quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Sua majestade, Sarah Vaughan

Sarah Vaughan era boa no piano também
Um locutor de uma emissora americana de rádio, ao anunciar uma música cantada por Sarah Vaughan, fez um comentário, não lembro exatamente, no entanto, algo como “Se a voz dela soa assim, imagine o peido.” O comentário de mau gosto chegou aos ouvidos dela. Saiu no jornal que ela ia processar. Não sei se chegou a fazer isso. Ao contrário de Ella, que manteve a mesma voz até a velhice, as de Billie Holiday e de Sarah mudaram com o tempo.

Minha paixão por Sarah é perenal, mais até do que por Holiday e Fitzgerald. As três, até hoje são consideradas as melhores de todos os tempos. Mas é ela quem ouço mais, apesar da superoferta de cantoras no mercado. Mais ou menos no patamar das três, das antigas, impossível não citar Carmen McRae, Peggy Lee, Anita O’Day, Doris Day, June Christy e Chris Connor. Mais recentes, ou intermediárias, como Shirley Horn, Dinah Washington, Betty Carter e Irene Kral, temos boas cantoras como Diana Krall, Karrin Allyson, Gretchen Parlato, Stacey Kent, Cécile McLorin Salvant e, a minha preferida atual, Roberta Gambarini.

Mas, voltando à Sarah, conhecendo melhor Ella e Billie, um álbum tornou-se um dos meus preferidos de todos os tempos, e me fez ficar sem saber quem era a minha preferida, quando era uma senhora experiente e abusada. “How Long Has This Been Going on?”, lançado em 1978, pelo selo Pablo, de Norman Granz, seu dono e produtor, contava com os experientes Oscar Peterson, Joe Pass, Ray Brown e Louie Bellson. A Sarah madura tinha uma voz grave, de contralto e com uma compreensão absurda do que cantava.

Nem todos irão concordar comigo sobre a Sarah dessa época, podendo dizer que abusava dos vibratos e cometia excessos ao explorar a sua enorme capacidade de modular a voz. Na minha opinião, tinha atingido o auge e sentia-se muito feliz de não precisar provar mais nada a ninguém.

Alguns temas são cantados com a banda, e outros em duo. O álbum começa com “I’ve Got the World on a String”. A melhor versão ainda continua sendo a de Ella Fitzgerald. Os versos, que são uma celebração à vida – Life is a beautiful thing, as long as I hold the string/ I'd be a silly so and so, if I should ever let go// I've got the world on a string, sittin' on a rainbow/ Got the string around my finger/ What a world, what a life, I'm in love – nunca foram tão belamente cantadas como na gravação de 1952, com a orquestra de Sy Oliver.

Em “Midnight Sun”, la Vaughan excede. Com a delicada guitarra de Joe Pass, aos primeiros versos nos paralisa com a voz que vem lá do fundo da alma. Enrola a língua em “And then your arms miraculously found me”, e realça as rimas ricas de Johnny Mercer: aurora borealis/tight, ruby chalice/alabaster palace. É um dos grandes standards essa composição de Lionel Hampton e Sonny Burke.




A música título é cantada com a banda, assim como as duas seguintes, que estão entre as melhores interpretadas. “You’re Blasé” é genial e emocionante, assim como “Easy Living”.Oscar Peterson é grande pianista acompanhando cantores. Sarah completa com “More Than You Know”. É uma trinca verdadeiramente infernal. Sarah é gênio, e sabe disso. É genialidade com o pé nas costas.

“You”re Blasé”.




Com tão bons números, impossível ficar melhor? Errado. São quatro números em duo, cada uma com um dos componentes da banda. Começa pela magistral interpretação de Peterson, em “More Than You Know”. Suas primeiras notas lembram um pouco o mais famoso tema de Joaquín Rodrigo.




“My Old Flame” é cantada com acompanhamento de Joe Pass.




Em “Body and Soul”, Sarah atrasa e acelera os tempos com o contrabaixo excepcional de Ray Brown.




Louie Bellson dá um show na bateria em “When Your Lover Has Gone”.




Outros álbuns da Pablo
Vale citar alguns discos dessa época: “Duke Ellington Songbook vols. 1 e 2” (1979), “Copacabana” (1979), fraco, dedicada à música brasileira, “Crazy and Mixed Up” (1982) – neste, canta “The Island” e “Love Dance” – e “Send in the Clowns” (1981). Neste último, sua interpretação da música título é sublime. É a melhor de todos os tempos… na minha opinião, você pode discordar. Feliz Natal e votos de um novo ano menos conturbado.

Para fechar o ano, ouça “Send in the Clowns”, de Stephen Sondheim.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“All of Me”, do jeito que o capeta gosta

“All of Me” vira reggae, com Nnenna Freelon
Não sei precisar a data da canção considerada como primeiro standard do cancioneiro americano. Sei que “Alexander’s Ragtime Band”, primeiro hit de Irving Berlin, foi lançado em 1911. Nascido Israel Isidore Baline, na Rússia, quando emigrou para os Estados Unidos e foi morar em Nova York, nem tinha cinco anos, portanto, de sua terra natal não deve lembrar-se de nada. Teve apenas a herança da cultura da família de origem judaica.

Mais de um século depois, muitos dos standards que ouvimos e admiramos até hoje, são pouco mais novos que “Alexander’s Ragtime Band”. Aliás, Berlin é responsável por uma penca desses clássicos. Apenas para citar, são dele “Let’s Face the Music and Dance”, All By Myself”, “How Deep Is the Ocean”, “Puttin’ on the Ritz”, “Lazy”; “Isn’t This a Lovely Day”, Always”, “Remember”, “Change Partners” e “Cheek to Cheek”. E isso não representa nem 10% do que compôs. É um dos “great american composers”, no qual incluem-se Cole Porter, Richard Rodgers, George Gershwin e Duke Ellington. Outros, com menos clássicos no portfólio, como Burt Bacharach, Henry Mancini, Stephen Sondheim, não podem deixar de ser citados. Alguns são autores de um sucesso só e basta. Acho que é o caso de Gerald Marks e Seymour Simons, autores da belíssima “All of Me”, gravada pela primeira vez em 1939. Quem não conhece?

É tão popular que até mereceu uma versão em português, de autoria de Haroldo Barbosa, conhecida como “Disse Alguém”. Quem ouviu “Brasil” (WEA, 1981), álbum que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil e João Gilberto, conhece.

Melodia simples e letra banal, foi cantada por todo mundo, incluindo Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Frank Sinatra, e até por Eric Clapton e Paul McCartney. Simplesmente, não há um grande intérprete que não a tenha cantado ou tocado.

Pressupondo que o mundo a conhece, vale a pena conhecer interpretações diferentes, como a com o balanço irresistível de João Donato.




E, por que não em ritmo de reggae, com Nenna Freelon? Não é, Xico Guedes




Ouça a versão em português com João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Trio genial.



Uma versão clássica é a de Dinah Washington. Esta é de uma apresentação no Festival de Newport, em 1958.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O encontro especial de Kurt Elling e Branford Marsalis

Kurt Elling. Outro fã do “soul patch”
Quando Kurt Elling esteve em São Paulo para apresentar-se no Bourbon Street Music Club, não lembro mais há quanto tempo, o Carlos Conde (desconfio que ele não gostava muito dele) ofereceu-me dois convites para o show. Normalmente me chamava para ir em apresentações internacionais de jazz quando Dora, sua mulher não estava a fim. Nessa altura, Kurt já era, disparado, considerado o melhor cantor de jazz; pela crítica, que seja dito.

Quase desconhecido no Brasil até hoje, acredito, depois de ser considerado o melhor pelos críticos da Downbeat por uns quinze anos seguidos, em 2013, foi “destronado” por Gregory Porter. Não sei se é justo. É provável que os britânicos estejam um pouco fartos da rainha Elisabeth, assim como, os cubanos, de Fidel, que acaba de falecer. Cansa, né. Chega uma hora em que desejamos uma mudança, por melhor que sejam os que estão no trono.

Um dos fatores responsáveis pela “queda” de Elling pode ser a de que seus dois últimos álbuns não acrescentem muita coisa em relação aos anteriores. Reverenciado pela crítica, não imagino que seja amado pela patuleia. Apesar de ser desse grupo, desde o começo, achei-o um cantor diferenciado, o melhor na minha opinião. Não tem o apelo popular de um Michael Bublé ou Jamie Cullum, o que, serve como elogio.

Terminada a apresentação no Bourbon, para a minha e a surpresa de outros, postava-se na saída para cumprimentar um a um os que saíam. Adorei o seu gesto. Simples e de extrema cortesia. Poderia ter trocado algumas palavras ou pedido um autógrafo, porém, devido a surpresa, apenas trocamos um cumprimento. Naquela época, Kurt tinha os cabelos compridos, em corte reto, que passavam um pouco da nuca e um montículo de barba logo abaixo do lábio que descubro agora chamar-se “soul patch”, como o de Dizzy Gillespie.

O tempo passou e Elling, de vez em quando cansa do “soul patch”, mas volta a usá-lo. Deixou a magreza para trás e a cabeleira, mais curta, continua impecavelmente cofiada.

Aproveitando a proximidade do Natal, acaba de lançar o seu “sings Christmas”. Diferente de qualquer disco de Natal, sempre com aqueles temas batidos tocados de maneira burocrática, é bem Kurt: há sempre um traço de originalidade e de ousadia. Quem sabe, essa pode ser a razão de não ser tão popular. Recusa-se a caminhar nas vias do meramente conhecido, mesmo quando interpreta standards. Em seus álbuns além de clássicos do cancioneiro americano, sempre há algum número fiferente. Canta músicas do repertório brasileiro, em português, geralmente – e não fica apenas na bossa nova –, espanhol, francês e até arrisca um lied, de Johannes Brahms, como no último “Passion World” (Concord Jazz, 2015), Além de algumas composições de próprio punho, gosta de ciscar em outros ninhos. Com aquela surpresa positiva, encontramos, por exemplo, uma música do King Crimson, ou alguma do Weather Report, com letras dele.

Branford e Kurt. O “soul patch” ficou branco
Branford Marsalis e Kurt
Se “Passion World” e o anterior “1619 Broadway” (Concord 2013) – referência ao endereço da Brill Building, local que abrigou estúdios e escritórios de gente ligada à música –, não são superiores aos seus CDs anteriores, o recente “Upward Spiral” (OKeh, 2016), de Branford Marsalis, “featuring Kurt Elling”, atende bem ao gosto daquele que queria vê-lo mais “jazz”, o que não significa dizer que deixe de explorar outros gêneros. Kurt e Branford subverteram ordens estabelecidas desde o início de suas carreiras.

O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).

O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.

Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.

Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.

Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).

Em “Upward Spiral” (OKeh, 2016), apesar de a primeira (There’s a Boat Dat’s Leaving’ Soon for New York”) e última (“The Return – Upward Spiral”) serem mais upbeat, Paul de Barros, em sua crítica na Downbeat, em que confere 4 estrelas e meia para um máximo de cinco, descreve o álbum como “um trabalho outonal que reflete sobre perda, dor e expectativas frustradas.”

Em um repertório “outonal”, não poderiam faltar “Blue Gardenia”, “I’m a Fool to Want You”, “Só Tinha de Ser com Você” e a soturna “Blue Velvet”, de Bernie Wayne e Lee Morris. Dois bons destaques são do repertório pop-rock: “From One Island to Another”, de Chris Whitley, e “Practical Arrangement”, de Sting, que, aliás, estão entre as melhores, a primeira, pela brilhante e enérgica interpretação da banda, com destaque para Joey Calderazzo, e a segunda, pelo canto emocionante de Kurt. Dentre as composições próprias, o ponto alto é “Cassandra’s Song”, de Marsalis e Elling.

Ouça “Cassandra’s Song”.



Dentre os standards, bela é “Blue Gardenia”. Traz na lembrança o brilhante álbum de John Coltrane com Johnny Hartman, ao se ouvir o sax de Marsalis.



Brilhante mesmo é “Practical Arrangement”. Elling arregaça.



Veja também os dois em “I’m a Fool to Want You”. 



Um preview do álbum.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Edward Simon, bem longe de Maduro

A Venezuela não é pródiga em apenas produzir grandes dirigentes políticos como Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Há algo de especial nesse país. É a terra das mais belas misses. Tiveram não sei quantas beldades dentre as cinco melhor colocadas no prestigiado concurso de Miss Universo, outrora controlado pelo distinto magnata Donald Trump.

Mas é na música que a Venezuela mostra o seu diferencial em relação aos outros países da América Latina. Sem desconsiderar o Brasil varonil, que produziu Heitor Villas-Boas, Nelson Freire e revolucionou – e convulsionou – o mundo da música ocidental com a Bossa Nova. O país de Chávez tem o seu grande representante na música erudita o compositor Reynaldo Hahn, nascido em Caracas em 1847; naturalizou-se francês mais tarde. Eles possuem um dos mais revolucionários e eficazes órgãos de aprendizado musical, cujo temerário nome é “El Sistema”. Antes que o mais apressado leitor ache que foi criado pelos governos revolucionários bolivarianos, é bom que se esclareça que nasceu em 1975, ideia de José Antonio Abreu. Passou por vários governos e, reconheça-se que no período Chávez, o programa avançou bastante. Ele é dirigido à população mais carente e utiliza a música como uma via de desenvolvimento intelectual e inclusão social. Segundo a Wikipedia, atende a cerca de 350 mil jovens. É o tipo de coisa que deveria ser implantado no Brasil e em outros países que antigamente eram classificados como “Terceiro Mundo”.

Dos egressos de ‘El Sistema”, o maior nome é o de Gustavo Dudamel. É um dos maestros mais famosos da atualidade. Rege as melhores orquestra, é diretor musical da Los Angeles Philharmonic, sucedendo Esa-Pekka Salonen, seu diretor musical por cerca de dezesseis anos. Comanda também a Orquestra Sinfónica Símon Bolívar, formada por membros, em sua maioria, que cursaram o El Sistema. Dudamel é carismático, competente e vibrante, e, sinal de prestígio, grava pela Deutsche Grammophon, a mais tradicional da música erudita.

Outro nome conhecido é Gabriela Montero. Pianista, prestigiada por Martha Argerich, morando atualmente em Los Angeles, é ferrenha inimiga de Dudamel. Sua crítica é quanto ao silêncio dele em relação à atual crise do governo chavista. Mas isso são coisas da política.

Jazz na América Latina
Se na música erudita se destaca, natural que em outros gêneros menos superiores, como o jazz, a Venezuela tenha bons instrumentistas. Os pianistas Silvano Monasterios, Luis Perdomo e Edward Simon são bons exemplos.

Devido a proximidade com os Estados Unidos, por capilaridade, os primeiros músicos de países de língua hispânica a se destacar foram os da América Central e proximidades. Além de bananas, “exportaram” os ritmos “calientes”, que chegaram pelas mãos de Mauro Bauza e Machito. Cuba é o país campeão exportador, principalmente, pianistas. De memória, posso citar Bebo Valdés, Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba, Omar Sosa, Roberto Fonseca, Aruán Ortiz, Alfredo Rodriguez e Harold López-Nussa. Dos citados, os quatro últimos são da novíssima geração. Nos outros, temos Danilo Pérez (Panamá), Edsel Gomez (portorriquenho, que passou uma temporada no Brasil), Arturo O’Farrill (mexicano de nascimento, filho do cubano Chico O’Farrill) e Michel Camilo (República Dominicana).

Edward Simon “for export”
Todos têm em comum o fato de, para ficarem conhecidos, tiveram de ir para centros maiores. É o caso de Edward Simon. Jovem ainda mudou-se para os Estados Unidos e estudou piano na Philadelphia Performing Arts School e na Manhattan School of Music, com Harold Danko. Com 46 anos, é um músico respeitado e, antes de seus álbuns como líder, gravou com Paquito D’Rivera, Bobby Hutcherson, Bobby Watson, Terence Blanchard e Greg Osby. Seus dois últimos discos foram lançados pela prestigiada Sunnyside. Simon saiu da América Latina, mas o latinismo não saiu dele. O de 2013, chama-se “Venezuelan Suite”, o mais recente, “Latin America Songbook”. Aliás, a maioria de sua discografia é composta de títulos hispânicos.

“Venezuelan Suite” é composta de cinco movimentos, e é uma peça ambiciosa, com belos arranjos executados por Mark Turner (sax tenor), Marco Granados (flauta), John Ellis (clarineta baixo, mas primeiras quatro faixas), o colombiano Edmar Castañeda (harpa, primeira faixa), contrabaixo, bateria, Jorge Glem (quatro, instrumento venezuelano de quatro cordas, dimensões entre o o violão e o cavaquinho), Leonardo Granados (maracas), e Luis Quintero (percussão).

“Latin American Songbook” segue uma estrutura mais simples, em formato trio piano (ele), Joe Martin (contrabaixo) e Adam Cruz (bateria). A escolha das canções é o diferencial. É o melhor do melhor da música latino-americana, a começar por “Libertango”, de Astor Piazzolla. Fica melhor ainda com o clássico “Afonsina y el mar”, de Ariel Ramirez. As outras são “Capullito de Aleli” (Rafael Hernández), “Volver”, de Carlos Gardel, “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, “En la Orilla del Mundo”, de Martin Rojas, e o nosso “Chega de Saudade”, do mestre Jobim.

“Alfonsina y el Mar”, de Ariel Ramirez, é muito conhecida na voz de Mercedes Sosa, aqui no Brasil. É um daqueles clássicos sublimes. Veja Simon interpretando-a.




Veja Simon e seu trio em “Double Rainbow”, conhecida por nós como “Chovendo na Roseira”.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As multifases do polirrítimico Jack DeJohnette

Jack e seu arsenal percussionístico
Tal como foi dito em outro post (O tempo em movimento com Jack DeJohnette), Jack DeJohnette nasceu em Chicago e iniciou-se musicalmente na cena vanguardista dessa cidade que é um dos grandes centros do jazz e do blues. Foi para lá que Louis Armstrong se mudou em 1922, para tocar com King Oliver na Creole Jazz Band. A partir daí, tornou-se um dos lugares preferidos dos músicos.

Aos 74 anos, completados em agosto último, é ainda um dos melhores bateristas do mundo. E o melhor, continua a nos surpreender. Basta dizer que seus últimos dois álbuns, “Made in Chicago” (ECM 2015), com a ‘velha” vanguarda, que atende pelos nomes de Muhal Richard Abrams, Henry Threadgill, Roscoe Mitchell e Larry Gray, e o mais recente “In Movement” (ECM 2016), com os jovens Matthew Garrison e Ravi Coltrane, ambos filhos dos geniais, respectivamente, Jimmy Garrison e John Coltrane, demonstram que sempre esteve na ponta da evolução do jazz. Não é fácil. São mais de 50 anos como profissional.

Quando criança, estudou piano clássico com professores em casa e depois no Chicago Conservatory of Music. Entrou na cena musical como pianista e baterista. Teve os horizontes ampliados a partir do contato com músicos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), o mais importante centro da vanguarda do jazz.

Passou pouco tempo na banda de Charles Lloyd, a mesma que teve outro membro em início de carreira e, como ele, genial. Por obra do destino, os dois, DeJohnette e Keith Jarrett, com o baixista Gary Peacock, no futuro, iriam formar um dos trios mais consagrados e longevos.

Os caminhos de Keith e Jack foram se cruzando em vários momentos. Tocaram com Miles Davis nos anos 1960 e depois partiram para brilhantes carreiras solo. O primeiro lançou seus primeiros discos pelos selos Atlantic e Impulse. Jack lançou, em 1968, seu primeiro como líder: “The Jack DeJohnette Complex”, pela Milestone, e logo depois, “Have You Heard” (1970). Passou para a Prestige e lá saíram “The Sorcerer” (1974) e “Cosmic Chicken” (1975).

Os dois passaram a gravar também pelo selo ECM. Jarrett lança seu primeiro LP em 1971: “Facing You”. No ano seguinte, com DeJohnette, em duo, gravam “Ruta and Daytia”. Se não me engano, é a última vez que toca algum instrumento eletrônico. Aqui, desdobra-se no piano acústico, elétrico, flauta e órgão. Jack toca bateria e vários instrumentos de percussão. Não foi um disco que teve tanta receptividade, mas é muito bom, principalmente, por ser bem experimental e ter a percussão como protagonista.

Ouça “You Know, You Know”, uma das faixas mais interessantes, com Keith ao piano elétrico.




Primeiros na ECM
Depois desse álbum, DeJohnette participa de “Timeless”, de John Abercrombie. Grava mais alguns com o guitarrista como membro da banda Gateway.

Em seu primeiro como líder, na ECM, “Untitled” (1976), sua banda Directions conta com John Abercrombie, seu companheiro na Gateway, Warren Bernhardt nos teclados, Alex Foster nos saxes soprano e tenor, e Mike Richmond no contrabaixo. A maioria das composições ou é de DeJohnette sozinho ou em parceria. Há poucos bateristas que compõem, comparados a outros instrumentistas, mas Jack é um caso à parte, por ter aprendido a tocar piano, além de arranhar no saxofone. É por isso também que a sua bateria apresenta um colorido tonal. Manfred Eicher conseguiu imprimir uma marca, que até ficou conhecida como “ECM sound”. “Untitled” não foge à regra, e é uma grande estreia de Jack nessa gravadora.

Um grande tema é “The Vikings Are Coming”. Ouça.




Jack participou de vários álbuns de outros do cast da gravadora, como Kenny Wheeler, Bill Connors, Gary Peacock e Terje Rypdal, dentre outros. Com o seu Directions, lançou “New Rags” (1977).

Ouça “Seasons”, do brilhante álbum em que o baterista toca com Miroslav Vitous e a guitarra impressionante de Terje Rypdal. Esse álbum, lançado em 1979, é uma de suas grandes participações.




Novas direções
Com nova formação – Lester bowie no trompete, Eddie Gomez no baixo, e o mesmo Abercrombie na guitarra –, lançou o álbum “New Directions” (1978). Seria ainda lançado uma ao vivo dessa banda, em 1979, o “New Directions in Europe”.

Ouça “Silver Hollow”, com DeJohnette ao piano, em composição própria. O trompete é de Lester Bowie.




É de 1980 o melhor disco de Jack DeJohnette, na minha opinião. Fiquei chocado quando ouvi pela primeira vez. Deixou de ser Directions e montou a Special Edition, com músicos mais ligados à avant garde: David Murray no sax tenor e na clarineta baixo, Arthur Blythe no sax alto, Peter Warren no baixo e violoncelo, e Jack, an bateria, piano e melódica. Duas das composições são de John Coltrane (“Central Park West” e “India”), e as três restantes, de sua lavra: “One for Eric”, “Zoot Suite” e “Journey to the Twin Planet”. As referências, ou homenagens, são claras. A primeira, para Eric Dolphy, precocemente falecido, um gênio no sax alto, flauta e clarineta baixo; a segunda, para Zoot Sims.

Ouça a genial “One for Eric”.



“India”, de John Coltrane, é outro destaque, com Johnette ao piano, no início. Atenção ao solo de David Murray na clarineta baixo e de Arthur Blythe no sax alto.



Como Jack DeJohnette’s Special Edition, lançou mais dois álbuns de estúdio – “Tin Can Alley” (1981) e “Album Album” (1984) – pela ECM, igualmente bons, mas não como o primeiro. Também, seria demais, porque é um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos. Com formações diferentes, o comum é o contraste entre instrumentos de sopro mais agudos e mais graves. Em “Tin Can Alley”, Chico Freeman toca sax tenor, e John Purcell o alto e o barítono, além dos dois na flauta. No seguinte, são três: Purcell no alto e no soprano, David Murray no tenor, e Howard Johnson na tuba e no sax barítono. Pela ordem, o primeiro é o melhor, o último é o segundo, e “Tin Can Alley”, o menos bom. Em “Album Album”, temos uma outro tema genial, que vale o disco inteiro.

É “Ahmad The Terrible”. outra referência a um grande músico. Ouça. Os saxes são maravilhosos.




O outro caminho
Para quem imaginava que DeJohnette e Keith Jarrett não mais se encontrariam, engano. Lançaram “Standards 1”, pela ECM, em 1983, com Gary Peacock no contrabaixo e estava formado um dos trios mais longevos da história. São cerca de 20 álbuns lançados pela ECM. O último, se não me engano, é “Somewhere”, de 2009. Nada impede que voltem a gravar juntos. Vamos esperar.

Septuagenário, Jack não para. O último álbum lançado é coisa fina, como se dizia antigamente. Foi comentado neste blogue. O link está no primeiro parágrafo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Por que pouco se falou de Emily Remler?

Apesar de ter nascido em plena Manhattan, Emily Remler gostava de dizer que era uma “jersey girl”. Verdade. Nasceu na ilha, mas cresceu na aprazível Englewood Cliffs, do outro lado do rio Hudson. O irmão tinha uma guitarra elétrica. Gostava de Jimi Hendrix, Beatles e Rolling Stones, como qualquer garoto de sua geração. Foi com a sua guitarra, uma Gibson ES 330, que Emily arriscou suas primeiras notas. Nem chegara à adolescência. Suas primeiras referências, aqueles que admirava, eram Eric Clapton, B.B. King e Johnny Winter. Se fosse pelo gosto, o caminho natural seria virar uma blueswoman.

Emily gostava de desenhar. Entre ser músico, achava que seria melhor optar pelas artes visuais, profissionalmente pensando. Pretendia entrar na Rhode Island School of Design, mas suas notas baixas eram um impedimento para ser aceita em boas escolas. Meio que por falta de opção e por ver que tinha jeito com a guitarra, mesmo não lendo música, acabou indo para a Berkleee College of Music, que a aceitara. Para ela, jazz era um gênero em que se tocava um monte de notas. Nem Miles Davis ou John Coltrane lhe pareciam interessantes. Ao ouvir Charlie Christian e o sax alto de Paul Desmond passou a considerá-lo. Wes Montgomery e Pat Metheny fizeram com que realmente passasse a gostar e interessar-se pelo jazz.

A música brasileira foi outra coisa que chamou a sua atenção, graças à aproximação com Célia Vaz, que estava na Berklee estudando regência e composição. Deve em seu estilo o jeito meio bossa à brasileira.

Ao terminar a Berklee, com alguns amigos da escola, foi parar em New Orleans. Em 1977, nem tinha completado 20 anos, e acontece o que iria mudar a sua vida. Conhece Herb Ellis, o guitarrista que tocou por muito tempo com Oscar Peterson. Foi convidada a participar com Herb Ellis, Charlie Byrd, Joe Pass, Tal Farlow, Barney Kessel e o contrabaixista Ray Brown do “Great Guitars”, no Concord Jazz Festival. De volta a Nova York, tocou com Astrud Gilberto, Nancy Wilson e John Clayton. Convidada por Gregory Hines, participou do musical “Sophisticated Ladies”.

O ano de 1981 foi “a very good year”, como está escrito no site http://allthingsemily.com. Estava casada com o pianista Monty Alexander, e fora considerada a “woman of the year” pelo crítico Leonard Feather. Lançou seu primeiro álbum, “Firefly”, pelo Concord, e tinha entre seus acompanhantes nada menos que o pianista Hank Jones.

O futuro parecia róseo para Remler. Gravou vários discos pelo mesmo selo, um deles com um de seus ídolos, Larry Coryell. Em 1989, assinou contrato com a Justice Records. Buscava por mudanças, estilísticas também. No ano seguinte, estava em Sidney, Austrália, e sofreu um ataque do coração fulminante. Dizem que pode ter sido consequência de seu consumo de opiáceos. Não foi a primeira a ter a carreira interrompida pelo uso abusivo de drogas.

Emily toca “How Insensitive”.



Ouça “Softly as in a Morning Sunrise”. Esta canção está em “East to Wes” (Concord, 1988).





quinta-feira, 10 de novembro de 2016

“Waterfall Rainbow”, de David Friesen, o melhor álbum de 1977

Ao passar a gostar mais de jazz, para manter-me informado e conhecer um pouco mais esse universo, passei a assinar a revista Downbeat. Elas chegavam com uns dois meses de atraso, mais ou menos o tempo que demoravam para chegar às bancas também. Era complicado fazer a assinatura, a não ser que você possuísse uma conta no exterior, coisa quase impossível naquele tempo. Fiz de acordo com a sugestão de um amigo: enviei as notas de dólares envoltas em um papel carbono e uma folha de sulfite, para que não percebessem que havia dinheiro dentro do envelope de carta. Quem nasceu depois dos anos 1980, nem sabe o que é o tal “papel carbono”. Eram folhas azuis escuras com uma camada de tinta transferível que era usada para notas fiscais, que precisavam de mais de uma cópia, cartas escritas à mão e textos datilografados, quando seus autores queriam guardar uma via com eles. Nota: antes do advento dos computadores, o meio mais usado, fora escrever à mão, era a chamada máquina de escrever, que funcionava de forma mecânica, com os teclados que acionavam hastes que mecanicamente tocavam uma fita entintada e assim transferiam as letras. A única coisa que foi mantida nos teclados do computador foi a ordem dos caracteres, chamado de “qwerty”, termo que corresponde aos seis primeiros caracteres da esquerda para a direita. O tal carbono tinha uma tinta preta ou azul que deixavam suas folhas totalmente opacas. Era usado para que possíveis surrupiadores dos correios não percebessem que as cartas continham notas de dinheiro.

Explicado o malabarismo para se conseguir fazer assinaturas de revistas estrangeiras, assinei por anos seguidos a Downbeat. Guardo-os com carinho até hoje. Além das matérias, tinha uma seção chamada “Review”, com críticas dos principais lançamentos. O problema de comprar esses discos que raramente eram lançados aqui, eram gigantescos, além do preço absurdo, cerca de três vezes mais caros que os nacionais.

O disco do ano
Em um dos números de 1977, havia uma crítica de “Waterfall Rainbow”, do então desconhecido (até hoje; na Wikipedia, merece não mais que dez linhas) David Friesen. Dois fatores despertaram-me o interesse, além de ter sido agraciado com a cotação máxima: era de um contrabaixista gravando como líder, como Charlie Haden, de quem me tornara fã ao ouvi-lo em álbuns com Keith Jarrett, e também pelos que tocavam com ele. Estava em uma fase em que andava encantado pelo Oregon, formada por Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott. Towner e McCandless tocavam em algumas faixas de “Waterfall Rainbow”.

Em 1977 e por alguns outros anos, foi um dos meus LPs favoritos. Acho que era o que queria ouvir naquele momento. A primeira, “Spring Wind”, lembra muito a música do Oregon; também com dois de seus membros! O violão de 12 cordas é de Ralph Towner, e o oboé, de Paul McCandless. Os outros que tocaram no disco são o guitarrista John Stowell, parceiro de muitos outros projetos, Nick Brignola na flauta, Bob Moses na bateria, e Jim Saporito nas percussões. A música título, a terceira, pela ordem, devido ao oboé de McCandless, lembra muito os temas do Oregon. O destaque é o lindo solo de flauta de Brignola e a discreta guitarra de Stowell.

Ouça “Waterfall Rainbow”.




Além das citadas, “Dancing Spirits Before the Lord” é um exemplo das semelhanças com o Oregon, devido ao oboé de McCandless.


Ouça “Dancing Spirits Before the Lord”.




Os destaques são, no entanto, os solos de Friesen no contrabaixo, em overdubs. Muito interessantes. Ouça “French Festival”.



Ouça “Song of the Stars”.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

James Carter e o mais belo de som de sax barítono

Acho que o som do saxofone tenor é o que mais se aproxima da voz humana – ou da alma, que seja. Não devo estar sendo original. É bem possível que alguém tenha dito a mesma coisa antes. Em entrevista do número de dezembro da Downbeat, em foi votado como o melhor saxofonista barítono no “readers poll”, James Carter disse a mesma coisa: “[O sax barítono] é um daqueles instrumentos que tem um grande alcance. O tenor é o que mais se aproxima da voz humana pela amplitude, e eu acho que o barítono é seu vizinho mais próximo.” Concordo.

Antecedendo-o, são vários os barítonos conhecidos; desde os mais antigos, como Gerry Mulligan, Harry Carney, Serge Chaloff, Pepper Adams e Cecil Payne, até os um pouco mais novos como Wycliffe Gordon, John Surman, Gary Smulyan, Joe Temperley, Clare Daily, Lisa Parrott, Roswell Rudd e Ronnie Cuber, é um instrumento bem presente no jazz e vital em formações maiores como big bands.

No tempo em que passei a gostar de jazz, Gerry Mulligan era o mais conhecido em razão de sua parceria com Chet Baker, mas o primeiro a me fazer passar a gostar do barítono, foi Harry Carney. Ao descobrir o som das big bands de Duke Ellington, foi o que mais me chamou a atenção.

Mais ou menos na mesma época, foi lançado no Brasil o álbum “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin, gravado na Inglaterra. Depois de emigrar para os EUA, tocou na banda de Tony Williams e na de Miles Davis. Ao seguir carreira solo, montou a Mahavishnu Orchestra. Era esse o trabalho de McLaughlin que conhecia. Ao ouvir “Extrapolation’, cujo partido era bem diverso de suas participações jazz-rock e/ou “esotérico-elétrico”, este álbum passou a ser um dos meus “dez mais”. E a razão, além da bela guitarra, foi o sax barítono de John Surman.

Poucos anos depois, foram lançados alguns LPs de uma nova gravadora alemã, que estava causando furor entre os “descolados”. Um deles era “Upon Reflection” (1979), do mesmo Surman. Foi a segunda vez que o ouvia. Além do barítono, tocava clarineta baixo e sax soprano. Todo o disco são solos em overdubs sobre bases tocadas em diversos teclados eletrônicos. Desde então, John Surman tornou-se o meu baritonista preferido.

Ouça “Edges of Illusion”, de Surman.



O primeiro álbum por um selo americano
James Carter gravou o primeiro disco como líder em 1994 pelo selo japonês DIW. Depois de “JC on the Set”, lançou “Jurassic Classics”. No mesmo ano, 1995, saiu “The Quiet Storm”, o primeiro por um selo americano. O álbum é um showcase de suas habilidades, não apenas no sax barítono, mas também no soprano, no alto, no tenor, na flauta baixo e na clarineta baixo. Em cada faixa, composta, em sua maioria, por jazz standards, como “You Never Told Me That You Care” (Sun Ra), “1944 Stomp” (Don Byas), “Born to Be Blue” (Mel Tormé e Robert Wells), “A Ballad for a Doll” (Jackie McLean), “Eventide” (Bill Dogett), The Stevedore’s Serenade” (Duke Ellington) e “Round Midnight” (Thelonious Monk), e duas composições próprias – “The Intimacy of My Woman’s Beautiful Eyes” e “Deep Throat Blues” –, Carter as executa em um instrumento diferente. Mestre nas várias modalidades de sopro, no barítono é genial.

Pela Atlantic, lançou mais quatro, na Columbia, apenas um – “Gardenias for Lady Day”, em homenagem a Billie Holiday – e, nos últimos tempos, imagino que não possua um contrato fixo, pois cada disco sai por um selo diferente. A formação mais frequente tem sido um organ trio e a música tende ao rhythm’n’blues e Carter tem preferido os sons mais rasgados e ásperos, que não fazem muito o meu gosto.

O James Carter que fica registrado é o de um show no Bourbon Street Music Club, em que, convidado pelo Carlos Conde, assisti na mesa mais próxima do palco. Sua presença, quase dois metros de altura, vestido impecavelmente com um costume caramelo claro, contrastando com a sua cor, e o saxofone dourado, às primeiras notas, foi impactante. E tocou muito. Mas a maior lembrança é de quando ouvi pela primeira vez “’Round Midnight” no barítono, duo belíssimo com Craig Taborn ao piano. Foi o que me fez interessar-me em ouvir outros discos dele.

Ouça. A impressão é a de que ele resolveu mostrar ao que veio ao público americano. Além do som hipnótico de seu sax, há uma passagem em que mantém uma nota em sopro circular por um tempo absurdo.




Ouça também “You Never Told Me That You Care”. É hipnótico também no tenor.



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Arne Jansen, sem malabarismos

A internet é um lugar curioso. É você a entrar na vida dos outros sem bater a porta. Depois de ouvir um guitarrista de quem nunca tinha ouvido falar, resolvi fazer uma pesquisa. O primeiro Arne Jansen músico que me apareceu, nasceu em 1951 e morreu em 2007. Não era o Arne que procurava. Este, nascido nos Países Baixos, além de cantor, era treinador de cães policiais e criava pôneis em sua fazenda. Cometeu suicídio quando tinha 56 anos. Essas informações têm o seu lugar: o do bau dos esquecimentos.

Ao filtrar um pouco mais, em vez de “Arne Jansen music”, troco o segundo termo por “guitar”, chego ao seu site. Visualmente bem limpo, o destaque é para o seu álbum mais recente: “Nine Firmaments”. No item “Bio”, são poucos os dados, o que me leva a recorrer à manjada “Wikipedia”, nem sempre confiável. Vejo que nasceu em 1975, bem depois que seu homônimo cantor, e é alemão. As informações não somam muito ao do site do guitarrista.

Encontro afinal dados mais específicos em outros sites. Arne desde cedo desejava aprender a tocar guitarra. Por não considerar um instrumento sério, a professora de violino de sua irmã convenceu-o a aprender a tocar clarineta. Mas o desejo de tocar guitarra era imperioso, As tardes em que ficava a ouvir CDs de Jimi Hendrix, Dire Straits, Joni Mitchell, Bob Dylan e Pink Floyd moldaram o seu gosto. Já adolescente, com quase 18 anos, conheceu a música de Pat Metheny e John Scofield. Não apenas decidira pela guitarra, mas anteviu um novo universo, mais rico, onde poderia explorar novas harmonias, enriquecer temas por meio de improvisações.

Profissionalmente, participou da Federal Jazz Orchestra. Em 2008, montou o Arne Jansen Trio. Nesse formato está no terceiro disco. Antes de “Nine Firmaments”, lançou “The Sleep of Reason – Ode to Goya” pelo prestigiado selo alemão ACT, em 2013. A partir do último, minha curiosidade cresce em relação aos seus outros álbuns.

A capa de “Nine Firmaments”
A ideia de “Nine Firmaments”, segundo ele, surgiu de um trabalho do artista plástico e amigo de longa data, Timo Nasseri. Em exposição do artista com esse título, Jansen disse que “gosta da definição de firmamentos como uma camada de conexão entre o mundo terreno e os poderes superiores, especialmente quando isso pode se relacionar à música. Fora isso, de acordo com a mitologia, os nove firmamentos são a morada para o coro dos anjos. Para a imagem da capa do álbum, Nasseri calculou a de como poderia ser a configuração das estrelas sobre Alexandria no dia da morte do histórico visionário, filósofo e astrônomo Hypatia.”

Por ter nascido em 1975, é bem provável que seu primeiro ídolo na guitarra não tenha sido Wes Montgomery, Jim Hall, Tal Farlow e muito menos Django Reinhardt. Em 1975, Pat Metheny acabava de entrar na banda de Gary Burton e lançaria “Bright Size Life” no ano seguinte. Se quem nasceu nos anos 1950 cresceu ouvindo rock and roll, imagina-se que o interesse de Jansen pelo jazz se dá pela música instrumental posterior às transformações provocadas por Miles Davis e seus seguidores como Chick Corea, Herbie Hancock e Joe Zawinul.

Nem tão radical quanto eles e bem menos que Ornette Coleman, Cecil Taylor e Anthony Braxton, Pat Metheny seguiu por um som mais melodioso e mais apetecível, permeado por suas influências roqueiras, apesar da paixão que tinha pelas composições de Ornette. Apesar de “Bright Size Life”, álbum de estreia de Pat na ECM, e de três álbuns belíssimos, contando com a preciosa companhia do pianista Lyle Mays, estourou com o roqueiro “American Garage”.

Poucos guitarristas pós-Metheny não sofreram a influência de seu estilo, assim como, difícil foi ser baixista e não ter como referência Jaco Pastorius. Mas, como o mundo gira, o som de Pat mudou e Arne desenvolveu uma sonoridade pessoal.

Uma das boas qualidades de Arne é a de não fazer o estereótipo do que gosta de exibir a sua rapidez como “o mais rápido do oeste”, como boa parte dos guitarristas, ou de fazer um som cheio de distorções e efeitos. Busca a simplicidade e por meio dela criar paisagens sonoras, sejam elas climáticas ou mais “roqueiras”. Ele afirma que não é grande fã de efeitos, preferindo preservar a integridade dos temas. A forma mais “straight” de tocar tem a ver com o fato de ter se convertido ao budismo e ser praticante da meditação há alguns anos. Confira.

Ouça “Here We Go”, a primeira do álbum.




Ouça a climática “It’s Always Night”.




Ouça “He Who Counts the Stars”, a faixa final.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A viagem de Amina Alaoui

Boa parte da Península Ibérica ficou sob o domínio dos mouros, do século VIII até a expulsão definitiva deles em Granada, no ano de 1492. Até hoje, mais na Espanha que em Portugal, percebem-se influências, não apenas na arquitetura, mas também na música. Uma curiosidade: a primeira academia de música na Península foi criada por um árabe, em Córdoba.

Resquícios do colonialismo, Ceuta e Melilha são dois enclaves espanhóis no norte da África. O país que os divisa é o Marrocos. É a terra natal de Amina Alaoui.

Dando uma fuçada no site da ECM para estar em dia com os lançamentos, vi um título que chamou-me a atenção: “Arco Iris” (ECM 2011). Foi assim que a conheci.

Como dizem, “a curiosidade matou o gato”. Lá estava eu ouvindo Amina. Foi um impacto, por várias razões: pela beleza da música, sua voz, e o fato de cantar em uma língua latina e os sons meio árabe, meio espanhol. Fiquei tão empolgado que telefonei para um amigo e passei o álbum na íntegra pelo dropbox para compartilhar o que senti ao ouvi-la. Para minha decepcão, ele não se empolgou. Frustrado, fiquei a pensar. O meu gosto pela música costumeiramente chamada de étnica não faz parte do código de muita gente. Por tender a gostar de tudo, perdi aquele refinamento musical que o amigo Carlos Guena tem de sobra. Admiro seu bom gosto pelo jazz e, principalmente, pela música erudita. Esse bom gosto o torna mais seletivo.

Algo sobre ela e o álbum

Cedo, Amina demonstrou talento para a música. Sua família, de boas posses, colocou-a em um conservatório. Mais tarde, foi estudar nas universidades de Granada e Madri. Continuou seu aprendizado em Paris. Aprofundou-se no estudo da música ibérica e a resultante, somando-se sua origem, deu em algo extremamente original.

O som de Alaoui é uma mistura heterodoxa de fado, de flamenco e música que, por falta de maior conhecimento (meu), imagino-a árabe. Amina canta nas três línguas, misturando-as, criando um efeito mágico. O tom de sua voz inclina-se ao dramático. É uma das razões da minha atração. Um tom trágico também, de algo que se perdeu e, sem saber exatamente o que é, ficamos a procurar, uma tragédia envolta em melancolia, aproximando-se do sublime.

Após a “descoberta”, fui atrás de outros títulos. Achei “Alcantara” (Auvidis Ethnic, 2008). Pelo site da ECM, descobri que participara nos vocais em “Siwan” (ECM, 2008), de Jon Balke. Deve ter sido a porta de entrada para que gravasse “Arco Iris”.

Como tudo passa, “esqueci” dela e fui ouvir outras coisas. Tempos depois, sem mais nem por que, deu-me vontade de ouvir “Fado Menor”, uma das faixas que mais me impressionara. Se não existe mais aquele encanto inicial, se menor, é suficiente para que eu queira ouvir o álbum novamente.

A canção que abre “Arco Iris” é “Hado”, tema tradicional da Andaluzia, com arranjo de Alaoui. Começa com uma vocalização de inspiração árabe que impressiona logo de cara. Logo entram sons que devem ser do oud, instrumento árabe que se assemelha ao alaúde, e também o violão. É uma brilhante introdução.

A grande qualidade da música de Alaoui é a de criar uma interconexão dos universos oriental e ocidental. Os arranjos são mesclas de instrumentos de várias origens, como o oud de Sofiane Negra, o violão flamenco do espanhol José Luis Montón, o violino de Saпfallah Ben Abderrazak, o bandolim do brasileiro radicado em Portugal Eduardo Miranda, o daf, tocado por Amina e as percussões de Idriss Agnel.


Ouça “Arco Iris” no Spotify: “Arco Íris” (Amina Alaoui)

 

Da discografia de Amina Alaoui, procure pelos citados anteriormente:
• “Alcantara” (Auvidis Ethnic, 2008)
• “Siwan”, de Jon Balke e Amina Alaoui (ECM, 2009)

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O meu Cohen preferido

Nos últimos dias, sem saber nem por quê, uma canção fica a martelar em minha cabeça: “Famous Blue Raincoat”. É conhecida, mas não é a mais. Tem outras de Leonard Cohen que ficaram populares até no Brasil: “Hallelujah”, por exemplo, tema até de minissérie da rede Globo. Até a minha mãe, uma senhora de 81 anos, que nunca ouviu falar do bardo canadense, em um dos anúncios de “Justiça”, disse: ‘Essa é famosa!”. Acredito que é mais conhecida nas vozes de outros intérpretes do que na sua, como a de Jeff Buckely, possivelmente.

Cohen, que nem tão jovem era quando tornou-se conhecido, e no começo, visto como uma versão canadense de Bob Dylan, emplacou bons versos – já tinha livros de poesia publicados – em belas canções melancólicas de melodias simples que serviam mais como veículo para as suas palavras. Mas, caiu no gosto de um certo público que se identificava com os climas meio “waste land” e introspectivos. Dono também de uma voz limitada mas charmosa em seu tom que, com o tempo, foi ficando bem grave, virou cult.

Suas obras iniciais são verdadeiras pérolas. Do primeiro álbum, de 1967, temos pérolas como “Suzanne”, “Sisters of Mercy”, “So Long, Marianne” e “Hey, That’s No Way to Say Goodbye”. Dos posteriores “Songs from a Room” (1969), “Songs of Love and Hate” (1971) e “New Skin for Old Ceremony” (1974), temos “Bird on a Wire”, “Avalanche”, “Famous Blue Raincoat”, “Joan of Arc”, “Who by Fire” e “Chelsea Hotel”.

A mais conhecidas pelos fãs mais genéricos, como “Hallelujah”, “Dance Me to the End of World” – ambas de “Various Positions” –, “I’m Your Man”, “Everybody Knows” – de “I’m Your Man” –, são da década de 1980, o que me induz a dizer que foi a época em que Cohen virou pop. Mas suas obras da década anterior são mais significativas.

Sobre Jane ou a capa de chuva

Em uma ocasião qualquer, li uma entrevista do cineasta Domingos de Oliveira, na qual dizia que sabia quando estava deprimido: ficava ouvindo a mesma canção, repetidamente, por vários dias. Posso estar deprimido, mas meu caso é diferente. Ouço de tudo, e o dia todo, até nas noites de insônia. Entretanto, percebi que, nos últimos dias, os primeiros versos – It’s four in the morning, the end of december/ I’m writing now just to see if you’re better – martelam o meu cérebro, principalmente ao acordar. Não sou de prestar atenção em letras. Acho que é até por isso que prefiro música instrumental. Palavras cantadas são percebidas mais sonoramente que por seus significados. Até por isso, outro trecho que consigo lembrar sem ter de recorrer aos sites de letras é Jane came by with a lock of your hair.

Como a razão dessa postagem é “Famous Blue Raincoat”, faço uma breve pesquisa. Em primeiro lugar, busco a letra. Refere-se a um triângulo amoroso, é o que parece, ou um delírio de que há uma terceira pessoa na história de um casal.

Em entrevista à BBC Radio Interview ao ser perguntado sobre a música respondeu: O problema com essa música é que esqueci do triângulo real. Se foi o meu próprio, é claro. Eu sempre senti que havia um homem invisível a seduzir a mulher com quem eu estava, se verdadeira ou imaginária. Não me lembro, mas tinha a sensação de que sempre havia uma terceira parte, às vezes, eu, às vezes, um outro homem, às vezes, uma outra mulher.

Um dos charmes de Cohen são justamente, as letras confessionias (não sou de prestar muita atenção em letras, repito, mas quando um trecho ou outro chama a atenção, tento assimilar o que está sendo dito), e por isso, fico a pensar por que “Famous Blue Raincoat” não me sai da cabeça. Até onde sei não vivo um triângulo amoroso ou fico a imaginar-me em um, se bem que a realidade é sempre traiçoeira, se não é por isso, acho que deve ser em razão de nas últimas noites, lá pelas quatro, cinco da manhã, desperto e fico a ler os jornais matutinos em seu formato digital enquanto ouço alguma música que sai dos falantes da minha caixa da Altec Lansing.

Algumas versões, além da original, são bem interessantes. Uma delas é a de Solveig Slettahjell.




Outra interessante. É da dupla francesa AaRON.




Cohen gosta da versão de Jeniffer Warnes, que foi backing de sua banda.




Alguns outros conhecidos têm cover dessa canção. Um é Lloyd Cole.




A outra é Tori Amos.



terça-feira, 4 de outubro de 2016

Charenée Wade e a alta voltagem da música de Gil Scott-Heron

Das três primeiras colocadas no Thelonious Monk International Jazz Vocalist Competition de 2010, a menos conhecida, por enquanto, é Charenée Wade. Ficou em segundo, com a estupenda Cécile McLorin Salvant em primeiro e Cyrille Aimée completando a lista. Mas a hora dela chegou.

Gil Scott-Heron, falecido em 2011, foi um gênio rebelde, com altos e baixos em razão de seus problemas com as drogas, principalmente. Foi preso mais de uma vez. Fugiu de uma clínica de reabilitação alegando que não estavam lhe dando remédios para o tratamento de HIV. Até então, não se sabia que Heron era soropositivo. Isso se confirmou posteriormente. O autor de “The Revolution Will Not Be Televised” foi uma artista fora da curva. Quando estudante na Lincoln University, Pensilvânia, seu herói era o poeta Langston Hughes, negro, homossexual e comunista. Além de músico, é autor dos romances “The Vulture” e “Nigger Factory”. Seu interesse pela literatura e pela luta dos negros contra o domínio da cultura branca influenciaram na sua forma de fazer música. Inicialmente classificado como autor que em suas canções mesclava o jazz, o soul e o blues, Scott-Heron introduziu o canto falado, quase sempre em tom de manifesto. Nesse sentido pode-se dizer que é um dos pioneiros do rap.

Conheci Scott-Heron ao ouvir o LP “Real Eyes”, em 1980, na casa em que o Hilton Raw dividia com o Arnaldo Black e o Aaron (esqueci o sobrenome). O Hilton estava fascinado por ele e o apelidou de “Sócrates da música”, em alusão à semelhança dele na imagem da contracapa do disco com o jogador. Acho que referia-se também à categoria de ambos em suas especialidades. Por coincidência, os dois morreram no mesmo ano: 2011. Um abusou das drogas, e o outro, do álcool.

Na capa, Gil aparecia com um bebê, sorridente e feliz. Devia estar em uma fase pacificada com a vida. Conheci um Gil diferente do que descobri mais tarde. A curiosidade me fez procurar outros discos, os anteriores ao “Real Eyes”. Um deles me impressionou bastante. “From South Africa to South Carolina” (Arista, 1975), com Brian Jackson.

Uma revelação

A quatro anos atrás, Mark Ruffin estava trabalhando com o cantor Giacomo Gates em um álbum com material de Scott-Heron. Como o lançamento de “Revolution Will Be Jazz: The Songs of Gil Scott-Heron” coincidiu com a morte dele, o álbum foi erradamente interpretado como um tributo.

Apesar da grande qualidade do álbum de Gates, um dos melhores cantores de jazz da atualidade, Ruffin planejava um outro que fosse realmente um tributo póstumo. O ponto de partida foi Charenée. A tônica foi sobre a parceria de Scott-Heron com Brian Jackson. Foi escolhido um time de grandes músicos, incluindo o vibrafonista Stefon Harris, o guitarrista Dave Stryker, o pianista Brandon Kune, o baixista Lonnie Plaxico e o baterista Alvester Garnett, além das participações especiais de Lakecia Benjamin no sax alto, Marcus Miller na clarineta baixo e Malcoln-Jamal Warner na declamação em “Essex Martin, Grant, Byrd & Till”, e o baixista Christian Bride na declamação de “Peace, Go with You, Brother”.

Lançado pelo selo Motéma, “Offering: The Music of Gil Scott-Heron & Brian Jackson”. Christopher Loudon, da JazzTimes, compara a voz de Wade à “flexibilidade [vocal] de Dianne Reeves com o espírito de Abbey Lincoln.” Boa lembrança: Lincoln é um dos nomes mais importantes da música de protesto, com o álbum “We Insist!”, com o então marido, o baterista Max Roach.

Wade tem a perfeita consciência do que Scott-Heron representa na sociedade americana. Nas liner notes, refere-se a “questões que ainda precisam ser abordadas hoje. […] mesmo à luz de alguns progressos que nos foi proporcionado pelo milagre do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ainda há muitas lutas que revelam o nosso trabalho que ainda não foi realizado.”

Com a consciência de seu lugar no mundo, sendo artista, sua maior qualidade é a de ser um mensageiro por meio de sua arte. Seu grande valor está em interpretar a poesia de Scott-Heron de modo que transcenda o panfletário. Ela se faz por meio de uma voz privilegiada, arranjos engenhosos de Wade que combinam energia e lirismo, doces mas incisivos. Ainda vamos ouvir bastante o seu nome. O reconhecimento já está chegando. Além de várias crítica elogiosas, ficou entre os 20 melhores lançamentos na lista da “64th Critics Poll”, da Downbeat.

Ouça “Song of the Wind”. Destaque para o vibrafone de Stefon Harris.




Ouça também “Ain’t No Such Thing As Superman”.




Outro destaque é “A Toast to the People”.




Ouça a original, com Gil Scott-Heron.




Clique aqui para ouvir o álbum na íntegra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Breve história de Lilac Wine

O musical “Dance Me a Song” ficou pouquíssimo tempo em cartaz, mas uma canção que fazia parte dele tornou-se um clássico. Composta por James Shelton, “Lilac Wine” é uma torch song daquelas. O tal do “vinho lilás” o leva a um delírio etílico em que busca o amor que ele próprio não está convencido de sentir: “Quando eu penso mais do que quero pensar/ Faço tantas coisas que nunca deveria fazer/ Bebo muito mais do que devo beber/ Porque isso me leva de volta pra você…/ Vinho rubro é doce e faz a cabeça, como meu amor/ Vinho rubro, eu me sinto inconstante, como meu amor/ Escute-me…/ Eu não consigo ver claramente.” Shelton inspirou-se, pelo que se sabe, em uma linha do romance “Sorrow in Sunlight”, de Ronald Fink: “offering a light lilac wine, sweet and heady.”


A versão mais conhecida – ou a que você conhece – deve ser a de Nina Simone. É excepcional, sem dúvida, mas é uma música que, acredite, até ficou boa com Miley Cyrus. Uma das primeiras a gravá-la foi Eartha Kitt, em 1953. Outra grande cantora gravou “Lilac Wine”, em 1955: Helen Merrill.

Ouça a de Kitt.



Ouça a de Helen Merrill. É uma das minhas preferidas.




A consagração absoluta veio mesmo é com a de Nina Simone, em 1966. É de Nina o melhor “Listen to me…/ I cannot see clearly.” É dramaticamente belo o breve silêncio do piano.

Ouça a de Nina.




Jeff Buckley, se quisesse ser outro alguém, queria ser a Nina Simone. Era um apaixonado por ela. Não poderia ter deixado de gravá-la. Ouça. É grande. Combinava com sua persona. Não é à tôa que morreu daquela maneira. [sobre a morte dele, leia “O morto Jeff Buckley”




Veja Buckley cantando “Lilac Wine” em Chicago.


Aqui e agora
Estava a ouvir “Wonder Wheel”, de André Fernandes, bom guitarrista português, e a última faixa do álbum é justamente “Lilac Wine”, cantada por Inês Souza. Muitos devem desconhecer que Portugal é um grande pólo do jazz, não só pelo tradicional festival de Cascais. Há uma enormidade de bons nomes como os de Mário Laginha (o pianista desse disco), Susana Santos Silva, Bernardo Sassetti, Rodrigo Amado, Sara Serpa, Carlos Martins e Julio Resende, dentre outros.

Veja Inês Souza, com a banda de André Fernandes a cantar “Lilac Wine”.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sting na ótica de Tierney Sutton

Em um primeiro momento, você irá pensar que colocou o CD errado no player. Às primeiras notas, você pensará que colocou “Kind of Blue”. E é “The Sting Variations”, o álbum mais recente da Tierney Sutton Band.

Em 1988, Sutton estreou com “Introducing Tierney Sutton”. Em 2000, lançou o primeiro em uma gravadora de porte maior, a Telarc: “Unsung Heroes”. Esse mesmo ano foi o da estreia de Jane Monheit, com “Never Never Land”. Comprei os dois, o de Jane porque quem a acompanhava era Kenny Barron e sempre avalio cantores desconhecidos por quem é o pianista . No line up de “Unsung Heroes”, aparecia o nome de outro bom tecladista: Christian Jacob. As duas eram afinadas, boas cantoras, belas, mas como diria uma amiga baiana, “não tinham borogodó”. Nas suas perfeições faltava aquela pegada selvagem de uma Dianne Reeves, de uma Dee Dee Bridgewater, um pouco mais velhas que elas. Fiquei com uma ponta de decepção, mas nunca deixei de ouvir cada CD lançado por elas posteriormente.

Meu juízo em relação à Sutton foi mudando, não a ponto de fazê-la uma das minhas preferidas, mas perceber que é uma das boas intérpretes da atualidade. Prestando um pouco mais de atenção, percebi que seus álbuns não eram uma repetição do repertório Tin Pan Alley. Em cada um deles percebia-se um conceito mais ou menos definido, ora centrado em Bill Evans, em Frank Sinatra, mas não de maneira óbvia. Outra qualidade perceptível foi a de que na maioria dos novos lançamentos, passava a assinar The Tierney Sutton Band. Era uma evidência de que os músicos não eram meros acompanhantes. A participação de Christian Jacob é capital, tanto quanto a voz e a peculiar formação, com dois baixistas (Kevin Axt e Trey Henry), e a bateria de Ray Brinker.

Com “American Road”, assinando The Tierney Sutton Band, e “After Blue”, como Tierney Sutton simplesmente, a cantora tem conseguido boa recepção pela crítica. É uma cantora ciente da sua qualidade, demonstrando a maturidade que só o tempo traz. No primeiro explora standards de Gershwin (“Summertime”, “My Man’s Gone Now” e “It Ain’t Necessarily So”), clássicos populares como “Tenderly”, assim como canções emblemáticas do cancioneiro americano como “Amazing Grace”, “Wayfaring Stranger”, “Shenandoah” e “The Water Is Wide”. [sobre “America Road”, leia “Preciso rever os meus conceitos sobre Tierney Sutton”]

“After Blue”, o leitor mais arguto deve estar desconfiado: é um álbum com a música de Joni Mitchell. Do extraordinário “Blue”, Sutton canta a música título e “All I Want”. Apesar de não contar com sua banda de costume, os arranjos são excepcionais e originais, com a participação do Turtle Island Quartet, de Larry Goldings no Hammond B-3, Hubert Laws na flauta e Al Jarreau fazendo o duo em “Be Cool”. É um álbum tão bom quanto “River: The Joni Letters”. Recebeu 4 estrelas e meia. Próximo da perfeição.

Ouça “Woodstock”.




Veja Sutton a cantar “Don’t Go to Strangers”, no Blue Note de Milão.




Entre o pop e o jazz
Outro compositor e intérprete que fica no crossover entre a música popular e o jazz é Sting, um dos três da extinta banda pop/rock Police. Logo depois de desfeita, gravou álbuns com a presença de alguns jazzistas como Kenny Kirkland e Branford Marsalis. Mais tarde, suas ambições musicais chegaram à música erudita, tendo inclusive lançado discos pela Deutsche Grammophon. Pretensões maiores não querem dizer muita coisa em termos de qualidade superior.

As músicas mais populares de Sting, no entanto, continuam sendo as da época do Police. Composições posteriores não são melhores que “Every Breath You Take”, “Every Little Thing She Does Is Magic”, “Walking in Your Footsteps”, “Driven to Tears”,“Synchronicity I” e “Message in the Bottle”, incluídas em “The Sting Variations”, recém lançado álbum de Sutton. “If You Love Somebody Set Them Free”, “Consider Me Gone”, “Fortress Around Your Heart” e “Shadows in the Rain”são de “The Dream of the Blue Turtle”, primeiro solo do inglês.

A escolha da maioria das canções, sendo da época do Police e o álbum solo imediatamente posterior, traem o gosto de Sutton, condizente com o que acha boa parte dos fãs de Sting. De suas composições, a mais popular entre os cantores de jazz é “Fragile”. Caiu no gosto deles, não sei por que. As restantes são “Fields of Gold” e “Language of Birds”.

Ouça“Fragile”. Aqui a banda faz um medley com “Gentle Rain”, um dos maiores clássicos da música brasileira, de autoria de Luiz Bonfá. Essa faixa é um dos destaques do álbum.




Ouça “Fields of Gold”.




Ouça “Synchronicity I”.