quinta-feira, 17 de maio de 2018

Atmosferas de Brian Eno

Brian Eno, em 1972, estava na onda “glitter”.
Depois de ouvir alguns trechos da recém lançada compilação “Music for Installations”, lembrei-me do quanto já gostei de Brian Eno.

Para a exposição que participei no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), em 1985, usei um trecho a ele creditado: “Eu quero construir em música, uma geologia, sobre ela uma geografia e sobre esta, uma paisagem. Depois, quero povoar esses lugares com criaturas, algumas das quais poderiam ser, eventualmente, humanas.”

Desde que tive noção da minha existência, a música existiu comigo. O meu tempo, na infância, foi o dos rádios ligados. Cansei de ouvir Tonico e Tinoco, Miguel Aceves Mejía, Elvis Presley e Altemar Dutra. Era o que a moça que trabalhava na casa de meus pais ouvia. Era a música que fazia parte do ambiente. Mas não era música ambiente. Ouvia em volume relativamente alto, para a ira de minha avó, japonesa que sequer aprendeu a língua portuguesa.

Houve um tempo em que se usou a expressão “muzak”, para definir aquele fundo musical que se ouvia em elevadores, restaurantes, aeroportos etc. O termo desapareceu. Pena. Gostava muito da sonoridade da palavra, que definia muito bem o sentido.

Brian Eno teve a brilhante ideia de apropriar o termo – ou o sentido – ao gravar uma série de “Music for…”. O primeiro foi “Ambient: Music for Airports” (1978). Não há muita diferença entre estar em um elevador ou em um aeroporto: a atenção é voltada às interrupções, quando anunciam o próximo voo ou o andar e logo depois, sendo a música algo para preencher silêncios
O termo “ambient”  encaixa-se muito bem à ideia do conceito sonoro pretendido por Eno; o outro é “atmosfera”. Sua música de aeroporto não almeja a beleza, apesar de ser, é apenas um conjunto de sons que rompem o silêncio sem nunca sobressaltar seu ouvinte.

Mais atmosféricos e menos ambient é “Music for Films” (1978). Segundo Eno o disco resulta de “uma compilação de fragmentos de vários dos meus trabalhos dos últimos dois ou três anos.” Neste, cada título sugere alguma situação ou momento, em construções climáticas geniais, com trechos extraídos de intervenções de Robert Fripp, Fred Frith, Phil Collins, Paul Rudolph, John Cale e Percy Jones, dentre outros. Na música para aeroportos, cada faixa é um número, simplesmente – 1/2, 1/2, 2/1, 2/2. Digamos que, para os aeroportos, Eno nos proporciona uma viagem sem sobressaltos, e nos filmes, viagens com (muita) emoção.

Ouça “Inland Sea”.




Ouça “Quartz”.




Ouça “Final Sunset”, a última do álbum.




Um dos meus preferidos desse período é “Before and After Science” (1977). Algumas razões são bem superficiais, como o fato de ter comprado o LP importado em uma época que era caro e o dinheiro da mesada era contado. Privei-me dos sanduíches e refrigerantes dos intervalos na escola. Quando surgiram os CDs, não resisti em comprá-lo na nova versão.

Em “Before and After Science”, a diferença é que Eno canta também. Por ter gostado, fui atrás de outros álbuns em que canta: “Here Come the Warm Jets” (1974), “Taking Tiger Mountain” (1974) e “Another Green World” (1975). Em 1993, foi lançada uma caixa luxuosa com sua produção vocal. Nessa época, tinha um pouco mais de dinheiro. Não pensei duas vezes: comprei.

Uma das minhas preferidas era “Julie with…”.




Outra genial é “Spider and I”.




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