mas insensato seria, para citar a clássica “Insensatez“ (“How Insensitive”, na sua versão em inglês), o brilhante trompetista ignorá-la. Para ele, a “new wave” teria um quê de latino. Pois, latino é a Bossa Nova, já que o Brasil, apesar de sua pujança geográfica, está espremida entre o Oceano Atlântico e os países colonizados pela Espanha.

Não podemos ignorar o que um músico do quilate de Gillespie possa ter feito, influenciado pela “nova bossa”. “Chega de Saudade”, originalmente, de ritmo malemolente, tão brasileira em sua essência, ficaria caliente na versão dele, naturalmente. Dizzy sempre foi exuberante e nunca poderia ser cool, como é e foi a Bossa Nova em sua origem. E é nessa exuberância que devemos ver a música do trompetista. E devemos ver sob essa ótica e aquilatar seu valor por aí.

E, vamos combinar uma coisa: a Bossa Nova tem sua origem no samba-canção. E aí, pois, o ritmo reside no cerne do gênero. E, vamos combinar outra coisa: Dizzy Gillespie foi um gênio, e estamos conversados. E no gênio está a capacidade da transformação, da transliteração dos gêneros. É o que Gillespie demonstra em fazer da Bossa Nova o samba do “crioulo doido”.


Ouça a new wave gillespiana.




Se não conseguir ouvir por aí, vá direto no link do Spotify: https://open.spotify.com/album/4hGmuIZf2US0XzzplPki1I?si=56L7u7bDQDiss1-4L6mX3g

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A imersão no sonho de Dan McCarthy



O sonhar acordado, por mais breve que seja, assemelha-se mais a um pesadelo. Breve. Na continuidade do sono, sonhamos. É a primeira coisa em que penso ao ouvir “A Dream Awake”, a primeira de “Fugitive Epoch”, de Dan McCarthy, lançado neste ano. É um dos mais belos inícios que ouvi nos últimos tempos, e olhe que ouço música o dia inteiro!

Às primeiras notas do vibrafone, escuta-se os sons fantasmagóricos do violino de Mark Feldman e, nervosos, da guitarra de Ben Monder. Nossa, McCarthy montou uma banda de sonhos; com eles, toca o excepcional Steve Swallow, baixista que optou pela versão eletrificada há muito tempo, mesmo sendo músico mais associado ao jazz.

Sem sair do clima de sonhos, “Fugitive Epoch” é uma continuação. A instrumentação econômica de McCarthy, de poucas notas e breves e ostinatos que ajudam a criar um clima mais onírico ainda, um solo espetacular de Monder, sobre o contrabaixo com notas repetidas, estão perto do sublime.

Os títulos são sugestivos do clima sugerido desde o início. A terceira se chama “Softly She Sings Her Song”, “Desert Entrance”, “Strange Medicine on the Desert”. A última, “A Dream, Asleep”, funciona como uma continuação do início: o sonho acordado e o sonho desperto.


Ouça o álbum no Spotify.




Caso não consiga por aqui, acesse o link: https://open.spotify.com/album/0qJ9vIpy5QOLulvIUql9Dx?si=-5cx1kWSRpu88jqOXEMRNg

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Madeleine Peyroux, Anthem e Brasil



Agora, no mês de setembro, Madeleine Peyroux estará mais uma vez no Brasil, dessa vez, apresentando seu último álbum “Anthem”, lançado no ano passado. Começa em Porto Alegre, passa por Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

No início, ficou conhecida por ter uma voz muito parecida com a de Billie Holiday. Por esse fato, foi automaticamente associada ao gênero jazz, apesar de nunca ter sido de fato. É mais country-folk americana que qualquer coisa. Além da boa voz, talento, ficou bem conhecida pelas belas interpretações de algumas canções de Leonard Cohen.

Aliás, “Anthem” é de Cohen e um dos melhores números desse álbum. Ao contrário de “Secular Hymns”, o anterior, em que não há nenhuma de sua autoria, este é de uma maioria composta por ela, com David Baerwald, Brian MacLeod, Patrick Warren e Larry Klein, seus músicos. Este último toca contrabaixo é mais uma vez seu produtor. Klein comprovou a sua competência nesse mister em álbuns de Joni Mitchell, Luciana Souza, Herbie Hancock, Julie Fordham, Curtis Stigers, Norah Jones, Walter Becker, Till Brönner, Holly Cole, Tracy Chapman, Lizz Wright, Melody Gardot, dentre outros e outras.

Em relação à “Secular Hymns”, “Anthem” é um pouco inferior, na minha opinião. Mesmo assim, destaco algumas, além da música título, muito boa mesmo: “All My Heroes”, “Lullaby”, meio hipnótica, mas não exatamente uma canção de ninar,e “Liberté”, a partir de versos de Paul Éluard. Ela manda bem em francês e em inglês.

Ouça o disco via Spotify.




Caso você tenha dificuldade por esse compartilhamento, vá direto ao Spotify: https://open.spotify.com/album/3a6ln2VwpNL5Nve4QDyzRo?si=FdS3tGXqQuun6FmNdMgtxw


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Pra cima com a viga, moçada

Chuvas, tempestades, terremotos e tsunamis têm castigado o mundo. No meio de tanta desgraça, quase despercebidamente, J.D. Salinger, autor de “Apanhador no Campo de Centeio” morreu. É um livro que marcou algumas gerações posteriores à Segunda Grande Guerra e é bem possível que as atuais ainda sejam capazes de se impressionar com as desventuras de Holden Caulfield. Uso “morte” em vez de “desaparecimento” pois Salinger há muito tinha “desaparecido”. Do mesmo modo que é estranho a alta exposição a que estão sujeitos até profissionais não exatamente ligados ao show business — como os escritores — é também o “deixem-me só” de JDS. Não é o único. Já houve Rimbaud — era mais fácil “sumir” antigamente —, e depois do autor de “Apanhador”, temos o exemplo de Thomas Pynchon e, no Brasil, o de Dalton Trevisan.


Jack White, Jimmy Page e The Edge.
Em uma matéria numa publicação americana, acho que no New York Times, ficamos sabendo que Salinger circulava tranquilamente na pequena Cornish, New Hampshire, e gostava de ir à igreja pelos almoços com rosbife que lá eram oferecidos a US$ 12 e era visto sempre a fazer as compras no supermercado Price Chopper. Nada mais prosaico para quem ficou conhecido como “o” misterioso escritor.

É muito reducionista — e até maldade — relacionar a sua importância à influência “maldita” que possa ter tido sobre alguém como Mark David Chapman, que assassinou John Lennon. Parece que “Apanhador…” era seu livro preferido e o carregava quando descarregou sua arma acertando quatro tiros no cantor após pedir um autógrafo. É fazer pouco de alguém que, com sua obra, influenciou mais de uma geração. Depois de “Apanhador…”, li quase tudo o que escreveu — o que não é muito – e em muitas ocasiões, tratei de presentear amigos e amigas que não conheciam JD. Mas meu livro preferido é “Nove Estórias”. Sempre gostei de títulos. Atraiu-me pela estranheza, o conto “Um Dia Ideal para os Peixes-Banana”. Tornou-se um dos meus preferidos.

“Raise High the Roof Beam, Carpenters”, em sua primeira tradução no Brasil, chamou-se “Para Cima com a Viga, Moçada!” e saiu pela Editora Brasiliense. Na outra tradução, de Jorio Dauster, pela Companhia das Letras, chamou-se ‘Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira”. Prefiro a primeira porque o “Para cima” me parece mais enérgico e tem mais a ver com os “clamores” da juventude.

Salinger é pretexto apenas para o título deste texto e também por representar uma época em que houve a explosão de uma das manifestações musicais mais poderosas: o rock. Independente de considerar-se uma manifestação da baixa cultura, como muitos pensam, foi uma ferramenta poderosa para uma radical transformação nos costumes. Foi ferramenta e também foi fruto. E qual é o instrumento ícone do rock: a guitarra. É o instrumento em que o acústico torna-se elétrico, amplificando-se em poderosos decibéis.

Davis Guggenheim (diretor do filme catástrofe “Uma Verdade Incoveniente”) conseguiu juntar três grandes guitarristas de diferentes gerações e montar um documentário. É um prato cheio para os amantes do rock e até para os nem tanto. “A Todo Volume” (‘It Might Get Loud”), título desse filme feito em 2008, passou quase despercebido pelo público ao ser exibido comercialmente. Vi na Mostra Internacional de Cinema em 2009 e digo que gostei. Sem muita autocrítica. Paixões não são lá muito autocríticas. Que prazer! Lembrou-me que na minha adolescência apaixonara por Led Zeppelin e pela guitarra de Jimmy Page e também que, ao descobrir o outro — este com “i” e um “m” — passava meus dias a ouvir seus discos. Faço parte de um em milhões de pessoas.

As três gerações são Jimmy Page, dos anos 1960/70, The Edge, da banda U2, uma das mais longevas do universo do rock — estão na estrada desde início dos anos 1980 e continuam bons —, e Jack White, do White Stripes. É incrível o respeito que um tem pelo outro: cada um aprendeu com o outro e admiram-se. É incrível que o Led Zeppelin ainda impressione o adolescente dos anos 10 deste século. São 40 anos de lá para cá. A guitarra poderosa de Jack White, nos primeiros discos do White Stripes, são puro Page. E isso não é demérito. E a White cabe tocar com um de seus ídolos.

É um verdadeiro presente àqueles que gostam de rock, difícil de descrever. É melhor vivê-lo assistindo a esse filme. É uma sinergia incrível quando tocam juntos os hoje clássicos da dupla Page & Plant, como “In My Time of Dying” ou “I Will Follow”, um dos primeiros sucessos do U2. E é demais ver como a pulsão primordial do rock continua viva nas mãos de jovens como Jack White, brilhante guitarrista e cantor. Sua energia não se esgota em vários discos lançados pela banda White Stripes e seus outros projetos como a banda Raconteurs e, mais recentemente, o Dead Weather.

O final do documentário guarda uma pérola: os três interpretam “The Weight”, uma das grandes composições de Robbie Robertson, do The Band. O DVD foi lançado em duas versões, a normal e em BluRay.