terça-feira, 3 de março de 2026

The Frame of Life, de Renato Mello e Fabio Golfetti

 Alguém me viu, um abraço, ambos com máscara, decerto, em um vernissage, e disse: “Que legal te encontrar!” Não a via há uns três ou quatro anos. Conversamos como velhos amigos. Depois de nos despedirmos, algo me afligiu. Não lembrava do nome dela. Só fui lembrar no dia seguinte depois de ficar fazendo (muitas) associações aleatórias.

Amigos diziam que tinha uma memória prodigiosa. Posso dizer que sim, principalmente, na música. Por curiosidade, ao ouvir discos de minha preferência, sabia até quem tinha sido o engenheiro de som, muito pelo costume de ler encartes e contracapas. Agora tem o Google e não guardo mais nada na memória. Espero que esses esquecimentos banais não atinjam um nível preocupante.

Ao ouvir Frame of Life, álbum de Renato Mello e Fabio Golfetti, vejo o tanto quanto somos habitados por lembranças longínquas que perduram.

Renato, arquiteto por profissão, foi um dos membros de uma banda paulistana que alguns devem conhecer: Kafka. Lançaram dois discos LPs pelo selo Baratos Afins. Apresentaram-se em casas como Madame Satã, frequentada por uma juventude digamos, alternativa, que gostava de Sisters of Mercy, Bauhaus, The Smiths, Acho and the Bunnymen, The Cure e outras do gênero. Renato se distanciou do universo da música, mas nunca se desligou dela. Nunca deixou a guitarra e o saxofone alto e teclados, exercitando-se sempre, e compondo, enfim, a música sempre esteve presente.

A origem do título do disco está intimamente relacionado à formação de arquiteto de ambos. Vem de uma frase de Frank Lloyd Wright: “Architecture is the frame of life. It is the nature and substance of whatever is.”. 

A gravação de Frame of Life coincide com a época da pandemia da Covid. Foi feita entre setembro e dezembro de 2021, imagino que tenha sido remotamente com cada um dos músicos em suas casas. Além de Mello no sax alto, guitarra, teclados e vocais, e Golfetti na guitarra, tocam Gabriel Golfetti (teclados e baixo), Giovanni Lenti (bateria) e Gustavo Santhiago (flauta em Space Is the Key).

Future Past Mystery, que abre o disco, é uma faixa longa de quase dez minutos. Instrumental, bem climática, tem Fabio nos glissandos e Renato no sax. É impactante. Fica melhor ainda pela perfeita combinação com a próxima, mais tranquila, cheia de nuances: Starfish. Os vocais e a letra são de Renato. Fallingwater, a seguinte, a referência, evidentemente é Frank Lloyd Wright, arquiteto da Casa da Cascata, na Pensilvânia. Fruitless Park é outra não instrumental. Space Is the Key é a mais “complicada”, inspirada em Sun Ra, cultuado por Fabio e Renato. Tem uma estrutura circular, com flautas de Gustavo Santhiago em overdubs. End of Life encerra o disco.

Frame of Life 2, gravado entre o fim de 2022 e abril de 2023, vai na linha do anterior. Os títulos das músicas – Songs of Two Planets, Sounds Like Paintings, The Sky Above, Events in Calm Water, Daybreak, Night Sketch, Off White Shadows – dão uma pista clara para o tipo de som que ouvimos. Podemos descrever como paisagens sonoras, até na construção delas, lembrando vagamente Music for Films (EG Records, 1976), de Brian Eno, pelo menos nos títulos. São camadas superpostas, instrumentações em overdubs, guitarras em glissandos de Golfetti que funcionam, assim como os teclados, sugerindo pinturas impressionistas, paredes sonoras virtuais. Um destaque é Events in Calm Water. Como sugere o título, sobre a superfície da água, que são o baixo e um teclado discreto, sobressaem-se sons de saxofone, às vezes só, em outras em camadas sobrepostas, e um breve solo de guitarra, que nem chega a ser um solo exatamente. Na verdade são sons que dançam em uma superfície.

Nesse segundo disco, Fernando Alge participa das cinco faixas finais. Não posso dizer com certeza se os solos em Events in Calm Water são dele, assim como outro belíssimo solo em Day Break, que é a seguinte. A sétima, Night Sketch, com uma batida mais roqueira, com baixo e bateria bem marcados, ouvimos belíssimas intervenções de guitarra.

Ouça Frame o Life.

Ouça Frame of Life 2.

segunda-feira, 2 de março de 2026

O fantasma de Clifford Brown

O “careta” Clifford Brown
Na mesma época em que tinha comprado os dois volumes que compõem A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, referência de Julio Cortázar sobre um título de Jules Verne, estavam sendo lançados alguns álbuns duplos destacando alguns nomes do jazz pela PolyGram. De capa branca e ilustrações em tinta marrom, eram suficientemente caros para os bolsos dos universitários que tinham que se virar com mesadas “na conta”. Até essa data, meados da década de 1970, eram raros os lançamentos de jazz no Brasil.

Na página 109 do tomo I de A Volta…, da edição em espanhol da Editora Siglo Veinteuno – na FAU-USP, a Ciça, arquiteta formada pela UnB, montou uma “banquinha” de livros de literatura e de arquitetura em espanhol – Cortázar falava desse até então desconhecido, para mim, Clifford Brown: “Como Bird, como Bud, he didn’t stand the ghost of a chance”. O autor fazia um jogo de palavras com o título do standard composto por Victor Young, com letra de Bing Crosby e Ned Washington, de 1932, e os relacionava à morte de outras duas figuras do jazz: o pianista Bud Powell e o sax-alto Charlie Parker.

Ao contrário desses dois, o trumpetista Clifford era “careta”. Era um certinho, enfim, mas de um talento estupendo. Parker morreu antes dos 40, vítima dos excessos da droga e do alcool. Powell, apesar de “un poco loco”, decorrente – dizem – de uma surra que levara da polícia, e lhe acarretara transtornos de ordem mental – ficou internado por um ano sendo tratado com eletrochoques –, foi brilhante pianista e fez parte do lendário show no Massey Hall, Toronto, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Max Roach, em 1953. Morreu relativamente cedo – pouco mais de 40.

Nos anos 1950 reinavam o trumpete de Miles Davis e o do atrevido Dizzy Gillespie. Brown surgiu nesse cenário e logo se destacou como, se não o melhor, tão bom quanto os outros dois. Miles era o cara do sopro sem vibrato, dos registros médios, e se destacaria por estar no lugar certo e na hora certa. Estaria entre os gestores do bebop e dentre os que criariam o cool jazz. Clifford surgiu como um furacão. Se estivesse vivo, certamente, estaria liderando as listas dos melhores em seu instrumento. Além do poder de invenção harmônica era dono de um sopro que sabia ser doce e agressivo, atingindo as notas mais altas do trumpete sem “gritar”.

Não é possível se prever o que teriam sido os percursos de Jimi Hendrix, Janis Joplin, de Jim Morrison ou do trumpetista Fats Navarro, sua grande influência – morreu antes de completar 27 anos de idade, vítima da tuberculose e da heroína –, e também de Clifford. Mas Brown teve uma carreira fulgurante num tempo em que Miles e Dizzy Gillespie estavam na linha de frente.

A ascensão dele foi algo que lembra – desculpem se acharem a comparação um pouco fora de contexto – à do espetacular astro do soul Otis Redding, morto em um acidente no próprio avião, aos 26 anos. Clifford ia fazer 26 – coincidência ou não, Hendrix, Morrison e Joplin, com 27, um a mais – e ambos estavam no topo e, certamente, avançariam muito além. Redding morreu sem ter visto (Sittin’ on) The Dock of the Bay atingir o primeiro lugar das paradas. Brown gravava um disco melhor que o outro pela EmArcy. Numa noite chuvosa de junho de 1956, a caminho de Chicago, onde fariam uma apresentação, a mulher do pianista Richie Powell, que dirigia o carro, perdeu o controle e derraparam. Resultado: três mortos.

Max Roach, um dos pioneiros do bebop e dos maiores bateristas da história, já era figura de proa no jazz quando surgiu Brown. Mesmo assim, ao formarem a banda, deixou que Brown tivesse seu nome em primeiro lugar. A bateria enérgica de batidas limpas combinaram perfeitamente com seu trumpete. E não seria despropósito algum dizer que Roach foi o par ideal de Brown. Juntos, com o belo sax tenor do underrated Harold Land, do pianista irmão menor de Bud e igualmente talentoso, Richie Powell, e George Morrow no baixo, formaram uma das mais integradas bandas do jazz. Eram excepcionais nas músicas uptempo, em que a bateria de Roach brilhava e que, nas baladas, Land – como em Darn That Dream –, Powell e Clifford despejavam emoção da mais pura qualidade.

Algumas músicas ficaram associadas às interpretações de Brown e Roach: Delilah, do mesmo Victor Young, que compôs I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You – que tem um belo solo de Richie Powell e lembra seu irmão Bud –, Parisian Thoroughfare e Jordu, de Duke Jordan. Nem é preciso dizer a mesma coisa de The Blues Walk, Daahoud e Joy Spring: são composições do trumpetista.

Segundo Julio Cortázar, Brown “inventa uma ilha do absoluto na desordem, onde ele e tantos outros estamos mortos”. Talvez pensasse assim o argentino quando se arriscava a “ser” Clifford ao tocar amadoristicamente seu trumpete.

Ouça o clássico Clifford Brown and Max Roach, gravado entre 1954 e 1955, pelo selo EmArcy.





Esse texto foi publicado e escrito em 5 de abril de 2010

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Martha Argerich, ou o que são e o que achamos que são

Temos o costume de colocar os gênios em panteões. Assim, tornam-se inatingíveis e guardamos uma distância respeitosa e, ao mesmo tempo, temerosa. E o medo faz coisa. Ninguém é deus e muito menos, inatingível. A revelação dos deslizes do ídolo do golfe Tiger Woods, em atitudes absolutamente humanas – traía intencional e determinadamente sua esposa com mulheres menos belas que ela e com profissionais do sexo –, fez com que, de quase deus virasse o que, no fundo, todos são: “ordinários”, no sentido da palavra em inglês, que significa “simples”. Sim, simples humanos.

Sim, gênios são peculiares e, incluídos nesse gênero, os prodígios. Em algumas especialidades as tendências manifestadas cedo são essenciais ao posterior desenvolvimento de suas características especiais. Mas não basta o prodígio. Mais que ele é preciso muita disciplina e treino. No tênis, para citar um caso célebre, temos o de Björn Borg, que, prematuramente, aos 26 anos abandonou as quadras para viver a “high life” a que todo milionário poderia se permitir. Descobriu que, além da férrea disciplina a que era submetido, “lá fora” existiam mulheres lindas, drogas e muita festa. Outro tenista, “muy” amigo, Vitas Gerulaits, foi um dos responsáveis por esse “desvio” em sua vida. E, afinal, não foi muito feliz nesse “novo mundo”. Gastou todo o dinheiro que ganhou, entrou em empreendimentos que lhe custaram a falência e tentou o suicídio uma vez.

Esse caso de desvio, por outros caminhos, aconteceu com o maior enxadrista brasileiro de todo os tempos, Henrique da Costa Mecking, o “Mequinho”, terceiro no ranking mundial. Conheceu o ocaso por conta de uma doença rara – a miastenia – e algumas excentricidades toleradas apenas nos gênios.

Argerich, grande virtuose, grisalha e feliz
No entanto, é na música que o pendor parece indispensável, principalmente no piano. A maioria dos grandes virtuoses deste instrumento mostrou seus talentos muito cedo, alguns com apenas três anos de idade. É o caso do brasileiro Nelson Freire. O mineiro, que grava pela Decca, uma das maiores do repertório clássico, é hoje um dos maiores pianistas vivos. Acontece o mesmo com sua grande amiga, a argentina Martha Argerich.

Dizem que genialidade não escolhe lugar para nascer. Pode sugir um gênio musical nos confins da mata amazônica? Pode ser? Improvável? E depois, nada acontece se não houver um pequeno “empurrão” do destino… ou do governo. Um caso exemplar – vamos ficar circunscritos à América Latina – é o de Claudio Arrau. Prodígio – fez sua primeira apresentação pública com cinco anos –, filho de família tradicional, com menos de dez anos, foi enviado junto com sua mãe – o pai morreu quando tinha um ano –, financiado pelo governo chileno, para estudar na Alemanha com Martin Krause. Isso se deu nos anos 1910.

Bom tempo depois, sucedeu-se algo parecido com outro prodígio: Martha Argerich. Juan Perón, presidente à época, subsidiou sua ida para a Europa para estudar com Friederich Gulda na Áustria, empregando seus pais em embaixadas. Até hoje, de uma geração de ouro em que se destacam Maurizio Pollini, Alfred Brendel, András Schiff, Stephen Kovachevich – que era Bishop e trocou o nome por causa de um astro de rock homônimo – e o brasileiro Nelson Freire, a argentina é pianista do primeiro time.

Está disponível em streaming na Prime Video o belo documentário Martha Argerich – Conversa Noturna, de 2003, direção de Georges Gachot, pelo selo EuroArts, que, desde o ano passado, está lançando uma série de títulos de música clássica no mercado brasileiro. Vemos os gênios como pessoas inatingíveis, como disse inicialmente. A Martha que imaginei, deveras, não existe. Aquela mulher que tinha um certo ar existencialista, com bastos cabelos negros, olhos levemente amendoados, fumante, era a “dama inatingível”. É possível que essa imagem tenha se sedimentado por conta do incidente em que, como protesto, abandonara o júri de um desses concursos de piano, quando um competidor, o croata Ivo Pogorelich, fora eliminado. Dizendo que Ivo era um gênio, foi embora. Parecia atitude de “prima-dona”.

No documentário de Gachot, essa impressão vai embora. Primeiro pelo seu jeito de “não estar nem aí” para a aparência visual. Em vez da senhora cheia de “pancake” no rosto, de cabelos cuidadosamente cofiados, estamos à frente de alguém que não se preocupa em tingi-los e muito menos de penteá-los mais cuidadosamente. Suas mãos – invariavelmente belas, produzem sons tão sublimes – carecem de nuanças que as enfeitem. Sem um traço de maquiagem, fala, e muito. É um susto. Achava até que não falava! Conta histórias engraçadas como a de Friederich Gulda que, ao conhecer o inexcedívell jazzista Erroll Garner, disse-lhe que seu piano lembrava a música de Ravel. Erroll respondeu: “Quem é esse cara?”. Mais ou menos assim.

O aparente “estrelismo” se explica pela timidez. Imagine-se uma menina de pouco mais de dez anos fora de sua terra natal, viajando sem parar, sem poder fazer amigos ou brincar como qualquer criança. É o sacrifício dos gênios. A quase criança, com dezessete anos sentia-se uma mulher solitária de 40. Argerich sobreviveu à disciplina a que se submeteu e parece feliz tocando piano. É o que passa o bom documentário de Gachot.

A naturalidade das mãos de Argerich passeia pelas teclas do piano em suave dança, enérgicas quando necessária, pelas composições mais difíceis de Liszt, de Prokofiev, por atmosferas diáfanas como a de Mamãe Gansa – que toca a quatro mãos com Nelson Freire –, de Ravel, são pura magia. Se o homem normal vir alguns objetos como inatingíveis, os gênios também. Martha, logo no início do documentário, fala de quando foi assistir a uma apresentação de Claudio Arrau, bem menina, com sua mãe: “Foi a emoção mais forte que senti com a música. Eu tinha seis anos, lembro-me bem. Foi com o 4º de Beethoven [4º Concerto para Piano e Orquestra, op. 58]… que eu não toco.” Pois é, Martha nunca tocará esse que, com o terceiro, são dos mais belos de todo o repertório bethoveniano.

Veja e ouça:
Ravel – Jeau d’eau.



O link para assistir ao vídeo é https://www.primevideo.com/-/pt/detail/Martha-Argerich---Conversas-Noturnas/0N31V4C0827WBDLSROLD4BNNFN

Publicado em 17/3/2010 pela primeira vez

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mel Tormé, Carlos Conde, Alberico Cilento e Siero

Carlos Conde foi uma referência para muitos de nós quando o assunto é jazz. Por muitos anos, até pouco antes de adoecer, manteve seu programa na Rádio Cultura, sempre trazendo novidades do gênero, adquiridas em suas viagens semestrais a Nova York e a outros lugares. Em cada viagem comprava cerca de 200 CDs. Para que não fossem apreendidos pela alfândega, jogava fora as caixinhas (jewel boxes), trazia os disquinhos em porta CDs da Case Logic, as capas e encartes em um envelope. 

Apesar da diferença de idade, ficamos amigos. Minha timidez impedia de abordá-lo e me apresentar. Outro grande especialista e colecionador era o Alberico Cilento. Via-o sempre na Grammophone, uma loja cuja matriz era no Rio de Janeiro, na avenida Juscelino Kubitshek, em São Paulo, e também na Edgar Discos, na rua Lacerda Franco, Pinheiros, que vendia mais discos usados do que novos. Não lembro direito de como ficamos amigos. Frequentei muito sua casa no Jardim Marajoara. Gostava de mostrar trechos de música com solos que considerava memoráveis. Aprendi muito com ele.

Por várias décadas, Alberico foi um dos bam-bam-bam do atendimento da DPZ. Ganhava muito bem mas nunca trocou seu Fiat 147; seus amigos diziam, “troca por um carro mais decente, mais de acordo com a sua posição”. Preferia ter um Steinway de um quarto da cauda do que se exibir andando em carrões. Na verdade, tinha dois pianos de um quarto de cauda. O Steinway da sala era para seus amigos músicos, como João Donato, tocarem. O Blüthner, que ficava na sua sala de música, onde ficava seu aparelho de som, os milhares de LPs e CDs, era para ele se exercitar como mero amador.

Não lembro também como foi a primeira vez em que conversei com o Carlos Conde. É bem provável que tenha sido na Grammophone. Vários compradores compulsivos de LPs, CDs e fitas de vídeo cassete (depois surgiram os Laser Discs, que eram caríssimos e tiveram vida curta) baixavam aos sábados de manhã na loja. É possível que Alberico tenha me apresentado ao Conde. Um outro colecionador que estava sempre lá era o Sieiro, um espanhol de voz forte, como a do Conde. Era mais eclético; gostava de todos os gêneros musicais, fora o sertanejo, certamente. Para se ter uma ideia, quando resolveu vender seus LPs que se encontravam no sítio em Mairiporã, entrou em contato com o músico e cantor Ed Motta e este arrematou 800 LPs de uma vez.

Apesar da diferença de idade, uns 25 anos, ficamos amigos. Do seu círculo de amizade de apaixonados por jazz eu era o mais novo. O negócio dele era o jazz trio, mais do que qualquer outra formação. Odiava jazz latino, vibrafones e congas. Nem podia ouvir falar de Tito Puente. Sendo um adolescente na década de 1970, fui iniciado no que chamavam de rock progressivo (Yes, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Van der Graaf Generator). Daí, passar a me interessar pela música estritamente instrumental foi um passo natural. Conheci Weather Report, Soft Machine, Chick Corea e Miles Davis. 

Conde, Russell Malone e eu
Meu gosto se inclinava aos mais modernos também, como John McLaughlin, Miles Davis elétrico, Weather Report e outros, apesar de gostar muito dos mais antigos, como Duke Ellingotn, Coleman Hawkins, Lester Young e tantos outros, muitos deles a partir das dicas dos meus amigos jazzófilos. Como todo bom colecionador, Conde gostava de bisbilhotar o que os outros estavam comprando. Olhava os que tinha separado e dizia: Chick Corea? “Mas você é jovem, então, tudo bem”.

Com o tempo fomos ficando próximos. Como ganhava muitos convites para shows por conta de seu programa, passou a me convidar para vários deles. Os melhores eram os do Bourbon Street. Sentávamos sempre na primeira fileira. Assim, assisti às apresentações de Bucky Pizzarelli (umas três vezes), Carol Welsman, Nnena Freelon, John Carter, Russell Malone, Karyn Allyson e outros mais. Depois dos shows, íamos ao camarim e ele sempre pedia que os artistas autografassem os CDs e LPs que levava. Todos os que tenho autografados, consegui-os porque ia na cola dele.

A história do disco com assinatura falsa. Acho que existe ainda a Jazz Record Center, uma loja que fica no oitavo andar de um prédio na West 26th Street. Conheci por causa dele. Além de venderem discos novos, a especialidade são itens de colecionadores e uma vasta memorabilia como pôsteres, livros, camisetas e revistas. Um dos itens são LPs e CDs autografados. Foi aí que descobri que o Conde não pedia autógrafos apenas porque era fã. Ele levava para Nova York e vendia. 

Certa vez, logo depois de voltar de Nova York, Conde disse com a maior alegria de que tinha vendido um LP do Mel Tormé autografado por 120 dólares. Daí Alberico contou que ele e um outro amigo resolveram pregar uma peça nele dando o LP em que eles próprios falsificaram o autógrafo, sabendo da idolatria que elnutria pelo cantor. Nunca imaginariam que ele levasse o disco para vender. Resposta do Conde: “Agora já foi; está vendido”.

Um último parágrafo. Nos Estados Unidos, muitos discos são anunciados nas revistas com datas de lançamento determinadas. Desafortunadamente, o CD “The Classic Concert”, com Mel Tormé, Gerry Mulligan e George Shearing, gravação de um show de 1982 no Carnegie Hall, sairia alguns dias depois que Conde já não estaria em Nova York. Ele ficou louco. Como sabia que eu estava indo para lá pouco depois, ligou para mim pedindo que comprasse o disco. Disse que assistiu ao show e era importante tê-lo. Claro, comprei para ele e para mim na J&R. Ouça o CD.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ryuichi Sakamoto e as cerejeiras em flor

O sonho secreto de Trudi era conhecer o Monte Fuji
Os cinéfilos, provavelmente, devem lembrar-se do filme Homens, de 1985, de Doris Dörrie na direção. Depois de muito tempo longe do circuito nacional, chegou-nos Hanami - Cerejeiras em Flor. A estrutura de Hanami é linear, para infelicidade dos que acham a descontinuidade e a desconstrução o máximo. É uma bela história de amor de uma casal da “melhor idade” – já inventaram tantos eufemismos para a palavra “velho” nesses tempos politicamente corretos! Esta é a mais recente, que sucede a “terceira idade” – Trudi (Hannelore Elsner) e Rudi (Elmar Wepper). Depois da morte da mulher, Trudi descobre que ela nutria uma paixão, que nunca revelara, pela cultura japonesa. Esse processo de descoberta é o parte da revelação para o marido daquela que passou tantos anos ao seu lado vivendo uma “vidinha” numa pequena cidade alemã e parecia tão circunscrita a tancanhêz desse pequeno universo. Primeiro, é levado pela namorada de sua filha a assistir uma apresentação de Tadashi Endo, um dos mestres do butoh, na capital alemã. Depois, mexendo nas coisas da mulher, descobre que ela conhecia o teatro butoh e colecionava imagens do Monte Fuji.

Rudi vai ao Japão – ele, que nem visitar os filhos em Berlin queria – e visitar o Monte como parte de “viver a vida” não vivida de Trudi.

Chama a atenção não só o enredo, em que o butoh não aparece por mero acaso – essa arte surgida depois da Segunda Grande Guerra é definida como a “dança da escuridão” –, pois Dörrie trata da morte, mas também as belas músicas que ouvimos nesse filme. Uma delas é Asadoya Yunta, e a outra é Chinsagu no Hana, canção folclórica da região de Okinawa, que fazem parte de um álbum de Ryuichi Sakamoto, lançado em 1990.

Sakamoto é bem conhecido dos brasileiros. Se o nome não soar tão familiar, uma lembrança: trabalhou como ator em Furyo – Em Nome da Honra (Furyio), de Nagisa Oshima. Compôs a trilha sonora de O Último Imperador e teve a música Bibo No Aozora incluída no filme Babel, de Alejandro Iñárritu. Quem viu Furyo deve se lembrar da música-tema Merry Christmas, Mr. Lawrence, A versão com letra, que se chama Forbidden Colours, é belíssima, na voz de David Sylvian. Vale a pena conhecer.

O som de Sakamoto é uma mescla de influências da música tradicional japonesa com a de outras culturas, inclusive a brasileira: gravou dois álbuns – Casa e A Day in New York – com Jacques Morelenbaum e a cantora Paula Morelenbaum. Desse universo conhecido como “world music”, Sakamoto se destaca pela modernidade e de como explora a instrumentação eletrônica – às vezes, um tanto indigesta ao explorar e mimetizar demais influências do hiphop, do rap e do eletropop –, mas sempre com resultados instigantes e originais. Na busca “world”, tem como parceiros músicos de todos os continentes.

Um disco, Beauty, que está entre os melhores que gravou, serve de amostra da versatilidade e talento em saber misturar as mais diferentes linguagens étnicas. É uma ousadia misturar instrumentos orientais com os ocidentais, percussão africana, indiana e japonesa e vocais em sua língua de origem com o inglês e até com o português. As citadas acima, Asadoya Yunta, Ao no Aozora e Chinsagu no Hana fazem juz ao título Beauty. São belíssimas, emocionantes e inesquecíveis. A parte “brasileira” cabe ao americano nascido em Pernambuco, Arto Lindsay na composição Rose: canta em inglês e perfeito “português pernambucano”. Em outra música, dentre as “excentricidades” ouvimos uma mistura de violino do indiano Shankar, as dissonâncias da guitarra de Lindsay, sons do grupo africano Farafina e vocais de Youssou N’Dour e em outra, participação brasileira do percussionista Naná Vasconcelos. Haja “world” para Sakamoto! No campo das interpretações idiossincráticas, registre-se a versão de We Love You, de Mick Jagger e Keith Richards, electropop percussiva com a participação mais que especial de um dos fundadores do Soft Machine, Robert Wyatt, nos vocais e backing de ninguém nada menos que o ex- Beach Boys Brian Wilson. No repertório das “belezas” desse álbum, não podemos deixar de citar Diabaram, com vocais “dilacerantes” do senegalês Youssou N’Dour (é, realmente o mundo está cada dia mais “worldy”: alguém imaginaria um japonês e um africano juntos?). É um dos grandes momentos dessa verdadeira alquimia chamada música que poucos sabem fazer.

Não deixem de ver o filme de Doris Dörrie e não deixem de ouvir Ryuichi Sakamoto. Pode começar com Forbidden Colours, cantada pelo grande David Sylvian.


Ouça Beauty, de Sakamoto.





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A beleza dramática do piano de Mal Waldron

Waldron e seu inseparável companheiro, o cigarro
Uma amiga, faz tempo, quando soube que eu ia viajar, pediu-me que trouxesse um produto da Clinique chamado “Dramatically Different Mosturizing Lotion”. Achei o nome um tanto forte e sugestivo, Ela não estava “dramaticamente estragada” e nem hoje está. O nome ficou na lembrança. Fato é que lembrei disso ouvindo o pianista Mal Waldron.

No início da carreira, tocou com o baixista Charles Mingus e com Billie Holiday em seus últimos dois anos. Rotulam-no como um representante do free jazz, mas não dá para classificá-lo nesse gênero particularmente. Quando ele passou a tocar profissionalmente, dominavam o cenário musical novaiorquino o bepop e o hard bop e é natural que tenha absorvido parte dessas linguagens.

Waldron, por excesso de trabalho e pelo consumo de algumas drogas ilícitas, sofreu um colapso nervoso e ficou afastado da cena musical de 1963 a 1969. O primeiro disco da “retomada” – Free at Last’ – foi também o primeiro da gravadora ECM, do alemão Manfred Eicher, que se tornaria conhecida por abrigar Keith Jarrett e por revelar talentos europeus “vindos do frio“, principalmente, da Escandinávia. Mal, a partir daí, gravou bastante, muita coisa em parceria com cantoras – Jeannie Lee, Abbey Lincoln, Judie Niemack –, e instrumentistas como David Murray, o avant-garde Steve Lacy e o baixista David Friesen, quase sempre com resultados muito bons. Seu piano começou a aparecer mais, em comparação às gravações das décadas de 1950/60: seus parceiros, geralmente, apareciam mais que ele. No belo disco The Quest, mesmo sendo as músicas de sua autoria, destacavam-se mais os solos do saxofonista e clarinetista Eric Dolphy e de Ron Carter tocando cello – quem tocava baixo era Joe Benjamin.

Não se pode considerar Waldron um improvisador por excelência, como Oscar Peterson ou Art Tatum são ou eram. Sua importância como intérprete se vale menos de “pirotecnias improvisatórias” e mais pelo modo personalíssimo de tocar e desenvolver os temas. Willow Weep for Me, que não é de sua autoria e está em Free at Last, é um bom exemplo: Waldron fica quase que tão somente na melodia, sem desdobrá-la em improvisos. Sua qualidade maior está em criar sonoridades diferentes. Um pouco como os “bops”, a tônica não está na melodia. A repetição dos motivos, a forma percussiva que ataca as teclas, sem floreios e o uso de poucas notas, dão um tom sombrio, “dramaticamente diferente”. Waldron “martela” nervosamente o teclado, porém, quando a música pede, toca com enorme delicadeza, sugerindo climas de paz, melancolia e um certo “lirismo impressionista”.

Foi lançado no meio de 2008 pela JustinTime um CD que é, provavelmente, a última gravação de Mal. Silence – duo do saxofonista David Murray e o pianista – foi gravado em Bruxelas, última morada de Mal, em 2001. Ele, depois do colapso nervoso, mudou-se para a Europa, vivendo, inicialmente na Alemanha e depois fixou residência em Bruxelas, onde morreu em dezembro de 2002. Dois anos anos antes apresentara-se no Chivas Jazz Festival. Ficara hospedado num flat na região dos Jardins e, no dia seguinte a sua apresentação, almoçava tranquilamente com outros músicos que estavam no Brasil, no Esplanada Grill. Um deles era Don Byron que, pela “cara-de-pau” de meu amigo Takashi Fukushima, viemos a conhecer. Mal fumava toneladas de cigarros. Uma amiga, fumante também, viajou no mesmo voo em que voltava para Bruxelas. Coincidência: em Roma, uma das escalas, encontraram-se… na área dedicada aos fumantes.

Murray tornou-se conhecido tocando no grupo “quase free” World Saxophone Quartet. Antes disso, em 1976, tinha lançado Low Class Conspiracy . Em seu primeiro disco sob seu nome, apresentava maturidade surpreendente para um jovem de vinte anos. Desde então, gravando solo, duos, trios, quintetos, octetos e bigbands, tem perto de uma centena de discos lançados. Mais surpreendente que a prolixidade é a de como consegue manter um bom nível de qualidade e a facilidade com que transita nos estilos jazzísticos, dos mais tradicionais aos mais experimentais.

A primeira faixa de Silence é uma antiga composição de Waldron em parceria com o baterista Max Roach – Free for C.T. –, em que David toca clarinete baixo. Nesse instrumento é capaz de atingir desde as notas mais graves às mais agudas com precisão impressionante e uma “alma” apenas comparável à do gênio Eric Dolphy, falecido precocemente em 1964. Murray, no sax-tenor, seu principal instrumento, sem dúvida, é um dos grandes virtuoses da atualidade. O início de Free… é uma pequena amostra das características de Waldron: notas e acordes que se intercalam entre os graves e médios, que se repetem e “potencializam” a força desta composição. O acompanhamento para o clarinete baixo é “seco” de acordes que se destacam mais pela forma sincopada que toca. O piano é majestoso, não é um simples acompanhante. Ele e o clarinete têm o mesmo peso até quando o solo é de Murray.

O “mood” do disco é de interpretações que realçam as características do piano de Mal: à exceção de Silence, composição de Murray – que é um belo “showcase” de seu estilo no sax-tenor – e Jean-Pierre, da última fase de Miles Davis, o restante é de baladas. Delas, a mais bela é a do clássico de Waldron – Soul Eyes –, também a faixa mais longa do CD, em que o pianista executa um solo belíssimo. É a outra, além de Free for C.T., em que Murray toca clarinete baixo. Inicia-se com um solo de quase sete minutos e é uma bela amostra da maestria de Murray como improvisador. Nos dois standards, I Should Care, de Sammy Cahn, Alex Sttordahl e Paul Weston, e All Too Soon, de Duke Ellington, os dois “arrasam”; a primeira, principalmente, é “dramaticamente” impecável.

Ouça o piano dramático em sua Seagulls of Kristiansund, aqui acompanhada pela fantástica Jeanne Lee.


Publicado pela primeira vez no meu outro blog (Da lata), em 26/72011.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O acumulador que deu certo


Uma linha tênue separa o colecionador do acumulador. Meu receio é o de não saber de que lado estou. Sempre comprei em quantidade, vinhos, charutos, sabonete, azeite de oliva, em suma, qualquer coisa.

Mais por distração, presumo, lembro de o acúcar está acabando. Vou ao mercado e, ao guardá-lo, vejo que tinha um pacote fechado na despensa. Nesses dias, além do açúcar, vi tenho em dobro, feijão carioca. 

Não acho que meu caso seja patológico, apesar de ter mais que três mil DVDs e Blu-Ray e mais de sete mil CDs, além de milhares de livros espalhados pela casa em prateleiras, inclusive no banheiro, esta, destinada à música e ao cinema, o que pode me classificar no gênero “colecionador”, mas não no de “acumulador”.

Nessa classificação, não conheci alguém que ganhasse, se houvesse um concurso, do seo José. Tendo convivido durante anos com ele, passando muitos fins de semana no sítio perto de Campinas, fiquei sabendo de muitas histórias, contadas pelos seus filhos, e algumas, que presenciei. Lembro de uma vez em que comprou um quilo de orégano. Dona Palmira, sua mulher, distribuiu saquinhos de orégano para quem aparecia na sua casa.

No tempo em que a linha telefônica era cara e difícil de se adquirir, tinha mais de dez. Bom, aí existia uma coisa objetiva: alugava e levantava um bom dinheiro. Com isso, alguns imóveis e uma boa aposentadoria como funcionário público, pode-se dizer que conseguia viver confortavelmente.

Ele tinha uma maneira sui generis de complementar a aposentadoria. Um exemplo: quando o metrô foi inaugurado, em 1974, comprou 1.000 bilhetes. Li em algum jornal, talvez há cerca de dez anos, em que se dizia que o preço do bilhete valorizou mais que qualquer aplicação financeira, mais que poupança ou ações. Não sei se ele tinha essa visão de grande investidor ou estrategista financeiro. Como bom descendente de português, acumulava e gastava pouco.

O famoso “tijorola”

Logo que o telefone celular foi lançado, quando você tinha ficar na fila para conseguir comprar um, ser José comprou duas linhas. Lembro que sua filha foi uma das primeiras pessoas que conheci que possuía o que era conhecido como “tijorola”. Explico: a primeira marca a surgir foi a Motorola, que dominou por anos o mercado, junto com a Nokia, que veio logo a seguir. O aparelho era enorme. Lembro também que os exibidos de plantão adoravam se mostrar com eles presos na cintura. Sempre tem um metido por mór. O ex-deputado federal Carlos Benevides, filho de Carlos Mauro Cabral Benevides, que foi senador entre nas anos 1970 e 80, ficou famoso porque gostava de se exibir com dois celulares, um em cada lado da cintura. Deram-lhe o apelido de “o mais rápido do Oeste”, remetendo aos pistoleiros dos westerns americanos.

Muitos leitores provavelmente nem vão saber dos famosos orelhões da Telesp. Foi uma criação genial de uma designer brasileira, uma derivação das cabines telefônicas de antigamente. Para utilizá-los eram necessárias as fichas telefônicas, de formato redondo, como as moedas, com uma ranhura no meio. Você inseria as fichas para poder fazer a ligação. Todo mundo andava com essas fichas no bolso para o caso de terem que ligar para alguém. Digo todo mundo porque todo mundo andava mesmo com as tais fichas porque era o único modo de se telefonar quando se estava na rua. Pois então, sei José tinha 1.500 delas em casa. Quando ficaram obsoletas, com o surgimento dos telefones móveis, algo tinha que ser feito. Um dos filhos levou-as até uma central da Telefônica e recebeu o valor correspondente em dinheiro.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Ralph Towner (1/3/1940 – 18/1/2026)

Um dos mais geniais violonistas da atualidade faleceu em 18 de janeiro de 2026, em Roma. Em 1º de março faria 86 anos. Associado ao gênero jazz, suas composições podem ser classificadas num contexto mais amplo. Músico com formação clássica, era bom pianista (a mãe tocava piano), trompetista razoável (o instrumento que seu pai tocava) e genial violonista. Estudou piano na Universidade de Chicago, e depois violão na Academia de Música de Viena.

Em uma entrevista feita pelo pianista alemão Pablo Held, ou melhor, uma conversa, em 2022, no YouTube, parecia que sua memória falhava. Em um certo momento queria citar o nome de um pianista italiano e a memória falhava. Era o de Arturo Benedetti Michelangeli. Foi apenas um lapso, como qualquer um de nós pode ter. No resto da conversa mostrou-se bem lúcido, conversando basicamente sobre música, em vários momentos usando o violão para exemplificar sobre o que falava. Pouco tempo antes fizera uma apresentação em Lugano, no Auditório Stelio Molo RSI, cujo registro foi gravado e tornou-se seu último disco: At First Light (ECM, 2023).

A paixão por Bill Evans foi determinante para seu interesse pelo jazz. No início dos anos 1970 tornou-se membro da Paul Winter Consort, banda com um viés “crossover“, mesclando a linguagem de improviso do jazz com música indiana e a folclórica. Glen Moore, Colin Walcott e Paul McCandless, que eram do Consort, resolveram montarem um grupo, o Oregon.

O primeiro álbum, em 1970, foi lançado por um selo pequeno, com pouca repercussão. Foi relançado dez anos depois, quando já eram bem conhecidos, com o título Our First Record. O segundo,  Music of Another Presente Era (1972) pode ser considerado o de estreia, pois tem uma distribuição decente, contratados pelo selo Vanguard. Ao longo da longeva carreira, que prosseguiu mesmo depois da morte do percussionista e citarista Colin Walcott, aos 38 anos em um acidente do ônibus que os transportava em uma turnê na Europa, lançaram cerca de 40 discos. Algumas participações dessa época, fora do Oregon devem ser citadas: I Sing the Body Electric (Columbia, 1972), segundo disco do Weather Report, The Restful Mind (Vanguard, 1975), de Larry Coryell, e In the Light (ECM 1973), de Keith Jarrett. 

A longa e profícua parceria. Convidado por Manfred Eicher, grava seu primeiro LP pela ECM Records em 1973: Trio / Solos. É um álbum de Ralph Towner – todas as composições são suas com exceção de Re: Person I Knew, de Bill Evans) – com a participação de seus companheiros do Oregon.

Não foi Manfred Eicher, dono e produtor do selo ECM, o pioneiro em montar formações diferentes com seu casting. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Norman Granz, fundador dos mais prestigiados selos voltados ao jazz, como a Norgran, Clef, Verve e, bem mais tarde, a Pablo, teve a ideia de reunir músicos em apresentações ao vivo com o espírito de serem uma espécie de jam sessions. Esses encontros eram gravados e depois lançados e intitulados Jazz at The Philharmonica (JATP).

Dentro desse espírito de reunir músicos convidados em combos inéditos, Eicher montou, por exemplo, um quarteto com o americano Keith Jarrett e músicos europeus (Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen). Eicher deu a oportunidade de Jarrett aventurar-se por outros formatos, como os piano solos (The Koln Concert foi o primeiro e tornou-se o disco de jazz mais vendido no mundo), concertos em formato de orquestra e câmara, duetos incomuns como o dele ao piano e Jack DeJohnette na percussão (Ruta and Daytia), álbuns dele tocando órgão e até cravo, executando a obras de Bach, Handel, Shostakovich e Arvo Pärt. Fora tudo isso, foram dezenas de álbuns no formato mais clássico do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. 

Depois do álbum Trio / Solos, citado acima, há dezenas de belos registros com John Abercrombie, Gary Burton, Eberhard Weber, Jon Christensen, Gary Peacock e Egberto Gismonti, dentre outros.  


Ouça Oceanus e Nimbus, do disco Solstice, e Palácio de Pinturas, de Sol do Meio Dia, de Egberto Gismonti.



Existem vários registros solo, como Diary (ECM, 1973), Solo Concert (ECM, 1980), Blue Sun (ECM, 1983), Anthem (ECM, 1981), Ana (ECM, 1997), Time Line (ECM, 2006), My Foolish Heart (ECM, 2017) e At First Light (ECM, 2023). O meu preferido é Solo Concert, registros de apresentações em Munique (Amerika Haus) e em Zurique (Limathaus). São quatro composições dele, duas de John Abercrombie (Timeless, a última faixa, é sublime) e Nardis, de Miles Davis.

Ouça.


Ouça também At First Light.