quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Nada além de Orlando Silva

Os três maiores cantores do Brasil: Silvio Caldas, Francisco Alves e Orlando Silva 

(esq p/dir). O de óculos é Gilberto Andrade, diretor da Rádio Nacional (1940)
Depois de dias a ouvir Billie Holiday, peguei a caixa com três CDs de Orlando Silva, com as gravações da RCA Victor, lançada em 1995. Ato falho? Em suas vidas há várias coincidências.

No perfil biográfico, de autoria de Ruy Castro, é dito que “de 1935 a 1942, Orlando Silva foi o mais perfeito cantor popular do Brasil. E um dos mais perfeitos do mundo. ”

“Não há um pingo de ufanismo nessa afirmação. É só comparar os seus discos dessa fase com os da concorrência internacional do período: Bing Crosby nos Estados Unidos, Al Bowlly na Inglaterra, Charles Trenet na França – cantores que deram nuance e elegância à música popular e silenciaram aqueles tenores e barítonos de opereta que a infestavam. Cada qual em seu país, eles criaram um estilo suave e natural de cantar, influenciaram uma multidão de outros cantores, compositores, letristas e orquestradores e, em poucos anos, alteraram todo o rumo da música popular. Para muito melhor.”

A vida, para Orlando Silva, não foi aquela maravilha. Como para Billie Holiday. Filho de família de modestas posses, perdeu o pai com três anos. A mãe, lavadeira, teve de se virar para criar três filhos. Pois Orlando fez apenas o primeiro ano primário (era assim que se designava) e mal sabendo escrever caiu cedo na vida, fazendo de tudo. Foi entregador de marmita, aprendiz de sapateiro, estafeta da Western. Trabalhando para a Casa Reunier, Orlando, ao tentar pegar o bonde em movimento, “calculou mal o salto, caiu no estribo e sua perna esquerda ficou dentro do trilho”. Consequência: teve quatro dedos dos pés amputados. Nessa temporada hospitalar, os médicos aplicavam-lhe morfina para aplacar as dores.

Tinha 16 anos quando isso aconteceu. Pouco depois do acidente, a vida mostrou-lhe a face boa. Depois de longa recuperação, foi trabalhar de trocador de ônibus (é o que, hoje, chamam de “cobrador”). Vivia a cantar. Nos tempos em que teve de ficar parado, passava os dias a ouvir rádio. O Edmundo, percebendo seu talento, resolveu levá-lo à rádio. Era feio, um rapazote de pele morena, cabelos ruins, como se dizia antigamente, e manco. No pé ruim vestia uma alpercata. Não deu certo na primeira tentativa. Perseverou. Um dia, em um corredor da rádio Cajuti, Bororó ouviu uma voz. Era Orlando. O compositor o levou ao Café Nice, no Rio de Janeiro, e foi apresentado ao melhor cantor da época, Francisco Alves. Generoso, Chico Viola lhe deu a maior força. Mal sabia que, em pouco tempo, lhe roubaria o título de “o maior cantor do Brasil”.

Ídolo das multidões, o período em que ficou contratado pela RCA Victor constitui o seu apogeu como intérprete. O Orlando que muitos conheceram era o cantor de voz grave, rouca. A extensão da voz do grande Orlando ia do mais grave ao mais agudo em suaves passagens. Ruy Castro, quando relata sobre sua súbita decadência diz que “na primeira metade dos anos 1940, algo aconteceu a Orlando que afetou cruelmente a sua voz. O tenor cristalino, capaz de viajar dos graves aos agudos com facilidade; o timbre de maciez e beleza imbatíveis; a naturalidade de seus pianíssimos; a delicadeza quase feminina da entonação; o fôlego para entrelaçar frases e frases, como se as palavras respirassem por ele – tudo isso cedeu lugar, quase de repente, a um tom roufenho, cansado e sem cor, que os seus perplexos adoradores custavam a reconhecer como Orlando.”

A fase de ouro de Billie Holiday, para a maioria de seus admiradores, é a dos anos dos discos lançados pela Columbia e a Decca. Quando foi contratada pelo selo Verve, tinha passado por clínicas de reabilitação e por delegacias, naturalmente. Além do consumo de bebidas alcoólicas, o de drogas foi ficando mais pesado. Quando gravou pela Verve, a voz de Billie tinha perdido o frescor dos tempos da Columbia. Esses anos vão de 1933 a 1942. Os anos RCA de Silva vão de 1935 a 1942. Coincidências. Outra: tiveram problemas com drogas pesadas. A de Holiday foi a heroína e a de Silva, a morfina.

O vício dele é posterior à internação. Apesar de alguns dizerem que seu vício foi consequência do acidente, Ruy Castro discorda. Em primeiro lugar, era caro para o ainda pobretão Orlando e, outra coisa, era uma droga restrita a hospitais. A tal morfina vendida pelos comerciantes “informais”, naquele tempo, era destilada de quantidades cavalares de elixir paregórico posto horas em fervura (a informação é de Ruy Castro).

A importância da obra de Orlando Silva está na belíssima voz e também pelos músicos que o acompanharam nas gravações da RCA. Um dos arranjadores foi Pixinguinha, o outro, Radamés Gnatalli. No perfil está escrito que, segundo Jonas Vieira, autor do livro O Cantor das Multidões, “foi Radamés Gnatalli, em 1937, o introdutor do uso de cordas no acompanhamento dos tempos médios e lentos, com seu arranjo para Orlando em Lábios Que Beijei. Pois o americano Alex Stordhal, que ficaria mundialmente famoso pelo mesmo motivo, só começaria a fazer isso em 1941, acompanhando Frank Sinatra.” Nada mal, heim?

Para a nossa sorte, o grande Orlando está registrado no box O Cantor das Multidões. Gravações Originais • 1935–1942.

Disponibilizo algumas interpretações em que se percebe a qualidade de “seus agudos e sustentações” e, é claro, a música Nada Além.

Lábios Que Beijei (J. Cascata - Leonel Azevedo). Gravada em 15 de março de 1937, a orquestra é dirigida por Radamés Gnattali.



Lágrimas de Rosa (Dante Santoro - Kid Pepe). Gravada em 9 de julho de 1937, Radamés Gnattali dirige a Orquestra Victor Brasileira.



Caprichos do Destino (Pedro Caetano – Claudionor Cruz). Gravada em 30 de julho de 1937, Radamés Gnattali dirige a Orquestra Victor Brasileira.



Por Quanto Tempo Ainda (Joubert de Carvalho). Gravação: 24/2/1939.



Mágoas de Caboclo (Leonel Azevedo - J. Cascata). Gravação: 21/5/1936, com o Conjunto Regional RCA Victor.



Nada Além (Custódio Mesquita - Mário Lago). Gravação: 11/5/38, com Orquestra RCA Victor, dirigida por Radamés Gnattali.



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