Em um dos primeiros festivais em São Paulo, o Hollywood Rock, dentre as atrações, estavam bandas como Bob Dylan, Tears for Fears, Terence Trent D’Arby e Eurythmics. Como os ingressos não eram tão baratos e não tenho muita paciência com shows em estádios, priorizei ver o Tears for Fears. Minha namorada à época queria porque queria ir na noite do Eurythmics. Disse não e como “prêmio” fui de graça como acompanhante. Meio que a contragosto, fui.
Chegamos depois de iniciado o espetáculo e quem estava no palco era Bob Dylan. Encontrei o jornalista e crítico Edmar Pereira e fiquei alguns minutos conversando com ele. Não conseguia saber qual era a canção que Dylan cantava. O Edmar comentou: “A gente consegue saber qual é só na hora do refrão.” Assim mesmo, era difícil. Mas ele estava com o setlist, pois estava cobrindo para o extinto Jornal da Tarde e falou quais estavam programadas.
O Edmar estava bem longe do palco. Minha namorada queria ficar em um lugar mais próximo, ou seja, na boca do palco. Não foi assim, mas ficamos a uma distância que nos dava boa visão, Daí, chegou a hora do Eurythmics. Mesmo naquela época, Dylan já não causava tanto frisson entre os jovens – estávamos em 1990 – mas quando os britânicos entraram no palco, foi bem diferente. Eu, conhecendo muito pouco a música deles, fiquei indiferente. Até um certo momento. Foi um belo show. Mas o que me deixou encantado mesmo foi Annie Lennox a “outra parte” do Eurythmics.
Tempos depois, li uma entrevista de Lennox, não lembro se na revista The Face ou Arena. Em um trecho, afirma que “não é naturalmente feliz.” Me identifiquei. Foi a rendição final. O que era encanto virou paixão. Depois dessa, tinha obrigação de comprar algum álbum do Eurythmics. Como não conhecia muita coisa deles, a escolha recaiu no “Greatest Hits”.
Annie Lennox lançou o primeiro solo. Chamava-se Diva. Muito apropriado. Sairam mais quatro discos depois desse. Não são muitos considerando-se que este é de 1992 e agora estamos em 2014. O bom é que não temos como enjoar.
Nostalgia, lançado agora, no dia 21, nos EUA, e programado para o dia 27, internacionalmente, privilegia o chamado “great american songbook”, incluindo clássicos bem conhecidos como Summertime, Mood Indigo, I Cover the Waterfront, September in the Rain, Memphis in June e The Nearness of You e dois títulos associados a Billie Holiday (Strange Fruit e God Bless the Child). Uma pequena exceção é I Put a Spell on You, de Screamin’ Jay Hawkins, que não é tão jazz, mas tem uma versão bem conhecida de Nina Simone.
Veja Lennox cantando I Put a Spell on You. É um dos destaques.
Annie, inteligentemente, foge dos padrões consagrados em discos contendo standards. Não é acompanhada por uma típica banda de jazz, pois preferiu mais personalizado. Evita também, a fórmula de orquestras com arranjos batidos como a dos álbuns de Rod Stewart e outros astros pop. O que se destaca é uma instrumentação econômica que valoriza o seu modo, ao mesmo tempo expressivo, às vezes, dramático e melancólico, bem no estilo da frase da entrevista citada – “Não sou naturalmente feliz” –, realçando belas modulações vocais. Mesmo nos arranjos em que incluem-se as cordas, elas são utilizadas com parcimônia.
Quando soube de Nostalgia, fiquei com muita expectativa. E não me frustrei com o que ouvi. Alguns momentos são de puro encantamento.
Veja Lennox em Georgia on My Mind.
Veja Lennox em Summertime.
Strange Fruit é um dos melhores momentos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário