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| Niemeyer, Brubeck e Shankar |
Três personalidades faleceram neste mês: Oscar Niemeyer, Dave Brubeck e Ravi Shankar. Nada de fins trágicos. Fora o primeiro, que passara dos 100, Brubeck e Shankar eram nonagenários. Natural que nessa idade a morte esteja à espreita. Brubeck morreu um dia antes de fazer 92.
1. Niemeyer mereceu cadernos especiais na grande imprensa. Mais do que merecido. Apesar de muita gente falar mal, pelas redes sociais, principalmente, ouço das pessoas que o conheceram apenas palavras carinhosas. Era uma pessoa generosa. Ajudou muita gente e muito o partido comunista e seus camaradas (não era assim que se tratavam?). O Armênio Guedes, hoje com 94 anos, membro histórico do Partidão, conta que o encontrou em Paris quando ia a um congresso em Moscou. Niemeyer comentou do frio que estava fazendo lá naquele ano e perguntou-lhe se tinha roupa para se proteger. Armênio disse que sim. Mesmo assim, quando se despediram, entregou-lhe mil dólares em espécie “para comprar um casaco”.
No último período da Segunda Grande Guerra, com a aproximação do país com os Aliados, o Partido Comunista passou a ser melhor tolerado pelo governo de Getúlio Vargas a ponto de ser legalizado em 1945. Lançaram dois estatutos, um de capa branca e outro com capa vermelha. O primeiro era uma versão, digamos, mais “light” e o segundo era mais sério. No artigo 13 proibia-se qualquer relação de seus militantes com a “canalha trotskista”.
Respirando-se os tempos de liberdade e legalidade, os amigos comunistas costumavam se reunir nos fins de tarde no escritório de Oscar Niemeyer. O arquiteto, apesar do estatuto vigente, continuava a ser muito amigo de um notório “canalha trotskista”. Então, um amigo lhe perguntou: “E agora Oscar? Como vai ser da sua amizade com o Echenique?”. Oscar respondeu: “Besteira… o Echenique? Ele é só canalha.” Posso estar sendo impreciso porque é uma história contada por um amigo em uma mesa de restaurante. É mais para assinalar a fineza de humor de Niemeyer.
Uma crítica frequente era a de que sua arquitetura “não era boa de morar”. Em São Paulo existem vários prédios residenciais projetados por ele, sendo o Copan o mais conhecido. Vou perguntar para alguém que mora lá. Nunca o ouvi reclamar disso.
2. Na década de 1970 e pouco antes, o Theatro Municipal de São Paulo abrigou vários artistas estranhos à música erudita. Apresentaram-se lá Miles Davis, Duke Ellington, Charles Mingus, Bill Evans, Ray Charles, João Gilberto, Milton Nascimento, Ella Fitzgerald, Stan Getz, os Swingle Singers e Ravi Shankar. Este tinha ficado conhecido no mundo ocidental em razão do interesse dos Beatles pela música indiana e por uma onda místico musical que dominou o mundo sedento por orientalismos nos anos 1960. Apresentou-se no festival de Monterrey e no de Woodstock e também no Concerto para Bangla Desh, em 1975, organizado por George Harrison. Mas antes desse concerto, em 1971, esteve no Brasil. Fui um dos cerca de 1.500 espectadores que foram vê-lo no Theatro Municipal. Era um moleque naquela época, com a maior curiosidade do mundo. Mal tinha completado 15 anos.
Shankar morreu com 92 anos. Deixou duas filhas artistas. Uma delas, a mais famosa, é Norah Jones, com quem teve convívio um tanto complicado. Jones é fruto de seu relacionamento com a produtora de shows Sue Jones. A outra seguiu os passos do pai. Anoushka Shankar é citarista de renome e gravou um belo CD pela conceituada Deutsche Grammophon.
3. Meu amigo Zeca Leal e Dave Brubeck morreram agora em 2012. E o Zeca nem ficou sabendo: morreu antes. O Zeca, junto com o Carlos Conde, foi um dos meus gurus musicais. Era um cara engraçado e gozador. Botava apelido em todo mundo. Fiquei sem saber do meu. Eram apelidos muito particulares e o único jeito de conhecê-los era pelos outros. Conto uma história engraçada dele. Tinha o costume de dizer que foi o cara que mais comprou discos do Frank Sinatra no mundo. Cada vez que ia ouvir, de bêbado, riscava. Ia até a loja e comprava outro, novinho. A história está em http://bit.ly/UTQNF3. Mas, além do Sinatra, o Zeca era fã do west coast jazz, do Dick Farney, de quem era muito amigo (fazia o imposto de renda dele, inclusive) e de Dave Brubeck, “Brubéck”, como dizia, e não “Brûbeck”, com costumam os brasileiros dizer.
No aprendizado do pianista incluem-se aulas de composição com Darius Milhaud. A formação mais conhecida de sua banda ficou sendo a do quarteto que incluía o saxofonista alto Paul Desmond, o baixista Gene Wright e o baterista Joe Morello. Time Out, lançado em 1956 foi o primeiro LP a vender mais de um milhão. Poucos nesse mundo nunca ouviram Take Five na vida, mesmo sem saber. Blue Rondo à la Turk, inspirada em Mozart (e por isso o “à la Turk”), foi composta por Brubeck em exdrúxulo 9/8, e Take Five, em 5/4. Nada de quatro por quatro. Brubeck incorporou linguagens sofisticadas ao jazz e, assim mesmo, vendeu muito. Alquimias perfeitas. O pianista tinha a favor um saxofonista de som redondo e muito agradável aos ouvidos e um baterista com um drive perfeito para os seus tempos inusitados.
As inclinações eruditas ficaram mais evidentes por meio de peças compostas depois dos anos 1960 como os oratórios, balés, cantatas e uma missa.
Dave Brubeck e o Natal
Muitos intérpretes, principalmente os americanos, em dado momento gravam alguma coisa alusiva ao Natal. Ele gravou o seu em 1996 pela Telarc Jazz. É piano solo. Daí termos a sensação de que é Natal apenas em alguns temas conhecidíssimos como Jingle Bells. Bom, imagino que essa seja uma das mais conhecidas no mundo. O Natal de Brubeck, em disco pelo menos, é melancólico, reflexivo.
Não sou chegado às festividades de fim de ano. Na verdade, me deprimem. Não gosto de enfeites de Natal, não me sinto confortável em ficar escolhendo presentes e em recebê-los. Gosto de receber, mas em datas aleatórias, nunca nessas ocasiões pré marcadas. E, bom, para completar, músicas de Natal não fazem parte das minhas primeiras preferências, nem mesmo que tenha sido composta por Mel Tormé, como The Christmas Song, ou White Christmas, de Irving Berlin.
Bom, mas vamos Brubeck em O Little Town of Bethlehem, de Lewis H. Redner e Phillip Brooks.
1. Niemeyer mereceu cadernos especiais na grande imprensa. Mais do que merecido. Apesar de muita gente falar mal, pelas redes sociais, principalmente, ouço das pessoas que o conheceram apenas palavras carinhosas. Era uma pessoa generosa. Ajudou muita gente e muito o partido comunista e seus camaradas (não era assim que se tratavam?). O Armênio Guedes, hoje com 94 anos, membro histórico do Partidão, conta que o encontrou em Paris quando ia a um congresso em Moscou. Niemeyer comentou do frio que estava fazendo lá naquele ano e perguntou-lhe se tinha roupa para se proteger. Armênio disse que sim. Mesmo assim, quando se despediram, entregou-lhe mil dólares em espécie “para comprar um casaco”.
No último período da Segunda Grande Guerra, com a aproximação do país com os Aliados, o Partido Comunista passou a ser melhor tolerado pelo governo de Getúlio Vargas a ponto de ser legalizado em 1945. Lançaram dois estatutos, um de capa branca e outro com capa vermelha. O primeiro era uma versão, digamos, mais “light” e o segundo era mais sério. No artigo 13 proibia-se qualquer relação de seus militantes com a “canalha trotskista”.
Respirando-se os tempos de liberdade e legalidade, os amigos comunistas costumavam se reunir nos fins de tarde no escritório de Oscar Niemeyer. O arquiteto, apesar do estatuto vigente, continuava a ser muito amigo de um notório “canalha trotskista”. Então, um amigo lhe perguntou: “E agora Oscar? Como vai ser da sua amizade com o Echenique?”. Oscar respondeu: “Besteira… o Echenique? Ele é só canalha.” Posso estar sendo impreciso porque é uma história contada por um amigo em uma mesa de restaurante. É mais para assinalar a fineza de humor de Niemeyer.
Uma crítica frequente era a de que sua arquitetura “não era boa de morar”. Em São Paulo existem vários prédios residenciais projetados por ele, sendo o Copan o mais conhecido. Vou perguntar para alguém que mora lá. Nunca o ouvi reclamar disso.
2. Na década de 1970 e pouco antes, o Theatro Municipal de São Paulo abrigou vários artistas estranhos à música erudita. Apresentaram-se lá Miles Davis, Duke Ellington, Charles Mingus, Bill Evans, Ray Charles, João Gilberto, Milton Nascimento, Ella Fitzgerald, Stan Getz, os Swingle Singers e Ravi Shankar. Este tinha ficado conhecido no mundo ocidental em razão do interesse dos Beatles pela música indiana e por uma onda místico musical que dominou o mundo sedento por orientalismos nos anos 1960. Apresentou-se no festival de Monterrey e no de Woodstock e também no Concerto para Bangla Desh, em 1975, organizado por George Harrison. Mas antes desse concerto, em 1971, esteve no Brasil. Fui um dos cerca de 1.500 espectadores que foram vê-lo no Theatro Municipal. Era um moleque naquela época, com a maior curiosidade do mundo. Mal tinha completado 15 anos.
Shankar morreu com 92 anos. Deixou duas filhas artistas. Uma delas, a mais famosa, é Norah Jones, com quem teve convívio um tanto complicado. Jones é fruto de seu relacionamento com a produtora de shows Sue Jones. A outra seguiu os passos do pai. Anoushka Shankar é citarista de renome e gravou um belo CD pela conceituada Deutsche Grammophon.
3. Meu amigo Zeca Leal e Dave Brubeck morreram agora em 2012. E o Zeca nem ficou sabendo: morreu antes. O Zeca, junto com o Carlos Conde, foi um dos meus gurus musicais. Era um cara engraçado e gozador. Botava apelido em todo mundo. Fiquei sem saber do meu. Eram apelidos muito particulares e o único jeito de conhecê-los era pelos outros. Conto uma história engraçada dele. Tinha o costume de dizer que foi o cara que mais comprou discos do Frank Sinatra no mundo. Cada vez que ia ouvir, de bêbado, riscava. Ia até a loja e comprava outro, novinho. A história está em http://bit.ly/UTQNF3. Mas, além do Sinatra, o Zeca era fã do west coast jazz, do Dick Farney, de quem era muito amigo (fazia o imposto de renda dele, inclusive) e de Dave Brubeck, “Brubéck”, como dizia, e não “Brûbeck”, com costumam os brasileiros dizer.
No aprendizado do pianista incluem-se aulas de composição com Darius Milhaud. A formação mais conhecida de sua banda ficou sendo a do quarteto que incluía o saxofonista alto Paul Desmond, o baixista Gene Wright e o baterista Joe Morello. Time Out, lançado em 1956 foi o primeiro LP a vender mais de um milhão. Poucos nesse mundo nunca ouviram Take Five na vida, mesmo sem saber. Blue Rondo à la Turk, inspirada em Mozart (e por isso o “à la Turk”), foi composta por Brubeck em exdrúxulo 9/8, e Take Five, em 5/4. Nada de quatro por quatro. Brubeck incorporou linguagens sofisticadas ao jazz e, assim mesmo, vendeu muito. Alquimias perfeitas. O pianista tinha a favor um saxofonista de som redondo e muito agradável aos ouvidos e um baterista com um drive perfeito para os seus tempos inusitados.
As inclinações eruditas ficaram mais evidentes por meio de peças compostas depois dos anos 1960 como os oratórios, balés, cantatas e uma missa.
Dave Brubeck e o Natal
Muitos intérpretes, principalmente os americanos, em dado momento gravam alguma coisa alusiva ao Natal. Ele gravou o seu em 1996 pela Telarc Jazz. É piano solo. Daí termos a sensação de que é Natal apenas em alguns temas conhecidíssimos como Jingle Bells. Bom, imagino que essa seja uma das mais conhecidas no mundo. O Natal de Brubeck, em disco pelo menos, é melancólico, reflexivo.
Não sou chegado às festividades de fim de ano. Na verdade, me deprimem. Não gosto de enfeites de Natal, não me sinto confortável em ficar escolhendo presentes e em recebê-los. Gosto de receber, mas em datas aleatórias, nunca nessas ocasiões pré marcadas. E, bom, para completar, músicas de Natal não fazem parte das minhas primeiras preferências, nem mesmo que tenha sido composta por Mel Tormé, como The Christmas Song, ou White Christmas, de Irving Berlin.
Bom, mas vamos Brubeck em O Little Town of Bethlehem, de Lewis H. Redner e Phillip Brooks.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Dezembro maldito (2011)
Ao contrário do que escreveu T.S. Eliot – “Abril é o mais cruel dos meses” –, dezembro parece mais. Parece que ficamos na expectativa de algo prestes a acontecer: não apenas mortes, mas tragédias naturais, daquelas que parecem vingança dos deuses ou da natureza, como tsunamis, enchentes, cidades devastadas pela água. Em 2001, estava na praia, televisão ligada: Cássia Eller morreu; no 29º dia de dezembro.E como farsa ou para corroborar nossos maus presentimentos, acontecem coisas. Imagino que deve ocorrer uma espécie de caos coletivo: a impressão é a de que todo mundo fica estressado e meio “desgovernado”. Se o período é de Festas, esse tempo deveria ser o de alegrias, congraçamentos e anseios por paz. Essa “obrigação” pela felicidade pode ter efeito contrário.
Mortes, quanto mais próximas do fim do ano e, se acontecem com pessoas ainda jovens, ficam tingidas de dramatismo maior. Não lembro mais daqueles que morreram no fim de 2010, mas, em 2011, foram registradas muitas; desde a de esportistas como Sócrates (muito jovem ainda), de pessoas ligadas ao teatro como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11); à música, como o saxofonista Sam Rivers (26) e o trombonista e pianista Bob Brookmeyer (16), ambos octogenários; a cantora Cesária Évora (17); o grande desenhista e cartunista Ronald Searle (30), com 92 anos; artistas plásticos como a expressionista abstrata Helen Frankenthaler (27) e o brasileiro Mário Gruber (30); estadistas como Vaclav Hável (também poeta, no dia 18); o ditador da Coreia do Norte Kim Jong-Il; e jornalistas e escritores como o ateísta Christopher Hitchens (15), a alemã Christa Wolf (1), e Daniel Piza, este, dois dias antes que findasse o ano.













