quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Buddy Bolden, Hugh Laurie e Michael Ondaatje

Bolden é o segundo, da esquerda para à direita, no fundo
Hugh Laurie – ou Dr. House? – em Buddy Bolden’s Blues canta “Thought I heard Buddy Bolden say/ The nasty and dirty/ take it away” em vez de “I thought I heard Buddy Bolden say/ Stinky butt funky butt, take it away”, o que, no fundo não é muito diferente. Em outro trecho a letra é mais explícita: “Though I heard Buddy Bolden shout/ Open up the window, and let that bad air out/ Open up that window, and let that stinky air out.” Dá para entender do que se fala, não?

Buddy Bolden tocava corneta (cornet), que é o trumpete sem os pistões, e é uma das figuras seminais da cena musical americana e de New Orleans. Desta cidade são os irmãos Marsalis, Trombone Shorty, para ficar nos músicos contemporâneos, mas também de Jelly Roll Morton, Sidney Bechet e Louis Armstrong. A impressão é a de que a música americana nasceu lá. King Oliver e Johnny Dodds nasceram no Mississippi, mas iniciaram suas carreiras na terra do jazz e do ragtime.

Um pouco antes desses gigantes do jazz, existiu Buddy Bolden. Dizem que possuía o sopro mais poderoso na corneta, em New Orleans e que é o pioneiro no uso dos sopros no blues. Convém lembrar de que não haviam microfones. Existem poucos dados sobre sua vida e não há algum registro de sua música, apesar de constar que chegou a gravar em cilindro no fim dos anos de 1890. Bom, como pouco se sabe, fica a lenda.

Michael Ondaatje, autor de O Paciente Inglês, escreveu um belo livro sobre o cornetista dentro do que se costuma classificar como “roman à clef”. Recria, com os dados que tinha à mão uma narrativa interessante, poética e fragmentada, passagens da vida de Bolden e de New Orleans. Outro autor interessante – estou comentando um tanto fora de contexto, mas é porque escrevi sobre o pianista András Schiff – que fez um livro muito bom baseando-se em fatos e personagens reais é Thomas Bernhard, que, em O Náufrago, narra sobre os anos de aprendizado do pianista Glenn Gould na Europa.

Quem assistiu a Pretty Baby (1978), de Louis Malle, deve lembrar-se do fotógrafo E.J. Bellocq, que registrou imagens das prostitutas de Storyville. Bellocq é contemporâneo de Bolden e, pela narrativa do romancista é autor de uma das poucas imagens (ou a única) que se tem do cornetista. Bellocq fotografava para uma empresa de trens, porém seu trabalho que ficou para a posteridade são as imagens que fazia das prostitutas de Storyville. Outro fotógrafo conhecido, Lee Friedlander, foi o grande responsável pela divulgação de seu trabalho.

A relação entre os dois é assim descrita por Ondaatje, em Buddy Bolden’s Blues (Coming Through Slaughter, Companhia das Letras, 2001; o título em português desse livro lançado em 1976, o mesmo da tradução em outras línguas, foi sugerido pelo próprio autor) : “A ligação entre Bellocq e Buddy era estranha. Buddy era um sujeito sociável, sempre falava com três ou quatro pessoas ao mesmo tempo, um afobado. Não era falso, porém percorria as conversas como quem percorre uma paisagem, sem prestar atenção, pegando um ou outro detalhe. E o forte de Bellocq eram as lentas convoluções daquele cérebro. Era autossuficiente, tão completo quanto um mecanismo de moto contínuo. O que podia haver em comum entre Buddy e ele?”

Bolden, como muitos da sua época não vivia da música. Trabalhava em uma barbearia, na Franklin Street, e consta que editava um jornal chamado O Grilo. Está no livro, mas alguns discutem sobre a veracidade dessas informações.

As melhores definições sobre o cornetista estão no livro. Na página 7 há um texto assinado por Louis Jones, seu amigo: “Buddy Bolden começou a ficar famoso logo depois da virada de 1900. Foi o primeiro a tocar jazz e blues de verdade, para dançar. Ele tinha uma banda boa. Todo mundo só tocava de ouvido. Depois Armstrong, Bunk Johnson, Freddie Keppard – todos sabiam que ele é que foi o primeiro a tocar jazz bom. John Robichaux tinha uma banda de verdade, que lia música, mas o Buddy onde ia arrasava o Robichaux. Quando saía tocando na rua, ia todo mundo atrás dele até a Canal Street. Sempre boa pinta. Quando comprava um cornetim, dava-lhe uma lustrada, até ficar brilhando que nem perna de mulher.”

Ondaatje, na página 17, em um parágrafo, sintetiza Bolden: “Era o melhor músico de jazz de seu tempo, o mais sonoro, o mais amado, mas nunca teve cabeça de profissional. Sem pensar na integridade dos lábios, soltava notas imensas, prolongadas, com força máxima desde a primeira nota que atingia o ouvido. Era obcecado pela magia do ar, aqueles cheiros que se neutralizavam à medida que rodopiavam em seus pulmões e depois eram expelidos na nota escolhida. Com o canto da boca tragava uma rede de ar transformado em nuvem. Tinha o dom de enxergar o ar, sabia pela cor em que parte de um cômodo o ar estava mais fresco.”

Os sumiços misteriosos, os “canos”, deixando de aparecer nas apresentações combinadas eram os primeiros sinais de alguma desordem psicológica. Bebia muito, é certo. Sofreu um primeiro colapso quando tinha 30 anos. Foi constatado que Bolden sofria de “dementia praecox”. Foi internado em uma clínica em Jackson, Louisiania. Saiu de lá em um caixão, em 1931. Isso quer dizer que passou quase quatorze anos em uma clínica de doentes mentais.

Bom, quase não falei de Hugh Laurie. Vamos ouvi-lo cantando Buddy Bolden’s Blues. Laurie sabe muito bem quem ele é.

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