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| Sarah Vaughan era boa no piano também |
Minha paixão por Sarah é perenal, mais até do que por Holiday e Fitzgerald. As três, até hoje são consideradas as melhores de todos os tempos. Mas é ela quem ouço mais, apesar da superoferta de cantoras no mercado. Mais ou menos no patamar das três, das antigas, impossível não citar Carmen McRae, Peggy Lee, Anita O’Day, Doris Day, June Christy e Chris Connor. Mais recentes, ou intermediárias, como Shirley Horn, Dinah Washington, Betty Carter e Irene Kral, temos boas cantoras como Diana Krall, Karrin Allyson, Gretchen Parlato, Stacey Kent, Cécile McLorin Salvant e, a minha preferida atual, Roberta Gambarini.
Mas, voltando à Sarah, conhecendo melhor Ella e Billie, um álbum tornou-se um dos meus preferidos de todos os tempos, e me fez ficar sem saber quem era a minha preferida, quando era uma senhora experiente e abusada. “How Long Has This Been Going on?”, lançado em 1978, pelo selo Pablo, de Norman Granz, seu dono e produtor, contava com os experientes Oscar Peterson, Joe Pass, Ray Brown e Louie Bellson. A Sarah madura tinha uma voz grave, de contralto e com uma compreensão absurda do que cantava.
Nem todos irão concordar comigo sobre a Sarah dessa época, podendo dizer que abusava dos vibratos e cometia excessos ao explorar a sua enorme capacidade de modular a voz. Na minha opinião, tinha atingido o auge e sentia-se muito feliz de não precisar provar mais nada a ninguém.
Alguns temas são cantados com a banda, e outros em duo. O álbum começa com “I’ve Got the World on a String”. A melhor versão ainda continua sendo a de Ella Fitzgerald. Os versos, que são uma celebração à vida – Life is a beautiful thing, as long as I hold the string/ I'd be a silly so and so, if I should ever let go// I've got the world on a string, sittin' on a rainbow/ Got the string around my finger/ What a world, what a life, I'm in love – nunca foram tão belamente cantadas como na gravação de 1952, com a orquestra de Sy Oliver.
Em “Midnight Sun”, la Vaughan excede. Com a delicada guitarra de Joe Pass, aos primeiros versos nos paralisa com a voz que vem lá do fundo da alma. Enrola a língua em “And then your arms miraculously found me”, e realça as rimas ricas de Johnny Mercer: aurora borealis/tight, ruby chalice/alabaster palace. É um dos grandes standards essa composição de Lionel Hampton e Sonny Burke.
A música título é cantada com a banda, assim como as duas seguintes, que estão entre as melhores interpretadas. “You’re Blasé” é genial e emocionante, assim como “Easy Living”.Oscar Peterson é grande pianista acompanhando cantores. Sarah completa com “More Than You Know”. É uma trinca verdadeiramente infernal. Sarah é gênio, e sabe disso. É genialidade com o pé nas costas.
“You”re Blasé”.
Com tão bons números, impossível ficar melhor? Errado. São quatro números em duo, cada uma com um dos componentes da banda. Começa pela magistral interpretação de Peterson, em “More Than You Know”. Suas primeiras notas lembram um pouco o mais famoso tema de Joaquín Rodrigo.
“My Old Flame” é cantada com acompanhamento de Joe Pass.
Em “Body and Soul”, Sarah atrasa e acelera os tempos com o contrabaixo excepcional de Ray Brown.
Louie Bellson dá um show na bateria em “When Your Lover Has Gone”.
Outros álbuns da Pablo
Vale citar alguns discos dessa época: “Duke Ellington Songbook vols. 1 e 2” (1979), “Copacabana” (1979), fraco, dedicada à música brasileira, “Crazy and Mixed Up” (1982) – neste, canta “The Island” e “Love Dance” – e “Send in the Clowns” (1981). Neste último, sua interpretação da música título é sublime. É a melhor de todos os tempos… na minha opinião, você pode discordar. Feliz Natal e votos de um novo ano menos conturbado.
Para fechar o ano, ouça “Send in the Clowns”, de Stephen Sondheim.














