quinta-feira, 10 de novembro de 2016

“Waterfall Rainbow”, de David Friesen, o melhor álbum de 1977

Ao passar a gostar mais de jazz, para manter-me informado e conhecer um pouco mais esse universo, passei a assinar a revista Downbeat. Elas chegavam com uns dois meses de atraso, mais ou menos o tempo que demoravam para chegar às bancas também. Era complicado fazer a assinatura, a não ser que você possuísse uma conta no exterior, coisa quase impossível naquele tempo. Fiz de acordo com a sugestão de um amigo: enviei as notas de dólares envoltas em um papel carbono e uma folha de sulfite, para que não percebessem que havia dinheiro dentro do envelope de carta. Quem nasceu depois dos anos 1980, nem sabe o que é o tal “papel carbono”. Eram folhas azuis escuras com uma camada de tinta transferível que era usada para notas fiscais, que precisavam de mais de uma cópia, cartas escritas à mão e textos datilografados, quando seus autores queriam guardar uma via com eles. Nota: antes do advento dos computadores, o meio mais usado, fora escrever à mão, era a chamada máquina de escrever, que funcionava de forma mecânica, com os teclados que acionavam hastes que mecanicamente tocavam uma fita entintada e assim transferiam as letras. A única coisa que foi mantida nos teclados do computador foi a ordem dos caracteres, chamado de “qwerty”, termo que corresponde aos seis primeiros caracteres da esquerda para a direita. O tal carbono tinha uma tinta preta ou azul que deixavam suas folhas totalmente opacas. Era usado para que possíveis surrupiadores dos correios não percebessem que as cartas continham notas de dinheiro.

Explicado o malabarismo para se conseguir fazer assinaturas de revistas estrangeiras, assinei por anos seguidos a Downbeat. Guardo-os com carinho até hoje. Além das matérias, tinha uma seção chamada “Review”, com críticas dos principais lançamentos. O problema de comprar esses discos que raramente eram lançados aqui, eram gigantescos, além do preço absurdo, cerca de três vezes mais caros que os nacionais.

O disco do ano
Em um dos números de 1977, havia uma crítica de “Waterfall Rainbow”, do então desconhecido (até hoje; na Wikipedia, merece não mais que dez linhas) David Friesen. Dois fatores despertaram-me o interesse, além de ter sido agraciado com a cotação máxima: era de um contrabaixista gravando como líder, como Charlie Haden, de quem me tornara fã ao ouvi-lo em álbuns com Keith Jarrett, e também pelos que tocavam com ele. Estava em uma fase em que andava encantado pelo Oregon, formada por Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott. Towner e McCandless tocavam em algumas faixas de “Waterfall Rainbow”.

Em 1977 e por alguns outros anos, foi um dos meus LPs favoritos. Acho que era o que queria ouvir naquele momento. A primeira, “Spring Wind”, lembra muito a música do Oregon; também com dois de seus membros! O violão de 12 cordas é de Ralph Towner, e o oboé, de Paul McCandless. Os outros que tocaram no disco são o guitarrista John Stowell, parceiro de muitos outros projetos, Nick Brignola na flauta, Bob Moses na bateria, e Jim Saporito nas percussões. A música título, a terceira, pela ordem, devido ao oboé de McCandless, lembra muito os temas do Oregon. O destaque é o lindo solo de flauta de Brignola e a discreta guitarra de Stowell.

Ouça “Waterfall Rainbow”.




Além das citadas, “Dancing Spirits Before the Lord” é um exemplo das semelhanças com o Oregon, devido ao oboé de McCandless.


Ouça “Dancing Spirits Before the Lord”.




Os destaques são, no entanto, os solos de Friesen no contrabaixo, em overdubs. Muito interessantes. Ouça “French Festival”.



Ouça “Song of the Stars”.


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