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| Hamleto no piano |
O lugar é meio apertado. Entra-se por um estacionamento. Não deixa de ser uma variante do que conhecíamos como “drive-in”. Motéis existem até hoje. Antes de sua existência, o lugar onde a garotada ia para tirar “uns malhos”, como se dizia, ou praticar o esporte do intercurso sexual, ou atividades menos hardcore, que não ferissem a virgindade das moças que queriam se guardar para o casamento, era nos drive-ins. Com o surgimento dos motéis os drive-ins foram desaparecendo, mas era diversão barata. Bastava o automóvel emprestado ou subrrepticiamente surrupiados dos pais. Soube até da existência de um drive-in já com os carros. Era só entrar e escolher.
Bom, voltando ao lugar em que ia acontecer a apresentação do rapaz de jeito bonachão, era o seguinte: entrando-se por um estacionamento, segue-se para o lado esquerdo e uma moça pergunta se você tem reserva. Nas laterais, enfilheiram-se mesas com cadeiras. Mais adiante, há mesas para dois lugares à direita e uma fileira de bancos à esquerda. Esse lado dá de frente para o palco. Abre-se uma área ao lado que dá no balcão onde fica o barman e atendentes .
Nesse espaço muito simpático localiza-se uma casa bem simpática, o Jazz nos Fundos. Pensando bem, o jazz combina com “underground”. O Village Jazz Vanguard, em Nova York, fundado por Max Gordon, localiza-se em um porão. Por um corredor estreito chega-se ao local. Você está lá na fila para entrar. Daí, você vê os os músicos que você irá ouvir logo mais chegando, ali, bem do seu lado. Você dá de cara para um balcão. As garçonetes circulam oferendo bebidas (lá não se come) nas mesas. Em um dos cantos há um espaço pequeno que se amplia em direção aos fundos nos dias em que se apresentam bandas maiores. Caso contrário, é um pedaço apertado onde os músicos fazem seus shows. Tudo muito aconchegante: eles a 15 metros de você, no máximo. Não são necessários binóculos. É uma atmosfera de intimidade, você e os músicos, que é a melhor forma de se ouvir um bom jazz. É por isso que casas como essas continuam a existir. Max morreu, mas o Village continua e sempre com ótimas atrações. O Jazz nos Fundos segue esse padrão. Pede-se silêncio. Quem quiser continuar a beber e conversar, com a música em segundo plano, tem à disposição um local distante do palco, lá, perto da saída.
Em uma quinta feira, que é o dia dedicado ao jazz “mais jazz”, entra esse rapaz vestindo camiseta larga e máquina zero no teto. Senta-se ao piano e acompanhado de um contrabaixista e um baterista toca as primeiras notas do que ele chama de samba jazz. O nome dele? Hamleto Stamato. Algo leva a crer que seu pai devia ser um apaixonado por Shakespeare. Na verdade, seu pai era (ou é) Hamleto. Então, deve ter sido coisa do avô. Ah, a música, sim: estava no sangue. O Hamleto pai tocou flauta e saxofone com Hermeto Pascoal.
Voltando a tempos imemoriais, lembramos das primeiras notas do genial João Donato, inicialmente acordeonista e, depois, pianista, e trombonista eventual, com seu balanço irresistível de sua primeira banda, Os Namorados, ótimo nome para o namorador João que, bem jovem, se relacionou com Dolores Duran, mais velha que eles, e isso foi pano pra manga na época. Sua banda teve outros nomes: Donato e Seu Conjunto e Trio Donato. O jazz que influenciou tanto os instrumentistas na década de 1950 produziu o que ficou conhecido como jazz samba ou o samba jazz. Dois balanços que se amalgamaram em linguagem única. Nenhum baterista americano tem o suingue do brasileiro. Ou melhor, o suingue deles é outro. Exemplo: Edison Machado.
Hamleto é o pianista de balanço irresistível que faz parte do processo evolutivo que teve Eumir Deodato, Sergio Mendes e J.T. Meirelles no meio do caminho. E o samba jazz de Hamleto é “speedy”, às vezes, mais lento e pensativo, mas o samba é sempre “pra cima”. Em 2004, lançou um álbum chamado Speed Samba Jazz. Desde então, vai lançando o Speed Samba Jazz 2, 3, e por aí vai. Os temas escolhidos são brasileiros em sua maioria, mas mescla-os com standards americanos como You Must Believe in Spring, The Days of Wine and Roses, On Green Dolphin Street, A Night in Tunisia e outros. Mas tudo é samba e tudo é jazz. São dois universos que conversam muito bem.
Não é muito fácil para um profissional de música instrumental só viver dela. Paralelamente aos samba jazz e apresentações por aí afora, é produtor musical e compositor de trilhas, músicas e vinhetas da TV Globo. Participou compondo temas para a novela Andando nas Nuvens e os programas Fama, Criança Esperança e Estação Globo. Arranjou e participou de discos e apresentações de João Bosco, Elba Ramalho, Ivete Sangalo, Paulinho da Viola, e por aí vai distribuindo alegria com seu piano extrovertido.
Jazz Nos Fundos
Rua João Moura 1.076
São Paulo – SP
Tel. 30835975
http://jazznosfundos.net
Hamleto toca Samba de Uma Nota Só.
Night in Tunisia é samba e é jazz.
Samba de Uma Nota Só.

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