terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Os três mortos e a trilha de natal por Dave Brubeck

Publiquei, depois da virada do ano 2011–2012 texto intitulado “Dezembro maldito” (leia um trecho no fim do texto). Temos alguns dias ainda até o início de 2013. Como o mundo não acabou no dia 22, nada resta senão vivermos.

Niemeyer, Brubeck e Shankar
Três personalidades faleceram neste mês: Oscar Niemeyer, Dave Brubeck e Ravi Shankar. Nada de fins trágicos. Fora o primeiro, que passara dos 100, Brubeck e Shankar eram nonagenários. Natural que nessa idade a morte esteja à espreita. Brubeck morreu um dia antes de fazer 92.

1. Niemeyer mereceu cadernos especiais na grande imprensa. Mais do que merecido. Apesar de muita gente falar mal, pelas redes sociais, principalmente, ouço das pessoas que o conheceram apenas palavras carinhosas. Era uma pessoa generosa. Ajudou muita gente e muito o partido comunista e seus camaradas (não era assim que se tratavam?). O Armênio Guedes, hoje com 94 anos, membro histórico do Partidão, conta que o encontrou em Paris quando ia a um congresso em Moscou. Niemeyer comentou do frio que estava fazendo lá naquele ano e perguntou-lhe se tinha roupa para se proteger. Armênio disse que sim. Mesmo assim, quando se despediram, entregou-lhe mil dólares em espécie “para comprar um casaco”.

No último período da Segunda Grande Guerra, com a aproximação do país com os Aliados, o Partido Comunista passou a ser melhor tolerado pelo governo de Getúlio Vargas a ponto de ser legalizado em 1945. Lançaram dois estatutos, um de capa branca e outro com capa vermelha. O primeiro era uma versão, digamos, mais “light” e o segundo era mais sério. No artigo 13 proibia-se qualquer relação de seus militantes com a “canalha trotskista”.

Respirando-se os tempos de liberdade e legalidade, os amigos comunistas costumavam se reunir nos fins de tarde no escritório de Oscar Niemeyer. O arquiteto, apesar do estatuto vigente, continuava a ser muito amigo de um notório “canalha trotskista”. Então, um amigo lhe perguntou: “E agora Oscar? Como vai ser da sua amizade com o Echenique?”. Oscar respondeu: “Besteira… o Echenique? Ele é só canalha.” Posso estar sendo impreciso porque é uma história contada por um amigo em uma mesa de restaurante. É mais para assinalar a fineza de humor de Niemeyer.
Uma crítica frequente era a de que sua arquitetura “não era boa de morar”. Em São Paulo existem vários prédios residenciais projetados por ele, sendo o Copan o mais conhecido. Vou perguntar para alguém que mora lá. Nunca o ouvi reclamar disso.

2. Na década de 1970 e pouco antes, o Theatro Municipal de São Paulo abrigou vários artistas estranhos à música erudita. Apresentaram-se lá Miles Davis, Duke Ellington, Charles Mingus, Bill Evans, Ray Charles, João Gilberto, Milton Nascimento, Ella Fitzgerald, Stan Getz, os Swingle Singers e Ravi Shankar. Este tinha ficado conhecido no mundo ocidental em razão do interesse dos Beatles pela música indiana e por uma onda místico musical que dominou o mundo sedento por orientalismos nos anos 1960. Apresentou-se no festival de Monterrey e no de Woodstock e também no Concerto para Bangla Desh, em 1975, organizado por George Harrison. Mas antes desse concerto, em 1971, esteve no Brasil. Fui um dos cerca de 1.500 espectadores que foram vê-lo no Theatro Municipal. Era um moleque naquela época, com a maior curiosidade do mundo. Mal tinha completado 15 anos.

Shankar morreu com 92 anos. Deixou duas filhas artistas. Uma delas, a mais famosa, é Norah Jones, com quem teve convívio um tanto complicado. Jones é fruto de seu relacionamento com a produtora de shows Sue Jones. A outra seguiu os passos do pai. Anoushka Shankar é citarista de renome e gravou um belo CD pela conceituada Deutsche Grammophon.

3. Meu amigo Zeca Leal e Dave Brubeck morreram agora em 2012. E o Zeca nem ficou sabendo: morreu antes. O Zeca, junto com o Carlos Conde, foi um dos meus gurus musicais. Era um cara engraçado e gozador. Botava apelido em todo mundo. Fiquei sem saber do meu. Eram apelidos muito particulares e o único jeito de conhecê-los era pelos outros. Conto uma história engraçada dele. Tinha o costume de dizer que foi o cara que mais comprou discos do Frank Sinatra no mundo. Cada vez que ia ouvir, de bêbado, riscava. Ia até a loja e comprava outro, novinho. A história está em http://bit.ly/UTQNF3. Mas, além do Sinatra, o Zeca era fã do west coast jazz, do Dick Farney, de quem era muito amigo (fazia o imposto de renda dele, inclusive) e de Dave Brubeck, “Brubéck”, como dizia, e não “Brûbeck”, com costumam os brasileiros dizer.

No aprendizado do pianista incluem-se aulas de composição com Darius Milhaud. A formação mais conhecida de sua banda ficou sendo a do quarteto que incluía o saxofonista alto Paul Desmond, o baixista Gene Wright e o baterista Joe Morello. Time Out, lançado em 1956 foi o primeiro LP a vender mais de um milhão. Poucos nesse mundo nunca ouviram Take Five na vida, mesmo sem saber. Blue Rondo à la Turk, inspirada em Mozart (e por isso o “à la Turk”), foi composta por Brubeck em exdrúxulo 9/8, e Take Five, em 5/4. Nada de quatro por quatro. Brubeck incorporou linguagens sofisticadas ao jazz e, assim mesmo, vendeu muito. Alquimias perfeitas. O pianista tinha a favor um saxofonista de som redondo e muito agradável aos ouvidos e um baterista com um drive perfeito para os seus tempos inusitados.

As inclinações eruditas ficaram mais evidentes por meio de peças compostas depois dos anos 1960 como os oratórios, balés, cantatas e uma missa.

Dave Brubeck e o Natal
Muitos intérpretes, principalmente os americanos, em dado momento gravam alguma coisa alusiva ao Natal. Ele gravou o seu em 1996 pela Telarc Jazz. É piano solo. Daí termos a sensação de que é Natal apenas em alguns temas conhecidíssimos como Jingle Bells. Bom, imagino que essa seja uma das mais conhecidas no mundo. O Natal de Brubeck, em disco pelo menos, é melancólico, reflexivo.

Não sou chegado às festividades de fim de ano. Na verdade, me deprimem. Não gosto de enfeites de Natal, não me sinto confortável em ficar escolhendo presentes e em recebê-los. Gosto de receber, mas em datas aleatórias, nunca nessas ocasiões pré marcadas. E, bom, para completar, músicas de Natal não fazem parte das minhas primeiras preferências, nem mesmo que tenha sido composta por Mel Tormé, como The Christmas Song, ou White Christmas, de Irving Berlin.

Bom, mas vamos Brubeck em O Little Town of Bethlehem, de Lewis H. Redner e Phillip Brooks.

Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.



Dezembro maldito (2011)
Ao contrário do que escreveu T.S. Eliot – “Abril é o mais cruel dos meses” –, dezembro parece mais. Parece que ficamos na expectativa de algo prestes a acontecer: não apenas mortes, mas tragédias naturais, daquelas que parecem vingança dos deuses ou da natureza, como tsunamis, enchentes, cidades devastadas pela água. Em 2001, estava na praia, televisão ligada: Cássia Eller morreu; no 29º dia de dezembro.

E como farsa ou para corroborar nossos maus presentimentos, acontecem coisas. Imagino que deve ocorrer uma espécie de caos coletivo: a impressão é a de que todo mundo fica estressado e meio “desgovernado”. Se o período é de Festas, esse tempo deveria ser o de alegrias, congraçamentos e anseios por paz. Essa “obrigação” pela felicidade pode ter efeito contrário.

Mortes, quanto mais próximas do fim do ano e, se acontecem com pessoas ainda jovens, ficam tingidas de dramatismo maior. Não lembro mais daqueles que morreram no fim de 2010, mas, em 2011, foram registradas muitas; desde a de esportistas como Sócrates (muito jovem ainda), de pessoas ligadas ao teatro como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11); à música, como o saxofonista Sam Rivers (26) e o trombonista e pianista Bob Brookmeyer (16), ambos octogenários; a cantora Cesária Évora (17); o grande desenhista e cartunista Ronald Searle (30), com 92 anos; artistas plásticos como a expressionista abstrata Helen Frankenthaler (27) e o brasileiro Mário Gruber (30); estadistas como Vaclav Hável (também poeta, no dia 18); o ditador da Coreia do Norte Kim Jong-Il; e jornalistas e escritores como o ateísta Christopher Hitchens (15), a alemã Christa Wolf (1), e Daniel Piza, este, dois dias antes que findasse o ano.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Maneiras de tocar Piazzolla

Astor Piazzolla ter nasceu em Mar del Plata, Argentina, mas passou a infância em Nova York, na região conhecida como Little Italy. Poderia ter virado um mafioso, mas tornou-se músico e compositor dos mais importantes.

Piazzolla não parecia ser o cara mais simpático desse mundo. Em imagens disponíveis na internet, no máximo, um meio sorriso. Sofreu as agruras de ter “mexido” em uma tradição inquebrantável como o tango. Respeitadíssimo, não se pode dizer que os amantes desse gênero o levassem em alta consideração.

Em certa ocasião, se não me engano, no primeiro Montreux Jazz Festival brasileiro, em meados dos anos 1970, foi programada uma apresentação inicial com todos a maioria dos músicos escalados para convidados e para ser exibido ao vivo pela TV. Uma das atrações, o trumpetista e saxofonista alto Benny Carter, ao terminar o seu número, apresentou-o dizendo algo como: Agora vocês vão ouvir Astor “Pizzaiolo”. O argentino, nem abriu um sorriso. Entrou mudo, saiu calado.

Um dos primeiros discos que ajudou-o a tornar conhecido internacionalmente foi Summitt (Reunion Cumbre), lançado em 1974. É bom, interessante, mas não representa bem o seu repertório. É uma parceria com o sax barítono Gerry Mulligan. Se você é um curioso e não conhece essa gravação, é fácil descarregar pela internet, e foi reeditado dezenas de vezes, cad vez, com uma capa diferente.

Hoje, no Brasil inclusive, há uma oferta enorme de Piazzollas, a maioria na forma de coletâneas.
Piazzolla. Está muito bem representado, no entanto, como compositor em dezenas (centenas, talvez) de discos. Na sua maioria – nisso teve sorte – os discos tributos ou aqueles que contêm suas composições estão entre o bom e o ótimo: coisas de primeira, com ótimos intérpretes. Bom gosto puxa bom gosto.

Dentre eles, podem ser citados o vibrafonista americano Gary Burton e vários de músicos eruditos como Daniel Barenboim, Yo-Yo Ma, Gidon Kremer, Patrick Gallois e Göran Söllscher, Sérgio e Odair Assad, e o pianista Emanuel Ax.

Um dos melhores registros da música de Piazzolla não está em um disco dedicado exclusivamente a ele. Mi Buenos Aires Querido (Teldec, 1996) é o álbum no qual o pianista e regente Daniel Barenboim presta um tributo ao país em que nasceu. Das 14 músicas que compõem o CD, metade é de Piazzolla. São especiais as “estações” portenhas – Verano Porteño, Inverno Porteño, Primavera Porteña e Outono Porteño –, e Adiós Nonino. Barenboim imprime um tom mais intimista, menos dramático, acompanhado apenas do bandaneón de Rodolfo Mederos e do baixo de Héctor Console. É tango minimalista, com a classe de um dos grandes virtuoses do piano, politicamente engajado na questão palestina-israelense e maestro de obras de grande fôlego, como as óperas de Richard Wagner. Aliás, aqui está outro diferencial: ele é um judeu que quebrou com o tabu de não tocarem o autor de Tristão e Isolda e o ciclo do Anel dos Nibelungos.

Ouça Otoño Porteño, com Barenboim.



No universo do jazz, as gravações de Gary Burton estão em um patamar superior. O vibrafone é um instrumento que combina muito bem com o tango. O CD se chama Reunion (Concord Jazz, 1998) e conta com o pianista Pablo Ziegler, um dos maiores especialistas do gênero junto com o bandaneonista Rodolfo Mederos. Foi registrado em DVD uma apresentação de 2009, em Buenos Aires, sob o mesmo título – Reunion –, lançado pela Music Brokers em edição argentina. Um parêntesis: outro que se aventura por esse repertório com competência é o francês Richard Galliano. Há um registro ao vivo dele no acordeão e Michel Portal no bandaneón no CD Blow Up (Dreyfus Jazz, 1997) tocando Libertango, simplesmente excepcional. Executam também Oblivion, com Galliano no acordeão e Portal, aqui, na clarineta.

Veja Gary Burton tocando Libertango, do DVD da apresentação de Buenos Aires, em 2009. A banda: Pablo Ziegler (piano), Héctor Console (contrabaixo), Fernando Suárez Paz (violino), Ricardo Lew (violão), e Marcelo Nisinman (bandaneón).



Dentre os eruditos que se aventuraram pelo universo de Piazzolla, dois álbuns do violonista Gidon Kremer são muito interessantes, pois não se prendem somente às composições, sendo várias, releituras que transcendem ao tema original. Um se chama Hommage à Piazzolla (Nonesuch, 1996), e o outro, Astor Piazzolla, El Tango (Nonesuch, 1997). No segundo, Kremer conta com convidados especias muito especiais: Milva, em Rinasceró (Preludio para el año 3001), e Caetano Veloso, em El Tango, em que recita um poema de Jorge Luís Borges.

Ouça Oblivion, com Gidon Kremer (violino), Per Arne Glorvigen (bandaneón), Vadim Sakharov (piano) e Alois Posch (contrabaixo).



Assista à apresentação de Milva, com Astor Piazzolla em programa da RAI, interpretando Rinasceró (Preludio para el año 3001). Não é a do CD de Gidon Kremer.



Mais recentemente, foi lançado Piazzolla!, com a Orchestre National de Jazz. Os temas são arranjados pelo americano Gil Goldstein. É música executada por uma pequena orquestra composta por sopros, guitarra, teclados acústicos e elétricos, baixo e bateria. Não tem bandaneón, o que faz boa diferença em relação ao que estamos acostumados a ouvir e associamos ao tango e à Piazzolla. São arranjos sofisticados e muito interessantes.

Ouça Libertango, com solos de Vincent Lafont no Fender Rhodes e no Wurlitzer – algo bem incomum nesse tipo de repertório –, uma guitarra bela e delicada de Pierre Perchaud, e um naipe de sopros com flautas e saxofones em intervenções pontuais.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Assista ao vídeo da Orchestre National de Jazz sobre o projeto Piazzolla!, com exclamação, como frisa Daniel Yvinec, diretor musical.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A noite enluarada de Ella Fitzgerald, Margaret Whiting e Claude Williamson

Claude Williamson, em 1956
De bons pianistas, boas cantoras e boas intenções o mundo está cheio. Milhares de pianistas ganham admiradores quase particulares, como um troféu, um segredo pouco compartilhado (senão, deixa de ser segredo). Existe uma expressão perfeita para esses músicos no mundo do jazz: são os “underrated”.

Um deles — conheço alguns que gostam muito — é Claude Williamson. Lançou poucos discos. Iniciou no jazz depois de cursar a New England Conservatory, em Boston, EUA, acompanhando Charlie Barnett. Mudou-se para a California e tocou com muita gente associada ao som “west coast”. Acompanhou Art Pepper, Bud Shank, Red Norvo e, por dois anos, a gloriosa cantora June Christy, antiga crooner da orquestra de Stan Kenton. Substituiu Russ Freeman, outro egresso da banda de Kenton, na Lighthouse All Stars. Afastou-se do jazz e, contratado da rede de TV NBC, tocou no programa de Andy Williams e, como empregado tem de ir para onde o dono manda, no da dupla Sonny & Cher. Gerações mais recentes conhecem Cher por seu jeito extravagante de se vestir (uma periguete sênior dos States), mas ela começou em dupla com o antigo marido bigodudo. Sonny Bono despareceu. Cher é um exemplo, comoTina Turner, das mulheres que deram certo depois que saíram do jugo de seus homens.

Mesmo não fazendo parte da “panelinha” dos que têm Williamson como “segredo”, possuo dez registros em disco dele. De quando em quando, me ponho a ouví-lo no meu iPod ligado no falante Altec Lansing que fica no meu quarto. Há duas noites, serviu para embalar o início do meu sono. Entre desperto e naquele átimo da sensação de não se saber acordado ou dormindo, notas de piano me chamaram a atenção e, sem saber se era sonho ou realidade, pensei comigo: conheço esse tema. Nessa hora, já me sentia desperto. Era Claude Williamson e a música, Moonlight in Vermont.

Claude deveria, por obrigação, tocá-la. Nasceu em Vermont, um dos menores e menos populosos estados norteamericanos. Localizado na ponta leste que divide fronteira com a região de Quebec, Canadá, chama-se Vermont, em razão dos verts monts que compõem a sua paisagem. É, guardadas as proporções, algo como a versão brasileira da região da serra da Mantiqueira que divisa Minas Gerais e São Paulo. Temos até uma cidade chamada Monte Verde (faz parte de Camanducaia). Como aqui, Vermont é uma região turística; é a Campos do Jordão dos novaiorquinos.

Moonlight in Vermont foi composta por Karl Suessdorf e a letra é de John Blackburn. Ganhou o primeiro registro na voz de Margaret Whiting, em 1945 (segundo a Wikipedia, foi em 1944). Muitos intérpretes gravaram Moonlight in Vermont. São imperdíveis as gravações de Betty Carter, Sarah Vaughan e, principalmente, a de Ella Fitzgerald com Louis Armstrong.

Margaret é menos conhecida do que as citadas acima, mas está no panteão das grandes cantoras americanas. Filha de Richard Whiting, compositor de Hooray for Hollywood, Too Marvelous for Words e Sentimental and Melancholy, as duas últimas em parceria com Johnny Mercer, tornar-se cantora foi um passo natural. A casa dos Whiting era frequentada por Maurice Chevalier e Al Jonson e um dos melhores amigos foi Johnny Mercer, compositor também, que, mais tarde, fundou a gravadora Capitol. É uma pena que tenha Richard morrido cedo – 46 anos. Orfã, muito cedo, Maggie, como era chamada em casa e pelos amigos, teve o apoio de Mercer para tornar-se uma das grandes intérpretes da música americana.

Depois desse blah blah todo, melhor ouvir a gravação de Whiting. Minha discoteca tem falhas como a de nela não constar nenhum CD de Luan Santana (nem nunca ouvi a tal música famosa de Michel Teló), mas discos de Whiting fazem parte dela. Felizmente. E é por isso que tenho a gravação de 1945 e a de 1954. A disponibilizada é a mais antiga.




Não posso deixar de colocar a de Claude Williamson. É mais ou menos recente: é de 2000. Williamson, depois de ficar afastado do jazz, quando trabalhou na televisão, voltou a gravar jazz no fim dos anos 1970. Aqui é acompanhado por Bill Crow no baixo e David Jones na bateria. O CD é da Venus, gravadora japonesa que se especializou em registrar, principalmente, música no formato piano, baixo e bateria. É coisa fina.




Um registro excepcional, como disse, é o de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong pelo selo Verve. Parece que estamos em Vermont, sem nunca termos ido para lá. Prestando-se atenção na letra (“Telegraph cables, how they sing down the highway/ And they travel each bend in the road/ People who meet in this romantic setting/ Are so hypnotized by the lovely// Evening summer breeze/ The warbling of a meadowlark/ Moonlight in Vermont”), temos essa impressão. Quando Ella, até ouvimos os trinados de uma cotovia.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os adeuses de Ray Charles e Betty Carter

Ray e Betty Carter
Everytime We Say Goodbye um daqueles clássicos inesquecíveis, mais uma obra-prima de Cole Porter.

Por gostar de canções dramáticas, amo Everytime We Say Goodbye. Cada despedida é um pedaço seu que morre. Amar é um estado de exceção e a dor de quem vê seu amado se despedir é o “eu morro um pouco” da letra.

Mesmo quando ouço essa canção apenas tocada, não deixo de pensar na letra: “Toda vez que nos despedimos, eu morro um pouco/ Toda vez que nos despedimos, fico um pouco a pensar/ Por que os deuses lá em cima/ Pensam tão pouco em mim e deixam que você vá./ Quando você está perto, sinto o ar da primavera em volta/ Posso ouvir uma cotovia ao longe que começa a cantar/ Não há canção de amor mais linda, mas que estranha a mudança de um acorde de maior para menor,/ Toda vez que nos despedimos.” O amor é egoísta, por natureza: “Por que os deuses lá em cima/ Pensam tão pouco em mim e deixam que você vá.”

Pois, pensei nisso outro dia enquanto ouvia Everytime We Say Goodbye tocado por Arturo Sandoval em A Time for Love, belíssimo CD lançado em 2010. Comentei sobre esse CD lançado em 2010 em http://bit.ly/VvMdf5. Dizem que a beleza – ou Deus – está nos detalhes. O detalhe na canção que finaliza o disco é a elegância do piano de Kenny Barron em uma das poucas peças de câmara (é um quarteto de jazz) em arranjos orquestrais de Jorge Calandrelli.

Entre vocais e instrumentais que estão catalogados na minha CDteca, os destaques naturais são as de John Coltrane em My Favorite Things, de Bill Evans e de Sonny Rollins.

A maioria esmagadora, no entanto, é de vocalistas e é difícil destacar qual é a melhor. É difícil escolher entre Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Irene Krall, Diana Krall, Julie London, June Christy e Karrin Allyson. Nos últimos tempos, a minha preferida tem sido a de uma intérprete menos conhecida: Norma Winstone, em Distances (ECM 2008). Quem gosta do trompetista Kenny Wheeler a conhece bem.

Dentre as masculinas, uma das boas é a de Chet Baker em Diane, disco em duo com o pianista Paul Bley, e outra, é a de Jimmy Scott em All The Way. Mesmo assim, não posso deixar de citar Kurt Elling e Bobby Short.

Mas bom mesmo é de de Ray Charles e Betty Carter em registro de 1961. É uma pérola. Nessa época, Betty ainda não tinha se tornado “Betty Bebop”, a cantora que mais tarde adorava se alongar em scats, às vezes, maçantes. É a que está disponibilizada. Depois, tem Arturo Sandoval.

Everytime We Say Goodbye com Ray Charles e Betty Carter.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


A de Arturo Sandoval.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O disco que Melody Gardot gravou em um quarto de hospital

Gardot e seu violão
Em novembro de 2003, Melody Gardot ia de bicicleta em direção a sua casa e foi atingida por um jipe Cherokee, que havia ignorado um semáforo vermelho. Sofreu consequências sérias, passando temporada de um ano no hospital. Tenho um relato mais detalhado em “A boa aposta em Melody Gardot” (http://bit.ly/Kmg0Cl).

Antes do acidente, apresentava-se em bares da Filadélfia. Portanto, não deve ter sido a internação hospitalar a razão de abraçar a carreira artística, mas o caso é que, como está escrito no encarte do EP Some Lessons (The Bedrrom Sessions), foi montado um mini estúdio de oito canais e os microfones ficaram “ao lado de bolsas de gelo e analgésicos”. Em razão das condições, são gravações “nuas”, ela e a voz, um violão… e um piano (não está explicado como isso foi possível).

Ouvindo-se os registros posteriores, percebe-se que Melody levava jeito antes de lançar seu primeiro disco. Seus propósitos de seguir carreira como compositora e intérprete já estavam gestados antes de Worrisome Heart, seu primeiro disco de verdade, lançado independentemente e, posteriormente, distribuído pela major Verve.

Some Lessons foi lançado de forma independente e é composta de apenas seis canções, todas de sua lavra. São Wicked Ride (é uma das duas que tem o piano, além do violão), Cry Wolf, Down My Avenue, Don’t Worry Baby, Momma (a outra) e Some Lessons. Dessas, a única que está em Worrisome Heart é a última. No encarte está escrito que “a maioria das músicas não teriam sido feitas se ela não se acidentasse, em primeiro lugar. Some Lessons não teria existido. Esta canção, em particular, é uma silenciosa reflexão da cena que passou pela sua cabeça no momento seguinte ao impacto. Ela foi escrita enquanto estava impossibilitada de andar.”

As canções são todas melancólicas, mas não é porque Melody passava por um momento difícil. Ouvindo-se seus trabalhos posteriores, Melody é assim: melancólica. É de sua natureza.

Ouça Wicked Ride.




Não tinha prestado atenção à letra de Some Lessons (está reproduzida a seguir). É sobre o acidente mesmo. Diz que “algumas lições a gente aprende da maneira mais difícil/ […] O mundo virou de cabeça para baixo/ As ruas da cidade sem teto e vazias/ Nenhuma alma ao redor/ A vida vai embora num flash/ Bem em frente dos seus olhos/ […]/ Algumas lições não chegam facilmente/ Esse é o preço que temos de pagar.”

A letra original, em inglês:
Well I'm buckled up inside/ It's a miracle that I'm alive/ I do not think I can survive/ On bread and wine alone/ To think that I could have fallen/ A centimeter to the left/ Would not be here to see the sunset/ Or have myself a time/ Well why do the hands of time/ So easily unwind/ Some lessons we learn the hard way/ Some lessons don't come easy/ That's the price we have to pay/ Some lessons we learn the hard way/ They don't come right off and right easy/ That's why they say some lessons learned we learn the hard way/ Remember the sound of the pavement/
World turned upside down/ City streets unlined and empty/ Not a soul around/ Life goes away in a flash/ Right before your eyes/ If I think real hard well/ I reckon I've had some real good times/
Well why do the hands of time/ So easily unwind/ Some lessons we learn the hard way/ Some lessons don't come easy/ That's the price we have to pay/ Some lessons we learn the hard way/ They don't come right off and right easy/ That's why they say some lessons learned we learn the hard way.

Ouça Some Lessons.



Leia outros textos sobre Melody Gardot.
Melody Gardot é o máximo: http://bit.ly/XNvf1T
É hoje o lançamento de The Absence: http://bit.ly/VAjDc9

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Nada além de Orlando Silva

Os três maiores cantores do Brasil: Silvio Caldas, Francisco Alves e Orlando Silva 

(esq p/dir). O de óculos é Gilberto Andrade, diretor da Rádio Nacional (1940)
Depois de dias a ouvir Billie Holiday, peguei a caixa com três CDs de Orlando Silva, com as gravações da RCA Victor, lançada em 1995. Ato falho? Em suas vidas há várias coincidências.

No perfil biográfico, de autoria de Ruy Castro, é dito que “de 1935 a 1942, Orlando Silva foi o mais perfeito cantor popular do Brasil. E um dos mais perfeitos do mundo. ”

“Não há um pingo de ufanismo nessa afirmação. É só comparar os seus discos dessa fase com os da concorrência internacional do período: Bing Crosby nos Estados Unidos, Al Bowlly na Inglaterra, Charles Trenet na França – cantores que deram nuance e elegância à música popular e silenciaram aqueles tenores e barítonos de opereta que a infestavam. Cada qual em seu país, eles criaram um estilo suave e natural de cantar, influenciaram uma multidão de outros cantores, compositores, letristas e orquestradores e, em poucos anos, alteraram todo o rumo da música popular. Para muito melhor.”

A vida, para Orlando Silva, não foi aquela maravilha. Como para Billie Holiday. Filho de família de modestas posses, perdeu o pai com três anos. A mãe, lavadeira, teve de se virar para criar três filhos. Pois Orlando fez apenas o primeiro ano primário (era assim que se designava) e mal sabendo escrever caiu cedo na vida, fazendo de tudo. Foi entregador de marmita, aprendiz de sapateiro, estafeta da Western. Trabalhando para a Casa Reunier, Orlando, ao tentar pegar o bonde em movimento, “calculou mal o salto, caiu no estribo e sua perna esquerda ficou dentro do trilho”. Consequência: teve quatro dedos dos pés amputados. Nessa temporada hospitalar, os médicos aplicavam-lhe morfina para aplacar as dores.

Tinha 16 anos quando isso aconteceu. Pouco depois do acidente, a vida mostrou-lhe a face boa. Depois de longa recuperação, foi trabalhar de trocador de ônibus (é o que, hoje, chamam de “cobrador”). Vivia a cantar. Nos tempos em que teve de ficar parado, passava os dias a ouvir rádio. O Edmundo, percebendo seu talento, resolveu levá-lo à rádio. Era feio, um rapazote de pele morena, cabelos ruins, como se dizia antigamente, e manco. No pé ruim vestia uma alpercata. Não deu certo na primeira tentativa. Perseverou. Um dia, em um corredor da rádio Cajuti, Bororó ouviu uma voz. Era Orlando. O compositor o levou ao Café Nice, no Rio de Janeiro, e foi apresentado ao melhor cantor da época, Francisco Alves. Generoso, Chico Viola lhe deu a maior força. Mal sabia que, em pouco tempo, lhe roubaria o título de “o maior cantor do Brasil”.

Ídolo das multidões, o período em que ficou contratado pela RCA Victor constitui o seu apogeu como intérprete. O Orlando que muitos conheceram era o cantor de voz grave, rouca. A extensão da voz do grande Orlando ia do mais grave ao mais agudo em suaves passagens. Ruy Castro, quando relata sobre sua súbita decadência diz que “na primeira metade dos anos 1940, algo aconteceu a Orlando que afetou cruelmente a sua voz. O tenor cristalino, capaz de viajar dos graves aos agudos com facilidade; o timbre de maciez e beleza imbatíveis; a naturalidade de seus pianíssimos; a delicadeza quase feminina da entonação; o fôlego para entrelaçar frases e frases, como se as palavras respirassem por ele – tudo isso cedeu lugar, quase de repente, a um tom roufenho, cansado e sem cor, que os seus perplexos adoradores custavam a reconhecer como Orlando.”

A fase de ouro de Billie Holiday, para a maioria de seus admiradores, é a dos anos dos discos lançados pela Columbia e a Decca. Quando foi contratada pelo selo Verve, tinha passado por clínicas de reabilitação e por delegacias, naturalmente. Além do consumo de bebidas alcoólicas, o de drogas foi ficando mais pesado. Quando gravou pela Verve, a voz de Billie tinha perdido o frescor dos tempos da Columbia. Esses anos vão de 1933 a 1942. Os anos RCA de Silva vão de 1935 a 1942. Coincidências. Outra: tiveram problemas com drogas pesadas. A de Holiday foi a heroína e a de Silva, a morfina.

O vício dele é posterior à internação. Apesar de alguns dizerem que seu vício foi consequência do acidente, Ruy Castro discorda. Em primeiro lugar, era caro para o ainda pobretão Orlando e, outra coisa, era uma droga restrita a hospitais. A tal morfina vendida pelos comerciantes “informais”, naquele tempo, era destilada de quantidades cavalares de elixir paregórico posto horas em fervura (a informação é de Ruy Castro).

A importância da obra de Orlando Silva está na belíssima voz e também pelos músicos que o acompanharam nas gravações da RCA. Um dos arranjadores foi Pixinguinha, o outro, Radamés Gnatalli. No perfil está escrito que, segundo Jonas Vieira, autor do livro O Cantor das Multidões, “foi Radamés Gnatalli, em 1937, o introdutor do uso de cordas no acompanhamento dos tempos médios e lentos, com seu arranjo para Orlando em Lábios Que Beijei. Pois o americano Alex Stordhal, que ficaria mundialmente famoso pelo mesmo motivo, só começaria a fazer isso em 1941, acompanhando Frank Sinatra.” Nada mal, heim?

Para a nossa sorte, o grande Orlando está registrado no box O Cantor das Multidões. Gravações Originais • 1935–1942.

Disponibilizo algumas interpretações em que se percebe a qualidade de “seus agudos e sustentações” e, é claro, a música Nada Além.

Lábios Que Beijei (J. Cascata - Leonel Azevedo). Gravada em 15 de março de 1937, a orquestra é dirigida por Radamés Gnattali.



Lágrimas de Rosa (Dante Santoro - Kid Pepe). Gravada em 9 de julho de 1937, Radamés Gnattali dirige a Orquestra Victor Brasileira.



Caprichos do Destino (Pedro Caetano – Claudionor Cruz). Gravada em 30 de julho de 1937, Radamés Gnattali dirige a Orquestra Victor Brasileira.



Por Quanto Tempo Ainda (Joubert de Carvalho). Gravação: 24/2/1939.



Mágoas de Caboclo (Leonel Azevedo - J. Cascata). Gravação: 21/5/1936, com o Conjunto Regional RCA Victor.



Nada Além (Custódio Mesquita - Mário Lago). Gravação: 11/5/38, com Orquestra RCA Victor, dirigida por Radamés Gnattali.



Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Extorsão. O show de Stacey Kent no Teatro Renault

Stacey Kent e Jim Tomlinson fazem uma bela parceria
“Nos momentos de abertura, ela promove um banho de sangue cenográfico com uma réplica de fuzil AK-47. Mais adiante, num cenário repleto de telões de altíssima definição, ela tira a roupa, simula uma viagem de trem pela Índia, anda numa corda bamba e dança sem parar – um dos números tem até bateristas suspensos no ar.” (FSP, 2/12/2012)

Não. Não é uma descrição do show de Stacey Kent ocorrido em 28/11 no teatro agora chamado Renault e, antes, Abril, e, bem antigamente, Paramount. Era onde aconteciam as apresentações de Roberto Carlos, Elis Regina e Jair Rodrigues e os festivais de música da TV Record. Se Stacey pode ser usada como comparativo, o nível continua bom, porque Stacey é o máximo.

O primeiro parágrafo se refere ao show de Madonna que aconteceu neste domingo, no Rio de Janeiro. Suas apresentações em São Paulo acontecem hoje e amanhã no estádio do Morumbi. O ingresso na pista custa R$ 360. No show de Stacey, o ingresso mais caro custou R$ 400 mais 80 de taxa de conveniência. A “conveniência” é você chegar com o seu cartão de crédito Mastercard e entrar por uma fila separada. Bom, se o ingresso é numerado, isso significa que pegar a fila mais curta custa 80 reais. Mesmo assim, prefiro Kent à Madonna. Questão de gosto.

A produção do show de Kent deve ter custado um milionésimo da de Madonna. É para ficar revoltado, não? Stacey trouxe o marido, seu arranjador e saxofonista. Só. Quem os acompanhou foi o trio Corrente, os brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo elétrico e contrabaixo acústico), e Edu Ribeiro (bateria). Contando-se passagem e hospedagem dos dois, deve ter ficado mais barato que a filha de Madonna, que a acompanha, normalmente, nas viagens. O resto, como sói ser no capitalismo brasileiro, a ideia marxista da “mais valia” é selvagem: quanto maior o lucro, melhor.

Deixando de lado a extorsão – só porque o Brasil de Lula e Dilma está rico –, o show foi ótimo. Mas, para quem viu o dela na Sala São Paulo ano passado, este foi muito parecido. Até a música de abertura – It Might As Well Be Spring – foi a mesma. Não lembro se, como desta vez, sentou-se no banquinho, com o violão, e cantou dois standards da bossa nova. A primeira foi Chega de Saudade, em português, e a segunda, Vivo Sonhando (Dreamer), em inglês. Acho que deve ser porque, apesar de Stacey estar cada vez melhor no português, não é muito fácil cantar “vivo sonhando sonhando mil horas sem fim”. A repetição de “sonhando” não é muito fácil para os americanos.

Devido ao brilho de Kent, há uma tendência em não se considerar Jim Tomlinson, o marido. É um bom saxofonista. No tenor lembra Stan Getz. A sonoridade é menos de “lata” do que a de Getz, mas no fraseado lembra bem. Algumas composições que Kent canta são de Tomlinson e de parceiros estrelados, como António Ladeira e o premiado Kazuo Ishiguro. São amigos. As “aproximações” não são tão casuais. São do meio dela, já que foi para a Inglaterra cursar mestrado em literatura comparada. Sobre Tomlinson, leia http://bit.ly/JdmiJh.

Depois, não sei se logo depois, cantou um original de Jim Tomlinson, seu marido, e o português António Ladeira, poeta, amigo e professor de nossa língua dos dois. Chama-se Comboio. Se não me falha a memória, tinha cantado na Sala São Paulo. Interpretou também Águas de Marco em sua versão francesa, de Georges Moustaki, Les eaux de mars, They Say It’s Wonderful e Samba Saravah (Samba da Benção). Tudo repetido. Ainda bem que ouvir Stacey Kent é um enorme prazer. Fechou, no bis, com Carinhoso, com a plateia cantando junto, e Jardin d’hiver, bela canção do CD Raconte-moi… A única inédita foi Mood Indigo, standard de Duke Ellington.

Uma explicação: postei no Facebook e no Twitter, na vez passada, sobre o show da Sala São Paulo. Algumas pessoas nem devem ter notado, mas não foi malandragem. É que tive um problema no “divshare” e não consegui disponibilizar algumas canções de Orlando Silva no texto em que faço algumas considerações sobre algumas semelhanças entre ele e Billie Holiday. Por uma questão de “timing” (odeio essa palavra, mas não achei uma melhor), publico hoje sobre Stacey Kent. A de Orlando Silva fica para quinta-feira. Tá no capricho. Tem seis clássicos que podem ser “copiados” para a sua discoteca de mp3.

Veja e ouça Les eaux de mars.


Samba Saravah. Alguém se lembra de Pierre Barouh cantando essa música em Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch?


Comboio (Jim Tomlinson/António Ladeira). É só um trecho.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

As montanhas moventes de Billie Holiday e de Gal Costa

Gal Costa, Billie Holiday e as flores
Mover montanhas, o inamovível. “Inamovível” porque não existe “imovível”. Esta palavra seria um neologismo, como a expressão “imexível”. Por que não serem agregadas à língua portuguesa? Apesar de “inamovível” possuir um sentido levemente diferente, significa sim, “o que não se pode mover”, ou melhor, “que não pode ser removido”, segundo o Aurélio.

Pois, se alguém diz que moverá montanhas, esse alguém dirá que a chamam de louca. Verdade. E montanhas não são “moventes” pois elas, por si, não se movem. Podem ser removidas, mas quando canta “eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei”, promete o impossível, assim como quando diz “eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei”. Sim, diz que é louca, “louca de amor eu serei”. Mas não se diz que o amor não conhece limites?

Crazy He Calls Me é de autoria de Carl Sigman (música) e Bob Russell (letras). Foi composta na metade final da década de 1940. O registro mais antigo que conheço é o de Billie Holiday. Gravada em 21 de novembro de 1949, o arranjo é de Gordon Jenkins. Logo que foi contratada pela Decca, os arranjos de orquestra ficaram a cargo de Toots Camarata, músico da casa. Mas isso foi em 1944. Nos registros de 1949 a coisa melhorou bem. Além de Jenkins, outro bambambã – Sy Oliver – foram os arranjadores.

Poeta e ensaísta, Augusto de Campos, tradutor de Stephane Mallarmé, Paul Valéry, W.B. Yeats, John Keats e e.e. cummings, tem seu nome ligado à música popular brasileira pelo poema de John Donne – Elegie: Going to Bed –, intitulada, simplesmente, Elegia, musicada por Péricles Cavalcanti e cantada por Caetano Veloso, e por duas “versões” (em vez de “tradução”, é o que se usa normalmente, se bem que não cabe bem a Augusto de Campos) que foram lançadas em Caras e Bocas (1977), álbum de Gal. Esse disco é posterior ao primoroso Cantar (1976).

Apenas para completar: Augusto de Campos é autor de Balanço da Bossa e Outras Bossas (Perspectiva), uma publicação capital para se entender o período da MPB dos anos 1960 e 70.

Solitude, clássico de Duke Ellington, não teve o título vertido para o português, dada a força da palavra no original. Na versão original, vários versos são rimados, como em “Dear Lord above/ Send back my love”, ou “I sit in my chair/ And filled with despair/ There’s no one could be so sad”. É quase impossível uma tradução repetindo certas rimas. O brasileiro chega perto nos versos: “Eu sento e espero/ E me desepero”.

Transcrevo a letra de Augusto de Campos: “Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei/ Louca me chamam/ 
Sim, sou louca/ Louca de amor eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como o ar que move a palha/ E abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso lhe ensinar/ Eu te darei pra sempre/ 
Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei.”

Ouça Louca Me Chamam na bela interpretação de Gal.




Interpretações no original

Grande Anita O’Day! Cantava muito.



Uma interpretação que não fica devendo à de ninguém é a de Dinah Washington. É de 1954 e tem um lineup de primeira: Herb Geller no sax alto, Richie Powell no piano; George Morrow no baixo e Max Roach na bateria. A gravação é de 1954.



Billie Holiday.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Billie Holiday que eu tinha esquecido

Billie Holiday: para muitos, a melhor


Devido a uma falha técnica cerebral, ouvi muito pouco os registros de Billie Holiday na Decca Records. Minha preferência, quando quero ouví-la, é recorrer ao “complete” da CBS, que abarca o período de 1933 até 1942. Com um lineup no qual se incluem o pianista Teddy Wilson, Ben Webster, Buck Clayton, Benny Goodman, Lester Young, Johnny Hodges, Freddie Green, e Billie com a voz cristalina, são registros impecáveis. Quando passou a gravar pela Verve, já sofria as consequências do álcool e de drogas pesadas como a heroína. Fora flagrada e presa mais de uma vez pela polícia dos narcóticos e passado por clínicas de recuperação. Essa é a Billie mais conhecida pelo público em geral e mais venerada. A humanidade adora cultuar a decadência, mas pensando bem, não tem graça.

A Columbia, sua gravadora, não se mostrou interessada em lançar “Strange Fruit”, provavelmente, em razão da letra ter relação com linchamentos perpetrados pelos brancos (leia-se Ku Klux Klan) contra os negros no sul norte americano. Esse sentimento racista, presente no país, era mais exacerbado no sul, pela presença do negro, “importado” para servir como mão de obra escrava. É bom lembrar que a palavra “apartheid”, aplicada na África do Sul, é de origem holandesa. Um bom contingente deles foi responsável pela colonização dos EUA.

Milt Gabler era dono da Comodore Record Shop, muito frequentada por músicos. Holiday era uma delas, levada por Teddy Wilson, seu pianista. Comentou sobre a resistência da Columbia, sua gravadora, em gravar “Strange Fruit”. Essa composição já estava sendo apresentada nas noites em que cantava no New York’s Cafe Society. Gabler tinha criado um selo próprio, a Commodore, e pediu autorização da Columbia em liberá-la. Como no meio cinematográfico, às vezes, artistas eram “emprestados” às outras companhias. Milt lançou um 78 rpm com “Strange Fruit” e “Fine and Mellow” no outro lado. Isso foi em 1939.

Em 1944, Billie tinha 29 anos e estava no auge da forma vocal e era uma bela moça, se não bela, extremamente atraente e charmosa. A revista Esquire, uma espécie de Senhor (aliás, o contrário?) em seu poll dos melhores outorgou-lhe o Golden Award como a “best vocalist of 1944”.

Em 1941, Milt foi contratado para ser o A&R da Decca. Ficou acordado que poderia continuar com a Commodore, sob a condição de que não lançaria músicas que pudessem ser o que chamavam naquele tempo de “smash hits”. Tudo bem, pois a sua gravadora tinha como foco música de instrumentistas de jazz, principalmente, e era para um público bem específico.

Havia passado um bom tempo que Milt havia lançado “Strange Fruit” pela Commodore. Estávamos em 1944. Milt andava pela rua 52, em Nova York, e viu que acontecia uma apresentação de Holiday. Ao ouvir “Lover Man”, percebeu o potencial de ser um “smash hit”. O contrato da Columbia estava expirando e não se percebia interesse deles em renová-lo. Milt fechou um contrato em que Billie, no período de um ano, teria de gravar um mínimo de doze canções. Quando falou de gravar “Lover Man”, Billie disse que ouvia uma orquestra de cordas atrás. Holiday teria a orquestra e iria receber royalties pela venda dos discos. Pela primeira vez na vida.

Ouça “Lover Man (Oh, Where Can You Be)?”




Por que Billie Holiday era especial
Gene Lees ressaltou uma diferença fundamental entre Holiday e suas predecessoras: “Ela entendeu o conteúdo emocional de suas canções e soube comunicá-lo de forma convincente e limpa.” Billie dizia: Não acho que estou cantando, sinto-me como que estivesse tocando um instrumento. Tento improvisar como Les [Lester] Young, como Louis Armstrong ou outro que admiro.

Uma das minhas canções preferidas de Billie é “Don’t Explain”. Ela a escreveu inspirada em um acontecimento real. Conta que, uma vez, tarde da noite, o marido Jimmy Monroe chegou com a camisa manchada de batom. Eu vi o batom. Ele olhou e começou a explicar e explicar. Podia compreender qualquer coisa menos uma. Mentir, para mim, era a pior coisa que poderia fazer. Dei-lhe uma cortada e disse: Vá tomar um banho, e “don’t explain”.

Em vez da primeira, gravada em 8 de novembro de 1944, disponibilizo a segunda, a de 14 de agosto de 1945.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Egberto Gismonti e Charlie Haden sem Jan Garbarek

Gismonti e Haden
Sem a “interferência” de Jan Garbarek, aconteceu uma apresentação de Egberto Gismonti e Charlie Haden, lançada pela ECM com o título In Montreal. Faz parte de uma série de apresentações acontecidas em 1989, em que o homenageado foi o baixista. Em dias diferentes, Haden dividiu o palco com Joe Henderson e Al Foster (30/6), Geri Allen e Paul Motian (1/7), Don Cherry e Ed Blackwell (2/7); Gonzalo Rubalcaba e Paul Motian (3/7), Pat Metheny e Jack DeJohnette (5/7), Gismonti (6/7), Paul Bley e Paul Motian (7/1), e o Liberation Music Orchestra (8/7). Todas, com exceção da apresentação com Metheny e Jack DeJohnette, foram lançadas em CD ou DVD (o do Liberation Music Orchestra). 

A de Montreal, certamente, não foi a única vez em que tocaram apenas os dois. Presenciei, uma vez, apresentação de Haden com seu Quartet West, no Teatro Alfa, em São Paulo, em que Gismonti tocou alguns números como convidado especial. Foi em 1999.

Haden era a estrela, mas a maioria das composições é de Gismonti. Haden tem poucas e ótimas composições. As duas do CD – First Song e Silence –, para quem conhece a discografia de Haden, são conhecidíssimas. As sete restantes são do brasileiro: Salvador, Maracatú, Palhaço, Em Família, Lôro, Frevo e Don Quixote.

A música de improviso tem uma qualidade: mesmo que os temas não sejam inéditos, é sempre possível uma leitura diferente, porque depende do momento e da interação dos músicos. O entendimento entre os dois parece, a meu ver, mais natural sem Jan Garbarek, um pouco em razão de o piano e o violão de Gismonti brigarem menos com uma certa estridência do saxofone do norueguês. É uma combinação mais harmônica. Questão de gosto, como disse dezenas de vezes, e está sujeita a discordâncias.

Os temas de Gismonti são bem conhecidas pelos brasileiros. Então, vamos ouvir um de Haden: Silence. Essa música foi gravada pela primeira vez em The Ballad of the Fallen (ECM, 1982). Não tenho absoluta certeza sobre essa informação, mas meu palpite é de que foi em 1982 mesmo.

Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Veja Gismonti em duo com Haden em São Paulo, no Heineken Concerts, tocando Palhaço.


Outros sobre Haden no blogue:
“Jasmine”, o duo de Keith Jarrett e CH: http://bit.ly/Qs0QEe
“Sophisticated Ladies”: http://bit.ly/T9fqNd 
CH e Rachmaninoff: http://bit.ly/10lYR5a
Hank Jones e CH, O último disco de Hank: http://bit.ly/OlS6MD
Os duos de CH: http://bit.ly/UcDyS0
O post anterior, sobre “Carta de Amor”: http://bit.ly/Wt424a

Bom, deu para perceber que sou fã de carteirinha do baixista, não?



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A “Carta de amor” de Gismonti

Gismonti, Haden e Garbarek (Ralph Quinke/ECM)
Quem é fã de Egberto Gismonti vai comprar o álbum duplo Carta de Amor, lançado pela gravadora internacional do brasileiro, a ECM. São registros de uma apresentação no Americanhaus, em Munique, acontecidas em abril de 1981. A Borandá tem distribuído alguns bons CDs da ECM, poucos, é certo. Os CDs físicos são importados e o encarte e o box são produzidos aqui mesmo. Sai um pouco mais barato. Por este álbum duplo paguei 69 reais. Com a facilidade de se baixar de graça, sai caro. Tenho minhas dúvidas se deveria ter esperado um pouco e deixar de gastar meu precioso dinheirinho. Vi, em pelo menos dois sites, disponível para ser baixado em mp3 “de grátis”, como dizem por aí.

A ECM deve ter montes de registros guardados como esse, e agora, resolveu lançá-los. Tem cheiro de estratégia “caça-níquel”. Pouco tempo atrás, lançou Sleeper, com o quarteto europeu de Keith Jarrett. Um músico que está nos dois discos é Jan Garbarek, saxofonista norueguês. (sobre Sleeper, leia http://bit.ly/RV0JOn)

Quem conhece razoavelmente os discos da ECM, sabe que Manfred Eicher gosta de unir seu cast em formações eventuais. Em uma delas, juntou Gismonti, Charlie Haden e Jan Garbarek. O brasileiro tem cartaz com o alemão. Além de continuar a gravar com total liberdade, conseguiu lançar por lá vários títulos que haviam saído pela EMI-Odeon brasileira e outros de seu selo Carmo.

Mágico e Folk Songs foram os discos lançados pelo trio. Ambos foram gravados em 1979, o primeiro em junho, e o outro, em novembro. Quem tem os dois não vai se decepcionar com o álbum ao vivo, pois algumas são inéditas. De Gismonti são Carta de Amor, Dom Quixote e Branquinho. A “inédita” de Haden é La Pasionaria, composição que saiu no genial The Ballad of the Fallen (1976), homenagem à Dolores Ibarruri, figura legendária da Guerra Civil Espanhola. Haden sempre esteve engajado politicamente com a esquerda e procurou levar isso à sua música. Não sei até onde funciona efetivamente como instrumento de luta, mas, pelo menos, musicalmente, deu certo com a sua banda em parceria com Carla Bley, a Liberation Music Orchestra. A outra de Haden é All That Is Beautiful.

Após Two Folk Songs, de Jan Garbarek, em meio aos aplausos, ouve-se um espectador dar um grito. Catarse… por estar vivendo aquele instante único. Fico a pensar acerca do grito. Depois de ouvir uma composição do “gélido” norueguês? Emoções são muito particulares e peculiares. Não vi algum motivo para esse “orgasmo musical”.

Juntando a “temperatura” de Jan com a de Gismonti (alta), o resultado final em Carta de Amor é morno. Garbarek tornou-se conhecido por um público maior quando se tornou membro da banda de Keith Jarrett, mas já era da ECM desde 1969, quando a gravadora tinha sido criada.

Na mesma época em que fez parte do quarteto de Jarrett, gravara dois discos superiores, na minha opinião, com o pianista Bobo Stenson, Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (bateria): Witchi-Tai-To (1973) e Dansere (1975).

Se considerarmos a música de improviso como jazz, aí sim, Garbarek é do ramo. Mas não é assim. Por seus registros posteriores, percebe-se que seus interesses musicais são bem mais amplos. Enveredou pela música erudita com o Hilliard Ensemble, fez releituras do canto gregoriano e o que chamam por aí de world music. Seu disco Ragas and Sagas (1992) é dividido com Ustad Fateh Khan e outros músicos paquistaneses. Twelve Moons – a segunda faixa, Psalm, cantada por Agnes Buen Garnås, é maravilhosa – explora o folclore escandinavo. Por essas e outras gravações, muitos o classificam como um representante da world music e até, erroneamente, da música new age. Os dois citados e Dansere, com o trio de Bobo Stenson, são muito bons e demonstrativos da versatilidade do norueguês.

Depois de ter falado tão bem de Garbarek, vou falar mal. Enjoei do sopro estridente de seu sax, principalmente no soprano. Ouvindo Carta de Amor, percebo que seus discos gravados com ele e Charlie Haden não se incluem entre os melhores de sua discografia. Minha opinião, certo? Agora, os registros existentes de Gismonti com o baixista (In Montreal, ECM, 2001), em 1989, são pra lá de bons. É uma perfeita combinação. Haden é cool e, com Gismonti, atingem a temperatura ideal. Até que não seria má ideia comentar sobre esse disco posteriormente.

Bom, posso considerá-lo médio, mas não quer dizer que seja ruim, por favor. Ouça a música-título.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Chá para um ou para dois? O de Robert Plant é para um

Doris Day e Robert Plant
Tea for Two, composta em 1925, é do musical No, No Nanette. É de Vincent Youmans, com letra de Irving Caesar. É um dos grandes standards do cancioneiro americano. Foi gravada e tocada por meio mundo. Funciona bem cantada e, tocada apenas, também. Não foi Nick Hornby, em Alta Fidelidade, quem inventou a mania de listas dos melhores – as dez mais, os livros que se deve ler antes de morrer, etc. –, mas dali em diante, o inglês virou referência à mania, tão comum, de fazermos listas. No meu levantamento, tenho 37 interpretações diferentes de Tea for Two, o que comprova a popularidade desse tema de quase 100 anos de idade. Gosto, particularmente, dessa música no piano. Elegeria as de Nat “King” Cole, Art Tatum e de Bud Powell as melhores nesse instrumento. Existe uma no saxofone, excepcional, a de Lester Young, em The President Plays (Verve). “Presidente” era o apelido de Young. Com letras, pode-se destacar as de Anita O’Day, Bobby Short, Ella Fitzgerald, Lee Wiley, Jane Monheit e, é claro, a de Doris Day.

A letra de Caesar é a narração de um momento ideal do amor, o chá para dois e “nós dois com chá”. Refere-se àquelas horas em que se vive o amor sem que os amigos ou um parente possam estragá-lo, sem um telefone a atrapalhar o idílio. O chá para dois é o momento só dos dois.

O chá para uma pessoa, ao contrário, celebra a solidão, o tédio, distância e saudade: “Como é que vinte e quatro horas,/ baby, às vezes, parecem dias/ Oh, vinte e quatro horas/ Baby, às vezes, parecem dias/ Quando um minuto parece durar toda a vida.”

Tea for One é a última faixa de Presence, o sétimo álbum do Led Zeppelin. Como a banda andou “falada” nos últimos dias por conta do lançamento do DVD e exibição nos cinemas de Celebration Day, o último show deles, e Robert Plant se apresentou no Brasil, fiquei ouvindo o Zeppelin nesses dias em que andei aprisionado no trânsito paulistano. Quando ouvi esse blues, lembrei-me que tinha esquecido dele; e é tão bom quanto Since I’ve Been Loving You.

Agora, é ouvir (e ver) Tea for One.




E, que tal matar as saudades do Led Zeppelin ouvindo Since I’ve Been Loving You?




Doris Day. Em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras, 1994), de Ruy Castro, Doris é um dos treze gênios do século passado. Não é pouco. Ouça Tea for Two, por Doris. Outro dia, “mataram” o arquiteto Oscar Niemeyer (sábado, 10 denovembro). Doris (nasceu em 1922) está vivinha da silva.



Nat “King” Cole interpreta Tea for Two. Essa é daquelas que não se pode perder. Maravilha pura.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Jesse Belvin, aquele teria sido. Ou, não.

Mr. Belvin
Até o mês passado, não conhecia Jesse Belvin. Disse que voltaria a citar Jorge Cravo, o Cravinho (leia http://bit.ly/SOPR5Q), colecionador de discos e autor de O Caçador das Bolachas Perdidas (Editora Record, 2002). O apreciador de um gênero tem suas preferências específicas. Um fanático de rock pode adorar os Beatles e odiar o punk, por exemplo. Percebe-se, por meio do livro, que Cravinho tem predileção por cantores e cantoras. Nas páginas finais, em “Grandes, grandes discos – um guia para colecionadores”, escreve sobre alguns e, como ninguém é obrigado a conhecer tudo, fiquei curioso sobre alguns sobre quem nunca tinha ouvido falar. O bom dessa lista são as referências a intérpretes que fogem dos consagrados como Frank Sinatra, Billie Holiday e companhia.

Um, em especial, me deixou na maior curiosidade: Jesse Belvin; principalmente, em razão do subtítulo: “O disco perfeito e único”. E começa dizendo que “não são muitos discos em que todas as faixas são imperdíveis. É raro que o repertório, os arranjos e o cantor se combinem tão bem que, para o ouvinte, torna-se quase impossível preferir esta ou aquela faixa (o jeito é ouvir o disco de cabo a rabo, sem parar). Um dia, encontraram a fórmula mágica, envolvendo o cantor Jesse Belvin, o arranjador e regente Marty Paich e o produtor Dick Pierce.” Bom, depois do que o Cravinho escreveu, faça o que eu fiz: entrei na Apple Store e adquiri por US 9.99 Mr. Easy – Jesse Belvin, o único disponível na loja..

Mas, se o cara era tão bom, por que apenas esse disco? A resposta é que, algumas semanas depois de ter gravado esse disco, morreu em um acidente de carro, em fevereiro de 1960. Lembra-se da sina dos 27 anos? Jimi Hendrix, Amy Winehouse, Jim Morrison, Kurt Cobain e Janis Joplin são os que morreram com essa idade. Antes, bem antes deles, morreu o bluesman Robert Johnson, num distante ano de 1938. Belvin tinha 27, também. Não é sina exclusiva de roqueiros.

O autor do texto da contracapa (antigamente, não podia faltar aquele longo texto em letras minúsculas de algum crítico ou conhecedor) “especula a que ponto chegaria a carreira de Jesse Belvin se não tivesse morrido tão cedo”. Cravinho arremata: “Não tenho bola de cristal, mas, também especulando, acho que, pelo demonstrado nesse disco, ele teria easily (botar em itálico) uma brilhante carreira. E arrisco um palpite: como cantor, Jesse Belvin talvez se tornasse um novo Nat ‘King’ Cole.”

Depois disso, você ficou tão curioso quanto eu? Pois aqui está uma pequena amostra daquele que poderia ter sido, ou não. Ouça Blues in the Night. O arranjo bacana é de Marty Paich.




A face pop de Belvin, em Guess Who, em uma apresentação disponível no YouTube. Muito bom. E a música é belíssima.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A presença do Senhor na vida de Eric Clapton

O reencontro de Clapton e Winwood, em 2010
Um dia, em um muro, próximo a uma estação de metrô londrina, surgiu grafitada a frase “Clapton is God”.

Com menos de vinte anos, Eric Clapton foi membro de uma das bandas seminais do rock britânico, o Yardbirds. Para se ter uma ideia da importância histórica dela, basta dizer que por ela passaram, além de Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck. Pouco depois, em 1965, foi ser guitarrista da John Mayall & The Bluesbreakers. O blues era, e é, a paixão primeira dele. A pichação é dessa época.

O próximo passo foi criar o primeiro “power trio” da história, o Cream: ele, Jack Bruce no baixo e Ginger Baker na bateria. Egos inflados ou incompatibilidade de gênios mesmo, resultou em vida breve e alguns clássicos como Sunshine of Your Love e White Room.

Na cena efervescente da capital britânica surgiu, como que do nada, um alienígena. Subitamente, um guitarrista americano que se apresentava em um clube transformou-se no “talk of the town”. Daí para a frente, todos os guitarristas poderiam almejar a ser, no máximo, o “segundo melhor do mundo”. Em vez de inveja, Clapton curvou-se ao talento inconteste de Jimi Hendrix. Pete Townshend, do The Who, pelo contrário: ficou fulo com aquele negro que, além de exímio em seu instrumento, era carismático e produzia aquele som todo sem caras e bocas, contorcionismos espetaculares e(ou) esgares faciais e corporais. Executava solos dos mais intrincados com a maior naturalidade, enquanto mascava chicletes, com um cigarro aceso preso na cabeça da guitarra.

As atuações surpreendentes de Hendrix deixavam Townshend mordido. Ficava planejando algo mais espetacular ainda. Pete era (com a idade, menos) o guitarrista das performances teatralizadas, pulando como um sapo nos palcos, girando os braços em movimentos circulares, como os da hélice de um heiicóptero, quebrando guitarras, jogando-as contra os amplificadores Vox. No Festival da Ilha de Wight, se não me engano, Pete fez o diabo, achando que Hendrix não poderia fazer algo mais absurdo. Enganou-se: Jimi jogou álcool na guitarra e botou fogo. Hendrix morreu cedo, é impossível saber o que teria feito a mais. Clapton sobreviveu às loucuras da época e está entre nós até hoje, e bem. É um milagre. Se milagre é coisa de Deus, Clapton deve ter uma dívida com Ele.

Depois do Cream, fez parte de outro supergrupo. Com ele, lá estava seu antigo companheiro do glorioso power trio. Com Ginger Baker na bateria, completavam a banda o baixista Rick Grech e Steve Winwood. Seguindo a sina dessas formações, o Blind Faith teve vida mais curta ainda. O produtor era Jimmy Miller (trabalhou com os Rolling Stones também) e, quando foi lançado, causou celeuma por motivos extramusicais. A capa era para escandalizar: uma menina, que não aparentava ter mais do que 13 anos, com os seios à mostra, ainda em formação, segura algo como um objeto (meio fálico) feito de metal, parecido com um avião. Em 1969, Clapton não ousava cantar ainda. No Cream, os vocais principais eram de Jack Bruce, e no Blind Faith, de Steve Winwood, um talento também no piano, no Hammond B-3 e na guitarra. Precoce, entrou na Spencer Davis Group com 14 anos; e mostrava seus dotes como compositor: é coautor de Gimme Some Lovin’, sucesso que chegou ao segundo lugar nas paradas, em 1966. Em 1967, formou com Jim Capaldi, Chris Wood e Dave Mason, uma das melhores bandas britânicas de todos os tempos, o Traffic.

Das seis músicas do álbum do Blind Faith, Winwood era autor de três. A única composta por Clapton se chamava Presence of the Lord. Curioso, não? Em 1965, Eric era “Deus”. Quatro anos depois compõe uma canção que trata do Senhor. Um amigo disse uma vez que as pessoas tendem a procurar Deus ou a religião depois de um revés amoroso ou financeiro. Citou o caso de um primo dele que, depois de falir entrou para uma igreja e mais tarde tornou-se pastor. Lucrou: ficou rico com seu novo mister graças ao bom Deus.

Por quais razões Clapton teria composto uma música com esse título e que, na letra, diz que encontrou “por fim um lugar onde viver/ Como nunca antes tinha conhecido”, e completa: “Sei que não tenho muito para dar/ Mas não tardarei a abrir seja que porta for/ […]/ Encontrei por fim um lugar para viver/ Na presença do Senhor.”

Não li a autobiografia de EC. Deve haver alguma referência sobre esse assunto. A minha pergunta é se Deus surge em razão de algum revés. Uma geração inteira de talento chafurdava no álcool e no consumo de drogas pesadas. Fazia parte do espírito da época. Se isso e problemas familiares abalaram Clapton a ponto de ter que se afastar é outra pergunta. Dizem que a morte prematura de Jimi Hendrix o deixou profundamente abalado, também. É um terceiro fator.

A exemplo de muitos, cresceu imaginando que seus avós eram seus pais, quando, na verdade, soube mais tarde, sua irmã mais velha era a sua mãe de fato. É um caso semelhante ao do do ator Jack Nicholson. É um bom prato para a disfuncionalidade emocional. Não deve ter sido fácil para o inglês. Retirou-se da cena musical por uns tempos e retornou por meio da ajuda dos amigos, principalmente de Peter Townshend, com uma apresentação que virou disco: Eric Clapton’s Rainbow Concert, em 1973. Produzido por Glyn Johns, subiu ao palco com um elenco de estrelas. Além de Pete, lá estavam seus amigos Ron Wood, Steve Winwood, Rick Grech, Jim Capaldi, Jimmy Karstein e Rebop. Contratado pela Island Records, de Chris Blackwell, voltou a gravar regularmente. Um dos destaques é, justamente, Presence of the Lord.

No show do Rainbow, como na original, no Blind Faith, é cantada por Steve Winwood.




Uma interpretação muito boa é a de Lizz Wright. Está no álbum Fellowship (Verve, 2010). Se você tiver curiosidade, leia mais sobre Lizz em http://bit.ly/WkImI5http://bit.ly/SjW47j.