terça-feira, 5 de outubro de 2021

Jazz para dias chuvosos


1. Stan Getz & Kenny Barron - First Song 

2. Pat Metheny - Icefire

3. Tomasz Stanko - Stone Ridge

4. Richard Galliano - La javannaise

5. Eric Alexander - For Heaven’s Sake

6. John Hicks - Monks Mood

7. Anouar Brahem - Tois qui sais

8. Modern Jazz Quartet - Django 

9. George Coleman, Mike Stern, Ron Carter, Jimmy Cobb - My Funny Valentine

10. David Bowie + Angelo Badalamenti - A Foggy Day


Ouça.


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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Flagra

Semenova, a gigante de 2,13 m. 
Ao ler sobre uma mulher que faltou ao trabalho, alegando estar “doente”, ter sido demitida depois de ser vista na transmissão por TV festejando a vitória da Inglaterra sobre a Dinamarca, no estádio de Wembley, semifinal da Eurocopa 2021, lembrei-me de caso semelhante que aconteceu com  primo meu.

Aconteceu há quarenta anos. Em 1971, o Brasil sediou o 6º Campeonato Mundial de Basquete Feminino. Acho que foi a primeira transmissão ao vivo de jogos de basquete feminino no país. Um dos participantes era o Japão, que acabou ficando em 5º. O Brasil, com um time, cujos destaques eram Norminha, Marlene, Heleninha e Nilza, conseguiu o terceiro lugar, e a União Soviética da desengonçada gigante de 2,13 m, Uliana Semenova, imbatível, foi a campeã.

Como bom descendente de japoneses, meu primo, dois irmãos e amigos foram assistir ao embate entre Brasil e Japão, na fase final, que aconteceu no Ginásio do Ibirapuera, São Paulo. Eu, não tão fanático, nem lembro de ter visto o jogo, mas, provavelmente, a colônia em peso estava como os olhos fixos nos televisores a torcer pela seleção japonesa.

Meu primo nem tinha completado 15 anos na época, mas já fumava, claro que, escondido do meu tio. Ele era tão rígido com os filhos que, mesmo mais velhos, nunca fumaram na frente dele. Era medo, mas também, respeito, bem da educação japonesa, rígida.

O que era pouco provável aconteceu. Filmaram-nos vendo o jogo. Um deles era esse meu primo, com um cigarro na mão. Chegando em casa, meu tio, partidário que era adepto dos safanões como forma de educar, foi direto nele com a mão levantada quando chegaram de volta. Nem deu para desconfiar por que, só depois dos tabefes, e, muito menos, argumentar. Soube depois que aparecera na televisão com um cigarro na mão a torcer pela seleção japonesa.

domingo, 27 de junho de 2021

De jegue

Tenho uma admiração muito grande pelo meu lavador de carros, aliás, do meu e de muitos outros da redondeza. Trabalhava como empregado em um Lava-Carros que fica a três quarteirões da minha casa. Um dia, resolveu deixar de ser empregado. Comprou um fusquinha velho e, com um primo, passou a lavar carros a domicílio. Bom de papo, nordestino de boa conversa, “roubou” vários clientes. Em pouco tempo, eram tantos os que usavam de seus serviços que ambos, deixaram de pagar aluguel e compraram suas casas.

Raimundo, esse é o seu nome, é magro de voz forte. Da minha casa sei quando está por aqui. Enquanto lava, aspira e seca os automóveis, não para de falar, cumprimenta quem passa, conta piadas e é amigo de todo mundo. Aí, quando vejo que meu carro está necessitado de uma lavagem, vou lá falar com ele. Responde: “Agora não dá, pois tenho quatro carros programados para agora. Tem que agendar. Dá uma ligada marcando.”

Quando lava meu carro, fico conversando com ele. Gosto do sotaque e do modo como falam. Têm sempre uma resposta na ponta da língua. Adoro papear com eles. Em certa feita, dobrou a esquina uma Mercedes, cantando pneus. Freou perto de onde estávamos, com um sorriso que mostrava todos os dentes. Raimundo diz a ele: “Tá querendo se mostrar? Garanto que lá em Pernambuco você só pilotava jegue.” Quem dirigia era o manobrista de uma churrascaria perto de casa.

Lembrei da história ao ler que o presidente, em reação aos protestos de “Fora Bolsonaro”, “Genocida”, ao entrar em um avião, disse que os insatisfeitos deviam estar viajando de jegue e não de avião.

Tenho enorme respeito pelo Raimundo, um nordestino que veio para São Paulo e venceu, e nunca por um idiota capaz de dizer isso aos que o acham, isso mesmo, um idiota, imbecil, com falta total de empatia. Quer mesmo é que todos morram. Respeito mais os jegues e, por ele, não tenho nenhum.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Grazing Dreams, de Collin Walcott, um dos dez melhores da ECM


Minha amiga rica voltou de San Francisco com vários LPs: “Mysterious Traveller” (Weather Report), “Bundless” (Soft Machine), “Closeness” (Charlie Haden), “Shakti” (John McLaughlin),“In Concert” (Oregon), “Low Class Conspiracy” (David Murray) e o primeiro do World Saxophone Quartet. Não consigo lembrar nomes de pessoas, não guardo um número de telefone, mas para algumas coisa a minha memória é ótima, principalmente se são inúteis.

Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert. 

Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4. 

Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.

“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.

Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.

Nem rock, nem jazz
Paul Winter é considerado um dos pais da world music. Influenciado por Villa-Lobos – morou um ano no Brasil na década de 1960 – e amante da música inglesa do século 17, criou a Paul Winter Consort. Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott, que participaram da banda, formaram o Oregon em 1970. Pela Vanguard lançaram em 1972, “Music of Anther Present Era”. Rapidamente ficaram conhecidos e o álbum que tinham saído por uma pequena gravadora, a Increase Records, em 1970, foi relançado.

Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979. 

Tempos depois, já conhecendo outros álbuns do Oregon, acho que, em razão de uma crítica positiva na revista Downbeat de “Grazing Dreams” (ECM), acabei comprando o LP, importado, no Rio de Janeiro. Já estava gastando todo o meu dinheiro em discos. Aconteceu um festival de jazz na ex-capital do Brasil com várias atrações imperdíveis: Weather Report, Pat Metheny, Mccoy Tyner e o Art Ensemble of Chicago. Fomos eu e mais dois amigos. Ficamos no apartamento da tia de um deles. O imóvel ficava a dois quarteirões das duas melhores lojas de LPs importados: a Modern Sound e a Billboard.

“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.

Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.

Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”. 

O disco é único por vários fatores. O que se ouve é diferente de qualquer coisa. Um bom exemplo é "The Swarm". Seu início é de sons desconexos de trompete, flauta, cítara e guitarra. Repentinamente todos os sons se conectam e, guiados pelo trompete e a cítara, vai ficando dramática e, pronto. Termina. Começa então “Mountain Morning”. Curtíssima. É um prelúdio para a ondulante e hipnótica “Jewel Ornament”. Com a tabla servindo de base rítmica, Cherry sola na flauta, mas o que se sobressai é a guitarra discreta de Abercrombie. Depois da música título, tem “Samba Tala”, um duo ótimo com Dom Um Romão e Walcott. E termina com a belíssima “Moon Lake”. O início dela, com ele na cítara, é sublime. 

Confira.




A parceria de Walcott com Cherry frutificou. Com Naná Vasconcelos, formaram a Codona – cada sílaba são as duas primeiras letras de seus nomes. Sobre eles, leia “O mundo ‘world’ de Naná Vasconcelos”

Muitos nem devem conhecer Collin Walcott por uma razão simples. O ônibus que transportava o Oregon em uma excursão na antiga Alemanha Oriental colidiu. Estava no primeiro banco e cochilava. Bateu a cabeça e morreu. Tinha 38 anos. Foi em 1984. Fazem mais de 36 anos que aconteceu.

quinta-feira, 11 de março de 2021

O morto

Desde a adolescência tomei gosto de fazer seleções de músicas preferidas e gravá-las, antigamente, em fitas cassete, cuja abreviação em português era K-7, depois em CDs e, por último, em Mini Discs (MD). Hoje, essas seleções têm outro nome: “playlist”. Os brasileiros de hoje fazem playlists. É mais uma palavra importada da língua inglesa. Alguns acham que é para se usar o artigo feminino, e outros, o masculino. Se considerarmos que usa-se o artigo feminino para “seleção”, o correto, em princípio, é “a” playlist. 

Bom, vamos ao que importa. Procuro sempre, além de selecionar as preferidas, montar seleções temáticas. Esta é uma delas. Foi intitulada “O morto”. Existe a sina dos 27 anos. Estão incluídos quatro que se inserem nessa classificação: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, do Nirvana, e Amy Winehouse. Dois morreram em acidentes de avião: Buddy Holy (22 anos), Otis Redding (26 anos). Mama Elliot, ou Mama Cass, como era conhecida, do The Mamas & Pappas, morreu do coração, em decorrência do excesso de peso.

A consumo exagerado de drogas ilícitas ou abuso de remédios contra dor foram causas da morte de muitos, como Prince, Michael Jackson e Elvis Presley. Este último morreu relativamente jovem: 42. Chet Baker é o exemplo clássico do músico vítima do abuso de drogas pesadas. Mesmo tendo que sair dos Estados Unidos, ser preso mais ide uma vez, seguiu na carreira musical, nunca mais como o genial trompetista surgido na década de 1950. Mesmo claudicante, parecendo um fantasma ambulante, não parou de tocar. Provavelmente jogou-se pela janela de um apartamento de hotel em que se hospedava, em Amsterdam. Vários jazzistas de sua geração conseguiram se livrar das drogas – ou aprenderam a consumir com parcimônia –, como Gerry Mulligan, Dexter Gordon, Miles Davis e Sonny Rollins e voltaram a tocar brilhantemente. Outros, como Lester Young, Charles Parker e Bud Powell não conseguiram.

A depressão levou dois ingleses geniais – Nick Drake (26 anos) e Ian Curtis (23 anos) – a cometerem suicídio. Sobre Nick Drake, leia “O morto Nick Drake”. Um terceiro que morreu jovem foi Jeff Buckley. Depois do sucesso estrondoso de “Grace” (CBS 1994), teve dificuldade em concluir seu segundo álbum. Viajava com seu road manager, parou o carro dizendo que queria nadar. Entrou no rio de roupa e desapareceu. Seu corpo foi encontrado uma semana depois, em 29 de maio de 1997 no rio Wolf, perto da nascente do rio Mississippi. Tinha 30 anos. Mais detalhes em “O morto Jeff Buckley”.   

Frank Zappa e Rory Gallagher faleceram relativamente cedo. Zappa teve câncer de próstata e morreu poucos dias antes de fazer 53. O potente guitarrista e vocalista irlandês tinha problema de fígado e morreu com 47 antes de conseguir fazer um transplante.

Em 1990, Curtis Mayfield, autor da genial “Super Fly”, foi atingido por uma torre de em uma apresentação em Nova York e ficou tetraplégico. Elton John, Bruce Springsteen, Eric Clapton, Steve Wonder, Steve Winwood e Aretha Franklin, dentre outros, gravaram um emocionante tributo. A música presente nessa playlist – “New World Order” –, é do álbum do mesmo nome, gravado depois do acidente. Morreu em 1999, com 57 anos por causa da diabetes.

Por último, sem ser o último, a lista é completada por Sam Cooke. Foi assassinado pelo gerente de um motel em que estava hospedado, em 1964. Mais detalhes, você pode ler no post “O comum entre Arte˙a Franklin e Otis Redding”. Sua “A Change Is Gonna Come”, lançada em 1963, é a música símbolo da luta dos negros pelo fim da segregação racial, levada pelo Movimento dos Direitos Civis, por Martin Luther King.


1    Elvis Presley - Jailhouse Rock
2    Buddy Holly - Heartbeat
3    Curtis Mayfield - New World Order
4    Frank Zappa - Black Napkins
5    Janis Joplin - Ball and Chain
6    Sam Cooke - Twistin’ in the Night Away
7    Nirvana - Smells Like Teen Spirit
8    Chet Baker - You Go to My Head
9    Rory Gallagher - A Million Miles Away
10  Nick Drake - River Man
11  Jeff Buckel - Nightmares by the Sea
12  Otis Redding - Sittin’ in the Dock of the Bay
13. Joy Division - Shadowplay
14  The Mamas & The Papas - Dream a Little Dream of Me
15. Jimi Hendrix - Castles Made of Sand
16  Amy Winehouse - Back to Black

Depois dessa longa preleção, ouça a playlist.



terça-feira, 9 de março de 2021

Dá samba. Uma playlist batuta.

Pode parecer samba do crioulo doido, mas não é. Tem vários sambas mas tem de outros estilos, como “A Flor e o Espinho”, de Nelson Cavaquinho. Dizia-se antigamente “isso dá samba” para indicar que ia dar certo. Não sei qual é a expressão atual para isso.


1     Luiz Melodia - A Voz do Morro
2     Chico Buarque - Festa Imodesta
3     Gilberto Alves - Não Tenho Inveja
4     4 Ases e 1 Coringa - Boneca de Pano
5     Zé Miguel Wisnik - Viúvo
6     Rosa Passos - Samba da Minha Terra
7     Anjos do Inferno - Helena, Helena
8     Dorival Caymmi - Rosa Morena
9     Jorge Veiga - Na Cadência do Samba
10   Nelson Cavaquinho - A Flor e o Espinho
11    Miltinho - Eu Quero Um Samba
12    Teresa Cristina - Argumento
13    Mario Reis - O Sol Nasceu Pra Todos
14    Vassourinha - Juracy
15    Miltinho - Eu Quero Um Samba
16    Francisco Alves - Vivo Deste Amor
17    Silvio Caldas - Fita Amarela
18    João Gilberto - É Luxo Só
19    Cartola - Preciso Me Encontrar
20    Luiz Barbosa - Perdi a Confiança
21    Paulinho da Viola - Pecado Capital
22    Silvio Caldas - Minha Palhoça
23    Carlos Galhardo - Favela

A playlist.


domingo, 7 de março de 2021

Brasil: uma playlist fora do padrão

A playlist  chamada “Brasil” é bem variada, fora de um padrão. Alguns números da década de 1960 se misturam a outras mais recentes mas, nem tanto, pois a mais nova deve ser do início desse século. Chutando, as mais recentes são de 2003-2005: “X do Problema” (Marcos Sacramento), “Ilê Ayê” (Daúde), “Doce na Feira”, de Monica Salmaso, “Perto do Coração” (Nelson Ayres), “Baião de Quatro Tempos” (Zé Miguel Wiznik) e “Terra Estrangeira” (Eveline Hecker).

A seleção é pouco ortodoxa, Mas, se você é curioso, clica na playlist que disponibilizei no Spotify.


1 Marcos Sacramento - X do Problema

 2 Vanessa da Mata - Alegria

 3 Gal Costa - Lágrimas Negras

 4 Daúde - Ilê-Ayê (Que Bloco É Esse?)

 5 Paulinho da Viola - Deixa Pra Lá

 6 Walter Wanderley - Garota de Ipanema

 7 Sergio Ricardo - Folha de Papel

 8 Dick Farney & Norma Bengell - Você

 9 Caetano Veloso - Madrugada e Amor

 10 Joel Nascimento - Canto Triste

 11 Milton Banana - Cidade Vazia

 12 Monica Salmaso - Doce na Feira

 13 Eveline Hecker - Terra Estrangeira

 14 Agostinho dos Santos - Manhã de Carnaval

 15 Nelson Ayres - Perto do Coração

 16 Olivia Byington - Canção do Amor Demais

 17 José Miguel Wisnik - Baião de Quatro Toques

 18 Marcos Valle - Ilusão à Tôa

 19 Rumo - Deus Nos Livre dos Castigos das Mulheres

 20 Virginia Rodrigues -Por Toda a Minha Vida

 21 Waldir Azevedo - Pedacinho de Céu



sexta-feira, 5 de março de 2021

Trilhas da dor

Amo música de fossa. Para quem não é do tempo em que se usava essa expressão, usava-se quando você estava triste por dor de corno, por ter sido abandonado pela namorada ou namorado. Dizia-se: “estou na fossa”, “ele está na maior fossa”. Antes que se canalizasse o esgoto, fazia-se uma fossa, que era onde iam todos os dejetos da casa. Infelizmente, existe na maioria das casas dos brasileiros ainda, em pleno século 21. Então, “estar na fossa” era um caso sério.
 

 1 Maria Bethânia - O Que Tinha de Ser

 2 A.C. Jobim - Por Toda Minha Vida

 3 Odette Lara & Edu Lobo - Canção do Amor Ausente

 4 Paulinho da Viola - Sinal Fechado

 5 Alaíde Costa - Insensatez

 6 Maysa - Bom Dia, Tristeza

 7 Nana Caymmi - Canção em Modo Menor

 8 Edu Lobo & Maria Bethânia - Pra Dizer Adeus

 9 Zé Miguel Wisnik - Pérola aos Poucos

 10 Odette Lara & Vinícius de Moraes - Samba em Prelúdio

 11 Caetano Veloso - Eu Sei Que Vou Te Amar

 12 Morelenbaum / Sakamoto - Sem Você

 13 Nana Caymmi - Vire Essa Folha do Livro

 14 Dorival Caymmi - Noite de Temporal

 15 Aracy de Almeida - Último Desejo

 16 Milton Nascimento - Beatriz

 17 Edu Lobo - Sobre Todas as Coisas

 18 Nana Caymmi - Boca a Boca

 19 Elis Regina - Modinha

 20 Nana Caymmi - A Noite do Meu Bem





The Song Remains the Same 2


 

Voltando à seara do rock, ao fazer o “The Memory Remains”, tive que fazer um “parte 2”.

1 Focus - Hocus Pocus
2 Cream - The White Room
3 Deep Purple - Lazy
4 Led Zeppelin - Babe I’m Gonna Leave You
5 Yes - Yours Is No Disgrace
6 Humble Pie - I’m Ready
7 Genesis - The Chamber of 32 Doors
8 Grand Funk Railroad - Footstompin’ Music
9 Emerson, Lake & Palmer - From The Beginning
10 Jethro Tull - My God
11 The Rolling Stones - Let It Loose




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O menos conhecido e genial de Chick Corea

A morte de Chick Corea pegou muita gente de surpresa. A mim, pegou. Tinha 79 anos, o que hoje não é idade para morrer, considerando a média, pelo menos, entre os músicos, como Sonny Rollins, que já passou dos 90 e até há pouco estava tocando.

O conceito de velhice, desculpe o termo, mudou bastante. Seria perfeitamente possível imaginar Corea vivo, com mais de 90, tocando piano em um palco, mesmo que tivesse que usar uma bengala para se locomover. Todavia, aconteceu. Morreu. Descobriram, recentemente, um câncer raro não especificado. Com tantos músicos mais mais velhos, como Lee Konitz e Elis Marsalis, que faleceram com 93 e 85, respectivamente, vítimas dessa maldita pandemia chamada Covid-19, esquecemos que podem, ou podemos, morrer vítimas de outras ocorrências, até banais, como um tombo na rua.

Na minha visão, certas pessoas não morrem, porque permanecerão vivas em nossos pensamentos, por meio de sua música ou por outras coisas. Para mim ele não morreu. Minhas lembranças de quando vi um show dele pela primeira vez continuam vívidas. Foi em um festival de jazz, em São Paulo, em 1977. O programa era calcado no LP “The Leprechaum”, que tinha lançado um ano antes. Foi o primeiro com participação da vocalista Gayle Moran, que já era sua mulher.

Não era o primeiro disco de Corea com vocais. Em “Return to Forever” (1972), Flora Purim participa de algumas faixas. Apesar dos vocais chatinhos dela, o show foi inesquecível. O ápice foi “Crystal Silence”, como no original, piano elétrico e o sax soprano de Joe Farrell. Aquele festival foi inesquecível por outros motivos. Na apresentação de Hermeto Pascoal, John McLaughlin entrou e começaram a improvisar. De repente, o inglês solava em ritmo de frevo. Foi impressionante. Já de madrugada, seis horas depois de iniciado, a festa era total, com Hermeto, McLaughlin, Chick Corea e Stan Getz juntos.

Pura coincidência, Corea e Getz estarem no mesmo palco na farra de Hermeto. No começo da carreira, o pianista foi sideman do saxofonista em “Sweet Rain” (Verve 1967), contribuindo com duas composições. Antes do primeiro LP como líder, acompanhou também Mongo Santamaria, Blue Mitchell, William Bobo e Herbie Mann. 

A estreia como líder
Mann foi seu produtor em “Tones for Joan’s Bones”, para o pequeno selo Vortex. Gravado em 1966. foi lançado em 1968. O quinteto era formado por ele, Steve Swallow no contrabaixo, Joe Chambers na bateria, Joe Farrell no sax tenor e flauta e Woody Shaw no trompete. Dos quatro números, três são composições de sua autoria e a outra “This Is New”, é de Kurt Weill. A que abre, “Litha”, é uma composição excepcional, principalmente, se considerarmos que era a sua estreia. Os solos de Farrell e Shaw são destaques. A outra que deve ser citada é “Straight Up and Down”, uptempo, com a bateria vigorosa de Joe Chambers e Swallow no contrabaixo acústico. O solo de piano é excepcional, assim como é o de Woody Shaw. É um belo trompetista. Morreu relativamente novo: 44 anos. Teve vários problemas de saúde. Era quase cego por causa de uma doença degenerativa. Teve que amputar o braço em razão de uma batida em um vagão de metrô. Morreu por falência dos rins. Era viciado em heroína. Foi uma vida de desgraceira. Vi um show dele. Tinha a cara fechada. Também… Era um grande músico.

Em 1968, lançou “Now He Sings, Now He Sobs”, por outro selo pequeno, a Solid State. É em formato trio: ele, Miroslav Vitous e Roy Haynes. Para quem o conheceu na banda Return to Forever, uma das pioneiras do fusion-jazz, com o Headhunters, de Herbie Hancock, e o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, é um álbum que soa estranho. É preciso fazer uma espécie de viagem ao passado e analisá-lo como uma espécie de preparação para o que faria depois. 

O título foi tirado da seção “Now he sings, now he sobs – now he beats the drum, now he stops”, do “I Ching – o livro das mutações”. As mutações a que se refere estão ligadas à amplas transformações que ocorriam na década de 1960. Na música tinha-se a explosão do rock, e o jazz vivia um período de exploração de novas linguagens e formas, por meio da música de Ornette Coleman, Charles Mingus, John Coltrane e Miles Davis. Nesse período de novas experiências, pela formação de pianista, o jovem Chick Corea tinha em seu radar também a música de compositores eruditos do século 20, como Bela Bártok, Stravinsky e Alban Berg.

Dentro dos “limites” do mais estabelecido no jazz, o do trio piano, baixo e bateria, com o também jovem Miroslav Vitous e o mais experiente Roy Haynes (42 anos, na época), buscaram criar uma música que ia acontecendo espontaneamente. Sem ensaios. Essa foi a ideia. 

“Now He Sings…” é uma referência ao caminho que Corea pretendia trilhar. É uma representação de seus anos formativos, a influência de pianistas como Thelonious Monk e Bud Powell, deste principalmente, a linguagem do hard bop, na qual mescla com sua formação erudita e interesse pelos compositores da escola vienense do século 20 e de Bela Bártok. 

No álbum seguinte, na mesma Solid State, “Is” (1969), Corea dá mais sinais desse caminho. Incorpora o piano elétrico, timidamente. A formação não é radicalmente diferente do álbum de estreia. Na seção de sopros estão incluídos os instrumentos usuais, com Bennie Maupin no sax tenor, em vez de Joe Farrell, que voltaria a tocar com ele inúmeras vezes, o trompete com o mesmo Woody Shaw, no contrabaixo o inglês Dave Holland, que tocou no início da fase elétrica de Miles Davis, e na bateria, Jack Dejohnette, que também foi da banda, e, de diferente, Hubert Laws, um dos sopros mais perfeitos na flauta.

Ao contrário de Wayne Shorter, Joe Zawinul e Herbie Hancock, seus companheiros da banda de Miles Davis, Corea preferiu seguir pela trilha que estava desenhada desde “Now He Sings…”, o da música avant garde. Formou uma banda com Holland, Barry Altschul e Anthony Braxton. 

Ao mesmo tempo, passou a gravar discos para a recém criada ECM, optando pelo piano acústico: “Piano Improvisations vol. 1 e vol. 2”. Por essa gravadora lançou “Return to Forever” (1972), que seria viraria nome da banda elétrica dele, e “Crystal Silence” (1972), com Gary Burton.

Como Return to Forever, o primeiro foi “Light as a Feather” (1973), com Flora Purim e Airto Moreira, Stanley Clarke e Joe Farrell. O Return to Forever realmente elétrico, fusion-jazz, começa com “Where Have I Known You Before” (Polydor, 1974), nesse, com Bill Connors na guitarra, e “No Mystery” (Polydor, 1975), com Al DiMeola no lugar de Connors.  Pela mesma Polydor, lançou discos com seu nome como líder, com outro conceito.

O propósito dessa postagem era escrever sobre o início da carreira do americano de sangue italiano, apesar de sua paixão pela música espanhola. Para concluir, o que define bem sua música é a diversidade. Gravou muitos discos e em cada um deles, explorava desde o jazz acústico, o fusion-jazz, com sua Chick Corea Electrik Band e até a música erudita.

Ouça “Now He Sings, Now He Sobs”. Nas edições posteriores foram acrescentadas várias músicas. Até a quinta é o LP original. Várias que foram acrescentadas são geniais: “Samba Yantra”, “Bossa”, “Gemini” e os standards “My One and Only Love” e “Pannonica”.

Ouça.




O primeiro dele (“Tones for Joan’s Bones”) é relativamente curto. Vale a pena ouvir. Nesses dois primeiros LPs são síntese de tudo o que ele fez posteriormente.

Ouça,

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Joni Mitchell e o jazz

Joni Mitchell e Charles Mingua (foto: Sue Mingus)





Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley. 

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.




O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie HatThe Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com BlueHejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve ChangedYou’re My ThrillComes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.




Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000. 



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Marcos Resende, um “desconhecido” genial

O único trabalho de Marcos Resende e sua banda Index lançado no Brasil foi “Festa Para Um Novo Rei”, em 1978, na série MPBC (Música Popular Brasileira Contemporânea), selo criado pelo selo Philips para promover alguns nomes da música instrumental brasileira. 

O selo surgiu no mesmo ano em que aconteceu o  I Festival Internacional de Jazz de São Paulo, em parceria com os realizadores do tradicional Festival de Montreux. De vida breve, 1978 a 1981, deu espaço a músicos como o pianista e arranjador Nelson Ayres, o percussionista Djalma Corrêa, atração de um dos primeiros festivais, Nivaldo Ornellas, saxofonista e flautista que tocou com Milton Nascimento, o baterista Robertinho Silva, o pianista Túlio Mourão e Marcos Resende, dentre outros.

Antes desse álbum, em 1976, Resende gravou no estúdio Sonoviso um disco tendo Toninho Barbosa como engenheiro de som, conhecido pelos trabalhos com o Azimuth (depois americanizaram trocando o “i” pelo “y”) e Marcos Valle. Parece que ele ofereceu o disco para a CTI, gravadora americana que teve seu auge nos anos 1970, com um cartel que incluiu os brasileiros Airto Moreira, Eumir Deodato, Milton Nascimento e Antônio Carlos Jobim, além de outros como Paul Desmond, Hubert Laws e Joe Farrell. As negociações não prosperaram, mas Resende manteve as fitas de gravação com ele. Em 2017, entrou em contato com a gravadora Far Out Recordings, do DJ e produtor inglês Joe Davis que, entusiasta da música brasileira, lançou nos últimos anos discos fora de catálogo e esquecidos, ou quase, como o de Arthur Verocal, Os Ipanemas, Sabrina Malheiros e até de Marcos Valle, Azymuth e Joyce Moreno no mercado internacional. Verocal foi um dos que que foi redescoberto no Brasil depois do relançamento pela Far Out.

As fitas foram recuperadas, remasterizadas e o álbum foi lançado em janeiro de 2021. Infelizmente, Resende não pode festejar. Morreu em 12 de novembro, vítima de câncer, aos 73 anos, em Lisboa, cidade em que tinha voltado a morar. Esse álbum cobre uma grande injustiça ao tecladista e compositor. É um exemplo acabado de quão talentoso ele era, totalmente contemporâneo à corrente do que alguns chamaram de jazz-rock, e outros, de jazz progressivo. 

É uma injustiça para um músico antenado ao seu tempo, com a experiência de, antes de ter tocado no Festival de Jazz de Cascais de 1971, abrindo a apresentação de Dexter Gordon. Esse fato é porque Resende, nascido no Brasil em Cachoeiro do Itapemirim, ES, resolveu estudar Medicina em Portugal, ainda nos anos 1960. Com formação musical sólida, formou um trio e começou a se apresentar no continente europeu.

Em 1974, resolveu voltar para o Brasil. No ano seguinte, gravou o disco lançado pelo selo inglês, com sua banda formada por Rubão Sabino no baixo, Claudio Caribé na bateria, Oberdan Magalhães, da Banda Black Rio nos saxofones e flauta, e ele, nos teclados Prophet-5, o Mini Moog e o Yamaha CP-708. É uma pena não ter sido lançado na época. Teria sido um marco para a música instrumental brasileira, ao lado de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, com a característica de ser mais cosmopolita, mais influenciada pelo jazz-rock.

A grande qualidade do álbum de 1976, lançado na Inglaterra no começo deste ano, é a de que a música de Resende não era uma simples imitação ou diluição da onda inaugurada por Miles Davis e vários músicos que participaram das gravações de “Bitches Brew”. Além dos dois tecladistas citados no parágrafo anterior – Corea e Hancock –, outros, como John McLaughlin, com a Mahavishnu Orchestra, Wayne Shorter e Joe Zawnul, que criaram o Weather Report, foram as grandes bandas que popularizaram o jazz-rock. Ele, influenciado pelo novo gênero, conseguiu construir um som original ao incorporar seu conhecimento e vivência com a música brasileira.

“Festa Para Um Rei”, de 1978, curiosamente, não tem a potência do álbum que ficou inédito até agora. Neste, os músicos são outros, com exceção de Oberdan Magalhães, encarregado dos sopros. São Claudio Gabis na guitarra, Jorge Degas no contrabaixo elétrico, Wilson Meireles na bateria e Marcelo Salazar na percussão. Vários títulos remetem ao Brasil e sua cultura: “Terra de Vera Cruz”, “Mulato”, “Macacheira” e “Vidigal”.

Em 1990, Resende resolveu voltar a morar em Portugal. Seus outros álbuns são “About Jobim” (1996), gravado ao vivo no Festival de Jazz de Kopenhagen, “Tributo a Roberto Carlos” (1998) – como ele, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim –, “Abrolhos” (1993) e “Nonchalance” (1990). Lançou também “Som e Fantasia” (1984), com Nivaldo Ornelas. São discos difíceis de serem encontrados, com preços bem altos em sites de vendas de LPs e CDs usados.

De “Festa Para Um Rei”, “Vidigal” é uma música relativamente conhecida, pelo menos para os que gostam de música instrumental.

 
 
“Corsários” é um tema bem interessante, com um solo belo de Oberdan Magalhães, um dos criadores da Banda BlackRio.
 
 
 
 
Ouça o álbum “Marcos Resende & Index”, lançado agora pela Far Out Recordings.